Chapter Text
Ao voltar para o palácio naquela tarde, Lúcifer estava radiante. Enquanto passava pelas janelas cobertas com cortinas pesadas de veludo, não prestava atenção na escuridão que tomava conta de sua ala, pois, em seu coração, a luz irradiava, ele havia feito as pazes com sua preciosa filha.
Charlie o convidou para conhecer o tal Hazbin Hotel e, com isso, ele pôde passar o dia com ela. Durante a visita ao hotel, foi apresentado à namorada de sua filha: Maggie.
Tão linda, tomara que essa moça faça a Charlie feliz, pensou o rei enquanto passava pelo longo corredor de fotografias e pinturas de família.
Ao caminhar, o brilho das pequenas maçãs douradas que adornavam os lustres e luminárias refletia em seu rosto. As molduras dos quadros de família eram entalhadas em madeira nobre, com detalhes de serpentes douradas que mostravam um passado que, aos olhos do Rei, era feliz.
Em alguns retratos, ele aparecia sozinho, com sua imponência real; em outros, estava com Lilith ao seu lado. Seus olhos ficaram turvos de saudade, mas, dessa vez, ele não parou para contemplar nenhum retrato dela.
Continuou andando e passou a contemplar os retratos de Charlie ainda criança, vários deles com os três juntos. Em um deles, Charlie, com não mais que cinco anos de idade, ria enquanto segurava a mão de ambos os pais.
Ele parou diante desse retrato para observar o sorriso radiante da filha, um sorriso que agora era destinado aos pecadores, não a ele. Respirando fundo, o anjo caído se deu conta de que também conhece os outros amigos pecadores de Charlie, e o pensamento que veio depois foi inevitável:
Caramba… ela realmente acha que pode fazê-los mudar, não é mesmo? Mesmo depois daquela tal Wimzy levar agiotas até o hotel e depois… daquele cara vermelho os despedaçar e comê-los na frente dela?
— Ah… aquele cara — murmurou o rei ao se lembrar do mensageiro, porém seus pensamentos foram interrompidos pela notificação de uma mensagem. Ao retirar o celular do bolso, leu mais uma mensagem da filha — mais uma tentativa de fazê-lo não esquecer do pedido.
“Pai, você pode tentar marcar aquela reunião com o Paraíso?”
Lúcifer soltou um suspiro curto pelo nariz antes de guardar o aparelho novamente.
— Minha filha quer diplomacia… — falou o rei para si mesmo. — Pelo menos ela vai seguir o sonho!
Continuou seu caminho pelo longo corredor até seus aposentos. Claro que poderia abrir um portal até seu quarto, mas Lúcifer já havia se acostumado a caminhar e relembrar os momentos felizes que agora estavam cada vez mais distantes no passado; era como fazer sua própria penitência.
Porém, dessa vez, o sorriso do pecador vermelho voltou com força total à sua mente — na verdade, não só o sorriso, mas tudo o que compunha o Overlord do rádio, insinuando-se em seus pensamentos com uma persistência difícil de ignorar, principalmente a audácia presente em sua voz educada e provocativa.
Dizem que a família que você escolhe é melhor.
O loiro parou no meio do corredor e resmungou:
— Oh, seu… seu… Ah, isso foi baixo!
Aquilo era claramente uma provocação do… Alberto? Alfredo? Alonso? — ou seja lá qual fosse o nome do garçom. Aquela insinuação fez o peito do anjo caído se apertar, como se a mão do cervo estivesse torcendo o coração de Lúcifer, pois várias vezes ele já havia se questionado se era um pai ruim.
Mas ele não cederia às insinuações do pecador — não, não! Ele agora estaria presente na vida de Charlie para ajudá-la com o que ela precisasse e, principalmente, para protegê-la de pessoas como aquele radialista alto e sinistro.
Enquanto caminhava, a imagem de Alastor surgia em meio aos seus devaneios com nitidez. O cara era irritante, claramente usava sua altura como forma de intimidação, o que, para Lúcifer, não importava, pois, ele sempre foi baixinho, e isso não limitava seus incríveis poderes angelicais, nem no Paraíso, nem no Inferno.
Seus irmãos sabiam disso, e, após sua queda, os Pecados Capitais — principalmente Satan — aprenderam que, apesar de sua baixa estatura, Lúcifer tinha poderes cósmicos e fenomenais.
O ruivo alto, com aquele cabelo ridículo e aquelas orelhas de cervo vermelhas, com pontas pretas, também aprenderia que não se deve mexer com o Rei do Inferno ou com sua filha.
Um pensamento intrusivo passou pela mente de Lúcifer antes mesmo que ele pudesse contê-lo: Aquelas orelhas eram fofas… será que seriam macias ao toque?
— O quê? — disse o rei em voz alta. — Não, não, não, não, não! Lúcifer Morningstar, você NÃO está pensando em como seria acariciar as orelhas daquele cara. Não, de jeito nenhum, não está pensando, e ponto final!
Ele então se lembrou do brilho presente nos olhos vermelhos, que se destacavam contra a pele bege do Demônio do Rádio; do charme de radialista dos anos 30; da presença de showman, embrulhada em seus trajes vermelhos, que reforçavam a teatralidade do pecador sorridente.
A percepção se ajustou naturalmente: Alastor era uma armadilha ambulante. Com Charlie e os moradores do hotel, ele parecia carismático e até atencioso ao salvar a pequena empregada de um fim absurdo na privada, mas aquele comportamento era superficial; sob ele, existia uma presença predatória e ameaçadora.
Aquilo despertava curiosidade no Rei do Inferno, afinal, o que, de fato, um pecador como ele buscaria em um hotel de redenção?
Além disso, o cara era um mistério, Lúcifer se viu desafiado a desvendá-lo, a compreender o enigma que era o Demônio do Rádio. Mais do que isso, ele estava realmente preocupado com o que ele poderia querer com sua preciosa filha.
O Rei estava tão absorto em seus pensamentos sobre o Overlord que nem sequer notou quando chegou a seus aposentos. Ao abrir a grande porta de madeira maciça, encontrou o ambiente familiar que fazia parte de sua penitência autoinfligida.
O quarto que antigamente dividia com sua esposa (ex-esposa?) ainda guardava resquícios dela, misturados ao vermelho dos papéis de parede e ao dourado dos adornos, refletidos na cabeceira em forma de maçã. Havia também itens em lilás, como almofadas em uma das poltronas perto da janela e mantas dobradas à perfeição, dispostas no pé da cama.
O Rei parou em frente à penteadeira da esposa (ex-esposa?). O espelho, emoldurado por serpentes douradas, devolveu-lhe uma imagem que ele já conhecia bem demais.
As pálpebras naturalmente arroxeadas pareciam mais pesadas, marcadas pelas olheiras profundas acumuladas ao longo de incontáveis noites sem dormir. Noites passadas ali, naquele mesmo lugar, observando em silêncio os perfumes, as escovas, a maquiagem, os pincéis… tudo o que pertencia a Lilith.
Lúcifer desviou o olhar, pois não queria se encarar naquele espelho.
O chão do quarto estava tomado pela bagunça cotidiana do Rei, mas o que realmente chamava atenção eram os patinhos de borracha, dezenas deles espalhados por todos os cantos: pelo chão, entre as prateleiras de livros, sobre a poltrona. Alguns usavam chapéus, outros tinham gravatinhas coloridas, outros ainda representavam personagens da literatura clássica.
O anjo caído retirou o paletó e, com um gesto despreocupado, a peça desapareceu em direção à lavanderia. Em seguida, descalçou as botas de salto, aliviando os cascos com um suspiro quase imperceptível.
Ah… como é bom colocar uma pantufa fofa e quentinha.
Depois, sentou-se do lado esquerdo da cama — o seu lado. Ficou ali por um tempo e, então, apenas se jogou de costas sobre o colchão, os braços abertos, relembrando a felicidade que sentiu quando Charlie o convidou para conhecer o hotel.
Ao virar de lado, seu olhar encontrou um patinho de borracha com o símbolo químico do cobre.
— Há… patinhos de borracha educacionais.
Lúcifer lembrava-se daquele projeto. Imaginara criar um patinho para cada elemento da tabela periódica e, depois, doar a coleção para alguma escola em um dos outros anéis do Inferno. Mas aquilo acabou se tornando apenas mais um de seus projetos abandonados.
O rei girou o brinquedo entre os dedos. Ao se levantar, deixou o objeto na mesinha de cabeceira e olhou o relógio: ainda era cedo, seis horas da noite. A novela que gostava de assistir começava apenas às oito, e Lúcifer ainda não havia reunido coragem suficiente para entrar em contato com o Paraíso.
Então, ele estava ocioso. E, como dizem os humanos, “a mente vazia se torna a oficina do diabo”.
Ele sabia que, nesses momentos, sua mente começava a vagar por memórias de antes da queda: de quando conheceu Lilith e do amor que passou a nutrir por ela; da tentativa de ajudar a humanidade com o livre-arbítrio e de todo o mal que veio com suas ações.
Depois, repassava sua queda, a dor metafórica de ser expulso de casa e a dor real e física de seu irmão Mikael cortando suas asas com uma espada de luz angelical. Lembrava-se do impacto no peito quando esse mesmo irmão o chutou para o abismo que havia criado, do grito de Lilith ao ser arremessada atrás dele e de tudo o que veio depois.
Lembrava-se de suas tentativas falhas de fazer o melhor pelos pecadores, da amizade crescente com os Pecados, claro, construída apenas depois de colocá-los em seu devido lugar. Afinal, embora o Inferno tenha surgido após Lúcifer criar o fruto proibido, alguns dos Pecados tentaram desafiá-lo pelo título de Rei do Inferno.
E como tentaram.
Mas, após séculos de confronto, diplomacia e paciência, tornou-se possível estabelecer uma convivência pacífica e até mesmo uma forma de amizade com alguns deles. Amizades que, agora, estavam negligenciadas.
Seus pensamentos sempre vagavam até o momento da chegada de Charlie e dos anos seguintes de felicidade — ou melhor, dos momentos em que Lúcifer conseguia tentar ser feliz.
Ele não sabia ao certo em que milênio sua depressão havia começado, mas, quando sua filha nasceu, já estava deprimido havia muito tempo. E, apesar de o nascimento da Princesa ter sido o momento mais feliz de toda a longa vida imortal de Lúcifer, ele ainda se escondia em sua oficina para remoer a própria dor sozinho.
A culpa por tudo o que aconteceu, e por, na maior parte do tempo, estar deprimido quando deveria apoiar sua família, foi motivo mais que suficiente para Lilith desistir dele e ir embora. Lúcifer não a culpava por isso; culpava a si mesmo por ser um marido ruim e um pai ainda pior.
Mas Lilith o proibiu de ver sua filhinha por um tempo, e isso foi um golpe que o Rei não esperava — algo que apenas agravou sua depressão, aprofundando ainda mais o abismo crescente na relação entre pai e filha.
Apesar de Lúcifer esperar que esses pensamentos invadissem sua mente, isso não aconteceu. Agora, ele tinha um objetivo: marcar a reunião para Charlie. Mais do que isso, o Demônio do Rádio não saía de sua cabeça.
Aquele desgraçado havia atingido exatamente onde mais doía, não que Lúcifer fosse admitir isso em voz alta, mas seu medo de ser um pai ruim foi visto e usado pelo Overlord contra ele.
O Rei percebeu que não conseguiria dormir, pois ainda era muito cedo, e que ficar no quarto remoendo sua raiva pelo pecador vermelho não o ajudaria a reunir forças para falar com o Paraíso. A oficina parecia uma alternativa melhor, um pouco de trabalho manual não faria mal e talvez o ajudasse, pois poderia se cansar a ponto de dormir por exaustão ou se distrair o suficiente para ligar para o Paraíso sem o peso do passado nos ombros.
— Haha… quem eu estou querendo enganar?! — disse o rei para si mesmo.
Ele seguiu para sua oficina, que ficava no mesmo andar que seus aposentos, pois, após tanto tempo sozinho em sua ala do palácio, achou por bem lançar um feitiço e alocá-la no mesmo corredor, para que pudesse se deslocar do quarto ao local de trabalho o mais rápido possível.
Vai que uma ideia surgisse… e se perdesse no caminho. Não valia a pena arriscar. E, como não tinha sua esposa (ex-esposa?) ali para reclamar, trouxe a oficina para mais perto.
Ao entrar, pequenos adornos dourados em forma de maçã tilintaram suavemente com o deslocamento do ar. As ferramentas repousavam em suportes sustentados por serpentes, e as bancadas estavam tomadas por criações de diferentes épocas: algumas antigas e outras relativamente recentes, de dois ou três séculos atrás — todas inacabadas.
E, é claro, o lugar estava repleto de patinhos de borracha, centenas, talvez milhares deles. Estavam espalhados por toda a oficina, ao que parece, brinquedos de banho eram os únicos itens que ele realmente terminava de fazer.
Ao chegar à sua mesa de esboços, encontrou um patinho de borracha com o símbolo químico do ouro e pensou que, de fato, deveria terminar aquela coleção em algum momento.
— Ei, talvez agora seja o momento certo para isso — falou o rei para o patinho, erguendo-o à altura dos olhos para encará-lo. — Você quer que eu faça seus outros irmãos?
O patinho, obviamente, não respondeu, e o anjo caído pensou: Ótimo, além de tudo, estou ficando louco! Esperando resposta de um dos meus brinquedos…
Ele então se sentou, colocou o patinho na prateleira acima da mesa de esboços e tentou — realmente tentou — se concentrar em criar os outros 116 patinhos que faltavam para completar a coleção. Porém, a voz de Alastor não saía de sua cabeça.
É um pouco engraçado… você quase poderia me chamar de pai.
— Ah, aquele filho da puta! — rosnou o rei ao se levantar em um impulso. Patos educacionais não iriam ajudá-lo a descobrir o que aquele demônio insolente queria com sua filha, então o anjo caído decidiu ir para a biblioteca do palácio pesquisar sobre o maldito pecador.
Ao estalar os dedos, um portal giratório dourado surgiu à sua frente, levando-o diretamente à seção sobre Overlords. Lúcifer conhecia aquele lugar melhor do que qualquer outro, ainda assim, ele sempre ficava impressionado com a biblioteca que ele mesmo projetara para se expandir conforme o conhecimento e a documentação infernal cresciam.
A biblioteca real era composta por estantes que iam do chão ao teto, feitas de madeira maciça já escurecida pelo tempo. Algumas escadas móveis se apoiavam nelas, enquanto entalhes pintados aqui e ali reforçavam o tema recorrente do subconsciente de Lúcifer: maçãs e serpentes.
Centenas de milhares de livros, de diversos formatos, espessuras, tamanhos, estilos e cores, eram abrigados e protegidos na biblioteca real.
Havia setores divididos por línguas antigas e novas; o setor angelical, disponível apenas para Lúcifer; e setores menores organizados por temas, criados pelo rei para facilitar a pesquisa. Esses últimos foram pensados para que Charlie pudesse estudar com tranquilidade, sem correr o risco de se perder entre as estantes ou encontrar algum conteúdo impróprio para sua idade.
Era uma coleção completa de todo o conhecimento e documentos produzidos em cada um dos sete anéis do Inferno. Mais do que isso, cada alma condenada a passar a eternidade ao Anel do Orgulho estava devidamente catalogada.
Por esse motivo, Lúcifer achou que seria fácil encontrar informações sobre o pecador vermelho.
— Demônio do Rádio — falou em voz alta para a biblioteca, enquanto estalava os dedos, e um único volume fino, de capa vermelha, apareceu.
O Rei coçou a nuca, intrigado. O ruivo alto era um Overlord, ou seja, deveria haver uma quantidade relevante de informações sobre ele, mas não foi isso que encontrou.
Lúcifer sentou-se à mesa de estudos e começou a folhear o livro. Havia poucas informações. Uma delas dizia que o nome do infeliz era Alastor. Outra registrava que ele se manifestou no Inferno há noventa anos e que iniciou sua ascensão matando outros Overlords já estabelecidos, alguns com séculos de poder e estabilidade antes da chegada do demônio cervo.
— Mas que diabos… — disse Lúcifer para a biblioteca. — Tem que haver mais coisas sobre ele. O sujeito não pode ser um mistério até mesmo para o Inferno. Programa de rádio… Ele disse que era conhecido pelo programa de rádio. Me dê informações sobre isso — e tudo o que tiver a ver com esse tal de Alastor.
Disse o anjo caído ao estalar os dedos, e a biblioteca respondeu ao seu comando.
Enquanto isso, Lúcifer percebeu que o pecador alto não havia mudado seu nome humano.
— Curioso…
Muitos condenados ao Inferno mudam seus nomes para representar melhor suas identidades infernais, mas, ao que parece, Alastor sempre se sentiu representado pelo próprio nome.
Lúcifer começou a folhear os livros que a biblioteca lhe forneceu. A maioria deles tratava das vítimas de Alastor, tanto do período em que esteve vivo na Terra quanto das vítimas do Inferno, e não traziam muitas informações sobre quem, de fato, o Demônio do Rádio realmente era.
Havia relatos sobre a extensão de seus poderes, como tentáculos sombrios, runas e fogo verde, além de bonecos humanoides distorcidos. Em algum momento, alguém mencionara que sua sombra possivelmente era senciente, porém nada daquilo parecia concreto.
Algo que sempre aparecia nos relatos era a voz de locutor de rádio, acompanhada por filtros e estática. E, é claro, seu tenebroso programa de rádio era mencionado em diversas fontes. Ao que parecia, o demônio realmente era conhecido por ele, pois era através dele que transmitia os gritos de suas vítimas para todo o Inferno escutar, além de músicas relativamente decentes.
— Pecadores… — murmurou o Rei, exasperado.
Havia uma lista de almas que o demônio ruivo possuía, e uma informação nova chamou a atenção de Lúcifer: uma amizade com outro Overlord chamado Vox. No entanto, ao fim da leitura, aquilo também se mostrou um beco sem saída, pois a amizade chegou ao fim setenta anos atrás, e ninguém parecia saber ao certo o motivo.
Outro relato afirmava que Alastor esteve presente no dia do desastre que transformou o antigo Distrito Abissal no atual Distrito do Apocalipse, mas não estabelecia relação direta entre o ruivo e o ocorrido, então Lúcifer desconsiderou a informação.
O Rei então se espreguiçou, levantando os braços e entrelaçando as mãos acima da cabeça. Ao relaxar novamente na cadeira, balançou a cabeça ao encarar as informações que havia reunido sobre o demônio e percebeu que não conseguiu muito mais do que já sabia antes.
Uma pontada de preocupação se instalou em sua mente: Como poderia um pecador burlar a biblioteca real?
Talvez, pensou o rei, isso faça parte do castigo dele no Inferno: não ser alguém em quem se possa confiar ou com quem seja possível estabelecer algum vínculo.
Pois, para isso, é necessário conhecer a pessoa — saber quem ela é, do que gosta ou desgosta. E Alastor era um mistério. Além de hostil e distante, suas roupas vermelhas indicavam perigo, e sua postura refinada demonstrava como alguém educado também podia ser uma ameaça.
Tudo isso o tornava incapaz de estabelecer qualquer vínculo duradouro com outra pessoa, exceto, talvez, com as almas que possuía.
E, ainda assim… Charlie confiava nele.
— E caramba… é isso que ele quer? Ele quer a alma da minha filha? Não! Não, o desgraçado não seria tão atrevido assim… ou seria?… Bom, mesmo que fosse, Charlie jamais, JAMAIS, faria um pacto de almas.
Disso Lúcifer tinha certeza, pois uma das poucas coisas de que se orgulhava era de ter ensinado a filha a não fazer acordos com demônio nenhum. Ainda assim, isso não impedia o pecador de tentar, principalmente porque os relatos diziam que ele ficou sete anos desaparecido antes de reaparecer para ajudar o hotel.
E isso era potencialmente problemático, pois eram quase dez anos sem acumular almas e ampliar seu poder. E ter acesso à princesa do Inferno poderia representar uma fonte enorme de poder.
— Ah, não! Você não vai enganá-la — falou o Rei ao encarar o nome de Alastor no livro. — Eu não vou permitir que você destrua o sonho dela.
E, então, veio o estalo: O sonho de Charlie.
Lúcifer bateu a mão contra a testa ao lembrar do pedido da filha. Aquilo deveria ter sido sua prioridade desde o início e não o mensageiro.
Fez um gesto com a mão, e um lindo relógio branco, adornado com vários patinhos, se materializou à sua frente, fazendo-o perceber que já estava amanhecendo. Ele havia passado horas na biblioteca sem perceber, pesquisando sobre o Demônio do Rádio, e isso era… isso era… isso era algo a se pensar, depois. Porque agora ele precisava fazer aquela ligação.
O Rei se afastou da mesa; o rangido da cadeira sendo empurrada com força para trás era o único som no ambiente, além da própria respiração de Lúcifer. Ele seguiu pela biblioteca até entrar no setor do Paraíso. Ao final do corredor, encontrou uma porta de mármore branco, ornamentada com sigilos angelicais de comunicação e conexão.
Lúcifer não gostava de se comunicar com o Paraíso, principalmente porque tudo relacionado a ele parecia, de alguma forma, ser uma punição.
O único vínculo de contato que a corte do Paraíso permitiu era através de uma dimensão de bolso, muito similar ao Éden. Uma lembrança constante de seu erro sempre que precisava falar com eles.
Sua visão demorou um pouco mais do que o normal para se acostumar com a claridade da dimensão. Acostumado ao tom avermelhado do Inferno, e após passar a noite inteira lendo sob a luz da mesa de estudos, a adaptação não foi imediata. Ele piscou algumas vezes, até que, enfim, conseguiu enxergar com clareza.
O que via era um jardim com um extenso gramado verde, que parecia um tapete vivo, diversas árvores frutíferas e canteiros repletos de todos os tipos de flores existentes. Uma diversidade de cores se apresentava ao Rei, que, por sua vez, sempre que via aqueles jardins, pensava na Princesa, e no fato de que nunca poderia mostrá-los a Charlie.
Lúcifer reprimiu mais uma pontada de culpa que começava a surgir em seu coração e traçou o sigilo de comunicação no ar, com finos fios dourados de sua magia angelical, e aguardou pela resposta.
— Morningstar? — uma voz levemente irritada respondeu.
Ele conhecia aquela voz.
— Certo… Oi, Sarah! — disse o Rei, constrangido.
— São seis e meia da manhã. O que você quer tão cedo? E meu nome não é Sarah, é Sera.
— Ah, sim, claro. Anotado, Sera, HaHa… Desculpe ligar tão cedo, mas o assunto é importante.
Lúcifer fez uma breve pausa. Diante do silêncio, continuou:
— Estou ligando por Charlie, minha filha — digo, a Princesa do Inferno solicita uma audiência.
— Uma audiência? — perguntou a Alta Serafim. — Sobre o quê?
— Bom, ela tem uma proposta a fazer ao Paraíso sobre os pecadores…
— Pecadores? — Sera o interrompeu. — Nós já temos uma solução para os pecadores e—
— Sim, NÓS temos! — e, dessa vez, foi Lúcifer quem interrompeu. — Mas a proposta dela é sobre redenção. Minha filha quer conversar com o Paraíso sobre a possibilidade de redimir as almas dos pecadores.
Não houve resposta do outro lado da ligação, e o Rei continuou:
— Olha, eu não sei se isso é possível. Na verdade, nem sei se acredito nisso… mas ela acredita. E conversar sobre possibilidades não vai fazer mal. Além disso, você me deve uma por exigir que eu permitisse os extermínios, então…
Houve mais um instante de silêncio, então, Sera respondeu.
— Tudo bem. Vamos marcar uma reunião para ouvi-la sobre esse projeto de redenção, mas não prometo que vamos apoiar. Apenas ouvir. E… também prometo a proteção dela enquanto estiver aqui.
— É tudo o que te peço, Sarah.
— Certo, mas meu nome… Deixa para lá. Você precisa de mais alguma coisa?
— Não! — Falou o rei arrastando o casco na grama.
— Okay. Então peça que ela esteja pronta amanhã às 10 da manhã. Vamos abrir um portal para buscá-la. Devo abri-lo no palácio?
— Não, não. Abra no Hazbin Hotel. Vou enviar as coordenadas junto com a papelada de liberação mais tarde.
— Ótimo — disse Sera, antes de simplesmente encerrar a ligação.
Lúcifer pôde apenas observar o sigilo de comunicação se desfazer no ar.
— Pronto. Diplomacia concluída. Agora só falta um pouco de burocracia, e Charlie poderá visitar o Paraíso… e, quem sabe, conseguir mais apoio para realizar seu sonho.
Disse o rei para si mesmo enquanto saía dos jardins e retornava à mesa de estudos, onde os livros sobre Alastor ainda o aguardavam.
Agora sim, ele podia se concentrar no problema vermelho, precisava garantir a segurança de sua filha. O Rei então se deu conta das palavras de Sera: já era de manhã cedo.
Lúcifer não passou a noite inteira remoendo o passado. Não ficou acordado em sua oficina criando dezenas de patinhos de borracha. Tampouco chorou até dormir.
Aquela noite foi diferente de todas as outras em muitos anos. O anjo caído passou horas pesquisando, tentando desvendar o mistério do Demônio do Rádio.
Ele passou o dedo sobre o nome gravado na capa vermelha do livro:
Alastor.
Sem perceber, um leve sorriso começou a surgir nos cantos de seus lábios.
— Então, pecador… você aparece no hotel da minha filha, me provoca, e eu passo a noite inteira tentando te entender…
O Rei soltou um suspiro, resignado.
— Bom, se você queria chamar a atenção… — o sorriso de Lúcifer se ampliou. — Parabéns, você conseguiu.
Por um instante, o silêncio pareceu se estender além do natural.
Então…
Lúcifer teve a impressão de ouvir, em algum lugar distante do palácio, o chiado de um rádio antigo, há muito esquecido.
