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O Caso do Clube dos Impotentes

Summary:

John Watson tem um problema. Não daqueles que aparecem nos relatórios policiais que Holmes lê ao pequeno-almoço — daqueles que mancham os lençóis e o seguem para o nevoeiro. Quando um médico da Harley Street o recruta para liderar um grupo de terapia para homens impotentes, Watson pensa ter encontrado uma forma de ajudar os outros enquanto ignora a voz dentro da própria cabeça. Mas o grupo esconde algo mais sombrio do que disfunção erétil, os homens carregam segredos mais pesados do que a sua vergonha, e Sherlock Holmes — que tem observado das sombras todo este tempo — está prestes a exigir uma confissão que nenhum silêncio consegue enterrar

Chapter 1

Notes:

Oi! Como vão?

A maioria dos leitores deste fandom prefere ler em inglês, mas decidi manter esta fic em português, porque é a língua em que consigo escrever com mais autenticidade.

Sou metade brasileira, um quarto portuguesa e um quarto italiana, mas meu coração sempre pertenceu ao português. 🤍

Confesso que morro de vergonha de traduzir minhas fics, porque sempre sinto que algo da minha voz se perde no processo. Não sei nem se o tradutor faz um bom trabalho, mas, se vocês quiserem tentar ler por ele, fiquem totalmente à vontade.

Obrigada pela compreensão e por acompanharem esta história. Isso significa muito para mim.

Chapter Text

O vidraceiro morava a duas ruas de Baker Street. Chamava-se Murphy, era irlandês, bebia que nem um irlandês e cobrava como um inglês, duas formas de roubo que a lei trata com pesos diferentes — a primeira dá cadeia, a segunda dá lucro. Não me julgue por esta observação; estou apenas a descrever o mundo, não a acusá-lo. Para acusar o mundo era preciso um volume mais grosso e uma coragem que eu nunca tive.

Hoje não. Amanhã. Repito esta frase há meses, e já perdi a conta das vezes. Alguém dirá que é preguiça, e talvez tenha razão. Há quem coleccione selos. Eu colecciono adiamentos. Se o adiar fosse uma ciência, eu seria presidente da academia, e se fosse uma arte, seria o seu único mestre.

O objecto quebrado estava no tecto da sala. Partira-se numa noite de Março, durante a visita de um marinheiro de Deptford que Holmes trouxera para casa sem me avisar. Quem nunca viveu com um detective não sabe o que é abrir a porta de casa e encontrar um estranho sentado no sofá a beber o seu chá. Acontece com uma frequência que a lei deveria classificar como crime e a amizade como travessura. O marinheiro chamava-se não-sei-quê, respondeu por ‘rapaz’ durante as horas que durou a visita, e saiu depois de atirar uma garrafa de láudano contra o lustre por motivos que ele nunca me explicou e que eu nunca perguntei.

O lustre partido era o menos importante dos meus adiamentos. Apenas o mais visível. Quando se tem dentro de si o que eu tinha, arranja-se um lustre partido para disfarçar. As pessoas olham para o tecto e não para a alma. E a alma, a minha pelo menos, precisava de toda a distracção que pudesse arranjar.

Na noite em que esta história começa — e peço desde já perdão a quem me lê por não começar com um crime, que é o que o amigo espera de uma história de Sherlock Holmes; mas este é um caso onde o crime é o menos importante e a vítima sou eu, e eu demoro sempre a chegar ao ponto — Holmes e eu tínhamos acabado de jantar.

A senhora Hudson servira um carneiro que devia ter morrido de velhice e não de faca. Resistia ao garfo como um credor que não quer ser pago. Holmes não comeu. Isto não era invulgar. Ele passava dias sem comer, e quando lhe perguntava porquê, respondia que a digestão lhe roubava sangue ao cérebro. Eu mastiguei o meu naco em silêncio e pensei que o sangue dele, a avaliar pela cara que fazia, não lhe chegava nem ao cérebro nem ao estômago. Ia todo para a mancha de cinza que ele examinava no prato com a expressão de quem lê o futuro nas entranhas de uma ave.

— O estômago também não pode esperar muito — observei, a lutar com uma fibra que parecia determinada a sobreviver-me.

— O teu estômago é um burguês. Quer sempre garantias.

— Quer almoço e jantar. Não me parecem exigências revolucionárias.

— São exigências de quem não tem um caso entre mãos. O estômago é o refúgio dos espíritos desocupados.

— E o teu, que não come, é o refúgio de quê?

— Do cérebro. Que é um estômago de outra natureza.

— E o caso que tens entre mãos alimenta bem esse estômago?

— Alimenta-o magnificamente. São já alguns dias de observação, e julgo que estou perto.

Apontou para o cinzeiro. Havia nele uma montanha de cinzas que ele dispusera em camadas, como um geólogo que estuda as idades da terra.

— Este homem, por exemplo — continuou. — Era canhoto. Discutiu com a mulher antes de sair. E só voltou para casa depois da meia-noite.

— E a cinza diz-te tudo isso?

— A cinza diz-me o que lhe pergunto. O resto é conversa.

Imaginai o que é jantar com um homem que conversa com cinzas. Nos primeiros meses, tentei acompanhar-lhe o raciocínio. Desisti. A vida com Holmes é uma escola de humildade: por mais que se tente, acaba-se sempre a parecer um aluno distraído.

Talvez se pergunte porque é que eu, um homem formado, um médico, um soldado, me sujeitava a isto. A resposta é simples: porque ele me fazia sentir vivo. Holmes era o único homem que me fazia esquecer que eu era apenas um médico reformado com uma pensão pequena e um coração grande. Ao lado dele, eu era parte de algo maior. Mesmo que esse algo maior fosse apenas um homem a falar sozinho com cinzas.

— E a mulher? — perguntei, para fazer conversa. — Também está na cinza?

— A mulher está sempre na cinza, Watson. É o destino das mulheres e dos charutos.

— Tu nunca casaste. Não tens autoridade para falar desses assuntos.

— Não preciso de ter a doença para reconhecer os sintomas.

O relógio bateu as dez. Lá fora, o nevoeiro de Londres empapava as janelas. Havia um tom íntimo naquela hora, como se a cidade se recolhesse para dormir e nos deixasse sozinhos com as nossas misérias. O frio do vidro da janela chegava-me aos dedos como uma advertência.

— Vou deitar-me — disse eu.

— Dorme bem — respondeu ele, sem tirar os olhos da cinza.

Não era uma despedida. Era um ‘até já’ disfarçado, e nós sabíamos os dois o que isso significava.

Subi as escadas, despi o casaco e o colete, desabotoei as calças, enfiei a camisa de dormir. Depois deitei-me.

Deitei-me na cama e fiquei a olhar para o tecto. Lembrei-me do lustre partido lá na sala, a precisar do Murphy que eu nunca chamava. Amanhã, pensei. O mesmo pensamento de sempre, a mesma mentira de sempre.

O quarto estava silencioso. Da rua, chegava o som distante de um carro de cavalos e as vozes de dois bêbados que discutiam o preço do uísque. Londres nunca dormia, mas às vezes, à noite, a cidade parecia prender a respiração — à espera que algo acontecesse. Eu também esperava. Mas não sabia o quê.

Ouvi Holmes a arrumar a sala. O som dos passos dele era inconfundível: leves, precisos, como se cada pisada fosse calculada para não fazer barulho. O violino começou. Era uma peça de Paganini, se não me engano, embora o leitor não deva confiar na minha memória musical — o meu ouvido distingue uma bala de outra, mas não uma nota de outra.

Tocava quando estava inquieto, feliz, triste. E tocava, suspeito eu, quando não sabia o que fazer com as mãos. Havia na música dele uma tristeza que ele nunca mostrava em palavras. Era o único momento em que Sherlock Holmes se permitia sentir sem analisar.

Fiquei a ouvir, deitado na cama. A música subia e descia como as ondas de um mar que eu conhecia bem — o mar do Afeganistão não, esse era seco e quente e cheirava a sangue. Outro mar, mais antigo, que eu levava comigo desde menino e que só a música de Holmes conseguia despertar.

Pensei em Mary, em como ela me olhava quando eu chegava a casa tarde, o cheiro de Holmes na roupa, o silêncio cúmplice que se instalava entre nós. Ela sabia, mas não dizia. As mulheres têm uma maneira de saber que não precisa de palavras. É como se lessem nas entrelinhas do corpo da gente.

Mas Mary não estava ali. Estava eu e Holmes, e a música, e a imagem do lustre partido lá fora a lembrar-me as promessas que eu fazia e nunca cumpria.

A música parou. Ouvi os passos nas escadas.

Os passos subiram até ao quarto dele. Ouvi a porta abrir e fechar, depois passos outra vez, mais leves, a descerem o corredor.

A porta do quarto abriu-se sem aviso. Holmes entrou na penumbra num roupão que lhe arrastava no chão como a pele de um animal que ele próprio tinha esfolado — burel cinzento, mangas compridas, o ar de quem se levantara sem saber bem se era bem-vindo. Hesitou à entrada, os olhos a procurarem o leito onde eu fingia dormir — leito, registe-se, consideravelmente mais largo do que o que me acolhera em Marylebone, um pormenor que eu nunca lhe expliquei, como se o estofador tivesse adivinhado o que eu ainda não tinha coragem de admitir. Deitou-se ao meu lado. O colchão gemeu. Apertei-me contra a borda, a fazer-me de desentendido, a fingir que não lhe sentia o calor a ocupar o espaço que eu jurava ser só meu. Ficámos os dois de costas, a olhar para o tecto como dois estranhos que por acaso partilham o mesmo banco de jardim.

Há um momento, no amor, em que se decide tudo sem que uma palavra seja dita. É um momento que não dura mais do que um bater de asas, mas que pesa mais do que todas as conversas do mundo. A mão dele tocou na minha. Não foi um gesto romântico — o leitor que não espere romantismo de Sherlock Holmes, que ele considerava o romantismo uma nota desafinada. Foi um gesto de quem precisa de outro corpo para se lembrar de que existe.

Os dedos magros subiram pelo meu braço, lentos, como quem conta as batidas do pulso. Desceram pelo meu peito. Pararam sobre o coração. Eu virei-me. Ele virou-se. E começou aquilo a que os poetas chamam amor e a que nós, na nossa cobardia, chamávamos simplesmente não dormir.

A porta fica aberta. Quem quiser que olhe; quem não quiser que salte as páginas. Escrevo para os que já viram tudo e ainda assim ficam curiosos — que são, afinal, os únicos leitores que vale a pena ter.

Holmes tirou-me a roupa com a mesma eficiência com que desmontava as experiências no laboratório. Primeiro a camisa de dormir, os botões a cederem um a um. Depois as calças. Ele tinha uma maneira de despir que era ao mesmo tempo clínica e terna, como um médico que examina um paciente e lhe quer bem.

Despiu-se também. Desabotoou o roupão e deixou-o cair, e eu vi o corpo magro e pálido que o inverno de Londres lhe dera. As costelas desenhavam-se-lhe debaixo da pele como as teclas de um piano onde ninguém tocava. Havia nele uma fragilidade que o dia nunca mostrava — à noite permitia-se ser humano.

Deixe-me explicar ao distinto público como era aquela parte dele, já que o amigo há-de ter curiosidade — e se não tem, tanto pior para si, que a curiosidade é a metade mais bonita da inteligência. Não era uma peça de museu, mas também não desonrava o acervo. Era um membro de classe média, daqueles que pagam os seus impostos e não dão nas vistas. A ponta exibia um tom mais carregado, um roxo tímido que mais parecia hesitação do que desejo. Veias discretas percorriam-lhe o comprimento, pequenas serpentes azuladas que dormiam sob a pele. A glande tinha o lustro húmido de uma fruta acabada de lavar. Um conjunto respeitável, se é que a palavra cabe aqui.

Eu próprio, caro amigo, não sou nenhum exemplar de museu. O meu corpo é o de um soldado que sobreviveu a uma guerra e que pagou caro por isso. Tenho uma cicatriz no ombro que me dói quando chove, e outra na perna que me faz coxear quando estou cansado. O meu membro é vulgar, sem ambições artísticas, mas cumpre o seu dever com a regularidade de um relógio inglês. Não é bonito nem feio. É funcional. Como um bom instrumento de trabalho.

Mas ali, naquele momento, com o corpo dele contra o meu, a funcionalidade era a última das minhas preocupações.

Abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira e tirou um frasco de vidro escuro. Não eram venenos, embora houvesse vários na casa, e todos ao alcance da mão. Era um unguento que ele preparava no laboratório, uma mistura de óleos cuja composição eu preferia não conhecer. Holmes guardava nos seus frascos os mais estranhos preparados.

Senti-o hesitar. Ficou imóvel por segundos, o frasco numa mão, o outro braço estendido sobre mim sem saber onde pousar. Deitou-me de bruços, mas o movimento foi brusco, como quem vira uma página sem a ter lido.

Pousou-me a mão na anca. Ficou lá, parada, à espera que a pele lhe desse instruções. Resvalou para a outra anca.

— Assim? — perguntou.

— Assim.

Ouvi o tampo do frasco a rodar. O unguento cheirava a ervas e a um odor químico que me fazia lembrar o hospital. Holmes molhou os dedos. Senti a primeira ponta fria a tocar-me, e o contacto fez-me encolher. Ele parou.

— Está frio, desculpa.

Não respondi. O frio passou. Os dedos dele começaram a espalhar o unguento em círculos lentos, à volta da entrada. Não era um movimento hábil — era hesitante, como quem desenha uma linha que não tem a certeza de ser a correcta. Ele estava a aprender, e eu era o corpo onde ele aprendia.

Pressionou o centro. O esfíncter resistiu. Ele pressionou mais e o dedo entrou, mas com um ângulo estranho que me fez aspirar o ar.

— Desculpa — disse ele.

— Está bem.

O dedo estava dentro, mas parado. Holmes parecia não saber o que fazer a seguir. Tinha estudado o corpo humano como se estuda um mapa, mas um mapa não ensina a viajar.

— Podes mexer — sugeri.

Ele mexeu. O movimento era rígido, sem ritmo. Não era desagradável — era apenas... estranho. Como se ele estivesse a seguir um manual que não existia.

O segundo dedo chegou mais para a direita do que devia, e eu encolhi-me outra vez. Ele recuou imediatamente.

— Devia ter praticado mais — murmurou, mais para si do que para mim.

— Com quem?

Não respondeu. Os dedos voltaram a entrar, desta vez com o ângulo certo. Senti a pressão a aumentar, o alongamento da pele, o desconforto que fica aquém da dor mas com ela flerta.

Os dedos rodaram e encontraram um ponto que me fez estremecer da cabeça aos pés. Foi um toque rápido, de raspão, como quem tropeça numa nota que não sabia estar no piano. O prazer subiu-me pela espinha e eu soltei um som que tentei disfarçar na almofada.

— Foi aí? — perguntou ele.

— Foi.

Ele tentou repetir, mas o dedo já não encontrava o mesmo sítio. Procurou um pouco, depois desistiu e retirou os dedos.

Os dedos saíram com um som molhado. Holmes limpou-os ao lençol — ouvi o pano a esfregar a pele. Senti o membro dele a posicionar-se, a glande quente a tocar-me onde os dedos tinham estado.

Ele hesitou outra vez. A glande tocou no sítio errado, escorregou, tocou outra vez. A respiração dele estava mais rápida do que o normal.

— Posso? — perguntou.

Estava eu nu, de bruços, com o corpo preparado, e ele pedia licença. Era tão Holmes: pedir permissão no momento em que a permissão já não era necessária. Como se a cortesia fosse uma forma de adiar o inevitável.

— Podes — disse eu.

A glande pressionou. O esfíncter resistiu um momento — há sempre um momento de resistência, mesmo quando se deseja a pessoa, mesmo quando se quer ser invadido — e depois cedeu. A cabeça entrou, e eu senti o corpo dele a ocupar-me por dentro.

Holmes parou. Ficou imóvel, a deixar-me habituar à sensação de plenitude. Cada centímetro que entrava era uma revelação: o corpo dele dentro do meu, o calor dele a espalhar-se por dentro de mim. Havia ali um misto de sagrado e de profano, como se estivéssemos a celebrar um rito que não tinha nome.

Ele avançou mais um pouco. Parou outra vez. E avançou até ao fundo.

— Pronto — disse ele. A voz estava diferente.

Não era uma declaração de amor. Era um «cheguei». Mas servia.

Começou a mover-se. O movimento era hesitante no início, como quem experimenta um caminho novo e não tem a certeza do terreno. Primeiro devagar, depois mais rápido, depois devagar outra vez. Holmes procurava um ritmo que não conhecia, e eu sentia-o a aprender dentro de mim.

Não imagine o amigo uma coreografia. O sexo é raramente bonito de se ver. É suado, desajeitado, cheio de hesitações e de pequenos ajustes. Mas há nele uma honestidade que falta ao que é bonito. E aquela honestidade, naquele momento, valia mais do que toda a beleza do mundo.

Pouco a pouco, o ritmo encontrou-se. As estocadas ficaram mais seguras, mais profundas. O som húmido do movimento enchia o quarto. Eu sentia o corpo dele a bater no meu, o calor onde nos encontrávamos, a respiração dele ofegante no meu ouvido.

O amigo perguntará como me sentia. A pergunta é justa, mas a resposta é difícil. Sentia-me invadido e seguro ao mesmo tempo. Aberto e protegido. Holmes desmontava-me peça por peça e eu gostasse de ser desmontado. Havia naquela entrega uma paz que a guerra nunca me dera. No Afeganistão, eu aprendera a temer o meu corpo. Com Holmes, aprendia a habitá-lo.

A certa altura, senti o prazer a aproximar-se. Era aquele formigueiro que começa na espinha e desce, desce, até se enrolar no ventre como um gato que escolhe o colo. O corpo respondia sem pedir autorização à razão, e eu sentia o sangue a pulsar nas pontas dos dedos, no ventre, no membro hirto contra o lençol.

A minha mão deslizou para debaixo do ventre, mas ele agarrou-me o pulso.

— Hoje não — disse ele. A voz era firme outra vez, a voz do Holmes que mandava.

— Holmes...

— A regra é clara. Nada de mãos. Chegas comigo ou não chegas.

Não lhe respondi. Mas obedeci. E o pior de tudo é que obedecer era o que eu mais queria

Holmes acelerou. As estocadas ficaram mais curtas, mais fundas. A respiração dele era um fio tenso prestes a quebrar. Senti-lhe o corpo a tensionar-se, os dedos a cravarem-se nas minhas ancas.

Ele gozou. O corpo dele arqueou-se, os dedos apertaram com força, e eu senti o primeiro jato quente dentro de mim, e logo outro, e mais um. O calor espalhou-se, ocupou-me por dentro. Senti-o a encher-me, a marcar-me por dentro com a sua semente.

O corpo dele desabou sobre o meu. O peso era bom. O peso dele sobre mim era a única prova de que aquilo era real.

O membro, agora satisfeito, amansou e escorregou para fora. Veio atrás o escorrer da semente — essa que dá frutos ou não, conforme a vontade de Deus, e que naquele quarto não daria fruto nenhum a não ser o fruto amargo da memória. Senti-a escorrer pela coxa, morna, pegajosa, como uma despedida líquida.

Ficámos assim, ele por cima de mim, a recuperar o fôlego. Depois levantou-se. Foi buscar um lenço. Ouvi-o limpar-se, depois ouvi-o limpar-me com uma delicadeza que me doeu mais do que se me tivesse deixado sujo.

— Fica deitado — disse ele.

— John — disse ele na escuridão.

— Hum.

— Chegaste lá?

A pergunta era clínica. Chegaste lá. Como quem pergunta se o comboio chegou à estação.

— Cheguei — menti.

O meu membro continuava hirto, esquecido, esmagado contra o lençol. Quem me acompanha imaginará a frustração: ter o prazer a dois centímetros dos dedos e não poder tocá-lo. Eu podia ter resolvido o assunto em meio minuto, com uns meros movimentos de mão, mas a regra era clara, e eu era um soldado. Os soldados obedecem a regras. Mesmo quando as regras são estúpidas. Mesmo quando as regras doem.

Havia uma lógica naquela regra, percebia agora. Holmes queria que eu chegasse com ele, dentro dele, sob o comando dele. Não era sobre prazer. Era sobre controlo. E eu, que tinha passado a vida a controlar tudo — a minha voz, os meus gestos, os meus desejos — descobria que entregar o controlo era o maior prazer de todos.

Deitado fiquei, de bruços, sujo e aberto. Não encontrei imagem mais certa. Sentia-me como uma rameira depois do trabalho: usada, paga, esquecida. Mas ele tratava-me como uma dama — com a cortesia que se deve a quem se despreza. E essa contradição ardia. Porque uma rameira sabe o que é. Uma dama fica na dúvida.

O sémen arrefecia na pele. O músculo contraía-se vazio, à procura do que já lá não estava. O corpo passaria, como tudo passa. Mas o outro vazio, o da alma, esse era mobília antiga que eu arrastava de quarto em quarto.

O que eu queria, e não dizia, era o oposto da regra. Queria ser usado sem cerimónia, como um lenço que se usa e deita fora. Queria que Holmes me empurrasse, me chamasse nomes, me tomasse sem pedir licença. Queria ser o que os jornais condenavam e os padres amaldiçoavam. Queria ser a vergonha que não ousava ter.

E não pedia. Porque pedir era render-me, e eu já estava rendido há muito tempo. Faltava-me apenas a coragem de assinar a rendição.

Holmes adormeceu. Tinha o sono dos inocentes e dos que nunca duvidam de si próprios — duas categorias que, nele, coincidiam escandalosamente.

Olhei para ele no escuro. A luz do candeeiro da rua entrava pelas frinchas do estore e desenhava-lhe sombras no rosto. Dormia como um gato: encolhido, desconfiado, pronto a acordar. Havia nele uma beleza que ele nunca via e que eu nunca lhe dizia.

As horas passavam devagar. O relógio da sala bateu qualquer hora que eu não contei. Ao meu lado, ele dormia com a respiração calma de quem nunca tem remorsos. E eu pensava no que tínhamos feito, no que éramos um para o outro, no que seríamos de manhã quando a luz do dia substituísse a cumplicidade da noite.

O que é o amor, meu caro? Não lhe peço que me responda. Já perguntei a mim mesmo centenas de vezes e nunca obtive resposta. Sei apenas que o amor é uma pergunta que se faz com o corpo, e que a resposta é sempre provisória. Naquela noite, deitado ao lado de Holmes, com o corpo dele a aquecer o meu e o cheiro dele nos lençóis, a pergunta era mais urgente do que nunca. Mas a resposta, como sempre, não chegava.

Adormeci também e sonhei.

Sonhei com um beco escuro. As paredes escorriam água, e o cheiro a lixo e a cerveja azeda entrava-me pelos poros. Havia mãos grandes e brutas — mãos que não eram as de Holmes — a segurarem-me os braços contra a parede. E uma voz que me chamava um nome que eu não reconhecia e que, no entanto, era o meu.

Acordei com o coração aos saltos. O quarto estava silencioso. Holmes dormia ao meu lado, de costas, com o braço estendido sobre a almofada a procurar alguém mesmo a dormir. O som do pulso dele era regular, calmo. O meu disparava.

Fiquei a olhar para ele. No escuro, o perfil dele recortava-se contra a luz do candeeiro da rua. O nariz direito, o queixo firme, a testa que parecia estar sempre a pensar mesmo quando o resto do corpo descansava. Era bonito, Holmes. Não de uma beleza suave, mas de uma beleza dura, como uma pedra que o mar não consegue desgastar.

Pensei no sonho. Nas mãos que me seguravam. Na voz que me chamava. Havia ligação entre o beco escuro e aquele quarto? Havia ligação entre o medo e o desejo? Não sabia. Talvez o medo e o desejo fossem a mesma emoção, vista de lados diferentes. Como a mesma moeda: cara ou coroa, conforme se olha.

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Acordei com o cheiro do toucinho a subir das escadas. A luz da manhã entrava pálida pelas frinchas, a pedir licença para entrar. Holmes estava sentado à mesa, de roupão, o Times aberto à sua frente, a chávena de chá a fumegar ao lado. Parecia um quadro: «O detective ao pequeno-almoço». Faltava-lhe a legenda: «A vítima dorme ao fundo.»

— Tiveste um sonho — disse ele sem tirar os olhos do jornal.

Não era uma pergunta. Era uma constatação. Holmes raramente perguntava; limitava-se a observar e a concluir.

— Toda a gente tem sonhos.

— Tu não. Tu tens pesadelos. A diferença é que os pesadelos acordam-nos a meio. Os sonhos deixam-nos dormir.

Não respondi. Pousei a torrada no prato. O toucinho estava frio, mas isso era o menos importante.

— O teu coração — continuou ele — batia como se estivesses a fugir de alguém. Ou a correr para alguém

— E tu? — perguntei. — O teu coração não acelera?

— Acelera quando encontro uma pista.

— E ontem à noite? Encontraste alguma pista?

Ele baixou o jornal. Olhou para mim por cima das folhas. Os olhos dele eram cinzentos como o nevoeiro lá fora.

— Encontrei várias. Mas ainda estou a analisá-las.

O duplo sentido era evidente. Holmes não fazia duplos sentidos por acaso. Tudo nele era calculado, até a ambiguidade.

— O toucinho está frio — disse eu.

— Já estava frio quando subiu.

— Isso é verdade.

Rimos com a manhã cinzenta a entrar pela janela, com o toucinho frio no prato, com o Times aberto entre nós. Naquele riso cabia tudo o que não dizíamos.

Holmes dobrou o jornal.

— Vou sair. Tenho uma consulta com o meu químico. Tabaco novo.

Não disse 'foi bom para ti'. Não disse 'até logo' Disse tabaco novo, que era a maneira dele de dizer que voltava. Holmes tinha a coragem de não ser sentimental. E eu tinha a covardia de não lhe pedir.

Fiquei à mesa, sozinho, a olhar para a chávena vazia. O toucinho formara uma crosta de gordura à volta. A minha vida era aquela crosta: outrora quente, agora esquecida no prato, à espera de alguém que já não tinha fome

Vesti-me e desci as escadas. Passei pela loja do Murphy. O gato dormia na soleira, alheio aos meus adiamentos, alheio a tudo.

No hospital, o porteiro entregou-me um recado. O Doutor Barnaby Trelawney queria falar comigo. Disse que era urgente, que se tratava de um caso, que sem mim não se fazia nada.

Guardei o recado no bolso e subi as escadas do hospital. Lá em cima, os doentes esperavam por mim com as suas dores e as suas febres, alheios ao que se passava na minha vida privada.

O leitor que não se esqueça do nome Barnaby Trelawney. Foi ele quem me meteu na história do Clube dos Impotentes, e foi por causa dele que tudo o que estava partido — o lustre, a alma, o que restava — acabou por se consertar, ou por se partir de vez. A história ainda não decidiu qual das duas.