Chapter Text
Após um dia cansativo, nada melhor do que deitar na cama, e se aconchegar no seu travesseiro. Pomba que o diga, seus ombros cansados e costas doloridas imploravam por um alívio.
E, agora, ele finalmente estava deitado. A única diferença é que seu travesseiro é o peito de seu namorado.
Jasper estava de olhos fechados, fazendo cafuné nos cachinhos de Pomba enquanto inalava o cheirinho gostoso de banho tomado do mais novo. O barulho do ar condicionado trabalhando era o único ruído presente naquele quarto. Ambos os homens estavam apenas relaxando no silêncio, tentando esvaziar a cabeça do dia corrido e estressante que ambos tiveram.
Jasper abriu os olhos e, de relance, acabou vendo o calendário em sua escrivaninha. Faltava pouco mais de um mês para o aniversário de vinte e um anos de Pomba.
Ele sorriu, dando um puxão fraquinho no cabelo do moreno, só para chamar sua atenção. “Ei, o que você quer de aniversário?” A voz do albino era quase sussurrada, como se aquele momento de repouso fosse precioso demais para ser invadido por barulhos indesejados.
Pomba suspirou cansado. “Falta mais de um mês ainda… depois eu penso,” terminou a frase enterrando seu rosto no pescoço de Jasper.
“Ah, vamos, fala, meu bem. Eu quero fazer algo pra ti, algo que você goste,” Jasper fez um biquinho ao terminar a frase.
Pomba levantou o rosto e conseguiu ver a expressão manhosa do mais velho, soltando uma risadinha. “Vai cair num dia da semana. A gente pode fazer algo só nós dois, aí no fim de semana eu saio com os Pássaros pra comemorar.”
Jasper revira os olhos de brincadeira. “Isso eu já sabia, bobo,” ele belisca fraco o nariz de Pomba, “tô falando de algo mais específico. Algum lugar? Algum presente? Eu faço o que você quiser. E não adianta falar que seu presente é me ter, eu te conheço.”
Pomba ri do comentário do mais velho. De fato, ele o conhece muito bem. Pomba dá um breve selinho nos lábios do namorado. “Eu realmente não consigo pensar em nada agora, amor. Você já me deu tudo o que eu queria. Talvez mais perto do dia eu lembre de algo.”
“Nada, nada? Nem mesmo um…” Jasper dá um sorriso ladino para o mais novo, que o olha com um pouco de estranheza. “It's your birthday, so I know you want to ride out,” Jasper canta o primeiro verso da música ‘Birthday sex’, e Pomba arregala os olhos.
“JASPER!” Ele sente suas bochechas esquentarem e dá um soco fraco contra o peito do namorado, que ri de sua reação. Ele nega com a cabeça, mas acaba rindo também. “Francamente, amor…”
“O que? Realizar um desejo seu pode ser um grande presente, ‘tô errado?” O albino retruca, dando a língua para o namorado. “Duvido que você não tenha nenhum desejo escondido aí dentro, eu te conheço, você é tipo a caixa de Pandora, só que do bem.”
“Essa metáfora nem faz sentido…” Pomba continua um pouco envergonhado, enterrando o rosto novamente no peito de Jasper. “Eu… até tenho um ou outro, mas acho que você não gostaria,” sua voz sai abafada.
“Ah, é? E por que não?”
“Porque você é ciumento.” Após a fala, o silêncio se instaura no quarto. Pomba agradeceu mentalmente por estar com o rosto escondido; ele não sabe se gostaria de ver a reação de Jasper. Ele fica quieto por conta da vergonha e da ansiedade, já Jasper fica quieto por estar assimilando as palavras do mais novo. Ele não é tolo, nem idiota; ele tem uma noção quase exata do que essas palavras implicam.
“Você… quer um à três?” A voz de Jasper é baixa, calculada e cautelosa, com medo de que ele possa ter interpretado errado a intenção de Pomba e acabe assustando o rapaz..
“Olha…” o garoto suspira, ainda sem coragem de encarar Jasper, “é só uma fantasia, tá? Você não precisa fazer isso, às vezes a gente só imagina coisas que podem acabar sendo boas na hora, mas não quer dizer que a gente queira mesmo, sabe? Eu te amo e tô satisfeito contigo, não é como se eu precisasse de mais alguém e, honestamente, eu nem tenho alguém em mente, é só coisa de momento quando você tá com tesão, e eu sei que você é ciumento, e eu também sou um pouco, então nem faria sentido. Além disso…”
“Ei, ei, ei, calma aí, meu bem,” Jasper finalmente consegue cortar sua fala, fazendo um carinho nas costas do mais novo, “tá tudo bem, eu não vou te julgar por ter uma fantasia, é normal.” Pomba continuava evitando seu olhar. De um modo geral, ambos os rapazes não tinham problemas em compartilhar seus desejos um com o outro, mas alguns ainda acabam gerando hesitação ou medo da reação do outro. “É algo que você realmente tem curiosidade? Ou é de fato só uma fantasia? Eu não vou ficar chateado, meu bem, prometo.”
Pomba hesitou em responder. Ele sabe que Jasper não tem a melhor auto estima, e ele tem medo que o albino pense não ser o suficiente para ele. Por mais que ele seja o mais alto e o mais forte dentre eles dois, Jasper possui um coração de cristal, que precisa ser manuseado com cuidado pelas mãos habilidosas de um joalheiro experiente. Pomba pode não ser o mais experiente, ou o mais habilidoso, mas, quando se trata de Jasper, ele se torna o joalheiro mais dedicado que existe.
Tomando coragem, ele levanta seu rosto, finalmente olhando Jasper. Surpreendentemente, ele não encontra o que esperava. Sua expectativa era ver Jasper com um olhar distante e desfocado, típico de quando sua insegurança fala mais alto. Mas, ao invés disso, Jasper o olhava com atenção, até mesmo com uma certa expectativa, aguardando a resposta do moreno.
Pomba, não vendo outra saída, decidiu ser honesto com ele. “Olha… é algo que eu penso há um tempinho, antes de te conhecer, ok? Por favor, não pense que é alguma indireta ou algo do tipo, eu só… tenho curiosidade… sobre como é…” a voz do rapaz foi morrendo aos poucos, e ele começou a cutucar a cutícula solta de uma unha. Não conseguia mais manter o olhar preso ao de Jasper. Ele nunca havia dito isso em voz alta para ninguém.
Jasper ficou em silêncio – somente por alguns segundos, mas, para Pomba, pareciam horas –, apenas observando o nervosismo nada disfarçado do garoto. Sua mão direita retornou o carinho no cabelo castanho; Jasper sabia que era um truque secreto para acalmar Pomba, mesmo ele não admitindo. “Se você quer minha resposta honesta, eu… também já pensei isso antes…” o rubor preencheu suas bochechas numa velocidade impressionante. Agora, era sua vez de ficar tímido.
Pomba levantou o olhar, surpreso pela revelação repentina de seu namorado. “Mesmo…?”
Jasper riu sem graça. “É, eu… nunca falei nada antes porque… sei lá, acho que eu pensei tudo o que você também pensou. Não queria que você achasse que eu não te amo.”
Pomba sentiu seu coração apertar um pouco ao ouvir palavras tão tristes saindo da boca de uma pessoa tão especial. Ele deu um selinho demorado em Jasper, sua mão fazendo uma carícia no ombro do mais velho. “Seu bobo,” Pomba disse com os lábios raspando nos de Jasper, “eu sei que você me ama. Eu também te amo, muito, muito mesmo.”
Jasper sorri contra a boca do mais novo, puxando-o para mais um beijo. Pomba sorriu enquanto o beijava, e Jasper logo sorriu novamente. Tal ação acabou fazendo os dentes de ambos se chocarem, rendendo risadas gostosas e um grande sentimento de alívio no ambiente.
Pomba deitou a cabeça no pescoço de Jasper, este que retornou com o carinho em suas costas. “Mas você realmente não tem ninguém em mente? Ninguém da faculdade? Trabalho?”
Pomba negou com a cabeça. “Nunca… me permiti pensar isso pra valer, então eu nunca olhei pra ninguém pensando nisso. Você tem alguém em mente?”
“Hm…” Jasper fica em silêncio por algum tempo. Pensou nos seus amigos mais próximos. Talvez Remi concordasse, mas Jasper é orgulhoso demais para deixá-lo encostar um dedo em Pomba, além de que ele iria querer transformar algo prazeroso em competição; com certeza ele tentaria convencer Pomba que ele dá mais prazer que Jasper. Fechou os olhos e passou um pente fino mental pelos seus amigos, até que se lembrou de uma certa pessoa. “Talvez eu conheça alguém.”
Pomba levanta a cabeça de seu pescoço, surpreso com sua fala. “Quem?”
“Aquele meu amigo, o Aguiar. Lembra como ele é?” Pomba nega com a cabeça, porém o nome é familiar, Jasper já falou dele várias vezes antes. O albino estica o braço para pegar o celular na mesa de cabeceira. Ele abre sua galeria e começa a procurar entre as fotos, até achar a que queria. “Aqui, agora ‘cê vai lembrar.”
Pomba dirige sua atenção até a tela e… a foto tira seu fôlego. Nela, estão Jasper e Aguiar, aparentemente num show de alguma banda de metal. Ambos faziam o símbolo do rock com a mão e, enquanto Jasper estava dando uma piscadela e tinha a boca aberta com a língua para fora, Aguiar estava olhando sério para a câmera, porém mordendo discretamente o canto do lábio num sorriso ladino. Um daqueles braços fortes estava apertando a cintura de Jasper com força, e Pomba não pôde evitar notar o lindo contraste entre a pele bronzeada de Aguiar e a pele pálida da barriga de Jasper. Contudo, o que mais chamou sua atenção foram os olhos de Aguiar: fixos na câmera, como se ele estivesse tentando olhar a alma de quem observa a foto. O ambiente escurecido pelas paredes pretas, a iluminação avermelhada e o flash da câmera faziam o homem parecer assustador. Assustadoramente atraente.
“Gostou, né?” A voz de Jasper remove Pomba de seu transe, e ele olha envergonhado para o namorado ao se dar conta de que estava encarando despretensiosamente a foto de outro homem na sua frente. Jasper apenas riu da reação do mais novo. “Acho que ele é perfeito pra isso. Ele faz seu tipo, meu bem. É bom de papo, bom de cama…”
Pomba arqueia uma sobrancelha. “Como você sabe disso?”
Agora, foi a vez de Jasper ficar envergonhado. “A gente… meio que já teve uma amizade colorida. Mas foi antes mesmo de eu te conhecer, ok? Já acabou, agora a gente é só amigo mesmo.”
Pomba abre a boca em choque pela revelação, encarando Jasper, que parecia achar o papel de parede mais interessante. “Safado,” foi tudo o que Pomba disse antes de rir. Jasper retoma sua atenção ao homem em seu peito, distraído com seus próprios risos para notar como o rubor de Jasper aumentou.
“Foi… foi ideia dele, ok?” Pomba apenas assente com a cabeça, o riso diminuindo.
“Tudo bem, eu confio em você, amor. Pode ser ele.”
“Tem certeza, meu bem? É só uma sugestão, tá tudo bem se você não quiser.”
“Você tá certo, ele realmente faz meu tipo, e se você ficou numa amizade colorida com ele por um tempo, pouca coisa ele não é. Então, eu topo.” Jasper sorriu aliviado. Particularmente, ele prefere mil vezes tentar isso com alguém que ele já conhece do que procurar algum estranho que, honestamente, não saberia como tocar em Pomba. Como tratá-lo como ele merece.
“Acho que mês que vem ele tira férias, vou pedir pra ele vir uns dias pra cá,” Jasper abre o aplicativo de mensagens e procura a conversa com Aguiar, porém alguns beijos súbitos de Pomba em seu pescoço o distraem, fazendo-o bater no botão errado, iniciando uma chamada de vídeo. “Peraí, meu bem, bati errado aqui,” porém antes que pudesse desligar, Aguiar atendeu a chamada.
Ele estava em casa, sentado numa escrivaninha, com alguns papéis na frente de si e o celular apoiando em, provavelmente, algum livro. Seu rosto, apesar de possuir bonitas feições, não conseguia esconder os sinais de cansaço, com suas olheiras marcadas e o semblante exausto. Usava uma blusa branca de manga comprida, o que causou um leve arrepio em Jasper só de se imaginar usando tal roupa no calor que sentia.
“Fala, Jasper. Tudo tranquilo?” A voz de Aguiar e o sorrisinho fraco também denunciavam seu cansaço.
“Oi, Aguiar. Tudo tranquilo. Na verdade, eu apertei a chamada de vídeo sem querer, eu ia te mandar mensagem e o dedo escorregou.”
“Ah, de boa, eu precisava de uma pausa mesmo.” O homem coloca os papéis de lado, suspirando fundo. “Mas o que tu quer falar comigo?”
“Então, ‘cê sai de férias mês que vem, né?”
“Com a graça de Deus,” Aguiar junta as mãos numa pose de oração, “não sei o que eu tinha na cabeça quando pedi transferência pra capital. Antes eu tivesse ficado em Inquisidor do Vale, porra.” Aguiar começa a massagear as têmporas.
Jasper ri da reclamação do mais velho. “Sinto muito por isso, amigo, mas vem cá, ‘cê podia vir pra cá nas férias, né? Ficar uns dias pra gente se rever e matar a saudade. Além disso, você tem que conhecer o Pomba.”
O dito cujo estava em silêncio até o momento, encarando Aguiar na tela do celular e relativamente escondido da câmera, logo abaixo de onde ela estava pegando Jasper. Ele de fato é mais bonito do que na foto, e sua voz – grossa e imponente – combinava totalmente com sua aparência. Pomba estava levemente hipnotizado por ele, era o segundo homem mais bonito que ele já tinha visto na vida.
Atrás, claro, de seu namorado.
“Verdade… só conheço ele por foto e pelo o que tu me conta,” a voz de Aguiar torna-se pensativa, “por que tu nunca me apresentou ele, hein? É por que a gente já ficou?”
“Não, ele já sabe disso, e tá de boa. É só que… eu prefiro que vocês se conheçam pessoalmente, só isso.”
“Hm…” Aguiar encara Jasper, pensativo, como se estivesse tentando pescar algo escondido em sua fala.
“Falando do Pomba… o que você acha dele?” Jasper olha para Pomba, que arregala os olhos para sua pergunta. Seu coração começa a acelerar, mas ele não sabe se foi por vergonha da pergunta, ou pela ansiedade da resposta de Aguiar.
O delegado arqueia a sobrancelha. “Por que? Quer bancar o cupido e me juntar com ele?” Ele termina sua fala com um sorriso sarcástico para Jasper.
O albino revira os olhos, e Pomba sente suas bochechas esquentarem. “Tu é meu amigo, cara. Me interessa saber o que você pensa do meu namorado, só isso.”
Pomba mexe a boca, sibilando um ‘salvou bem’ e começa a roer a unha do polegar direito.
Aguiar fica em silêncio, pensando na resposta. “Ele é bonito e, pelo o que você diz, ele te trata bem e te ama bastante, igual você ama ele. Acho que isso é o suficiente pra vocês serem felizes.”
“Bonito, é?” Jasper arqueia uma sobrancelha. Por estar tão focado em provocar o amigo, ele acabou perdendo o doce sorriso de Pomba ao ouvir ‘igual você ama ele’.
Aguiar dá de ombros. “O que? Quer que eu minta e diga que ele é feio? Ele é bonito mesmo, você deu sorte, tô até com um pouquinho de ciúme.”
Pomba dá um sorrisinho ao redor da unha levemente roída, olhando para Jasper em antecipação.
“Dele ou de mim?”
Aguiar revira os olhos, mas não esconde o sorriso no rosto. “Ciúme de você estar num relacionamento com um cara bonito, óbvio. Tu acha que eu sou fura olho? Assim tu me machuca, Jasper.”
Jasper ri, e levanta a mão livre em sinal de rendição. “Ei, foi mal. É que… eu sei que nós dois somos o seu tipo. Foi só brincadeira.” Pomba arregala os olhos ao ouvir a frase. Ao que tudo indica, sua fantasia estava cada vez mais próxima de se tornar realidade.
Aguiar só revira os olhos para o amigo, o encarando com um certo ar de deboche. “Mudando de assunto, quer que eu vá aí quando em janeiro?”
“Ah… dia onze, doze, por aí. Fica bom pra você?” Pomba continuava ouvindo a conversa num silêncio quase fúnebre. Honestamente, era impressionante a habilidade que ele tinha de passar despercebido quando queria.
Aguiar concorda com a cabeça. “Pra mim tá ótimo. A gente se vê em janeiro então, Jasper. Ah… Espero que o Pomba goste de mim.”
“Ah, se preocupa com isso não. Com certeza ele vai gostar bastante de você.” Pomba tapou sua boca para evitar que o risinho saísse na ligação.
“Tu falou essa frase com um tom meio estranho…” o delegado encarou o amigo novamente, e Jasper tentou ao máximo possível manter a naturalidade. Por fim, Aguiar suspirou, sua mão apertando entre seus olhos. “Desculpa, eu tô bem cansado, acho até que vou dormir logo. Boa noite, Jasper.”
“Boa noite, Aguiar.” E a ligação se encerra.
Pomba destampa sua boca, seus risinhos ecoando livremente pelo quarto, e suas pernas balançando no ar como se ele fosse uma adolescente escrevendo em seu diário na cama. A alegria do mais novo contagia Jasper, que ri junto dele. “Prontinho, meu bem. Seu presente tá perto de ser realidade.”
Ainda rindo, Pomba enterra seu rosto no peito de Jasper. Este, com certeza, vai ser o mês mais longo de sua vida.
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Finalmente era treze de janeiro. Finalmente, Pomba tinha vinte e um anos.
Jasper acordou o garoto com dezenas de beijinhos em seu rosto e com um café da manhã delicioso na cama: sua salada de frutas favorita e alguns pães de queijo. Ele queria que seu namorado tivesse um dia de rei, e faria tudo em seu alcance para proporcioná-lo exatamente isso. Infelizmente, Pomba não estava de férias na Universidade, então eles passaram a manhã separados. Na hora do almoço, Jasper o levou para um restaurante caro. Depois, o levou para o Museu Histórico, onde passaram boa parte da tarde. Pomba estava se sentindo um pouco sem graça com tamanhos mimos, mas Jasper logo despistou esse pensamento para longe. Hoje era o seu dia.
Os homens voltaram para casa perto do pôr do sol. Agora, era a segunda parte da comemoração, e os homens precisavam se arrumar à altura. Aguiar já tinha mandando mensagem confirmando presença, então havia uma pequena pressão a mais. Jasper vestia uma blusa preta colada no corpo, porém personalizada por Lena, com várias correntes costuradas nela. A calça levemente larga seguia a mesma pegada, com três correntes presas nas alças onde se passa o cinto. Só para fazer uma graça, ele colocou três piercings de pressão: uma argola no nariz e duas na boca, simulando um snake bite. Ele sabe que Pomba adora esses piercings falsos.
“Falta muito aí, meu bem?” Jasper perguntou já entrando no quarto, e parando bem na porta. Pomba estava… radiante. Geralmente, o garoto usa roupas mais folgadas, mas hoje ele decidiu ir na direção oposta. Pomba estava usando um cropped branco com detalhes prateados, criando um contraste lindo com sua pele ainda mais morena pelo sol do verão. A bermuda era levemente larga, porém o cinto prateado a deixava justa naquelas lindas coxas. E, a cereja do bolo: Pomba estava usando maquiagem. Nada muito pesado, e em tons terrosos, porém com um leve toque de cor nos olhos. Ele mordeu o lábio nervoso, e olhou para Jasper, ansioso com o silêncio do albino.
“Gostou…?” Aquela timidez do início do relacionamento se fez presente novamente. Pomba sempre ficava assim quando tentava algo novo.
Jasper o olhava de cima a baixo, embasbacado. Estava acostumado a ver Pomba com a pele exposta, seja quando tomam banho, quando transam ou quando vão à praia ou à piscina, mas… havia algo diferente dessa vez. Apesar da timidez momentânea, era nítido que Pomba estava confiante naquela roupa. A sombra lilás acentuava seus hipnotizantes olhos castanhos, e a roupa encaixava como uma luva em seu (lindo) corpo. Pomba vestiu aquela roupa não para Jasper, muito menos para Aguiar. Pomba vestiu aquela roupa porque sabia que ficaria bonito nela.
Jasper finalmente encontra sua voz depois de um longo silêncio. “Você… uau…” Ele leva a mão até a testa.
Pomba sorri para seu namorado, dando uma voltinha no lugar, e Jasper quase sente seu coração sair pela boca. “Eu queria… começar a tentar coisas novas, aí botei essa roupa. Papagaio me deu o cropped de brincadeira no natal passado, mas eu olhei bem pra ele e… pareceu certo usar.” Pomba brinca com a borda do cropped em sua barriga.
Jasper finalmente sente o sangue circular de volta para suas pernas, e lentamente anda até onde Pomba está, na frente do espelho. Ele pega seu rosto, beija seus cachinhos – para não borrar o batom – e o vira de frente para o espelho. Jasper o abraça por trás, apoiando seu queixo no cabelo de Pomba. “Você é o homem mais lindo do mundo.”
Pomba sente seu rosto esquentar, envergonhado. Ele abaixa o rosto, porém Jasper, com uma das mãos, o pega pelo queixo e levanta sua face, obrigando o rapaz a encarar o próprio reflexo novamente. “Fala, quero ouvir você falando.”
Pomba olhava para Jasper através do reflexo, e o albino o encarava de volta. Pomba retornou o olhar para sua própria imagem refletida, de fato vendo a si mesmo. Depois de tantos anos, o espelho finalmente se tornou seu amigo. A imagem finalmente refletia aquilo que ele carregou em seu coração por tanto tempo; refletia quem ele realmente era. “Eu… sou bonito.”
“Pra caralho,” Jasper logo completa, os olhos fixos em Pomba, “você é o cara mais bonito que eu já vi, o cara mais bonito que qualquer um já viu.”
“Acha que… o Aguiar vai pensar o mesmo?” A voz transparecia nervosismo, suas mãos levemente tremendo.
Jasper soltou o rosto do namorado, e lentamente desceu as mãos por seus braços até chegar nas mãos do mais novo, entrelaçando seus dedos e dobrando os braços na altura da barriga de Pomba. “Se você não quiser, ainda dá tempo de desistir. Tá tudo bem, meu bem. Eu só quero você feliz.”
“Eu… eu quero, só… nervosismo, sabe? Nunca fiz isso antes, é normal ficar nervoso, e…” Pomba parou a frase no meio, e Jasper aguardou para ver se ele iria completar o raciocínio. Após um minuto em silêncio, Jasper apertou as mãos ainda entrelaçadas de leve.
“E…?”
“E se ele tiver um problema com… você sabe…” Pomba, vagamente, move as mãos na direção de seu peito e região íntima. Jasper entendeu todas as palavras que aquele silêncio proferia, e sentiu seu coração se despedaçar ao sentir a súbita tristeza querendo se apossar de Pomba. Ele ama tanto cada centímetro de Pomba, da cabeça aos pés, que essa possibilidade sequer passou pela sua cabeça. Para ele, era genuinamente impossível alguém não gostar de Pomba e não achá-lo a pessoa mais linda do mundo.
“Então eu vou meter a porrada nele antes que ele sequer pense em estragar sua noite.” A voz de Jasper era firme, quase fria, porém seus olhos queimavam com determinação. Ele sabia que Jasper não estava blefando. Jasper faria qualquer coisa por Pomba. Qualquer coisa.
Ele sorri. “Meu cavaleiro de armadura brilhante,” ele dá uma risadinha, apoiando a cabeça no peito de Jasper, que põe um pouco mais de força no aperto no tronco de Pomba.
Outro beijo é depositado em seus cachinhos. “Eu não vou deixar ninguém te machucar.”
“Eu sei.”
“E, meu bem, lembra de uma coisa, sempre,” Jasper soltou uma das mãos e, lentamente, levantou um pouco do cropped de Pomba. Logo, o ‘CORAGEM’ tatuado bem embaixo da cicatriz de sua mastectomia no peito esquerdo se fez visível, e Jasper acariciou a tatuagem com o polegar – e, por consequência, a cicatriz também –, olhando fixamente nos olhos de Pomba. “Nunca deixe ninguém tirar isso aqui de você, ninguém mesmo.”
Pomba sentiu seu peito esquentar, se virando no abraço e, finalmente, beijando Jasper. Ele sempre pode retocar o batom. As mãos do garoto foram até o cabelo branco do mais alto, fazendo um cafuné. As mãos de Jasper se mantiveram em sua cintura, a carícia na tatuagem continuando; um lembrete silencioso.
Pomba partiu o beijo com alguns selinhos, colando seu rosto na blusa justa de Jasper. “Eu não te mereço, amor.”
“Não, meu bem, sou eu que não te mereço,” Jasper se desvencilhou do abraço, pegando Pomba pelas mãos. “Tá pronto? Ainda temos muito a fazer hoje. A noite é uma criança, mas você não.”
Pomba, ainda com leves resquícios de nervosismo, morde o lábio e concorda com a cabeça, rindo da piadinha de Jasper. “Vamos, amor.”
