Chapter Text
A luz azul do monitor já está doendo meus olhos, mas eu preciso terminar esse relatório antes que...
Esquece, ele já está aqui.
A figura franzina e rabugenta do chefe de produção chegou como a uma avalanche, sugando toda energia que qualquer assalariado poderia ter no final de turno de uma sexta-feira. Era sempre assim, ele chega como se pudesse controlar nossas vidas, e, no fundo, ele sabe que realmente pode.
— Pomni! — a voz estridente e rouca gritou, acertando as mãos com força em cima da minha escrivaninha — você é a única que ainda não finalizou o relatório, como sempre! É assim que você quer ser promovida? Fazendo corpo mole?! Aqui na C&A nós valorizamos funcionários com atitude e força de vontade!
E é claro que esse poço de arrogância iria iniciar um discurso interminável sobre como eu sou irresponsável e como me falta compromisso de verdade. Mesmo assim, eu tento manter minha atenção na tela do computador, mas a presença irritante do chefinho consegue atingir todos os meus nervos.
Meus dedos digitam freneticamente, é um trabalho automático, sequer me atento ao que está sendo digitado. Eu preciso sair daqui o quanto antes ou vou enlouquecer. Contudo, o CEO solicitou a presença do engomadinho na sua sala.
— Nossa conversa ainda não acabou! — ele resmungou, apontando dois dedos na minha direção, como se dissesse que está 'de olho em mim'.
Sempre quis saber como o CEO é. Todos o chamam de "Kinger", talvez por ser o dono da empresa, mas ele nunca aparece nos setores. Bom, com certeza o rei vai querer manter uma distância segura da ralé.
Poucos minutos se passaram, o silêncio foi preenchido apenas com os barulhos das teclas sendo pressionadas rapidamente e com o ponteiro do relógio marcando as horas. 20h, finalmente.
Desliguei o computador assim que deu meu horário, não quero passar nem mais um segundo sequer aqui dentro. Não me despedi dos colegas de trabalho, eles sempre me olham estranho. Talvez pelas broncas frequentes, ou pela heterocromia. Mas isso não importa, eu não ligo para a opinião deles, nunca liguei.
Chegar no meu apartamento depois de sofrer por doze horas seguidas em um emprego de merda é a maior satisfação que eu poderia sentir. Atravessei os cômodos escuros até chegar no meu quarto, tudo que eu quero agora é deitar na minha cama.
É um ótimo momento para passar o tempo vendo postagens fúteis nas redes sociais e comparar a minha vida com as vidas perfeitas que mostram por aí! De qualquer forma, eu realmente não tenho nada melhor para fazer em uma noite como essa.
Mas talvez hoje seja diferente.
Enquanto eu passava por algumas postagens desinteressantes, uma em específico conseguiu atrair minha atenção: a inauguração de uma nova boate. Sendo sincera, não é o tipo de ambiente que costumo frequentar, mas, dessa vez, eu senti que precisava ir.
Me arrumei com calma, não estava com pressa e muito menos empolgação para sair de casa depois de um dia como esses, mas eu vi na internet que é bom se desafiar um pouco às vezes e sair da rotina. O que poderia dar errado?
Procurar alguma roupa para sair me fez perceber que eu preciso comprar roupas novas. Revirei meu guarda-roupa atrás de alguma coisa que me agradasse mas eu só tenho camisas sociais e calças de alfaiataria. Maldito trabalho. Talvez ninguém vá perceber que as minhas roupas não se encaixam com o ambiente, pelo menos eu espero que não.
Enfim, eu não vou remar contra a maré. Vesti uma camisa social branca — a menos amarrotada que encontrei no guarda-roupa — e uma das várias calças pretas que eu tenho. Agora, é a pior parte: maquiagem.
Me sentei em frente à penteadeira e comecei a procurar pelas maquiagens que eu sei que estão aqui em algum lugar. Não vou pensar muito, apenas tentar o básico. Um gloss sem cor, apenas para dar brilho nos lábios; rímel para tentar levantar o olhar; e algumas gotinhas de corretivo para cobrir as olheiras.
É isso, eu acho. Meu olhar se manteve fixo no reflexo do espelho. Eu realmente quero isso? Minha mão sobiu involuntariamente até tocar minha bochecha. Às vezes me sinto como se não pertencesse ao meu corpo... Mas isso é reflexão para outro momento! Agora, eu vou ir naquela boate e vou aproveitar bastante!
Respirei fundo, reunindo todo o ânimo e boa vontade que me restavam e me levantei da escrivaninha com um impulso — na minha cabeça a atitude seria mais motivadora. De qualquer forma, agora, eu vou ir naquela boate e vou aproveitar bastante!
Ou será que o destino tem outros planos?
