Chapter Text
Do alto da árvore, Azriel observava a fogueira que ardia no vale. Suas sombras se espalhavam ao redor, um manto espesso da cor da meia-noite.
Os machos illyrianos estavam dispostos em torno das chamas de um jeito que lembrava, embora mais bruto e desordenado, as reuniões dos Grãos-Senhores. Asas marcadas por cicatrizes se agitavam a cada urro, rostos endurecidos pelas rajadas do vento e por uma fúria crua.
Rebeldes.
Ele reconheceu cada um, registrou posições, armas, promessas de violência.
Ainda assim, não eram aqueles vermes que o incomodavam. Era a quietude ao seu lado.
Gwyn estava imóvel, em silêncio havia tempo demais. O cabelo preso deixava à mostra o pescoço rígido, e o couro illyriano se ajustava aos movimentos entrecortados de sua respiração. O cheiro de lírios e maresia era uma contradição à brutalidade do cenário.
Uma contradição que o agradava.
Demais.
Azriel percebeu a tensão na maneira como ela segurava a adaga presa na lateral da coxa, o nó dos dedos brancos.
Conhecia bem aquela postura. Voltar às Montanhas era um gatilho perverso. O Rito do Sangue ainda vivia nela, e cada risada mordaz, ou grito distante, lhe trazia memórias indesejadas.
Ele sabia, pois havia vivido aquilo também.
— Chega de dobrar os joelhos ao mestiço de merda. — A voz grave de um dos machos ecoou pela encosta.
Outro respondeu, mais rude, asas batendo contra o vento gelado:
— As novas reformas enfraqueceram nosso domínio — cuspiu. — Se não reagirmos, logo não seremos nada além de marionetes de Prythian.
Os murmúrios de aprovação seguiram o som seco das asas abrindo e fechando. Azriel registrou cada detalhe em sua mente, entretanto sua atenção voltou a Gwyn. Ela estava ainda mais rígida, a adaga quase se fundindo à mão. Respirava rápido, o suficiente para denunciar que não estava apenas concentrada, mas em uma luta interna contra a ansiedade.
Um estalo na fogueira, seguido de risadas altas, fez seus ombros estremecerem. Ela fechou os olhos, parecia ter sido arrastada de volta a lembranças que Azriel não queria que enfrentasse sozinha.
Ele embainhou a Reveladora da Verdade. Moveu-se devagar, as asas juntas em suas costas, e alcançou a mão dela. Os dedos estavam duros, fechados em punho. Ele os abriu, um a um, sem pressa, até a palma ficar exposta. Marcas de unhas visíveis na pele úmida. Levou-a aos lábios e a beijou.
Não foi um gesto carinhoso, longo, tampouco delicado. Foi firme, direto, carregado de peso e um dizer mudo:
“Estou com você. Você está segura comigo. Eu estou com você.”
O toque o surpreendeu tanto quanto a ela. A tensão do corpo dela diminuiu, a respiração desacelerou. Gwyn abriu os olhos, o brilho azul-mar encontrando-o por alguns segundos antes de voltar para o acampamento.
Ele manteve a mão dela segura na sua. As sombras continuaram ao redor, ocultando-os dos rebeldes.
Lá embaixo, os machos ainda conspiravam. A ameaça era real, política vil. Mas no alto daquela árvore, o que importava era manter Gwyn firme, longe das lembranças que insistiam em puxá-la de volta.
Azriel enfim largou a mão dela e voltou a desembainhar a Reveladora da Verdade. A missão poderia durar a noite inteira. Mas, dentro dele, um sentimento brilhava quietinho, algo profundo que ele ainda não tinha coragem de proferir em voz alta.
