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A gente vai ser um clarão.

Summary:

Onde, depois de mais de dez anos, Olivier decide reencontrar seu pai, mas descobre que ele continua o mesmo homem desprezível.

ou

Onde Milo se torna a aceitação que ele não teve.

Notes:

obs: nessa au a Angelina e o Montel se divorciaram quando os irmãos Florence ainda eram criança.

(Also, eu, autore, não sou transmasc, então se a representação do Olivier não estiver muito realista, críticas construtivas são sempre aceitas!)

 

BOA LEITURA!!!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Olivier Florence nunca foi parte de algo.

Tinha sua mãe e a Amelie, claro, mas além disso? Sempre foi ele e apenas ele.

– Vamo Olivier, vai ser legal! Faz tempo que a gente não vê o Papá, você mal lembra dele!

– Nós dois sabemos que não é tão simples assim, Amelie.

Não se lembra muito do seu pai, não vê o mesmo a mais de dez anos, afinal. Mas, pelo tanto que já viu sua mãe chorar por ele, prefere não testar tais limites.

– Só hoje Olivier, vai... Se ele falar bosta eu juro que a gente vai embora na hora.

– Então você sabe que ele vai falar merda e mesmo assim quer ir?

– Olivier!

– Ué, você quem tá falando.

– Até a mãe falou que a gente deveria ver ele!

– Você acha que ela teria coragem de falar pra própria filha que o pai dela não presta?

– Bem, não—

– Então pronto, Amelie.

– Oli, por favor...

– Eu não confio nele.

A platinada suspira, sentando ao lado de Olivier na cama do mesmo.

– Maninho.

– Fala.

– Você não quer ir por que você tá com medo de se assumir pra ele?

 

Bingo.

 

A surpresa é visível no rosto do mais novo, que desvia o olhar.

Pelo canto da sua visão, o Florence consegue ver o rosto da mais velha de suavizando, o olhando com cuidado.

A mesma passa um braço pelos seus ombros, o trazendo para perto. Oliver coloca a cabeça no ombro da irmã.

– Olha Oli, eu sei que eu definitivamente não sou a melhor pessoa pra entender o que você ta sentindo, mas eu juro por tudo que é mais sagrado que se ele fizer UM comentário eu voo nele.

– Promete mesmo?

– Óbvio.

O mais novo estica o dedo mindinho para a platinada, que estende o próprio e sela a promessa.

– .... urgh, tá. Mas a primeira merda q ele fizer, eu to vazando.

Amelie abraça Olivier.

– OBRIGADA!!!!! Nem tive que te subornar, achei incrível.

– Como é?

– Nada!!

A Florence solta o irmão e levanta da cama do mesmo.

– Vou avisar pro Papá que você vai, então... Amanhã as 10:00, não esquece!

– Beleza. Fecha a porta do quarto quando for sair!

A garota sai quase que saltitando do quarto – e ignora o que Olivier disse, deixando a porta aberta.

Ele revira os olhos, levanta e a fecha.

 

 

Amelie bate na porta do quarto de Olivier.

– Olivier, cê já ta pronto? – ela bate mais forte. – Olivier, porra! Aí, foda-se, to entrando.

Ela abre a porta e vê o irmão ainda dormindo, sem qualquer preocupação.

– Olivier, vamo, acorda! Já é 10:15, cacete! – Ela chacoalha o mais novo na cama.

– To não...

– To não o que, porra? Vamo!

 

Olivier não inventou muita moda. Casaco, luva e calças pretas, camisa listrada em preto e roxo... Nada novo.

O Montel não merecia seu esforço.

No uber, apertava a mão da sua irmã forte, que apertava de volta como um lembrete de que ela estava ali com ele, sempre iria estar.

Não queria estragar esse momento.

Ele sabe o quanto isso é importante para Amelie, e ele quer ela bem, quer ela feliz.

Fazer ela ir embora do reencontro com o pai depois de mais de dez anos seria muito egoísmo da parte dele.

– É aqui mesmo, moço! – a voz de Amelie tira o Florence da sua mente.

Ao sair do carro, se depara com uma casa pequena, cinza e sem vida, mais uma de um grande padrão num de um complexo de residências.

Amelie levanta a mão para apertar a campainha, mas para no último segundo para olhar para o mais novo.

– Pronto, Oli?

Ele respira fundo uma última vez.

– Pronto.

Amelie aperta a campainha da casa, o som familiar soando.

– Papá? – ela chama, e uma figura familiar sai da porta de entrada da casa.

Montel Florence.

– Vocês vieram mesmo! – o homem abraça os dois jovens. – Vocês cresceram tanto, meninas... Ainda lembro de vocês pequenininhas. O tempo passa rápido, não? – Olivier aperta a mão de Amelie, tentando manter o sorriso educado em seu rosto. Montel faz contato visual com ele. – ■■■■■■■■■, minha filha, ta com um estilo diferente né? Hahaha! – Amelie força uma risada baixa, mas Olivier nem isso consegue. – Vamos, entrem, entrem!

Os irmãos adentram a casa, se sentando no grande sofá marrom da sala.

– Como nos velhos tempos, né, queridas? – Montel se senta numa poltrona de mesma cor ao sofá, sorrindo. – Vocês estão com quantos anos já? uns 18, 19...?

– 20 e 23, Papá. – a platinada responde, um fundo de desapontamento já sendo notável na sua voz.

– Ah, sim... Faculdade já, né? Essa idade de vocês é ótima, tem que aproveitar mesmo. Querem um café, chá...?

– Não, mas obrigada!

– Não, valeu...

Olivier se encolhe cada vez mais no sofá, passando seu celular de uma mão a outra e sempre evitando contato visual com o pai.

– você continua tímida como sempre, ■■■■■■■■■... – Montel fala, tentando olhar nos olhos do moreno, que continua desviando o olhar. – O que foi, filha?

– É que já faz tanto tempo, né, Papá... – Amelie passa um braço pela frente do mais novo, chamando a atenção do pai de volta para si. – Ainda tem muito gelo pra quebrar!

– Ah, sim, sim... Mas de qualquer forma, você sabe que pode falar comigo, ■■■■. Papá te ama, você sabe disso.

– É, eu só acordei cansado hoje—

– Cansado?

– Cansada, eu quis dizer cansada.

– Ah, ta... Então, o que eu perdi nesse tempo todo... Alguma festa, amizades, namorados..? Você tinha me falado daquela sua amiga semana passada, não é, Amelie? Era Bárbara?

– Sobre isso, Papá... – A platinada olha rapidamente para o mais novo. – Ela não é minha amiga, ela é... Mais que isso. Eu sou pan.

A expressão de Montel não mostra nenhum nojo ou raiva, incrivelmente, apenas surpresa.

– Você é daqueles jovens, GLS?

– É LGBT, Papá, mas sim. – Amelie responde, ainda com anseio.

– E eu posso conhecer essa Bárbara, então?

Os dois olham para o pai simultaneamente.

– Você não liga?

– Bem, eu não posso te impedir de nada. Essa menina é educada?

– Ela é incrível, Papá! Ela tem uma floricultura no centro, eu to trabalhando lá, aliás...

Percebendo que a atenção de Montel está inteiramente na mais velha, Olivier já não presta mais atenção na conversa.

Ele não é homofóbico? Honestamente, esperava menos dele. Muito menos.

Tinha claras memórias do pai chamando pessoas de "sapatonas" ou "viados". Até termos mais pesados, em alguns contextos. Mas pessoas mudam, não...?

Por mais humilhante que seja admitir, ele ainda queria – e queria muito – a aprovação do pai.

Ainda quer que olhem pra ele.

Mesmo que só uma vez.

Das poucas memórias que tinha do casamento dos seus pais, lembra de que Montel nunca foi de ligar pra família. Passava dias fora, dezenas de viagens a trabalho, e no pouco tempo que estava em casa, sempre estava cansado. Mas dai ele levava os filhos numa loja de brinquedos e deixava eles escolherem o que quisessem.

Olivier era pequeno, sim, mas lembrava de implorar para ser visto. Ele queria ser tão fascinante como os pintores que Montel tanto apreciava.

 

– Filha, pra que fazer essa bagunça toda?

A voz de Angelina ecoava no pequeno banheiro, o som da torneira aberta causando ruído enquanto a mãe limpava o rosto do pequeno, inteiro sujo de tinta.

– Eu to parecendo uma pintura, mamãe? Ou um quadro?

– Por que a pergunta, meu amor? – ela pergunta genuinamente confusa, gentilmente passando as mãos molhadas no rosto do filho e pegando alguns lenços de uma pequena caixa para seca-lo.

– Porque se eu parecer um quadro, o papai vai querer olhar pra mim também.

 

– E dai tem o Milo também, e tipo, eu, o Oli, a Bárbara e ele somos um quarteto, sabe?

A menção ao seu nome tira o Florence do transe em que ele se encontrava.

– Oli?

– É, o Olivier, pai! – A expressão da mais velha muda num instante que percebe o erro.

– Que Olivier, minha filha..?

– Eu, pai. – o moreno verbaliza, finalmente. – Eu sou o Olivier.

– Como assim, minha filha? – Montel ri, desconcertado.

– Eu sou trans, pai. Eu sou um menino.

A diferença de reação é clara; não há um pingo de felicidade no rosto de Montel.

– ■■■■■■■■, querida. Você sabe que eu e sua mãe te amamos e não é pouco. Não tem motivos pra isso.

– Como assim, pai? É quem eu sou—

– Não vem com essa. Eu sempre paguei sua pensão, eu sempre tentei te contatar e você quem não queria. Não tem um mínimo motivo pra você me decepcionar assim!

Olivier encara seu pai – não, seu genitor – em silêncio, as poucas palavras que ele consegue pensar em dizer se recusando a sair em voz alta.

– Eu sabia que a Angelina não ia saber criar vocês sozinha. Isso é resultado daquela escola pública que ela enfiou vocês, certeza.

– M-mas pai—

– Não. Sem mas, e eu não sou seu pai.

– Q-que?

Amelie se levanta. Agora que Olivier para a olhar, percebe o ódio puro nos seus olhos.

– Quem tu pensa que é, porra? Tu não vê seus filhos tem MAIS DE 10 ANOS, e quando você finalmente consegue encontrar eles, você age assim? Você é idiota? Esse tempo todo, a gente só queria ter uma chance de ter um pai que se importasse depois de tanto tempo, mas você nunca muda! Cada vez que eu te vejo, eu entendo mais por que a Mamãe te deu um pé na bunda!

Amelie sente um leve puxão na camiseta, e ao olhar para trás, vê seu irmão com os olhos inchados e lágrimas pelo rosto. Sempre esquece como Olivier chora baixo. A raiva no rosto dela some.

– A gente já vai. – a Florence passa um braço pelos ombros do irmão, que esconde seu rosto no ombro da mais velha.

– Você vai mesmo defender ela, Amelie?

– A gente. já vai. – Ela se vira para sair, abaixando e sussurrando no ouvido do moreno; – desculpa, Oli.

A dupla sai da casa de Montel, e Amelie puxa Olivier e o abraça forte.

– Eu não devia ter insistido pra você vir maninho, me desculpa, me desculpa... Eu coloquei o meu ânimo e a minha empolgação acima do seu conforto, eu fiz uma puta cagada... – O mais novo treme em seus braços, as lágrimas quentes molhando a camisa de Amelie. – Já acabou, a gente nunca mais vai olhar na cara dele. Desculpa. – Olivier apenas acena com a cabeça, sem forças para sequer tentar falar.

Os dois ficam mais algum tempo ali, na calçada da rua de Montel, até que o Florence se acalmasse, os carros passando ocasionalmente sendo o único barulho.

– Eu posso dormir no Milo hoje, Melie? – ele pergunta, a voz ainda mais baixa que o comum.

– Claro, Oli. Nem sei por que você perguntou, na real. – Ela sorri. – Eu coloco a casa dele como parada no Uber, então. Vai avisar ele que você tá indo?

– Ah, verdade.. Pera ai.

 

Milo 💙

eu: oi mb
eu: ta em casa?
eu: queria dormir ai hoje, se nao for problema

Milo 💙: Oi, Oli!!
Milo 💙: To em casa sim
Milo 💙: [respondendo a "queria dormir ai..."] Claro, você sabe que sempre é bem vindo aqui!

eu: obgd mesmo, meu amor
eu: te vejo daqui a pouco, então 🤍

['Milo 💙' reagiu com "❤️" a "te vejo daqui a pouco..."]

 

– Ele tá livre. – Olivier avisa Amelie, a voz já mais leve.

– Ok então, eu aviso a Mamãe.

 

O caminho de volta no Uber foi tão silencioso quanto o de ida, mas a energia entre os irmãos era diferente.

O nervosismo da ida era substituído com tensão, decepção e ansiedade. Nunca verbalizaram, mas os dois sabiam que nenhum deles esperava uma reação tão extrema de Montel.

– Tem alguma casa específica pra parada? – o motorista se vira e pergunta para Olivier.

– Ah, a pequena marrom, ali na frente.

O motorista para o carro e Olivier se despede da irmã e desce, se encontrando no lugar que ja considerava uma segunda casa, se lembrando também que não estava com a sua cópia da chave.

 

Milo 💙

eu: o Milo
eu: meu lindo
eu: minha flor
eu: eu deixei a chave em casa
eu: abre aqui pra mim vai

 

– To indo! – o Florence ouve aquela voz tão confortante e familiar chamando de dentro da casa.

Milo sai para o quintal, vestindo seu suéter de conforto azul junto de um par de calças de moletom. Com um pequeno molho de chaves, ele abre o portão da casa, deixando o namorado entrar.

– Oi, Oli! – o cacheado abraça Olivier. Ele percebe o inchaço e a vermelhidão no rosto do outro, mas prefere não comentar agora. – vamo lá pra dentro?

Milo pega a mão do mais velho e aperta, caminhando até a porta da casa e a abrindo. Ao entrar, os dois veem Bartô na sala, assistindo algo na TV.

– Oi, seu Bartô. – Olivier cumprimenta o sogro timidamente, que sorri e acena com a cabeça como resposta.

– A gente vai tar no meu quarto, tá Pai?

– Vai lá, filho. O Olivier vai dormir aqui, né?

– Vai... espero que não seja problema.

– Não, tudo bem, só pra confirmar.

O casal caminha até o quarto do Castello, que segura a porta para Olivier e fecha depois de os dois entrarem.

De imediato, Olivier se joga nos braços de Milo, afundando a cabeça no seu ombro e voltando a chorar. Nem percebeu as lágrimas se formando ou o tremor no seu corpo, mas de uma outra para a outra, era a única coisa que ele conseguia notar ou sentir.

– Deu tudo errado com o meu pai, Milo, tudo! – o Florence seca o rosto em vão, as lágrimas ainda caindo.

– Ei, ei, calma... Não quer sentar primeiro?

Milo caminha até a sua cama, dando dois tapinhas no lugar ao seu lado para que o outro se sentasse ali, o que ele faz. Olivier respira fundo antes de continuar falando.

– Eu fui burro, Milo. Eu deduzi que ele ia me aceitar. Agora aquele velho me odeia de vez!

– Mas você não tinha falado que a Amelie até contou da Bárbara pra ele?

– Ela falou primeiro da Bárbara como amiga, ela contou que é pan pessoalmente...

– E ele não aceitou ela?

– Sim, ele aceitou.

– Então por que só ela, e você não?

– Que?— Não, ele me aceitou bi. Esse não foi o problema... – Olivier respira fundo. – Eu sou trans, Milo.

Olivier se encolhe em si mesmo, temendo a reação de seu amado. Mas, ao olhar para o rosto do mesmo, ele se depara com... Confusão?

– Milo?

– ... Oli, me desculpa, mas eu não sei o que é isso.

– Hã?

– Sério... O que é ser trans? Eu não sei mesmo, desculpa.

– Não, não, tudo bem... Uma pessoa trans é uma pessoa que nasceu com um gênero, mas se identifica com outro. Ou seja, eu, biologicamente falando, sou mulher, mas eu me vejo como um garoto.

O peito de Olivier se enche com receio e medo. Se nem seu próprio pai o aceitou, por que Milo iria? Era óbvio, ele nunca se livraria daquela maldição. Sempre seria só um imã de ódio gratuito, tudo isso por três cores em uma bandeira que ele carrega.

– Ah. Faz sentido.

Olivier levanta o olhar para Milo.

– Você... Não liga?

– Oli, por que eu me importaria? Isso explica algumas coisas, sinceramente, mas eu não poderia me importar menos.

– Ah...

O Florence nem percebe que voltou a chorar, apenas sentindo as gotas quentes escorrendo pelo seu rosto. Milo o abraça de novo, o que ele retorna.

– Ta tudo bem, Oli. Já acabou, você não tá mais perto dele. Você ta aqui, comigo, seguro. Eu não vou te deixar, eu não vou te soltar... Eu te amo, meu amor. – O cacheado sussurra e planta um beijo na testa do mais velho, que ainda chora, mas bem mais calmo do que quando ele chegou. Ele solta o abraço, colocando uma mão na bochecha do namorado. – Vou fazer um chá pra gente, tá? – Olivier acena com a cabeça. – Já volto.

Milo sai do quarto e fecha a porta atrás de sí, deixando Olivier sozinho, que pega o celular para ver as notificações.

 

[nova mensagem de 'Mãe]

Mãe: Oi filho
Mãe: A Amelie me contou do que deu com o Montel. Eu sinto muito, muito mesmo
Mãe: Ela também me falou que você vai dormir ai no Milo
Mãe: Só me avisa quando estiver voltando. A mãe te ama!

eu: Oi mãe!!!
eu: [respondendo a "a Amelie me contou do..."] Eu já to um pouco melhor agora, não se preocupa
eu: [respondendo a "Só me avisa quando..."] Claro!!!
eu: Também te amo muito!!!!!

 

O mais novo volta para o quarto, empurrando a porta com o ombro por estar com as duas mãos ocupadas segurando as xícaras de chá. Ele entrega uma das xícaras para Olivier, deixando a porta entreaberta e se sentando ao lado do mesmo.

– É do que?

– Camomila. Você falou a um tempo atrás que era seu favorito.

– É mesmo... Só você pra lembrar dessas coisas. – Ele ri baixo e dá um gole no chá.

– Claro que eu vou lembrar, por que não lembraria?

– Se duvidar, nem eu lembrava!

O casal ri e passa alguns minutos nesse silêncio confortável, com o Florence apoiando a cabeça no ombro do cacheado, os dois simplesmente aproveitando o calor que o chá trazia, compensando o clima frio. Milo, então, quebra o silêncio.

– Oli... Você pode me explicar mais sobre isso de você ser trans? Se não for problema.

– Ah.. – Olivier sorri, tirando a cabeça do ombro do mais novo para fazer contato visual com o mesmo mais confortavelmente. – Posso, claro! Tem alguma coisa específica que você queira saber?

– Como você se descobriu? Deve ser diferente de descobrir sexualidade, não?

– Incrivelmente, uma das pessoas que mais me ajudou foi a Amelie. Mas desde pequeno eu tentava parecer um menino e nos meus sonhos eu sempre era um. Dai um dia ela só sentou comigo e perguntou mais sobre, explicou o que era transgeneridade... Nem em outra vida eu vou conseguir demonstrar o bastante o quão grato eu sou por ela ter vindo falar comigo sobre isso.

– Entendi...

– Tem mais alguma pergunta, meu lindo?

– Muito aleatório, mas isso tem algo a ver com os timers e alarmes que você sempre deixa no seu celular?

– Na real, tem sim... Você sabe o que é um binder? – Milo nega com a cabeça. – Ok. Então, é um negócio que eu uso por debaixo da camiseta, pro meu peito ficar liso... É tipo uma peça de roupa, mesmo. Mas como ele aperta o peito, tem um tempo que se pode usar por dia e coisas que não se pode usar no geral, como pra dormir ou fazer atividade física. Os timers são pra eu não esquecer de tirar.

– Faz sentido.

– Tá, minha vez de perguntar agora. Por que você falou que "isso explica muita coisa" mais cedo? – Olivier pergunta, provocando mas ao mesmo tempo genuinamente curioso.

– Ah, coisas soltas que eu percebia mas não comentava, como você sempre ter absorvente e remédio pra cólica na mochila quando a Bárbara ou a Amelie precisam, eu nunca ter visto você sem camisa... coisas assim.

– Saquei. Já acabou seu chá, também? Deixa que eu levo.

O Florence pega a xícara da mão do seu amado, saindo do quarto e os deixando na pia – se sentia mal por fazer isso, mas, mesmo que não assumisse, tinha vergonha de tirar sua luva com Bartô perto, mesmo que o mesmo não olhasse.

Ele volta para o quarto , fechando então a porta, subindo novamente na cama com o namorado e cobrindo ele e a si mesmo com o cobertor.

– Amor? – Olivier sussurra.

– Eu, meu bem.

– Tem problema se a gente cochilar um pouco?

– Pfft, Oli, é meio-dia!

– E dai? Eu já aprendi a tradição Castello, bateu 11 horas, vocês já tão almoçando. Rapidinho, vai...

– Tá, mas você acabou de me falar que não se pode usar um binder pra dormir. Você tá com um?

– Merda. Eu sempre esqueço que eu não consigo mentir pra você. – O mais velho senta na cama, revirando os olhos ironicamente.

– Quer que eu vire pra parede?

– ... Pode ser.

O Castello se vira na cama, encarando a parede em que sua cama é encostada.

Olivier respira fundo e se vira de costas para o mais novo. Casaco, camisa, binder. Camisa, casaco. Tenta seguir a ordem o mais rápido possível. O mais velho então dobra o binder e o coloca na mesa de cabeceira do namorado.

– Feito... Pode olhar.

Os dois se viram quase que simultaneamente, fazendo contato visual.

O Florence então se deita de novo, abraçando Milo e apoiando o rosto no seu pescoço.

– Vai dormir com a roupa da rua, Oli?

– Preguiça.

– Pfft...

Milo beija o topo da cabeça do seu amado, o abraçando com mais força.

– Te amo.

– Te amo.

Os dois sussurram um pro outro, então cedendo a um sono que mal perceberam chegar.

Notes:

obrigada por ler. ♡