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I could be a good mother?

Summary:

“Elizabeth Fritz? Gostaria de compartilhar com a gente um objeto significativo para o Joui?”
Liz piscou, sentindo o sangue subir para o rosto. Todos os outros pais tinham algo nas mãos: troféus, fotos antigas, cartas, um ursinho desgastado de tanto carinho. Ela? Nada.
“Ah… eu… saí correndo de casa e acabei esquecendo” confessou, a voz baixa, envergonhada. Queria que o chão abrisse e a engolisse.
“Não tem problema, essas coisas acontecem” disse a professora com um sorriso compreensivo que, para Liz, soou como pena.
Enquanto o próximo pai começava a falar animadamente sobre o filho, Liz só conseguia olhar para as próprias mãos vazias no colo. Mais uma vez falhando. Ele merece alguém melhor. Alguém que não esqueça o básico.

Work Text:

O trânsito de São Paulo parecia ter decidido puni-la naquele dia. Liz Webber já tinha saído do laboratório às 15:30, meia hora mais cedo só para não chegar atrasada na reunião de pais do primeiro ano do Colégio Nostradamus. Quinze minutos de carro, era o que o Google Maps prometia. Mentira. Agora ela corria pelos corredores largos da escola, o salto batendo forte no piso frio, com sete minutos de atraso já marcados no relógio.

Quando finalmente empurrou a porta da sala, todas as cabeças se viraram. Liz murmurou um “desculpa” quase inaudível e sentou na cadeira mais ao fundo, tentando se tornar invisível. O coração ainda batia acelerado.

Apesar de Joui estar indo para o primeiro ano, ela ainda não se acostumara com aquela vida de mãe escolar. Parte dela se justificava dizendo que a adoção era recente, pouco mais de dois anos juntos, mas no fundo sabia que não era só isso. Boa parte dessas responsabilidades sempre caía nos ombros de Thiago. Reuniões, festinhas, comunicados… ela achava tudo aquilo um saco e colocava parte da culpa no trabalho. Mas hoje ele não podia vir, então ela estava ali, enfrentando o lugar que um dia já tinha sido seu inferno particular.

Os anos no Nostradamus ainda deixavam um gosto amargo na boca. Boa aluna, disciplinada, nota alta em quase tudo. Socialmente, porém, tinha sido massacrada. Bullying constante, apelidos, exclusão. Voltar ali como mãe trazia um peso estranho no peito.

Ela se perdeu tanto nos pensamentos que só percebeu que seu nome tinha sido chamado quando a professora repetiu:

“Elizabeth Fritz? Gostaria de compartilhar com a gente um objeto significativo para o Joui?”

Liz piscou, sentindo o sangue subir para o rosto. Todos os outros pais tinham algo nas mãos: troféus, fotos antigas, cartas, um ursinho desgastado de tanto carinho. Ela? Nada.

“Ah… eu… saí correndo de casa e acabei esquecendo” confessou, a voz baixa, envergonhada. Queria que o chão abrisse e a engolisse.

“Não tem problema, essas coisas acontecem” disse a professora com um sorriso compreensivo que, para Liz, soou como pena.

Enquanto o próximo pai começava a falar animadamente sobre o filho, Liz só conseguia olhar para as próprias mãos vazias no colo. Mais uma vez falhando. Ele merece alguém melhor. Alguém que não esqueça o básico.

Quando finalmente chegou em casa, já era quase noite. O cheiro de comida caseira invadiu suas narinas assim que abriu a porta. Na cozinha, Thiago e Joui estavam lado a lado, terminando o jantar. Thiago mexia algo na panela enquanto Joui contava alguma história, gesticulando animado. Os dois riam juntos. Pareciam ter séculos de convivência, como se sempre tivessem sido pai e filho. O amor transbordava daquele espaço de um jeito tão natural que chegava a doer.

Liz ficou parada na porta por alguns segundos só observando. Eles nasceram pra isso. Thiago, alto e carismático como sempre, com aquele sorriso fácil que conquistava todo mundo. Joui, com sua postura impecável de ginasta, o cabelo escuro curto e os traços asiáticos marcantes, rindo alto enquanto gesticulava.

“Chegou, Liz?” Thiago finalmente notou, virando-se com um sorriso carinhoso. Ele se aproximou e deu um beijo suave em seus lábios, do jeito dele, leve e cheio de carinho.

“Pois é, acabei de chegar” respondeu ela, tentando sorrir.

“Oi, mãe!” Joui exclamou, virando o rosto com os olhos brilhando. “Como foi seu dia?”

Ela sentiu um aperto forte no peito. Queria contar a verdade. Queria dizer que se sentia uma fraude, que tinha estragado a reunião, que ele merecia uma mãe melhor. Em vez disso, forçou o melhor sorriso que conseguiu:

“Foi ótimo, querido. E o seu?”

“Foi muito bom! Eu e o Kaiser saímos pra almoçar depois da aula e depois viemos pra casa ver um filme. Ele ficou até agora há pouco…”

Durante o jantar, Liz ficou mais quieta que o normal. Apenas ouvia. Ouvir Thiago e Joui conversando sobre tudo e nada, ginastica, animes, fofocas da escola, planos pro fim de semana, era lindo. Eles tinham uma sintonia absurda. Ela amava ver aquilo. E ao mesmo tempo, sentia um medo gelado no fundo do peito.

Será que um dia vou conseguir ter isso com ele? Ou vou ser sempre a mãe que chega atrasada e esquece as coisas importantes?

Mais tarde, depois do banho, Liz se deitou na cama enorme, olhando o teto escuro. A cabeça não parava de martelar. A reunião. O olhar da professora. As mãos vazias. A comparação inevitável com as outras mães.

A cama afundou ao lado dela. Thiago subiu e, sem dizer nada, puxou seu corpo para junto do dele, abraçando-a com cuidado.

“Tá acordada, minha querida?” murmurou contra o cabelo dela.

Liz virou-se e se aconchegou no peito dele, sentindo o calor familiar.

“Não consegui dormir ainda…” sussurrou. “Logo passa.”

Liz ficou em silêncio, o rosto pressionado contra o peito de Thiago. O coração dele batia calmo e constante, enquanto o dela parecia uma bagunça. Ele acariciava suas costas devagar, sem pressionar, como sempre fazia quando sabia que ela precisava de tempo.

No dia seguinte, o sol mal havia nascido quando ela ouviu barulho na cozinha. Levantou-se ainda sonolenta e parou no corredor. Joui estava lá, preparando o café da manhã, ou pelo menos tentando. Havia panquecas um pouco tortas na frigideira e ele cantarolava baixinho uma música japonesa antiga que Thiago gostava de colocar.

“Bom dia, mãe!” ele disse assim que a viu, com aquele sorriso largo e genuíno que iluminava o rosto inteiro. Os cabelos escuros ainda úmidos do banho. “Fiz panqueca pra você. Não ficou tão boa quanto as do pai, mas...”

Ele estendeu o prato com orgulho, esperando a reação dela.

Liz sentiu o peito apertar. Era um gesto tão doce. Tão carinhoso. E mesmo assim, uma voz dentro dela sussurrou: Ele está fazendo isso porque sabe que você errou ontem. Está compensando.

“Ficaram ótimas, meu amor” ela respondeu, forçando um sorriso enquanto pegava o prato. “Obrigada.”

Joui se sentou ao lado dela na bancada, balançando as pernas como se ainda fosse uma criança, Lia adorava seu jeito ingênuo de ver o mudo, queria poder protegê-lo de tudo.

“Você vai poder ir na minha apresentação de ginástica semana que vem? É só um treino aberto pros pais, mas vai ter alguns juízes convidados.”

Liz piscou. Ela nem sabia que tinha uma apresentação marcada.

“Claro que eu vou” respondeu rapidamente. “Não perderia por nada.”

O garoto sorriu ainda mais, inclinando-se para dar um beijo rápido na bochecha dela, mais uma de suas formas mais doces de demonstrar todo o amor que sente por ela. Liz sentiu o cheiro de shampoo e suor limpo de quem já tinha feito alongamento cedo.

“Você é a melhor, mãe.”

Ela engoliu em seco. Se eu fosse a melhor, saberia da apresentação sem você precisar me lembrar.

Alguns dias depois, Liz chegou mais cedo do laboratório e encontrou a sala de estar transformada em um pequeno acampamento de adolescentes. Notebooks abertos, pacotes de salgadinho espalhados e risadas ecoando pela casa.

Joui e Kaiser estavam sentados no chão, ombros quase encostados. Kaiser explicava algo na tela com paciência, a voz mais baixa e calma quando falava com Joui. O japonês ouvia atento, mordendo o canto do lábio inferior como sempre fazia quando estava concentrado.

“Pronto… agora tenta de novo. Assim,” disse Kaiser, colocando a mão sobre a de Joui no mouse por um segundo a mais do que o necessário. Joui não puxou a mão. Em vez disso, sorriu de lado, olhando para o amigo.

“Você é muito melhor que eu nisso… mas eu tô melhorando, né?”

“Está sim. E fica fofo quando você se empolga,” Kaiser respondeu baixinho, quase sem pensar. Assim que as palavras saíram, ele ficou vermelho e voltou os olhos para a tela rapidamente.

Liz, parada na entrada da sala, ergueu uma sobrancelha. Fofo?

Joui riu, empurrando o ombro de Kaiser de leve, mas deixou a mão ali por um instante antes de puxar.

“Cala a boca, cara…”

Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, só o som do jogo preenchendo o ar, mas o clima entre eles estava diferente, mais leve, mais carregado. Joui inclinava o corpo na direção de Kaiser quando ria, e Kaiser olhava para ele de canto de olho mesmo quando fingia prestar atenção no jogo.

“Mãe!” Joui exclamou quando finalmente a viu. Seu rosto se iluminou inteiro. Ele se levantou num pulo e foi até ela, ainda suado do treino de ginástica da tarde. Sem hesitar, passou os braços ao redor dela num abraço apertado. “Você chegou cedo! Vem ver, o Kaiser tá me ensinando.”

Ele a puxou gentilmente pela mão até o sofá. Liz sentou e observou os dois. Kaiser estava mais quieto agora, mas não conseguia esconder o sorriso pequeno toda vez que Joui olhava para ele pedindo aprovação.

“Ele é muito paciente comigo, mãe. Os outros caras do clube de tecnologia zoam quando eu morro rápido, mas ele não. Ele explica tudo de novo sem reclamar.”

Kaiser coçou a nuca, envergonhado.

“É porque você aprende rápido… e é legal jogar com você.”

O jeito como ele disse a última parte fez Liz prestar ainda mais atenção. Não era só o tom. Era o olhar. Kaiser olhava para Joui como se ele fosse a coisa mais interessante da sala.

Pouco depois, Joui se levantou para pegar refrigerante na cozinha. Kaiser acompanhou com os olhos até ele sumir no corredor. Quando percebeu que Liz o observava, ficou vermelho até as orelhas.

“Ele… ele é muito legal mesmo,” murmurou o garoto, voltando a olhar para a tela.

Liz sorriu de leve, mas sentiu um turbilhão por dentro. Eles se gostam. Não é só amizade.

Quando Cris chegou para buscar o filho, a dinâmica mudou novamente. Cris cumprimentou Liz com um abraço rápido e um “MENINAAAA” brincalhão de sempre.

“As crianças se comportaram hoje?” perguntou ele, olhando para a sala.

“Comportadíssimos,” respondeu Liz. “Seu filho é um ótimo professor.”

Cris riu.

“Kaiser vive falando do Joui em casa. ‘Joui fez isso’, ‘Joui disse aquilo’… acho que encontrou um amigo de verdade.”

“Com certeza”

Enquanto os meninos se despediam na porta, Liz observou de longe. Joui e Kaiser demoraram mais que o normal para se soltar do abraço. Joui bagunçou o cabelo de Kaiser de leve e disse algo baixinho que fez o outro sorrir e abaixar a cabeça. Kaiser tocou o braço dele antes de sair, um toque rápido, quase tímido.

Quando a porta fechou, Joui voltou para a sala praticamente pulando. Sentou ao lado de Liz e, como sempre, encostou a cabeça no ombro dela, ainda cheio de energia.

“Mãe… obrigado por deixar ele vir sempre. Eu gosto muito de passar tempo com o Kaiser. Ele é diferente dos outros caras da escola.”

Liz envolveu os ombros dele com o braço e apertou de leve, sentindo o corpo quente e forte do filho contra o dela.

“Ele parece gostar muito de você também, né? Tem certeza que é só um amigo?”

Joui ficou quieto por um segundo, depois deu de ombros.

“É… é só um amigo.”

Ele ficou ali mais um tempo, colado nela, contando animado sobre o dia na escola e como ele tinha se saído bem na prova de história. Cada palavra era cheia de carinho. Ele a amava, isso era óbvio. Ele buscava o colo dela, contava as coisas, pedia abraço.

Mesmo assim, quando Joui subiu para tomar banho, Liz ficou sentada no sofá, sozinha com seus pensamentos.

Ele era feliz.

Ele a amava de verdade.

Ele demonstrava isso todos os dias.

E ainda assim, a mesma sensação insistente voltava:

Será que eu sou suficiente pra acompanhar todas essas novas fases da vida dele? Os jogos, as amizades… e talvez algo a mais que ele ainda não me contou?

Naquela noite, depois do jantar, a casa ficou em silêncio. Joui tinha subido cedo para jogar um pouco no computador antes de dormir, ainda empolgado com o dia. Liz estava na cama, encostada na cabeceira, folheando o celular sem prestar atenção em nada. A cabeça dela não parava.

Thiago saiu do banheiro já de banho tomado, só de calça de moletom, e se jogou ao lado dela. Ele puxou Liz para perto automaticamente, como sempre fazia, encaixando o corpo dela contra o seu.

“Você tá quieta hoje,” murmurou ele, beijando o topo da cabeça dela. “Aconteceu alguma coisa no laboratório?”

Liz hesitou. Queria dizer que estava tudo bem, como sempre fazia. Mas o peso no peito estava grande demais.

“Não é o trabalho…” ela começou, baixinho. “É o Joui.”

Thiago esperou, passando a mão devagar nas costas dela.

“Hoje quando cheguei mais cedo, o Kaiser estava aqui. Os dois juntos… sei lá. Eles se olham de um jeito diferente. Riem, se encostam, ficam próximos. Não é só amizade de menino, Thiago. Acho que eles se gostam. De verdade.”

Thiago sorriu de leve, sem surpresa.

“Eu também acho. O Joui fica todo animado quando fala dele. E o Kaiser… o garoto quase gagueja quando o Joui chega perto. É bonitinho.”

Liz ficou em silêncio por um momento, traçando círculos no peito do marido.

“Ele me deu um abraço daqueles bem apertados e disse que me ama. Ele estava tão feliz…” A voz dela falhou um pouco. “E eu fico feliz por ele, juro que fico. Mas ao mesmo tempo eu me sinto… deslocada. Como se ele estivesse vivendo coisas que eu não consigo acompanhar direito. Ele tá entrando na fase de gostar de alguém, de jogos que eu não entendo, de treinos de ginástica que eu mal sei os nomes das acrobacias. E você… você tem essa conexão tão natural com ele.”

Thiago virou o rosto para olhar para ela, sério agora.

“Liz…”

“Eu amo ver vocês dois juntos na cozinha, ou quando vocês ficam conversando bobagem até tarde. É lindo. Mas eu tenho medo, Thiago. Medo de não conseguir construir algo tão profundo com ele. Eu esqueci aquela maldita reunião, chego atrasada, não sei o que é essa  coisa de LOL, não acompanho todos os treinos… E se um dia ele perceber que eu sou a mãe que tenta, mas não consegue ser o suficiente?”

Thiago apertou o abraço, beijando a testa dela com carinho.

“Você não é ‘a mãe que tenta’. Você é a mãe dele. O Joui te procura quando precisa de colo, quando quer contar algo bom. Ele te abraça toda vez que chega em casa. Isso não é pouco, amor. Ele escolheu a gente. E ele escolheu te chamar de mãe todos os dias.”

Liz sentiu os olhos marejarem, mas não deixou as lágrimas caírem.

“Eu só queria ser melhor pra ele.”

“Você já é. Dia após dia. E ele sabe disso.”

Eles ficaram em silêncio por um tempo, só o som distante do jogo de Joui vindo do quarto dele. Liz se aconchegou mais no peito do marido, tentando absorver as palavras dele.

No dia seguinte, era sábado. Joui acordou cedo para treinar ginástica no quintal, como sempre fazia. Liz desceu e o encontrou alongando, o corpo forte e disciplinado para um garoto de quinze anos. Ele sorriu ao vê-la.

“Mãe! Quer me filmar fazendo o novo elemento que eu tô treinando? Quero mandar pro Kaiser depois.”

“Claro,” ela respondeu, pegando o celular.

Enquanto filmava, viu Joui concentrado, executando o movimento com precisão. Quando terminou, ele correu até ela, ofegante e sorridente, e passou o braço suado ao redor dos ombros dela.

“Viu como ficou? Acho que ficou bom. O que você achou?”

“Ficou incrível, filho. Você é muito talentoso.”

Joui deu aquele sorriso largo, do tipo que iluminava o rosto inteiro, e apertou o abraço.

“É porque você e o pai ficam me apoiando. Principalmente você, que aguenta minhas reclamações depois dos treinos ruins.”

Liz riu baixinho, mas por dentro o mesmo pensamento voltou: ele estava sendo sincero. Ele realmente a amava. Mesmo assim, enquanto ele pegava o celular para mandar o vídeo para Kaiser, ela não conseguiu afastar completamente a sensação de que ainda faltava algo vindo dela.

Liz chegou ao corredor, ainda de roupa de trabalho, com a intenção de avisar que tinha chegado. Mas parou no meio do corredor quando ouviu as vozes vindas da cozinha.

Era a voz de Joui, baixa, insegura, quase infantil de um jeito que ele raramente mostrava.

“Pai… e se o Kaiser não sentir a mesma coisa? Tipo, a gente fica perto o tempo todo, a gente se toca sem querer… mas e se for só coisa da minha cabeça?”

Houve um silêncio curto. Liz encostou a mão na parede, o coração acelerando.

“Não acho que seja só coisa da sua cabeça, filho,” respondeu Thiago, com aquela calma e carinho que ele sempre tinha. “Eu vejo o jeito como ele olha pra você. O garoto fica nervoso quando você chega perto, sorri diferente… É bem óbvio que ele gosta de você também.”

Joui soltou um suspiro longo, misturado com uma risadinha nervosa.

“Eu fico tão burro perto dele… Ontem ele encostou a perna na minha enquanto a gente jogava e eu esqueci completamente como se joga. Fiquei só pensando na mão dele no mouse quando ele me ensinou aquela jogada. Isso é ridículo, né?”

Thiago riu baixinho, mas com muito afeto.

“Não é ridículo. É normal. Você tá gostando de alguém pela primeira vez. É confuso, dá medo, dá frio na barriga… Eu passei por isso também na sua idade.”

“É que… eu nunca gostei de ninguém assim,” Joui continuou, a voz ficando ainda mais baixa. “Ele me entende, pai. Quando eu falo dos treinos ruins, ele não diz só ‘treina mais’. Ele me pergunta como eu me sinto. E quando eu tô ansioso antes de uma apresentação, ele me manda mensagem à noite só pra dizer que vai estar lá torcendo por mim. Eu… eu gosto muito dele. Tipo, muito mesmo.”

Liz sentiu o peito apertar tanto que doeu. Ela conseguia imaginar o rosto de Joui, vermelho, vulnerável, do jeito que ele ficava quando estava sendo completamente sincero.

Thiago falou mais baixo, quase como um segredo:

“Então aproveita isso, Joui. Seja honesto com ele quando achar que é o momento certo. E se precisar conversar mais, ou se der merda, ou se você ficar com medo… eu tô aqui. Sempre.”

“Eu sei, pai. Obrigado,” Joui respondeu, e Liz ouviu o som de um abraço, aquele barulho familiar de roupa amassando e palmada nas costas. “Às vezes eu penso que se não fosse você… sei lá. Acho que eu não conseguiria falar dessas coisas com ninguém.”

Liz deu um passo para trás, sentindo como se o chão estivesse sumindo.

Ela não conseguiu ouvir mais. Virou-se e subiu as escadas em silêncio, o coração batendo forte no peito. Entrou no quarto e fechou a porta devagar, encostando as costas nela.

As lágrimas vieram quentes e silenciosas.

Ele abre o coração pro Thiago.

Ele conta os medos, as borboletas na barriga, os toques “sem querer”.

Ele tem um porto seguro… e não sou eu.

Liz deslizou até o chão, abraçando os próprios joelhos. A dor era profunda, quase física.

Ela amava ver o quanto Joui confiava no pai. Amava que ele tivesse esse espaço seguro. Mas naquele momento, a insegurança a consumia inteira:

Eu sou a mãe que ele abraça, que ele diz “te amo”, que ele procura para carinho…

Mas não sou a pessoa pra quem ele conta que está apaixonado. Não sou a pessoa pra quem ele desabafa sobre o primeiro amor.

Minutos depois, ela ouviu passos leves subindo a escada. Joui parou em frente à porta do quarto dela, hesitou por um segundo, e bateu de leve.

“Mãe? Você chegou?”

Liz limpou o rosto rapidamente com as mãos, tentando controlar a voz antes de responder.

“Cheguei agora, filho. Já vou descer.”

Ela não desceu naquele momento. Precisava de mais alguns minutos para conseguir olhar para ele sem desmoronar.

Porque mesmo sabendo que Joui a amava,  mesmo sabendo que ele a procurava para abraços e carinho, a insegurança doía fundo:

Talvez ela nunca consiga dar tudo o que ele merece, queria ser a melhor pra ele, mas nem ela teve mãe por muito tempo, como iria conseguir fazer isso? 

Liz não conseguiu esperar muito tempo. Assim que Joui subiu para o quarto e fechou a porta, ela entrou no quarto deles e fechou a porta atrás de si. Thiago, que estava tirando a camisa para tomar banho, percebeu imediatamente que algo estava errado.

“Amor?” ele perguntou, franzindo a testa.

Liz ficou parada por um segundo, respirando fundo antes de falar. Sua voz saiu baixa, carregada de emoção:

“Eu ouvi vocês dois na cozinha agora há pouco.”

Thiago parou o que estava fazendo e sentou na beira da cama, dando toda atenção a ela.

“Ele te contou sobre o Kaiser… sobre estar gostando dele, sobre ficar nervoso quando eles se encostam, sobre o frio na barriga.” Liz engoliu em seco. “Ele abriu o coração inteiro pra você. E eu fiquei parada no corredor, ouvindo tudo.”

Ela sentou ao lado dele, as mãos tremendo levemente no colo.

“E o pior é que ontem, quando eu cheguei do trabalho, eu tentei puxar assunto com ele. Perguntei se as coisas entre ele e o Kaiser estavam diferentes, se eles estavam mais próximos… Joui mudou de assunto na mesma hora. Três vezes seguidas. Falou ‘não é nada, mãe’, ‘a gente só tá jogando’, ‘você tá estranha hoje’. Ele desviou o olhar o tempo todo, Thiago. Ele nunca fez isso comigo.”

Liz sentiu a voz falhar e os olhos encheram de lágrimas.

“Ele ouviu nossa conversa aquela noite, tenho certeza. Ouviu eu dizendo que me sinto insuficiente, que dói ver ele se abrindo mais com você. E agora ele tá se fechando comigo pra não me machucar. Meu próprio filho tá me protegendo de mim mesma… e isso tá me destruindo.”

Thiago puxou ela para os braços sem dizer nada no primeiro momento. Liz se deixou cair contra o peito dele, segurando a camisa dele com força.

“Eu me sinto tão excluída… Eu quero ser a pessoa pra quem ele conta essas coisas também. Quero que ele me diga que tá apaixonado, que tá confuso, que fica nervoso quando o Kaiser encosta nele. Mas ele escolheu você. E eu entendo o motivo, mas entender não faz a dor ir embora.”

Thiago acariciou os cabelos dela devagar, beijando o topo da sua cabeça antes de responder:

“Liz… o Joui te ama loucamente. Tanto que ele prefere engolir o que sente a correr o risco de te fazer sofrer mais. Ele é um menino de 15 anos vivendo o primeiro amor. É tudo muito novo, muito confuso pra ele. Comigo é mais fácil porque sou homem e ele acha que eu vou ‘entender melhor’ essa parte. Mas não significa que ele confia menos em você.”

Liz balançou a cabeça, ainda encostada no peito dele.

“Ele me olhou e disse ‘não é nada, mãe’… como se eu fosse uma estranha bisbilhotando a vida dele. Isso me quebrou.”

Thiago apertou o abraço, a voz firme e carinhosa ao mesmo tempo:

“Ele não te vê como estranha. Ele te vê como a mãe que ele não quer decepcionar ou entristecer. Você é o colo dele, o lugar seguro. Ele tem medo de te perder se te contar essas coisas agora. Mas ele vai se abrir com você, amor. Só precisa de tempo… e de ver que você consegue ouvir sem se culpar tanto.”

Liz ficou em silêncio por um longo tempo, apenas chorando baixinho contra o peito do marido.

“Eu só queria ser suficiente pra ele…” murmurou por fim.

“Você é mais do que suficiente,” Thiago respondeu, segurando o rosto dela com as duas mãos. “Você é a mãe dele. E ele sabe disso.”

Passadas umas duas semanas, Liz saiu mais cedo do laboratório. Uma reunião havia sido cancelada e ela decidiu fazer uma surpresa para Joui. Thiago ainda chegaria tarde, então ela parou no caminho e comprou o cheesecake de morango que o filho adorava.

Ao abrir a porta de casa, tudo estava silencioso. Silencioso demais. Ela deixou a bolsa e a caixa com o bolo na mesa da sala e subiu as escadas devagar, pensando em fazer uma brincadeira quando entrasse no quarto dele.

Mas quando chegou no corredor do segundo andar, ouviu sons abafados vindos do quarto de Joui. A porta estava entreaberta.

Liz parou. E então viu.

Joui e Kaiser estavam na cama dele. Não era só um beijo inocente. Joui estava por cima, beijando Kaiser com urgência, uma mão segurando o pescoço dele enquanto a outra deslizava por baixo da camisa do garoto. Kaiser tinha as pernas entrelaçadas nas de Joui, soltando suspiros baixos entre os beijos, as mãos apertando a cintura dele. Era intenso, quente, cheio de desejo adolescente.

Eles estavam se pegando de verdade.

Liz ficou paralisada na porta, sentindo o sangue descer do rosto. A caixa de cheesecake quase escorregou de sua mão. Ela deu um passo involuntário para trás e o chão rangeu.

Os dois se separaram imediatamente. Kaiser ficou branco como papel. Joui virou o rosto e congelou ao ver a mãe parada ali.

“Mãe…” a voz dele saiu rouca, assustada.

Kaiser murmurou algo incoerente, pegou a camisa que estava jogada na cadeira e praticamente correu para fora do quarto, passando por Liz sem conseguir olhar nos olhos dela.

O silêncio que ficou foi ensurdecedor.

Joui sentou na cama, passando as mãos pelo cabelo bagunçado, o rosto vermelho de vergonha e adrenalina. Ele ainda estava ofegante.

Liz entrou devagar no quarto e fechou a porta atrás de si. Sentou na cadeira da escrivaninha, de frente para ele. Nenhum dos dois conseguia falar por um tempo.

“Eu… eu não sabia que você ia chegar tão cedo,” Joui disse por fim, a voz baixa.

Liz respirou fundo, tentando manter a calma.

“Eu quis fazer surpresa.” Ela pausou. “Vocês… já fazem isso há quanto tempo?”

Joui mordeu o lábio, olhando para o chão.

“Algumas semanas. Não é a primeira vez.” Ele hesitou, depois completou: “Eu sou bissexual, mãe. Gosto de meninos e meninas. Mas… eu gosto mesmo do Kaiser.”

Liz assentiu devagar, processando. Depois de um longo silêncio, ela falou:

“Eu ouvi você conversando com seu pai aquele dia… sobre ele. Sobre o frio na barriga, sobre ficar nervoso quando ele encosta em você.”

Joui levantou o olhar rapidamente, surpreso.

“Você ouviu?”

“Ouvi.” Liz deu um sorriso triste. “E quando tentei perguntar sobre vocês dois, você me disse ‘não é nada, mãe’ várias vezes. Mudou de assunto toda hora.”

Joui baixou a cabeça novamente, envergonhado.

“Eu ouvi sua conversa com o pai também… quando você disse que se sente insuficiente, que dói porque eu conto mais pra ele do que pra você.” A voz dele ficou embargada. “Eu não queria te fazer se sentir pior, mãe. Por isso fiquei quieto. Eu não sabia como te contar que eu tô ficando com o Kaiser, que eu gosto dele, tipo, muito… Eu tinha medo de você se sentir ainda mais de fora.”

Liz sentiu os olhos marejarem. Ela se levantou e sentou ao lado dele na cama. Joui hesitou por um segundo, mas acabou encostando a cabeça no ombro dela, como sempre fazia.

“Eu te amo tanto, mãe…” ele murmurou. “Não quero que você ache que eu te amo menos só porque eu consigo falar certas coisas com o pai. É só que… isso ainda é muito novo pra mim. E eu não queria te deixar triste.”

Liz passou o braço ao redor dele e o puxou para um abraço apertado, beijando o topo da cabeça dele.

“Eu também te amo, Joui. Muito. E nada disso muda o quanto eu te amo. Nem você ser bissexual, nem você estar ficando com o Kaiser, nem você se abrir mais com o seu pai sobre algumas coisas. Não é por que você não saiu de dentro de mim que eu vou te amar menos em algum momento”

Ela fez uma pausa, a voz falhando um pouco:

“Mas me promete uma coisa? Não me protege de você. Eu posso me sentir insegura às vezes, eu posso errar… mas eu quero estar aqui pra você. Mesmo quando for sobre paixonites, beijos, ou o que for.”

Joui apertou o abraço, escondendo o rosto no pescoço dela.

“Eu prometo.”

Eles ficaram assim por um longo tempo. Liz ainda sentia o aperto no peito, a insegurança ainda presente, mas pela primeira vez em semanas, também sentia um alívio tímido.

Na sexta-feira à noite, Liz decidiu fazer um jantar em casa. Ela mesma preparou o frango assado com batatas que Joui adorava, fez uma salada e comprou sorvete de sobremesa. Era uma forma de mostrar que estava tudo bem. Que ela estava tentando.

Quando Kaiser chegou, tímido e claramente nervoso, Liz o recebeu com um sorriso sincero.

“Pode entrar, Kaiser. Fica à vontade.”

O garoto cumprimentou todo mundo com um “boa noite” baixo. Joui apareceu logo atrás dele, com um sorriso bobo no rosto que não conseguia esconder. Os dois trocaram um olhar rápido, cúmplice.

Na mesa, Thiago sentou ao lado de , que Liz sentou de frente para Joui e Kaiser ficou ao lado do namorado (ainda era estranho pensar nele como “namorado” do filho).

No começo o jantar foi um pouco tenso. Kaiser quase não comia, só mexia na comida.

“Está uma delícia, tia Liz…” disse ele, educado.

“Obrigada, Kaiser. Pode comer mais, tá bom mesmo,” respondeu ela, tentando ser acolhedora.

Joui, percebendo o nervosismo do namorado, colocou discretamente a mão sobre a coxa de Kaiser por baixo da mesa. Liz notou o movimento. Notou também como Kaiser relaxou um pouco com o toque.

Thiago, sempre bom em aliviar climas, começou a falar de futebol e depois puxou assunto sobre o clube de tecnologia da escola. Kaiser se soltou mais, explicando um projeto que estava fazendo com Joui. Os dois começaram a conversar animados, terminando as frases um do outro.

Liz observava tudo em silêncio.

Eles combinam tanto… pensou ela. O jeito como o Joui olha pra ele… nunca vi meu filho assim.

Em certo momento, Joui riu de algo que Kaiser disse e, sem pensar, inclinou-se e deu um beijinho rápido no ombro dele. Um gesto pequeno, natural. Kaiser ficou vermelho, mas sorriu.

Liz sentiu um aperto no peito. Era bonito. Era real. Mas também doía de um jeito que ela não conseguia explicar completamente, seu filhinho estava crescendo.

Thiago percebeu e apertou a mão dela por baixo da mesa, em apoio silencioso.

“Então, Kaiser,” Liz começou, tentando se inserir na conversa. “Seus pais já sabem… sobre vocês dois?”

Kaiser ficou um pouco tenso, mas assentiu.

“Minha mãe sabe. Meu pai ainda não. Ele é meio… exagerado. Mas vou contar em breve.”

Joui olhou para a mãe, como se testasse a reação dela.

“E você, mãe… tá tudo bem mesmo com isso?” perguntou ele, a voz mais baixa.

Liz respirou fundo. Colocou o garfo no prato e olhou para os dois garotos à sua frente.

“Eu não vou mentir que não foi uma surpresa. Ainda estou me acostumando. Mas eu quero que vocês sejam felizes. Os dois.” Ela olhou diretamente para Kaiser. “Você é bem-vindo aqui em casa sempre, Kaiser. Sem precisar se esconder.”

Kaiser sorriu, aliviado.

“Obrigado, tia Liz. Isso significa muito pra mim.”

Joui esticou o braço por cima da mesa e segurou a mão da mãe por um segundo.

“Eu te amo, mãe.”

“Eu também te amo, filho.”

O resto do jantar fluiu melhor. Houve risadas, piadas, Thiago contando histórias constrangedoras da época dele no colégio. Joui e Kaiser se cutucavam de leve, trocavam olhares, e de vez em quando Joui encostava o joelho no dele.

Liz sorria. Participava. Servia mais comida para todo mundo.

Mas por dentro, mesmo com todo o amor que sentia, a sensação ainda estava lá, mas agora era quase nula, ver o joui genuinamente feliz a deixava tranquila e cobria a insegurança.

Quando terminaram a sobremesa, Joui e Kaiser se ofereceram para lavar a louça. Enquanto os dois estavam na cozinha, rindo e jogando água um no outro, Liz ficou sentada à mesa ao lado de Thiago.

“Eles são fofos juntos, né?” Thiago comentou baixinho.

“São…” Liz respondeu, com um sorriso pequeno e triste. “Só preciso aprender a não me sentir tão de fora quando vejo isso.”

Thiago beijou o ombro dela.

“Você não está de fora, amor. Você está exatamente onde ele precisa que você esteja.”

Liz não respondeu. Apenas observou os dois garotos na cozinha, o filho dela feliz de um jeito que ela nunca tinha visto antes.

E pela primeira vez, mesmo sentindo aquela pontada familiar de insuficiência, ela também sentiu orgulho.