Actions

Work Header

loss of my life

Summary:

"Você disse que era ruim", Lorena conseguiu responder com a voz rouca, após uma pausa um tanto longa.

Zenilda assentiu com a cabeça, encarando o teto por um instante, a garganta oscilando enquanto seus lábios se curvavam em um sorriso irônico. "Estou morrendo. Câncer de pâncreas em estágio quatro."

“Quanto tempo você tem?”

“Um mês, talvez dois.”

"Ah."

-

Ao retornar para casa pela primeira vez em doze anos e receber a notícia de que sua mãe está morrendo, a última coisa que Lorena deseja é encontrar sua melhor amiga de infância, com quem não fala desde que deixou Ilha Cumprida tantos anos atrás. Principalmente porque essa amiga foi o motivo pelo qual Lorena jurou que nunca mais voltaria para casa.

Ainda carregando a mágoa do amor e da rejeição da adolescência, bem como a pressão de sua carreira insatisfatória e o ressentimento em relação à mãe, a vida de Lorena é interrompida quando ela é forçada a confrontar anos de sentimentos reprimidos e a verdade sobre o que realmente deseja da vida, enquanto espera a morte de sua mãe.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Chapter Text

          A tela do celular iluminou a escuridão do loft em Knightsbridge e Lorena se virou ao ouvir a vibração irritante no criado-mudo, afastando os cobertores e estendendo a mão para pegar o telefone. Ela tinha acabado de se deitar, o ruído abafado de Londres infiltrando-se pelas janelas enquanto a meia-noite se aproximava, pensou que seria um de seus casos ligando, completamente chapada de alguma festa, procurando por um encontro casual. A visão do nome de sua mãe na tela a fez parar.

            Ela não se lembrava da última vez que havia falado com a mãe ao telefone. Havia uma troca mensal de e-mails, links para críticas e depósitos ocasionais na conta bancária de Lorena feitos por Zenilda, além dos encontros presenciais nas noites de estreia das apresentações de Lorena, mas mesmo assim, faltavam algumas semanas para a estreia de O Quebra-Nozes na Royal Opera House. Um telefonema inesperado foi uma surpresa, para dizer o mínimo, e Lorena pensou em ignorá-lo.

            Com os dentes rangendo, ela observou o telefone tocar e, pouco antes de imaginar que sua mãe desligaria, atendeu, pressionando o aparelho contra a orelha. Houve um momento de silêncio enquanto nenhuma das duas falava, a linha preenchida por um silêncio, e então Lorena inspirou superficialmente.

           "Alô?"

           "Ah, você atendeu. Pensei que talvez estivesse ligando muito tarde."

           "Quer dizer… já é tarde, mas tudo bem. Eu ainda não tinha dormido"

           "Certo, bem, não vou te tomar muito tempo."

           "Tudo bem, é só que... não é do seu feitio ligar", disse Lorena com um sorriso irônico.

           A risada aguda e familiar da mãe chegou até ela, e um músculo se contraiu na bochecha de Lorena enquanto ela saía da cama, caminhando até uma das janelas. "Achei que seria melhor por telefone do que por e-mail."

           Elas mergulharam em silêncio e Lorena pôde ouvir um ruído branco ao fundo, um som monótono de bipes que só podia vir do Hospital Geral de Ilha Comprida. Era um hospital pequeno, frequentado principalmente por turistas ricos que dirigiam até a cidadezinha costeira para visitar suas casas de veraneio com telhados de madeira à beira-mar, mas Zenilda sempre parecia passar uma quantidade excessiva de tempo lá durante a infância de Lorena.

           "Estou no hospital", disse Zenilda após um longo minuto.

           "Como assim, você está no trabalho ou…?"

           "Não, não no trabalho."

           "Ah. Quão ruim é?"

           "Muito."

           Houve uma pausa enquanto Lorena tentava processar as palavras, a boca abrindo e fechando, a palma da mão úmida em volta do telefone pressionado contra a orelha. Um nó se formou em sua garganta e ela conseguia ouvir o ruído da linha em meio às batidas fortes do coração enquanto tentava formular uma resposta. Sua garganta estava muito apertada, sua laringe doía enquanto ela se esforçava para falar apesar da sensação.

          "Sei que você está ocupado com os ensaios, mas… eu esperava que você pudesse vir e ficar. Há algumas coisas que preciso resolver e… gostaria que você pudesse estar aqui para isso."

          Lorena fechou os olhos, esfregou a testa e, tentando assimilar o que a mãe dizia, permaneceu em silêncio. Sentia o coração na garganta, uma estranha dormência a invadindo enquanto permanecia em frente à janela, o frio penetrando com o rangido do radiador. Piscou rapidamente, tentando falar, a boca abrindo e fechando sem que nenhuma palavra se pronunciasse. Após um minuto tenso, Zenilda quebrou o silêncio.

           "Lorena?"

            "Preciso ir", disse Lorena com a voz rouca, afastando rapidamente o telefone da orelha e desligando.

            Virando-se, pressionou a palma da mão contra a testa, sentindo-se trêmula enquanto seu estômago dava um nó. Sua garganta estava seca, o gosto de pasta de dente de menta persistia, e ela respirava superficialmente enquanto se afastava, com os pés machucados doendo. O loft estava silencioso, seu quarto espaçoso escuro, e ela hesitou, incerta, naquele espaço aberto antes de acender o abajur e se jogar na cama. 

            Com os joelhos flexionados e os pés apoiados na beirada do colchão, Lorena passou a mão pelos cabelos e refletiu profundamente sobre o assunto por um instante. Tinha ensaios pela manhã, era bailarina principal do Royal Ballet e faltavam algumas semanas para a estreia do espetáculo de Natal. O fato de Zenilda lhe pedir para voltar para casa, para um lugar onde Lorena não pisava desde os dezoito anos, só lhe fazia imaginar o quão ruim a situação devia ser. 

            Levantando-se novamente, Lorena moveu-se pelo apartamento com a graça tranquila de quem dançou a vida toda, pegou um maço de cigarros da mesa de jantar e foi até uma janela. Abrindo-a, o ar poluído e tempestuoso invadiu o ambiente. Ela procurou o isqueiro às pressas e deu uma tragada; o efeito da nicotina quase a acalmou. Sentou-se na beirada da janela e soltou a fumaça na noite. O barulho do trânsito estava mais alto com a janela aberta, as luzes da cidade lançando um brilho tênue sobre o bairro. Ela segurou o cigarro entre os dedos e esfregou a testa. 

            Refletindo sobre o assunto por uma hora enquanto fumava um cigarro atrás do outro, ela estava pálida e cansada, encarando os dedos dos pés enfaixados, as unhas rachadas com manchas de sangue por baixo, hematomas irregulares, calos e bolhas nas pontas, tudo testemunho de anos de dedicação. Ela tinha acabado de fazer trinta anos e era a bailarina mais bem paga do mundo, tão aclamada por sua habilidade técnica e artística que era uma das poucas a ser considerada uma prima ballerina assoluta, um talento único na vida. Ela havia dançado com todas as principais companhias e estava escalada para assumir o papel da Fada Açucarada em sua próxima apresentação, mas agora sua mãe havia atrapalhado seus planos e Lorena estava dividida entre a rotina monótona de ensaios, apresentações, bebedeiras e transar com todas as mulheres disponíveis na companhia que compunham sua vida insatisfatória, ou a perspectiva aterradora de voltar para casa e ver sua mãe. 

            Uma e quinze da manhã, ela mordia as cutículas, um cigarro fumegando até virar uma coluna de cinzas enquanto ouvia o tom de discagem. Foram necessárias duas ligações antes que atendessem, o som estrondoso de música alta ao fundo, a voz de um inglês impecável se sobressaindo.

            "Olá?"

            "Jack. Precisamos conversar; você pode ir para um lugar mais tranquilo?"

            Deslizando para fora do parapeito da janela, apagando o cigarro no cinzeiro quase transbordando enquanto soltava uma baforada de fumaça e abanava o ar à sua frente, Lorena fechou a janela com força. Ouvindo o som ininteligível da voz dele se misturar à música, ela voltou para o quarto, tirou uma grande mochila do armário, colocou-a sobre a cama e abriu as gavetas.

            "Alô? Melhor assim? Lorena?”

            "Sim, tudo bem. Olha, eu sei que o momento é péssimo, provavelmente a última coisa que você quer ouvir-"

            "Você não torceu o tornozelo, né?" ele resmungou. "Seja lá o que for, por favor, não me diga isso."

            "Preciso ir para casa por um tempo."

            "Você acabou de dizer que vai para casa? Que porra você quer dizer com isso?”

            Engolindo em seco, Lorena fez uma careta enquanto continuava a jogar roupas íntimas, leggings e blusas por cima do ombro. "Eu sei que não é o ideal, mas minha mãe está doente. Não sei por quanto tempo ficarei fora..."

            "Não, não, não. Por favor, não diga essa merda, pelo amor de Deus. Faltam duas semanas para a estreia.”

            "Desculpe", respondeu Lorena, cansada, caminhando até seu armário, tirando calças jeans dos cabides, camisas de botão masculinas e casacos quentes. "Eu sei que é em cima da hora e uma baita sacanagem, mas eu preciso ir e-"

            "Duas semanas, Lorena", Jack enfatizou suavemente antes de soltar um palavrão.

            "Não é como se a Maggye e Lucélia não tivessem ensaiado para o papel. Vai dar tudo certo. Talvez eu volte na semana que vem; vou ensaiar o máximo possível enquanto estiver lá."

            "Com qual parceiro? Você é a minha estrela! Ninguém vem a Londres só por causa dos outros.”

           "Jack”, Lorena o advertiu gentilmente. "Não me importo; não é minha responsabilidade resolver isso, essa é a sua. Eu aviso se voltar."

            Ao desligar o telefone enquanto ele tentava argumentar, ela jogou o celular na cama e começou a dobrar tudo cuidadosamente na mala, hesitando sobre o equipamento de balé, mas acabando por levar sapatilhas de ponta e roupas de ginástica. Vestindo uma blusa de gola alta preta e jeans, ela carregava um casaco acolchoado debaixo do braço e reservou um voo direto para São Paulo, na primeira classe da British Airways, com partida em três horas, o que dava a Lorena pouco tempo para ir ao aeroporto de Heathrow despachar a bagagem. 

            Calçando os tênis de corrida e amarrando os cadarços, ela encheu os bolsos com coisas importantes — cigarros, isqueiro, chaves, óculos de sol, carteira, celular, passaporte — e revirou o banheiro antes de pedir um Uber e descer três lances de escada carregando tudo. O asfalto estava molhado e ela lutava com o zíper do casaco enquanto acompanhava o trajeto do carro, um Tesla branco vindo em sua direção. Seus olhos ardiam de exaustão depois de dez horas de treino o dia todo e agora uma noite em claro para piorar a situação.

            Conferindo a placa do carro branco que parou junto ao meio-fio, ela deixou o motorista jogar sua mala desproporcionalmente pesada no porta-malas e entrou no banco de trás. Eles estavam se movendo rapidamente pelo trânsito matinal de Londres e Lorena relaxou no banco, repassando a breve conversa com a mãe e pensando se deveria mandar uma mensagem avisando que estava a caminho, antes de desistir da ideia. Quarenta minutos depois, após um pequeno atraso devido a um acidente na M4, ela foi deixada no terminal e estava carregando a mala para dentro. 

            Ao fazer o check-in para o voo, ela passou pela segurança depois de fumar mais um cigarro do lado de fora e outro em um bar do aeroporto, enquanto tomava uma taça de vinho tinto. Tirou os sapatos e o casaco ao passar pelo scanner e recuperou seus pertences do outro lado. Comprou outra taça de vinho e mexeu no isqueiro BIC azul barato antes de desaparecer lá fora para fumar mais dois cigarros antes do embarque.

            O aeroporto estava repleto do zumbido baixo de atividade, pessoas apressadas para seus portões de embarque, uma voz anasalada anunciando quais portões estavam fechando e figuras esparramadas no chão acarpetado enquanto tentavam passar o tempo entre longas escalas. Lorena encontrou seu portão de embarque e sentou-se em frente a um homem que lia um jornal. As luzes fluorescentes estavam excessivamente brilhantes enquanto ela esticava as pernas e abria 'Wuthering Heights' de Emily Brontë, livro de bolso que comprara na WHSmith, junto com um pacote de refeição. Ela havia jantado pouco ontem e beliscado o sanduíche enquanto tentava, ainda sonolenta, terminar o primeiro capítulo de seu livro. 

            Lorena tinha sentimentos contraditórios em relação aos aeroportos. De certa forma, ela apreciava o anonimato, a mistura de idiomas e pessoas, o fluxo constante de pessoas, a imensidão dos saguões, as opções de comida e o tempo livre para ler um livro ou passear pelas lojas. Por outro lado, era uma experiência cansativa, que vinha de sua infância e dos intermináveis ​​voos rápidos de Ilha Comprida para São Paulo para as aulas de balé, depois de ter sido admitida na SPCD (São Paulo Companhia de Dança). Eram vinte e sete minutos de voo de Ilha Comprida para São Paulo, três vezes por semana desde os seis anos de idade. 

            Quando chegou a hora do embarque, ela jogou o sanduíche meio comido na lixeira, e foi direto para o balcão. A Primeira Classe era espaçosa e ela se sentou em seu assento reservado ao lado da janela, afivelou o cinto de segurança e fechou os olhos, esperando os outros passageiros embarcarem. Passaram-se mais trinta minutos até que as portas se fechassem e começassem os preparativos para a decolagem. Lorena se sentia inquieta enquanto permanecia sentada, rígida. Tirando os AirPods do bolso do casaco, ela os colocou e ligou a música no modo aleatório, esperando que as próximas doze horas passassem rápido.

            A decolagem foi um pouco instável e Lorena agarrou os braços da poltrona, receosa de voar mesmo nas melhores circunstâncias, e puxou a persiana da janela assim que decolaram, sentindo o avião inclinar para a direita enquanto um bipe suave anunciava o desligamento do sinal de apertar os cintos. Ela manteve os cintos bem afivelados e tomou um gole da água que lhe foi oferecida, junto com um copo de uísque de plástico. Cansada, Lorena fechou os olhos e sentiu o efeito lento do álcool em suas veias, suas pálpebras ficando pesadas enquanto o som suave de The Smiths chegava aos seus AirPods e a embalava para dormir na primeira hora de viagem.

            Oscilando entre o sono e a vigília, ela estava irritada e exausta quando o avião pousou no Aeroporto de Guarulhos. Parte disso podia ser atribuída ao longo período sem cigarro, e Lorena estava ansiosa para desembarcar assim que a aeronave parou lentamente. Desembarcando primeiro, com o casaco acolchoado fechado e os óculos de sol Prada escondendo boa parte do rosto, ela caminhou rapidamente até a área de retirada de bagagens e esperou impacientemente que sua pesada mala aparecesse antes de arrastá-la pela alfândega até um ponto de táxis. Chamada pelo primeiro que a viu, ela entrou no banco de trás e aspirou o forte aroma de pinheiro que vinha do retrovisor enquanto o motorista abria o porta-malas e entrava no carro. O motor roncou e ela indicou a rodoviária como o local do seu destino.

            Após quarenta minutos presa no trânsito, ela finalmente chegou ao seu destino, a meros dezesseis quilômetros de distância, fumando à beira da estrada enquanto esperava o próximo ônibus. Um pequeno grupo de outros passageiros estava na fila, alguns com pranchas de surfe, malas volumosas e sotaques estrangeiros. Lorena pagou em dinheiro a bordo depois de guardar sua mala no bagageiro do ônibus, encontrar uma fileira vazia perto do fundo e se acomodar junto à janela. 

            Logo, o asfalto esburacado passou pela janela dela, as calçadas lotadas de pedestres rapidamente dando lugar à Rodovia Régis Bittencourt. A viagem durou pouco mais de três horas e eles seguiram lentamente enquanto Lorena tentava dormir, a cidade de São Paulo dando lugar a vilarejos litorâneos e mansões reluzentes em meio a restaurantes típicos de cidade pequena e boutiques locais. Fizeram várias paradas, principalmente por entre pinheiros e carvalhos à esquerda, enquanto percorriam a estrada costeira até finalmente pararem em Ilha Comprida. Alguns milhares de moradores viviam amontoados no pequeno vilarejo à beira-mar, sustentados pelos turistas que afluíam por lá, enquanto simultaneamente sofriam com os preços inflacionados do turismo, já que não conseguiam mais comprar as casas de madeira típicas da região. 

            Ao descer do ônibus, Lorena pegou sua mochila e respirou fundo, sentindo o ar salgado enquanto olhava ao redor. Carvalhos, pinheiros e ipês ladeavam a estrada, e ela podia ouvir o som das ondas quebrando ao leste, escondido atrás das árvores, mas familiar mesmo assim. Era estranhamente familiar. Ela não voltava à Ilha Comprida havia pouco mais de uma década, mas a nostalgia de retornar à sua cidade natal como adulta de repente a deixou enjoada. O ar frio arranhou sua garganta enquanto ela permanecia parada na beira da estrada por mais alguns minutos, o ônibus partindo sem ela, antes de procurar nos bolsos o isqueiro BIC e um maço de cigarros pela metade, acendendo um e soltando a fumaça antes de jogar a mochila nas costas e seguir pela estrada.

            Doze anos se passaram e seu fantasma retornou. Tudo, das imagens aos cheiros e sons, lhe causava uma dor aguda no peito, e ela se perguntava se a sensação seria a mesma ou se já não a havia superado. Caminhando lentamente, suando rapidamente com o peso da mala abarrotada, em forma graças às horas de ensaios e pilates, mas com a cabeça leve de fome e exaustão, ela virou em ruas que não haviam mudado nada. Levou meia hora para ir do ponto de ônibus até a casa de sua infância, mas de repente ela surgiu por entre as árvores, situada em um grande terreno. 

            Era uma casa colonial robusta, de madeira branca, com portas e venezianas pretas, telhado de telhas cinzentas e o gramado impecavelmente cuidado. O Mercedes bordô da mãe ainda estava estacionado na entrada da garagem. Procurando as chaves, Lorena encontrou a antiga que guardava no mosquetão há anos e entrou pela porta da frente. O cheiro de madeira antiga e lustra-móveis com aroma de limão a recebeu; o piso envernizado e brilhante enquanto ela permanecia na entrada, observando uma planta murcha. Tudo estava exatamente como ela havia deixado anos atrás: o sofá de couro marrom e a poltrona combinando na sala de estar, obras de arte emolduradas e fotos de família nas paredes e na lareira, o jogo de xadrez na mesa de centro, um piano vertical encostado na parede do fundo, intocado desde que seu irmão havia partido e, posteriormente, falecido. Havia muito pouco que parecesse pessoal: nenhuma xícara de chá espalhada, nenhuma correspondência na mesa de entrada, nenhum sapato perto da porta. Zenilda nunca fora o tipo de mãe que tolerava bagunça, nem mesmo ímãs de alfabeto na geladeira da cozinha para pendurar desenhos feitos com os dedos ou cartões caseiros para o Dia das Mães.  

            Após um instante, Lorena se livrou daquela sensação desconcertante de voltar a ser criança e foi em direção às escadas. Carregando a bolsa, virou à esquerda no topo da escada e caminhou até a porta à direita, no final do corredor, que se abriu revelando seu quarto de infância. As paredes ainda eram revestidas com papel de parede rosa, desbotado por anos de luz solar filtrada pelas cortinas de veludo entreabertas. Os móveis eram de madeira escura, tradicionais, como o resto da casa, e havia alguns toques femininos que tornavam o ambiente menos austero: roupa de cama rosa, um banquinho de veludo em frente à penteadeira e, para o desgosto de Lorena, as gravuras voyeurísticas das famosas pinturas de bailarinas de Degas, que sempre lhe pareceram um pouco inadequadas para um quarto infantil. 

            Largando a bolsa no banco aos pés da cama, Lorena olhou em volta, a visão de si mesma no espelho da penteadeira causando-lhe desconforto. Ela estava tão velha agora, mas aquele ainda era o quarto da garota que crescera ali, até ser enviada para Londres aos dezesseis anos, onde passou a maior parte do ano. Não havia sinal dos pôsteres da Britney Spears de Lorena, e dos livros de poesia que ela secretamente apreciava, sabendo que seu futuro era o balé, não a literatura.

             Com a boca um pouco seca, ela não se demorou muito no quarto, voltando rapidamente para o andar de baixo e ignorando as chaves do carro da mãe no pequeno prato em cima do console. Lorena caminhava para quase todos os lugares, o máximo que podia. Ela tinha carteira de motorista, é claro, mas o exercício sempre lhe fazia bem. Saindo para a tarde cinzenta, ela começou a percorrer o caminho familiar até o pequeno hospital.

            Vinte minutos depois, ela chegou ao pequeno hospital comunitário. Era pouco mais que um pronto-socorro, um prédio administrativo, um centro de atendimento de urgência, uma enfermaria geral e alguns quartos particulares, com uma equipe composta por alguns médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde. Quando era mais jovem, ela costumava frequentá-lo, acompanhando a mãe quando Zenilda era chamada para uma consulta, ficando sozinha no escritório com... 

            Essa linha de raciocínio fez Lorena parar abruptamente, e ela rapidamente escolheu um caminho diferente ao se aproximar. Ilha Comprida tinha apenas uma ambulância quando ela partiu, e qualquer cirurgia ou diagnóstico grave era encaminhado para um hospital maior, mais bem equipado para essas situações. Sempre intrigara Lorena como Zenilda ousara permanecer em uma cidade tão pequena, trabalhando como médica por uma fração do salário que ganhava antes de os Ferette se mudarem, antes de Lorena voltar para casa. Depois de crescer e compreender melhor a infidelidade do pai e as circunstâncias de seu nascimento, tudo fez mais sentido, mas quando Santiago Ferette morreu, Lorena pensou que Zenilda também iria embora.

            Ao se aproximar da porta do pronto-socorro, ela parou do lado de fora e ponderou sobre mais um cigarro antes de decidir encarar a situação. Endireitando os ombros, sentindo-se lamentavelmente despreparada para ver a mãe — um ato que nunca terminava bem —, Lorena entrou no prédio silencioso. As luzes fluorescentes refletiam no piso de linóleo e incomodavam seus olhos enquanto ela tirava os óculos escuros, com as mãos nos bolsos, caminhando rapidamente pelo corredor até parar no posto de enfermagem.

            "Com licença, vim ver a Dra. Ferette. Poderia me dizer onde ela está?", perguntou Lorena em voz baixa ao homem sentado à mesa.

            "Desculpe, a Dra. Ferette não está atendendo pacientes no momento. Se você tinha uma consulta agendada, já deve ter recebido informações para remarcar, caso contrário-"

            "Não estou atrás de uma consulta, eu estou-"

            "Meu Deus, Lorena Ferette, olha só para você!" exclamou uma voz suavemente.

            Com a voz embargada, Lorena se virou com apreensão  e certa surpresa, ficando cara a cara com a Dra. Violeta Fragoso pela primeira vez em mais de uma década. Lorena piscou, observando os cabelos castanhos começando a ficar grisalhos, a camisa listrada de botões por dentro da calça jeans azul, o estetoscópio no pescoço e o sorriso caloroso no rosto. Sem palavras por um instante, ela ficou imóvel enquanto a Dra. Fragoso abria os braços, radiante, aproximando-se dela. 

            "Meu Deus, veja como você cresceu!" disse Violeta, acariciando o rosto de Lorena com as mãos.

            "Doutora Fragoso, eu... como a senhora está?", perguntou Lorena, atordoada.

            "Bem. Como você está? Sua mãe não me avisou que você viria."

            Com a boca abrindo e fechando, a garganta seca, o corpo úmido e a consciência excessiva do forte cheiro de tabaco, Lorena pigarreou, sem muito sucesso. Alisando o coque já impecável, Lorena tentou novamente. 

            "Hum, estou bem, eu... bem, ela me pediu para vir, eu só... eu não tenho muita certeza..."

            Com delicadeza, Violeta passou um braço em volta de Lorena e a conduziu para longe do posto de enfermagem, assentindo com um gesto de compaixão. "Eu a levarei até ela."

            Sem saber o que dizer ou se deveria pedir mais informações antes de ver a mãe, Lorena fechou a boca e assentiu. Violeta não disse muito enquanto caminhava alguns passos à frente de Lorena; o hospital era pequeno o suficiente para que levassem apenas alguns minutos e duas portas trancadas para chegar ao quarto particular onde Zenilda estava. A porta estava entreaberta e Lorena parou quando Violeta passou à frente, espiando para dentro e conversando baixinho com a colega.

            Ao se afastar, ela se virou para Lorena, parando por um instante para lançar-lhe um olhar sombrio de pena e, em seguida, estendeu a mão para tocar seu braço. "Vou deixar vocês duas a sós."

            Assentindo com a cabeça, Lorena murmurou um agradecimento baixinho e respirou fundo. Suas costas já estavam eretas, uma boa postura incutida nela desde pequena, e Lorena caminhou para frente com apreensão. Parando na soleira da porta, ela observou bem a mãe, percebendo a quantidade de tubos e fios que a cobriam, o que lhe causava um certo medo. Paralisada, Lorena não conseguiu fazer nada além de encarar Zenilda em um choque silencioso.

            "Você veio", disse a mãe, cumprimentando-a.

            O cheiro do quarto do hospital era horrível, aquele cheiro enjoativo de antisséptico, e fez Lorena se sentir mal. No entanto, quando conseguiu mover os pés, vagando mais para dentro, sentiu o cheiro de Chanel Nº 5 e engoliu em seco. Era o perfume que Zenilda usava desde que Lorena a conhecia, e mesmo em uma cama de hospital, apoiada em travesseiros enquanto vestia seu pijama de seda, o perfume impregnava sua pele fina como papel. Mas não fazia nada para disfarçar a palidez da mãe.

            "Você disse que era ruim", Lorena conseguiu responder com a voz rouca, após uma pausa um tanto longa.

            Zenilda assentiu com a cabeça, encarando o teto por um instante, a garganta oscilando enquanto seus lábios se curvavam em um sorriso irônico. "Estou morrendo. Câncer de pâncreas em estágio quatro."

            "Quanto tempo você tem?"

            "Um mês, talvez dois."

            "Ah."

            Saiu um som baixo e hesitante, Lorena sentiu como se o ar tivesse sido arrancado de seus pulmões e ela não sabia o que mais dizer. Sua visão pareceu embaçar ligeiramente nas bordas e ela sentiu um gosto de bile na garganta, forçando-se a engolir enquanto piscava rapidamente. Sua mãe estava falando novamente e Lorena teve que se esforçar para ouvir, para se concentrar.

            "Optei por não fazer o tratamento", informou Zenilda bruscamente. "Talvez isso me desse mais alguns meses, mas prefiro não adiar o inevitável."

            "Certo."

            "Eu esperava que você ficasse até…"

            Lorena estremeceu levemente com a surpresa do pedido. Abrindo e fechando a boca, ela não sabia o que dizer. O que ela deveria dizer à mãe, pedindo que esperasse até morrer? Sem mencionar que Zenilda havia sido quem decidira a vida de Lorena, insistindo no balé, dando à filha pouca escolha a não ser viver seus sonhos, para depois pedir que ela ficasse, sabendo que isso significaria abrir mão de sua próxima apresentação. 

            "Estou em ensaio", Lorena se viu dizendo, com a voz rouca e oca.

            Ela não queria parecer tão insensível, era só que era demais para ela processar tudo de uma vez. E sua mãe sempre fora tão rigorosa com a carreira de Lorena, nunca a deixando perder um único dia de ensaio, sete dias por semana, desde os quatro anos de idade, levando-a ao limite, com discussões acaloradas e lágrimas, pés sangrando e canelite. Para Zenilda pedir que ela desistisse da próxima apresentação era inconcebível. Se Lorena não estivesse olhando para ela em um leito de hospital, ouvindo a mãe dizer que estava morrendo, teria questionado sua sanidade por sequer fazer uma exigência dessas.

           "Eu sei. É um pedido difícil, mas Violeta achou que eu não deveria ir para casa sozinho."

            "Ah. Então… o quê? Você quer que eu cuide de você até você… morrer?"

            Zenilda soltou uma risada meio sem fôlego: "Não, não, claro que não. Vou pedir para alguém fazer tudo isso. Eu só... eu gostaria de ter companhia."

            Um misto de perplexidade e diversão permeava a expressão pálida de medo no rosto de Lorena, que permanecia ali parada, a boca entreaberta, os olhos verdes penetrantes de raiva e incredulidade. Balançando levemente a cabeça, com a garganta dolorosamente apertada, Lorena não conseguia falar, respirando o ar fétido do hospital enquanto sua mente girava. Ela havia previsto ficar, é claro, mas por quanto tempo e com que propósito era uma incógnita. Talvez por alguns dias, já que sua mãe queria que ela estivesse por perto para os cuidados pós-operatórios, mas não isso. A possibilidade de ficar meses naquele lugar para onde ela estava amargurada e magoada demais para voltar era algo que ela jamais imaginara.

            "Eu..." Lorena conseguiu dizer com a voz embargada, o rosto pálido e as mãos cerradas em punhos nos bolsos do casaco. "Acho que preciso tomar um pouco de ar."

            Sinceramente, ela sentia que ia vomitar. Virando-se sem dizer mais nada, saiu do quarto e caminhou pelo hospital até ser obrigada a sair, com o vento cortando seu rosto enquanto seu estômago revirava e sua cabeça doía. Era uma sensação tão contraditória que Lorena pegou seus óculos de sol, colocou-os e escondeu seu olhar seco e desfocado enquanto caminhava um pouco e começava a andar de um lado para o outro. 

            Ela frequentemente duvidava se sua mãe sequer gostava dela, sua única filha que nunca parecia agradá-la, a criança que ela nunca pedira ou desejara, mas seu peito doía com o pânico de perdê-la. Lorena sentia como se não conseguisse respirar fundo o suficiente enquanto inspirava superficialmente, suas mãos desajeitadas enquanto seu cérebro lutava para controlá-las. Tirando o maço de cigarros, suas mãos tremeram enquanto acendia um, tragando profundamente, tentando se acalmar.

            Fumando um cigarro enquanto caminhava de um lado para o outro, e acendendo outro ao se sentar em um banco do lado de fora, sob a pálida luz do sol do final de novembro, Lorena ponderava sobre o que fazer. Ela poderia ir embora, voltar para Londres e receber a notícia da morte da mãe em alguns meses por um telefonema do hospital. Ou poderia ficar e vê-la definhar, abrindo a porta para anos de memórias reprimidas que preferia não desenterrar, reabrindo velhas feridas enquanto esperava que Zenilda morresse.

            De qualquer forma, aquelas lembranças começaram a invadi-la enquanto estava sentada no banco do lado de fora, com um cigarro entre os dedos, mordendo o polegar e encolhida contra o frio cortante. Um par de Crocs apareceu em seu campo de visão, assustando Lorena e a tirando de seu devaneio. Ela ergueu o olhar com uma ruga entre as sobrancelhas. Sua expressão rapidamente se transformou em um choque ainda mais intenso, enquanto o sangue lhe fugia do rosto ao ver a mulher à sua frente, que já estava no meio de uma frase. 

            "Desculpe interromper, mas do jeito que a luz estava brilhando em você, você parecia um anjo."

             Com um cigarro pendurado entre os dedos, a fumaça escapou dos lábios de Lorena, que se entreabriram num olhar incrédulo. Ela não achava que suas pernas aguentariam seu peso, mas de alguma forma Lorena conseguiu se levantar, observando o uniforme azul de um tom diferente de seus olhos, o cabelo ruivos preso e os óculos de armação de plástico que talvez fossem os mesmos que ela usara da última vez que Lorena a vira. Empurrando os óculos de sol para cima da cabeça, Lorena viu o olhar de reconhecimento arregalado surgir no rosto da última pessoa que ela esperava rever.

           Lorena disse seu nome, surpresa com a naturalidade com que ainda lhe parecia depois de tantos anos. "Eduarda."

Chapter Text

O rosto de Eduarda empalideceu por um instante antes de um rubor rosado subir às suas bochechas, sua boca abrindo e fechando algumas vezes antes que ela falasse. "Lorena."

Elas se encararam com a vontade desesperada e constrangedora de estar em qualquer lugar, menos ali, enquanto o silêncio constrangedor se prolongava, tantos anos de história entre elas, e depois nada nos últimos doze. Era como ver um fantasma, a mulher que Lorena já conhecera tão bem quanto si mesma. Transbordando de nervosismo, Eduarda ainda podia ser aquela mesma garota que cresceu ao seu lado, que passava por estirões de crescimento desengonçados e aparelhos ortodônticos, pelas marcas de bronzeado de tantas horas no mar enquanto seu rosto se enchia de sardas.

A pouca calma que Lorena havia recuperado dos trinta minutos em que andou de um lado para o outro, fumando e sentada, foi destruída pela visão da velha amiga. Sacudindo a cinza do cigarro, banho enquanto tentava conter a antiga mágoa que ressurgiu, a vergonha de vê-la novamente.

"O que... o que você está fazendo aqui?", perguntou Eduarda após uma pausa constrangedoramente longa, tropeçando na própria pergunta.

"Estou de visita", disse Lorena, com a voz seca e fria.

"Ah. Zenilda não mencionou que você viria."

Incomodada com a aparente intimidade entre eles, Lorena engoliu em seco. Levando o cigarro aos lábios, deu uma tragada enquanto semicerrava os olhos por causa do brilho do céu pálido, ou talvez em reação a ver alguém que havia deixado enterrado no passado pela primeira vez em mais de uma década.

Apontando para o hospital com o cigarro, Lorena exalou uma nuvem cinzenta enquanto falava. "Há quanto tempo ela está assim?"

"Os resultados dos exames dela saíram na semana passada. Demorou alguns dias para processá-los."

"E você não pensou em me contar?"

Eduarda abriu a boca em descrença e um som engasgado escapou de seus lábios enquanto erguia as sobrancelhas: "Como assim? Eu não tenho mais o seu número."

Abrindo e fechando a boca, Lorena rangeu os dentes por um instante, enquanto a raiva a consumia. "Eu sou o contato de emergência dela. Deveriam ter me contatado no momento em que ela deu entrada no hospital."

Com um pequeno encolher de ombros, impotente, Eduarda baixou os olhos enquanto a culpa se instalava em sua feição. "Estávamos apenas cumprindo os desejos do nosso paciente."

Lorena soltou uma risada baixa e abafada, balançando a cabeça. Abaixou os óculos escuros para cobrir os olhos novamente e poder observar a velha amiga sem que isso ficasse óbvio, fumando silenciosamente enquanto via Eduarda se remexer com o constrangimento do silêncio que se estendia entre elas. Limpando a garganta enquanto abria e fechava os dedos, Eduarda lançou um olhar rápido para Lorena antes de desviar o olhar enquanto falava.

"Por quanto tempo você vai ficar na cidade?"

Dando de ombros, Lorena fez uma careta de irritação. "Até ela morrer."

Fazendo uma careta, Eduarda assentiu com a cabeça e Lorena sentiu o impacto agudo da realidade. Ela não tinha certeza de quando havia decidido ficar, mas ficaria até a morte da mãe, porque sua mãe estava doente e não havia volta. Só havia um jeito de terminar e Lorena sentiu uma onda de náusea, sua respiração ficando superficial enquanto sua pele ficava úmida no ar frio.

"Sabe, aqui não é permitido fumar."

Com os lábios curvados em torno da ponta do cigarro, Lorena ergueu as sobrancelhas rapidamente, divertida. "Eu ia embora de qualquer maneira."

Ela não tinha estado lá, não tinha certeza se voltaria ou se iria embora para sempre, mas isso lhe deu uma oportunidade de se afastar o máximo possível de Eduarda, dentro dos limites permitidos por Ilha Comprida. Não era muito longe, mas pelo menos a impedia de ter que vê-la novamente. Sem dizer mais nada, Lorena tirou o maço de cigarros do bolso e apagou outro antes de sair andando com o isqueiro na mão. Eduarda não disse mais nada e, quando Lorena entrou na rua, olhou para trás e viu que ela já havia sumido, entrando no hospital para o seu turno.

Mergulhada em sua antiga raiva e mágoa, Lorena continuou caminhando, sem rumo a princípio, passando por pinheiros, carvalhos e ipês brancos, com um carro ocasional cruzando a estrada molhada, poças de água parada e folhas apodrecidas presas em sarjetas transbordando, enquanto respirava o ar fresco. Não era uma longa caminhada até a praia, e o toque salgado do vento a atingiu antes que ela pudesse vislumbrá-la, antes que a estrada arborizada se abrisse para revelar areia úmida e um mar cinzento.

Caminhando pela trilha batida pelas dunas, cercada por uma cerca de areia, com tábuas de madeira antigas unidas por arame enferrujado, Lorena observava a grama-da-praia e o capim-da-praia curvando-se sob a brisa salgada. Ao pisar na areia, foi atingida pela força do vento, observando as ondas bravias e brancas quebrarem na costa. Gaivotas gritavam enquanto pairavam no ar, lutando também contra o vento, e Lorena não conseguiu manter o cigarro aceso, pois ele foi praticamente arrancado de seus lábios. Com as bochechas ardendo por causa da areia que lhe batia no rosto, ela ergueu a mão para se proteger do pior, olhando para as nuvens escuras da tempestade e tremendo levemente de frio. Era diferente da monotonia úmida de Londres, e ela havia se esquecido do quão instável o clima podia ser no litoral.

De ambos os lados, as dunas se estendiam em alturas variadas, pedaços de madeira à deriva se acumulavam na faixa de areia e algas marinhas chegavam até os tornozelos em montes úmidos onde a corrente as depositava. Não era a praia que ela mais frequentava na juventude, mas um dos lugares mais turísticos, com as lojas de madeira e telhas à beira-mar, desgastadas e úmidas no inverno, sem nenhum cliente. Mal eram cinco horas, mas já estava escurecendo, a luz fraca do sol se dissipando com a chegada da noite.

Seguindo a praia em direção ao sul, rumo ao centro da cidade, Lorena absorveu a familiaridade de Ilha Comprida depois de tantos anos longe. Uma onda de nostalgia a invadiu, enquanto memórias vinham à tona: sua corrida diária pela areia, observar as estrelas com Eduarda, Eduarda tentando convencê-la a aprender a nadar, Eduarda aprendendo a surfar. Tantas dessas lembranças envolviam Eduarda, e um ressentimento lhe revirou o estômago enquanto um sorriso se formava em seus lábios. Fazia muito tempo que ela não se lembrava dos detalhes.

Ao atravessar as dunas e avistar o familiar Gatitas, um restaurante desgastado pelo tempo à beira-mar, Lorena logo chegou à rua principal de Ilha Comprida. Ao alcançar o centro da cidade, parou por um instante antes de olhar para a placa acima do prédio de telhas desbotadas que abrigava o Afrodite, brilhante na penumbra da tarde. Da última vez que Lorena estivera em Ilha Comprida, ainda não tinha idade para beber no bar local, e a placa lhe chamou a atenção enquanto caminhava pela estrada principal de acesso à praia. Se alguma vez houve um momento para beber, pensou ela, seria aquele.

Ao abrir a porta rígida, com as dobradiças enferrujadas pelo sal, ela foi atingida pelo cheiro de cerveja velha assim que cruzou a soleira. O lugar era limpo, mas meio decadente, com uma mesa de bilhar dominando o espaço aberto, alguns frequentadores já sentados no balcão ou em mesas com assentos de vinil vermelho desgastados, enquanto a música vazava das caixas de som. O barman, Adelson, limpava a superfície com um pano azul quando Lorena se aproximou do balcão de madeira desgastada, sentando-se em um canto e pedindo uma vodca com Coca-Cola Zero.

Lorena se perguntou se ele se lembrava dela; ela se lembrava vagamente dele. Acenando com a cabeça em agradecimento, tomou um gole da bebida e a colocou sobre um porta-copos de papel, deixando a condensação molhá-lo. Mexendo com o isqueiro, acendeu-o algumas vezes, mas não acendeu outro cigarro enquanto olhava fixamente para o nada, engolindo goles da bebida e desejando que tivesse sido um drinque duplo. Quando chegou ao fundo do copo, com os cubos de gelo tilintando, pediu outro.

Ela bebeu três doses seguidas e tinha uma quarta à sua frente, o cotovelo apoiado no balcão enquanto segurava displicentemente um cigarro entre os dedos, inclinando o copo ao som do gelo tilintando, quando foi vista por alguém familiar. Já passava das sete horas, seu estômago roncava e a noite ficava mais fria a cada rajada de vento que invadia o local quando alguém chegava ou saía. Levando o copo aos lábios, Lorena tomou um gole e se assustou um pouco ao ouvir seu nome.

"Caramba, Lorena?"

Abaixando o copo, Lorena lançou um olhar furtivo para a mulher que surgira no canto do bar, encostada na madeira enquanto a observava. Lorena engoliu um gemido ao ver Keyla Fragoso, avaliando-a depois de tantos anos. Lorena presenciara muitas discussões entre as duas irmãs, viu Keyla regularmente no hospital enquanto esperava por sua mãe, a buscava nas noites chuvosas em que Zenilda a obrigava a voltar para casa a pé e lhe ofereceria sorvete na praia em dias quentes, enquanto ensinava Eduarda a surfar, com Lorena permanecendo em segurança na areia. Lorena nunca fora tão próxima dela, mas Keyla era uma presença constante em sua infância.

"Keyla", murmurou ela, surpresa.

"Que diabos você está fazendo aqui? Tem quanto tempo?"

"Doze anos."

"Doze? Sério? Bem…"

Houve uma pausa de silêncio e Lorena apagou o cigarro, que havia se transformado em uma coluna de cinzas, em um cinzeiro de vidro verde que Adelson havia colocado à sua frente. Dando um gole em sua bebida, ela hesitou e então virou o resto de uma vez.

"Então… quando você voltou?", perguntou Keyla, hesitante.

"Hoje."

"Ah. Por causa da sua mãe?"

Acenando com a cabeça, irritada mais uma vez por aparentemente ter sido a última a saber, Lorena pousou o copo, com os olhos fixos nele. Sua garganta estava apertada e sua cabeça girava um pouco por causa do álcool em jejum. Ela hesitou em pedir outro e cruzou o olhar com Adelson, dando um leve toque no copo vazio enquanto lhe dirigia um pequeno sorriso. Ele colocou gelo em um copo limpo, medindo uma dose de vodca a olho e, em seguida, posicionando o bico da máquina de refrigerante sobre ela enquanto a enchia com Coca-Cola Zero.

"Duda sabe que você está aqui?"

Lorena, encarando-a fixamente, entregou o dinheiro a Adelson e pegou sua bebida. "Por que ela saberia?"

Keyla apenas a encarou com uma expressão de descrença no rosto, os olhos castanhos se arregalando enquanto ela erguia as sobrancelhas. "Vocês... deixa pra lá. Que bom te ver."

Com a boca um pouco seca, Keyla chamou a atenção de Adelson e pediu duas cervejas antes de sair sem dizer mais nada. Lorena a observou partir pelo canto do olho e sentiu um arrepio de pânico ao ver a mulher sentada à mesa onde Keyla estava. Íris; outro rosto familiar. Ela viu os olhos de Íris pousarem nela, pois o que quer que Keyla tivesse dito claramente envolvia a revelação de que Lorena estava de volta à cidade. Sentindo as bochechas esquentarem levemente, Lorena rapidamente virou o copo e se levantou, estremecendo por dentro enquanto guardava o troco, os cigarros e o isqueiro nos bolsos e fechava o zíper do casaco.

Escapando rapidamente, antes que alguém do seu passado pudesse atacá-la — ou seja, qualquer pessoa com o sobrenome Fragoso ou associada a eles — Lorena sentiu-se desorientada ao sair para a escuridão fria, as ruas brilhando com a chuva e as estrelas encobertas pelas nuvens. Fungando, Lorena esfregou as palmas das mãos nos olhos cansados e endireitou os ombros para se proteger do vento, uma agradável sensação de tranquilidade em sua mente enquanto começava sua caminhada para casa na escuridão.

Levou quarenta minutos caminhando na escuridão até chegar à fantasmagórica casa colonial que se erguia por entre as árvores. Era um reflexo condicionado: virar nas ruas por onde corria diariamente, passando por casas que, pelo que podia perceber na escuridão, não haviam mudado muito, até finalmente chegar à casa de sua infância e entrar. Estava frio e escuro, e ela tirou os sapatos na entrada, deixando as chaves no console, e subiu as escadas no silêncio opressivo.

Os degraus antigos rangeram sob seus passos lentos enquanto ela se agarrava ao corrimão e subia as escadas. Ao entrar em seu quarto no final do corredor, Lorena manteve as luzes apagadas. Ela não queria ver o papel de parede rosa desbotado nem as pinturas, todas as suas antigas coisas de adolescente que deixara para trás quando se mudou para Londres. O cheiro era forte de madeira velha e poeira, mas Lorena não tinha energia para se importar. Tirando as roupas, ela as deixou em uma pilha no chão e puxou os lençóis. Deitou-se sob o edredom e fechou os olhos, mas mesmo com o efeito do álcool, o sono era difícil de alcançar. O vento batia as venezianas contra a parede lá fora enquanto assobiava pelas minúsculas frestas da moldura da janela. Ela nunca havia dormido na casa de sua infância sozinha e era perturbador estar ali, aos trinta anos e sozinha na casa para a qual não tinha intenção de voltar.

Durante toda a noite, o vento frio assobiava pelas frestas e Lorena acordou cedo, enrolada firmemente no cobertor enquanto sentia o frio penetrar até os ossos. Apesar do cansaço após uma noite praticamente sem dormir, com o voo de madrugada e um dia emocionalmente desgastante, Lorena não conseguia voltar a dormir. Ao sair da cama, sentiu o chão gelado sob os pés e saiu furtivamente para o corredor, pegou uma toalha no armário de roupas de cama e foi até o banheiro principal.

Tirando o resto da roupa, ela a jogou num canto do banheiro enquanto o chuveiro ligava, deixando o box se encher de vapor até o espelho embaçar. A água quente escorria por suas costas enquanto ela permanecia ali, a espuma do sabão descendo pelo corpo e indo para o ralo, sua pele pálida ficando rosada com o calor enquanto ela fechava os olhos e deixava a espuma escorrer pelas bochechas, um substituto para as lágrimas que ainda não havia derramado. Ela tinha certeza de que a ficha cairia logo, mas se sentia estranhamente vazia naquele momento, com uma leve dor de cabeça latejando atrás dos olhos e o gosto rançoso de vodca e tabaco na boca.

Ao sair, ela se enrolou na toalha e estremeceu levemente com o ar morno, caminhando lentamente pelo tapete até seu quarto para pegar roupas limpas. Vestiu jeans escuros e um suéter fino, pegou seus produtos de higiene pessoal e voltou para o banheiro com a sacola e a toalha úmida na mão. Seu rosto no espelho do banheiro estava pálido e abatido, com olheiras lilases enquanto escovava os dentes.

Recolhendo as roupas abandonadas, ela as colocou no cesto no armário de roupa suja e depois pegou o casaco, apalpando os bolsos e descendo as escadas em silêncio. A cozinha estava arrumada, mas um leve odor emanava do lixo e da geladeira. Lorena gemeu baixinho ao perceber que o conteúdo havia estragado enquanto Zenilda estava no hospital. Sua mãe nunca a deixava fumar dentro de casa, mas considerando que ela não estava em casa e a tarefa que tinha pela frente, Lorena abriu a porta dos fundos e acendeu um cigarro antes de vasculhar a geladeira e jogar tudo no lixo enquanto fumava. O ar úmido lá fora dissipou o cheiro rançoso e ela considerou o que restava na geladeira e na despensa quando terminou; não comia desde o meio sanduíche de mais de um dia atrás e Lorena ponderou se deveria ir à loja antes de optar por uma xícara de café preto e outro cigarro para o café da manhã.

Fervendo a água na chaleira, ela encostou a testa no mármore frio da bancada da cozinha, respirando superficialmente enquanto ouvia a velha casa ranger, lamentando ter saído da cama, mas inquieta demais para voltar a ela. Era cedo demais para beber, então endireitou-se assim que a água terminou de ferver e despejou um fio de café sobre o pó que estava em uma caneca. Caminhando até a porta aberta, hesitou na soleira enquanto acendia outro cigarro e o fumava entre goles de café, observando o jardim bem cuidado e a mata fechada que cercava a casa.

Estava tudo tão silencioso, tão diferente do barulho do seu apartamento em Knightsbridge pela manhã, e ela ouviu os pássaros nas árvores enquanto uma garoa fina caía no ar. Depois de esvaziar a xícara, ela voltou para dentro, jogou a bituca no lixo e colocou a xícara vazia na pia antes de ir até a porta da frente e calçar os sapatos. Pegou as chaves, trancou a porta atrás de si e seguiu pelo caminho, entrando na rua com os AirPods e um podcast tocando.

A garoa umedecia os cabelos de Lorena e suas bochechas coraram enquanto sua respiração embaçava sua visão. Seus óculos de sol protegiam seus olhos do brilho mais forte, enquanto o céu pálido se estendia acima da linha das árvores. Era uma caminhada tranquila, sem interrupções e reconfortantemente familiar — ela teria preferido correr, mas não queria chegar ao hospital suada — e ela caminhava devagar, fazendo o caminho mais longo, mas evitando propositalmente a casa de madeira branca a algumas ruas de sua própria casa.

Ela chegou ao hospital no meio da manhã, rondando o lado de fora enquanto esperava o momento certo, fumando um cigarro às escondidas – mesquinha o suficiente para ficar no mesmo lugar onde Eduarda havia lhe dito para não fumar no dia anterior. Nervosa e tensa, com medo de encontrar sua antiga amiga novamente, ou até mesmo Violeta, que era inofensivamente gentil, e relutante em ver sua mãe mais uma vez, Lorena caminhou de um lado para o outro por um tempo. Finalmente, respirou fundo e entrou, seguindo o caminho até o quarto da mãe.

Parando em frente à porta entreaberta, ela bateu com os nós dos dedos na madeira e a abriu um pouco mais. Zenilda estava sentada ereta sobre os travesseiros na cama inclinada, com um romance aberto nas mãos. A luz pálida do sol entrava pelas persianas e um olhar de surpresa estampava seu rosto pálido enquanto ela olhava para cima.

"Pensei que você pegaria o primeiro ônibus para fora daqui."

"Pensei nisso", confessou Lorena, embora, reconhecidamente, não tanto quanto havia previsto.

Aproximando-se da cama, observando a magreza do rosto e das mãos da mãe, o aspecto desgrenhado do cabelo preso, Lorena engoliu em seco e sentou-se. O cheiro de Chanel nº 5 e de hospital lhe causou náuseas enquanto se agarrava aos braços da cadeira e permanecia rígida, encarando a mãe fixamente.

"Sei que é um grande pedido, desistir da apresentação."

Lorena soltou uma risada abafada, mal conseguindo emitir um som, enquanto as palavras da mãe azedavam ainda mais seu humor, a amargura crescendo em seu rosto enquanto ela sorria ironicamente. Passando a mão pelo rosto, Lorena balançou a cabeça e riu novamente.

"Mas não é pedir muito te ver morrer?"

Um leve sorriso surgiu nos lábios da mãe enquanto ela arqueava uma sobrancelha. "Não pensei que você se importasse tanto com essa parte."

"Por que você diria isso?", perguntou Lorena secamente, com um tom defensivo em sua voz.

Com uma risadinha discreta, Zenilda revirou os olhos e começou a tossir. Observando-a por um instante, Lorena se levantou, seus olhos pousando em um carrinho do outro lado da cama do hospital. Ela o contornou para pegar um copo de plástico branco, enchendo-o com água da jarra e colocando-o na mão da mãe. Bebendo tudo enquanto Lorena a observava, Zenilda abaixou o copo e recostou-se nos travesseiros, exausta pelo pequeno esforço.

Tão perto dela, Lorena sentiu-se nervosa, um desconforto a invadindo com o cheiro de antisséptico enquanto sua mãe jazia na dura cama do hospital, coberta por um fino cobertor. Parecia surreal enquanto a observava, pálida e silenciosa, tentando mais uma vez assimilar a doença da mãe. Sentindo-se um pouco tonta, embora pudesse ser por causa do estômago vazio, Lorena voltou para a cadeira e sentou-se pesadamente, passando a mão pelo rosto enquanto encarava o piso de linóleo.

"Você nunca gostou de mim", ponderou Zenilda, tirando Lorena de seus pensamentos.

"Mas eu nunca desejei que você estivesse morta."

"Não? Consigo me lembrar de algumas vezes em que você me olhou como se estivesse pensando nisso."

A mãe disse isso com divertimento, e as lembranças da adolescência de Lorena voltaram à mente de ambas. Lorena, porém, não se lembrava delas com humor algum: os treinos intermináveis e a dieta rigorosa a que a mãe a submetia, as lágrimas de raiva escorrendo pelo rosto enquanto as discussões acaloradas ecoavam pela casa, Lorena implorando para que não a mandassem para Londres, as sapatilhas de balé manchadas de sangue e a exaustão constante enquanto maltratava o próprio corpo para realizar os sonhos da mãe. Com o semblante sério, Lorena lançou um olhar fulminante para Zenilda, e a mãe riu.

"Sim, esse é o olhar."

"Eu nunca desejei que você estivesse morta", repetiu Lorena, com a voz rouca enquanto sentia a antiga raiva e a dor ressurgirem, os olhos marejados com o início de lágrimas que ela não deixava se formar. "Porque aí eu teria que voltar para cá, e essa é a última coisa que eu queria."

"Bem, lamento que seja um grande incômodo para você que eu esteja morrendo."

"Se você estivesse arrependida, não teria me convidado em primeiro lugar."

"Tudo bem, então não sinto muito. Eu…" sua mãe hesitou, a boca se contraindo de irritação enquanto olhava para os painéis quadrados do teto. "Eu gostaria… que você estivesse aqui."

O silêncio pesado se instalou quando Zenilda terminou de falar, sua voz baixa e relutante, como se estivesse incomodada com a necessidade de admitir aquilo para Lorena, e ela continuou a encarar o teto enquanto Lorena observava o chão. A pausa se prolongou até se tornar desconfortável, e então Lorena suspirou baixinho, franzindo a testa enquanto fechava os olhos com força, antes de erguer a cabeça e olhar para o rosto da mãe.

"Eu vou ficar", Lorena informou a ela.

O alívio de Zenilda era palpável, a forma como seu corpo pareceu afundar nos travesseiros. Ela fechou os olhos por um instante, os cílios tremulando enquanto respirava superficialmente, e então olhou para a filha, com uma gratidão ressentida estampada nas linhas do rosto.

"Obrigada."

Chapter 3

Notes:

espero que gostem!

Chapter Text

            Permanecendo no hospital por mais algumas horas, o céu estava escuro além das persianas fechadas, o lugar silencioso, sem o caos habitual dos grandes hospitais que Lorena costumava frequentar. A televisão no quarto sintonizava um canal de notícias — um tiroteio em São Paulo, a previsão do tempo regional, o nascimento de um leão em um zoológico — e Lorena permanecia rígida na cadeira ao lado da cama da mãe, fingindo assistir. Ela não conseguia parar de olhar para a mãe, porém, com as bochechas encovadas e a mão direita apertando os lençóis ásperos enquanto a morfina escorria pelo cateter. Lorena não pôde deixar de notar que a raiz do cabelo estava aparecendo, a vigilância de Zenilda em manter seus cabelos naquele tom escuro como a noite finalmente havia falhado, o que fez Lorena se perguntar por quanto tempo ela vinha se sentindo mal.

 

            Por fim, ela saiu, com uma vontade enorme de fumar e precisando comprar algumas coisas na loja. Sua fome estava ficando evidente demais para ser ignorada, e embora o jet lag tivesse arruinado sua rotina rigorosa, ela precisava voltar aos treinos antes de começar a se sentir debilitada. Ela recomeçaria amanhã, sentindo-se inquieta pelos dias que já havia perdido, apenas alguns, mas mais do que havia perdido em dez anos seguidos. Nem mesmo Zenilda a deixaria faltar aos treinos por causa de sua doença terminal.

 

            Começou a chover assim que ela saiu do hospital, as portas se abrindo para o frio úmido. Era cedo demais para ser noite, mas nuvens negras começavam a surgir no horizonte, bloqueando qualquer raio de sol enquanto ela procurava algo nos bolsos e acendia um cigarro. As luzes do hospital se apagaram atrás dela enquanto caminhava em direção à mercearia local, a chuva fina umedecendo seus cabelos durante os dez minutos de caminhada até lá, o brilho das luzes da mercearia a saudando na escuridão.

 

            Lá dentro, Lorena pegou uma cesta e começou a percorrer os corredores. Ela, assim como sua mãe, sempre se preocupou com o peso e passou por alguns corredores em busca de alimentos permitidos, que faziam parte de sua dieta rigorosa desde criança. Tudo o que ela via eram calorias, açúcar e gorduras, coisas que a deixavam com uma terrível sensação de culpa depois, uma culpa que ela sentia desde os seis anos de idade, quando sua mãe proibiu qualquer chocolate ou doce. Lorena nem se lembrava de ter comido um bolo de aniversário. 

 

            E hoje em dia, sua dieta era mais rigorosa, implementada por ela mesma, enquanto tentava manter a massa muscular com o mínimo de gordura possível. Os poucos itens em sua cesta não eram suficientes para sustentar alguém do seu nível de habilidade, com as horas diárias dedicadas aos treinos, fossem eles de musculação, exercícios aeróbicos ou balé, mas ela se virava, usando as dicas e truques aprendidos durante os anos que passou sem supervisão com outras garotas na adolescência, aprendendo a se manter dentro dos parâmetros rígidos estabelecidos por seus professores a qualquer custo. 

 

            Lorena pegou uma caixa de ovos e a colocou ao lado de suas outras compras, pensando no que mais poderia precisar. Ela já tinha sua proteína, compraria outro maço de cigarros no balcão para aguentar os próximos um ou dois dias, e a loja de bebidas ficava ao lado. Ela estava indo em direção ao caixa quando quase esbarrou em alguém que virava a esquina.  

 

            "Ah, desculpe-"

 

            "Desculpe!"

 

            Lorena parou abruptamente e recuou mais um passo ao ver Eduarda à sua frente. Seus olhares se encontraram antes de desviarem o olhar, e Lorena abaixou a cabeça, pigarreando enquanto seus olhos se fixavam na cesta de compras de Eduarda. Havia bananas, bagels, batatas fritas e muffins de mirtilo na cesta, e Lorena sentiu um lampejo de constrangimento ao contorná-la e seguir para o caixa sem dizer mais nada.

 

            Na fila, onde havia apenas outra pessoa, Lorena estava nervosa e olhava ao redor constantemente, como se Eduarda fosse confrontá-la no meio da loja. Quando chegou a sua vez, Lorena pediu um maço de Marlboro, pagou suas compras e rapidamente enfiou tudo em uma sacola de papel antes de sair. Um vento gélido a atingiu, a chuva engrossando desde que entrara na loja, e ela abaixou a cabeça enquanto se dirigia apressadamente à seção de bebidas, comprando uma garrafa de vodca e saindo.

 

            Voltando para casa, ela caminhava depressa enquanto a chuva a encharcava, soprando do litoral em torrentes cortantes. Mal havia percorrido a rua quando a sacola de papel já estava encharcada. Ela a apertou contra o peito, abrindo-se enquanto permanecia sob a luz amarela dos postes, tentando impedir que as compras caíssem na calçada. Um carro passou por ela, as luzes vermelhas de freio cortando a escuridão enquanto ela se agachava, soltando uma torrente de palavrões quando o carro deu ré. Uma porta bateu quando ela pegou suas maçãs verdes, agora amassadas, e ela olhou para cima, semicerrando os olhos por causa da chuva, enquanto uma sombra se projetava sobre ela.

 

            Era Eduarda, claro que era, agachada com uma sacola nas mãos, começando a pegar as compras de Lorena. Ela pegou o maço de Marlboro e a caixa de ovos, alguns deles espalhados pela calçada onde tinham caído, e Lorena se irritou um pouco, erguendo o queixo enquanto juntava outra maçã, segurando firmemente a garrafa de vodca na dobra do braço. 

 

            "Obrigada", murmurou ela, enquanto jogava o último pacote de espinafre na sacola, ressentida e irritada por estar recebendo a ajuda de Eduarda.

 

            "Posso te dar uma carona?"

 

            Levantando-se rapidamente, Lorena apertou com força a sacola e a vodka. "Eu consigo andar."

 

            Hesitante, Eduarda abriu e fechou a boca, assentindo em seguida. Permaneceu por um instante antes de se virar para o carro e contorná-lo. A porta bateu com força logo em seguida, e o carro, que estava parado, arrancou, deixando Lorena sozinha na calçada. Colocando a sacola no ombro, Lorena afastou os cabelos molhados do rosto e continuou a longa caminhada para casa. Seu coração batia forte no peito, a visão de Eduarda mais uma vez a fez entrar em leve pânico, sentindo o peito apertar, a respiração ficar difícil e a cabeça latejar. 

 

            Levou quase uma hora, carregada com as compras, com a água da chuva acumulada nos ralos entupidos, obrigando-a a atravessar ruas alagadas, e ela chegou em casa tremendo violentamente, tentando não pensar, tentando não sentir nada além da sensação física de caminhar. Encharcada, ela abriu a porta com a chave e entrou na casa silenciosa, fechando os olhos ao sentir um cansaço repentino. 

 

            Lorena tirou o casaco acolchoado no corredor, chutou os sapatos e deixou rastros de meias molhadas enquanto caminhava até a cozinha. A sacola estava completamente encharcada, embora não tanto quanto ela, e Lorena lutou para não bater os dentes enquanto guardava as compras. Depois, subiu correndo as escadas e tomou um banho escaldante antes de vestir uma calça e um moletom quentinhos. Sentindo-se um pouco melhor, embora o nariz ainda estivesse gelado e ela se sentisse um pouco vazia, encostou-se na parede do seu antigo quarto e deixou o frio penetrar pelas costas do moletom enquanto tentava entender tudo aquilo. Sua vida não deveria ser assim e ela sentiu um nó na garganta. 

 

            Engolindo em seco, ela desceu as escadas e serviu dois dedos de vodca não gelada em um copo, bebendo metade de uma vez e abrindo a porta dos fundos enquanto acendia um cigarro do maço quase vazio. Fumou enquanto cortava um peito de frango cru ao meio e grelhava um pedaço na frigideira antes de escaldar um punhado de espinafre. Depois de fumar o segundo cigarro e beber a outra metade da vodca, enchendo o copo novamente e bebendo a outra metade, antes que o jantar estivesse pronto, Lorena comeu no balcão da cozinha com pouco prazer no que estava colocando na boca. Era proteína magra e o cigarro já havia lhe tirado o apetite; um pedaço de frango e algumas folhas de espinafre murchas foram para o lixo; ela nunca conseguia terminar uma refeição por completo.

 

            Depois, ela serviu mais vodca e pegou um livro da coleção amarelada de clássicos do irmão, que ainda ocupavam as prateleiras da sala de estar, mesmo ele tendo falecido há muitos anos. Bebendo um gole de vodca, sentindo-se tonta e com a mente confusa, Lorena perdeu a noção de onde estava na página, o copo vazio, o gosto de tabaco na boca, enquanto pensava em Eduarda, repassando as conversas que tiveram, revivendo memórias dela em um ciclo interminável. Só que não eram as memórias que ela queria lembrar; eram as ruins, das últimas vezes em que conversaram, quando Lorena estava com raiva e rancorosa e Eduarda se sentia culpada e magoada. Com a bebida em excesso, deixando-a vulnerável à frustração e à raiva por tantas coisas, ela começou a chorar, com a cabeça entre as mãos e os ombros tremendo.

 

            Ela acabou adormecendo no sofá, com o pescoço numa posição estranha, um cobertor puxado sobre si, a garrafa de vodca meio vazia no braço e o livro esquecido no tapete. A noite chegou e passou, e ela acordou, com os olhos lacrimejando e o pescoço dolorido, ao som da chuva batendo nas janelas num ritmo irregular. Sua cabeça latejava, por causa da bebida e do choro, e Lorena se levantou lentamente, tentando enxergar através da escuridão da madrugada. 

 

            Levantando-se, sentindo-se grogue e péssima, Lorena foi até a cozinha, guardou a garrafa de vodca no congelador e subiu as escadas. Seu quarto brilhava num azul-marinho profundo por causa da luz de fora, e ela, a contragosto, se apegou à promessa de rotina, procurando seus fones de ouvido e descendo as escadas para calçar os tênis de corrida ainda úmidos. Com seu café da manhã habitual — um Marlboro Vermelho e um ibuprofeno furtado da gaveta da cozinha, engolidos com água fria da torneira, o que lhe causava dor de dente —, Lorena saiu de casa com a roupa que usava ao acordar. 

 

            Uma vida inteira dedicada ao balé fazia o corpo de Lorena doer enquanto ela tragava o último cigarro, jogando a bituca na rua ao sentir a dor nos pés, consequência do desgaste. O único momento em que parecia não sentir dor era quando dançava, o mundo se reduzindo a cada passé, pirueta, arabesque ou chassé, seus pés sangrando, cheios de bolhas e hematomas, enquanto ela ignorava a dor. Esperando o ibuprofeno fazer efeito, ela começou a correr lentamente, os tênis batendo no asfalto da rua tranquila, o ar úmido e impregnado com o cheiro salgado do mar.

 

            As ruas e calçadas estavam vazias enquanto ela corria pelo velho caminho familiar até a cidade, o azul-marinho profundo clareando para um cinza nublado enquanto a chuva batia em suas costas e ombros. Seus pulmões doíam, em parte pelo hábito de fumar um maço de cigarros por dia, que começou na adolescência, em parte pelo frio, e ela sentia uma paz profunda nas ruas e calçadas silenciosas e vazias, as lojas escuras e ainda fechadas enquanto ela corria, indo em direção à praia enquanto ouvia Velvet Underground.

 

            Ao chegar às dunas úmidas, com o calçadão de madeira margeando os cafés, restaurantes e lojas à beira-mar, ela observou um ciclista vestido com roupa de lycra passar enquanto corria pela praia, passando pela grama marram ondulante, contemplando a vasta extensão de areia e o mar negro. A areia estava úmida e firme sob seus pés enquanto corria para o norte em direção a Iguape. O trecho de Ilha Comprida logo deu lugar a pinheiros que cresciam quase até a beira da água, um fino tapete de agulhas verdes na areia, que estalavam sob seus pés enquanto ela acelerava um pouco o passo. Era um caminho familiar, o mesmo que percorria todos os dias desde os sete anos de idade, o destino ficando cada vez mais distante à medida que crescia, até que, aos dez anos, já corria sozinha até o porto Iguape.

 

            Ela correu até lá, com os pulmões ardendo e as bochechas vermelhas de frio, passando pelas ruas pitorescas com suas lojas de telhas de madeira, enquanto cafeterias começavam a abrir, outros corredores e alguns ciclistas também saíam. A chuva parou e ela se afastou do porto, esticando as pernas enquanto observava os veleiros e iates ancorados dos ricos veranistas que ali vinham nos meses de verão, as redes emaranhadas, os cais rangendo e o cheiro de combustível e maresia se misturando enquanto ela olhava para a água.

 

            Lorena nasceu naquela cidade litorânea, no final de outubro, trinta anos atrás, com as ondas agitadas enquanto a primavera começava a dar lugar ao verão. Era um paraíso para o surfe, com praias acidentadas onde as ondas podiam arrastar as pessoas para o fundo se não estivessem acostumadas às correntes, e nos verões, um esforço constante dos salva-vidas e da Guarda Costeira para manter turistas e veranistas em segurança. Sua mãe amava o mar, disso Lorena se lembrava muito bem, assim como da casinha que tinham ao oeste Iguape, com o quarto da mãe de frente para o mar. Lorena costumava dormir na cama com ela, e uma de suas lembranças mais vívidas era de estar parada na janela do quarto um dia, no final de maio, observando a mãe entrar no mar calmo, seus cabelos se espalhando na superfície da água até que ela desapareceu um instante depois, para nunca mais voltar à superfície.

 

            Pensativa, Lorena esfregou os olhos, o suor secando em sua pele enquanto o vento a açoitava, e tirou os cigarros do bolso do casaco, lutando para acender um enquanto virava as costas para o vento. Seus pés doíam e a dor de cabeça ainda era levemente palpável, uma ressaca que a deixava corada, suada e enjoada enquanto caminhava de um lado para o outro na orla. Seus olhos se fixaram em uma cafeteria que estava abrindo, uma pequena placa de neon piscando na janela do prédio de madeira, e ela tragou o resto do cigarro enquanto caminhava em direção a ela, empurrando a porta da frente.

 

            Pedindo um café preto e sentando-se numa pequena mesa perto das janelas, ela o segurou entre as palmas frias das mãos, observando a chuva recomeçar. Alguns turistas ou comerciantes matinais usavam guarda-chuvas e caminhavam rapidamente, já que o asfalto estava saturado de um cinza escuro. Lorena permaneceu dentro da cafeteria aquecida, lendo o jornal local, a tinta transferindo-se para as pontas dos dedos molhadas, enquanto o gosto amargo do café pouco fazia para aliviar sua ressaca. Logo, ela estava de volta lá fora, o vento batendo em seu rosto enquanto ela iniciava uma corrida lenta de volta para Ilha Comprida.

 

            No caminho de volta, ela continuou até avistar o hospital, suando em meio às camadas de roupa, úmida e pálida de náusea. Ela havia se esforçado bastante na volta, aumentando o ritmo a cada quilômetro, e inspirou profundamente o ar frio ao parar em frente às portas do hospital, com as mãos nos joelhos. Aproveitando para fumar outro cigarro enquanto recuperava o fôlego, Lorena caminhava distraidamente de um lado para o outro na penumbra do fim da manhã. 

 

            Já passava das dez horas, segundo o relógio do celular, e ela encarava o hospital com uma sensação incômoda, imaginando se Eduarda estaria lá. Ela havia se esquecido de como Ilha Comprida era pequena, de como era fácil esbarrar em pessoas que preferiria não ver, todos frequentando os mesmos restaurantes, bares e lojas em vez de dirigir vinte minutos até Iguape para pagar os preços exorbitantes de turista e curtir as ruas mais movimentadas. Talvez fosse mais fácil se ela não precisasse ir ao hospital com tanta frequência por causa da mãe, mas, de qualquer forma, seria sempre um lugar associado a Eduarda, independentemente de ela estar lá ou não. Afinal, fora o lugar onde se conheceram.




~•~•~•~•~•~




            "Zenilda, oi, você tem um minuto?"

 

            Com a menina apoiada desajeitadamente em seus quadris, Zenilda se virou, parecendo atarefada e irritada, encarando a colega. "Violeta, estou um pouco ocupada agora, podemos conversar mais tarde?"

 

            Continuando pelo corredor em direção a ela, Violeta olhou da criança para a médica, seus olhos confusos, mas sua expressão gentil enquanto sorria, abaixando a cabeça ao se aproximar delas, estendendo a mão para dar um puxão brincalhão no casaco da menina. "E quem seria esta?"

 

            "Ela é do Ferette", explicou Zenilda bruscamente, procurando as chaves do escritório na bolsa. "Aquela mulher que se afogou em Iguape no sábado? É mãe dela."

 

            "Ah. Ah, certo."

 

            Triunfante, Zenilda tirou as chaves do bolso, encaixou-as na fechadura e entrou. O pequeno escritório estava repleto de prateleiras organizadas e uma mesa cheia de papéis, com um computador desajeitado ocupando um dos lados. Ela parecia ainda mais alta com os saltos altos e teve dificuldade para colocar a menina no chão, com os joelhos dobrados enquanto se curvava, tentando fazê-la soltar o colo, sua frustração palpável. 

 

            Ao entrar no escritório, Violeta pegou a criança dos braços dela e a colocou no chão antes de se agachar à sua frente, segurando a mão da menina. Ela tinha cabelos escuros e grandes olhos verdes, um semblante cabisbaixo e tímido. Dando mais um puxão brincalhão na barra do casaco, Violeta sorriu. "E qual é o seu nome?"

 

            Olhando para o chão enquanto agarrava um punhado do casaco de Zenilda, a garota não disse nada. Suspirando, Zenilda estendeu a mão para soltar os dedos. "Lorena, cumprimenta a Dra. Fragoso."

 

            "Lorena? Que nome bonito. Você quer vir comigo um pouco? Acho que tenho algumas balas de goma para compartilhar com você."

 

            Lorena assentiu lentamente com a cabeça, lançando um olhar cauteloso para Violeta, que se endireitou. Zenilda afundou na cadeira atrás da mesa e levou as mãos à testa por um instante, soltando um suspiro pesado. "Obrigada", murmurou, fazendo uma pausa antes de continuar. "Talvez eu precise de alguns dias..."

 

            "Claro. Não se preocupe com nada. Eu a trago de volta daqui a pouco."

 

            Acenando com a cabeça em sinal de gratidão, Zenilda endireitou-se e tirou o casaco enquanto o computador ligava. Violeta pegou a mão de Lorena e a conduziu lentamente em direção à porta e para o corredor. Manteve uma conversa suave, falando devagar, com a voz mais aguda, enquanto guiava a menina pelo hospital até a sala de exames que, extraoficialmente, era dela. Pegando um pote de jujubas no balcão, Violeta se agachou e tirou a tampa, deixando Lorena pegar algumas e sorrindo ao ouvir o silencioso agradecimento.

 

            Ela comeu devagar e em silêncio, de pé na sala esterilizada, enquanto Violeta verificava os armários e o estoque de materiais médicos. Não era um hospital movimentado, e a maior parte do seu trabalho era o de uma clínica geral, realizando avaliações rápidas e prescrevendo medicamentos ou exames para serem enviados ao laboratório de patologia. Havia um menino de fora que teria o gesso retirado às dez horas, uma consulta às onze horas para uma suspeita de amigdalite em uma família de quatro pessoas, mas, fora isso, Violeta não tinha nada agendado naquela manhã, enquanto entretinha a menina pelos próximos vinte minutos.

 

            Elas não ficaram lá por muito tempo, Violeta conferiu as horas e se moveu com mais determinação desta vez, pegando a mão de Lorena e a conduzindo de volta pelo hospital até um escritório a duas portas do de Zenilda. A porta estava destrancada e havia duas meninas lá dentro, uma morena e uma ruiva, ambas alguns anos mais velhas que Lorena, com mochilas escolares no chão enquanto fingiam digitar no computador da mãe, a ruiva com o estetoscópio no pescoço enquanto pressionava a ponta contra o peito da irmã.

 

           "Meninas, vamos, o ônibus vai chegar a qualquer minuto."

 

            Elas pararam, olhando para cima, primeiro para a mãe e depois para a menininha que segurava sua mão. Descendo das cadeiras, pegaram suas mochilas e Violeta deu um passo para o lado enquanto a mais velha saía correndo pelo corredor, logo seguida pela mais nova, que foi chamada de volta pela mãe.

 

            "Duda, vem e segure minha mão, por favor."

 

            Recuando um pouco, Eduarda pegou a outra mão de Violeta e se inclinou para frente para olhar ao redor. Suas bochechas coraram quando ela se afastou rapidamente, puxando a mão da mãe enquanto sussurrava em voz alta: "Quem é aquela?"

 

            "Esta é a Lorena", disse Violeta, sorrindo para a menina. "Você quer dizer olá?"

 

            "Oi", disse Eduarda timidamente.

 

            Lorena se aproximou mais de Violeta, escondendo o rosto na coxa de sua calça jeans. Rindo baixinho, Violeta apertou sua mão delicadamente. "Esta é Eduarda."




~•~•~•~•~•~




            Ao bater na porta do quarto da mãe para anunciar sua chegada, Lorena ergueu as sobrancelhas e fez uma careta ao cruzar a soleira, enquanto Zenilda a observava atentamente. Ela arqueou uma sobrancelha em resposta e Lorena parou aos pés da cama, com os braços cruzados sobre o peito, enquanto o tecido de náilon de seu casaco acolchoado farfalhava com o movimento. 

            "Bom dia."

            "Não esperava que você chegasse tão cedo."

            "Fui correr. Pensei em vir agora para poder treinar mais tarde."

            "Bom."

            Elas ficaram em silêncio por um instante e Lorena tamborilou os dedos na manga do casaco antes de se sentar, com os músculos doloridos e os pés dormentes nos sapatos molhados. Ela queria desesperadamente um banho e odiava a tensão desconfortável de estar sentada ao lado da cama da mãe enquanto o silêncio se prolongava. Limpando a garganta, Lorena passou as palmas das mãos pelas coxas da calça de moletom úmida, o coração batendo forte no peito, tão inquieta, com tanta coisa por dizer, tanta mágoa e raiva que ela não sabia como falar com Zenilda sem sentir uma vontade incontrolável de gritar. Seu peito doía e ela estava com tanta ressaca que não queria ficar ali sentada.

            "Posso lhe oferecer algo?", perguntou ela depois de alguns minutos.

            "Não."

            Lorena assentiu com a cabeça, fazendo uma careta, os lábios rachados pressionados numa linha reta enquanto seus olhos perfuravam o rosto da mãe. Respirando lentamente, com o estômago embrulhado, ela esperou, se perguntando o que estava fazendo ali, por que estava ali. Ela já havia prometido ficar, mas não era o que queria. Por outro lado, Lorena nunca tivera a liberdade de fazer o que queria, sempre vivera à mercê dos caprichos da mãe. 

 

            "Então", Zenilda finalmente quebrou o silêncio, deixando a cabeça cair para o lado nos travesseiros enquanto erguia as sobrancelhas. "Como está o trabalho?"

 

            Com um riso discreto, Lorena fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás. "Trabalho é trabalho."

 

            "E aí? Como está? Como foram os ensaios?"

 

            Abaixando a cabeça, Lorena deu de ombros com indiferença. "Não importa agora, não é? Eu não vou me apresentar."

 

            Mesmo enquanto falava, uma pontada de alívio percorreu Lorena ao pensar em uma pausa. Por mais irritada que estivesse com tudo aquilo, não conseguia fingir que estava com raiva por ser arrancada daquela miséria do trabalho. E ela era uma das sortudas, trabalhando com as principais companhias, viajando o mundo para apresentações, consolidando-se como um talento de sua geração, com uma família rica e dinheiro depositado periodicamente em sua conta pela mãe para financiar sua carreira. Ela tinha uma vida muito mais fácil do que aquelas nos degraus mais baixos das companhias de balé, que recebiam uma dúzia de pares de sapatilhas de ponta e um estipêndio por apresentação, ganhando menos que o salário mínimo enquanto submetiam seus corpos a torturas. E, no entanto, nada disso jamais fez diferença; Lorena odiava balé.

 

            Ela odiava aquilo desde os seis anos, chorando por não poder ir à escola com Eduarda; desde os nove, implorando em lágrimas à mãe por causa das intermináveis dores nas canelas e dedos quebrados devido ao balé de ponta; desde os onze, cansada das viagens constantes de ida e volta para São Paulo para as aulas na SPCD; desde os quinze, quando sua mãe lhe disse que iria treinar na Inglaterra, mandada para longe por quase o ano, longe da única amiga que já tivera; e desde os dezoito, quando se resignou à miséria de uma carreira no balé, sem outra saída, sem motivo para ficar em Ilha Comprida e sem vislumbrar a felicidade. Lorena odiou aquilo a vida inteira, com paixão, com cada fibra do seu ser, como só alguém que odiou a vida inteira poderia odiar. O único consolo era saber que seria uma carreira curta, aposentando-se por volta dos quarenta anos devido à sua condição de filha pródiga, que lhe conferia mais longevidade do que seus colegas, a maioria dos quais se aposentava aos trinta, ou alguns anos depois, se tivessem sorte. Lorena desejava ter esse azar.

 

            Mas, apesar de todo o ódio, era tudo o que ela conhecia: viver os sonhos que sua mãe nunca conseguiu realizar depois que a terceira cirurgia nos tornozelos deixou Zenilda impossibilitada de dançar novamente. Havia algumas pessoas na turma de Lorena, durante seus anos de treinamento, que teriam matado para ter os recursos que ela tinha: uma mãe que a levava de avião para as aulas, que pagava para enviá-la para o exterior e que podia arcar com mensalidades caras, um suprimento infinito de sapatilhas de ponta e collants, consultas com fisioterapeutas, nutricionistas e contas médicas. Para Lorena, tinha sido uma rotina monótona e enfadonha, a vida que lhe fora destinada. Nem mesmo chorar ou discutir faria Zenilda deixá-la desistir, até que Lorena se submeteu silenciosamente, sem mais reclamações. Qualquer esperança que ela tivesse de uma vida diferente se dissipou quando completou dezoito anos e deixou Ilha Comprida com a intenção de nunca mais voltar.

 

            Naquele momento, ela não tinha certeza do que preferia: a pausa no trabalho ou ficar longe de Ilha Comprida. Lorena não tinha certeza se ainda lhe restava alegria suficiente para se sentir satisfeita com qualquer uma das possibilidades, tão cansada e infeliz, vivendo a vida sem nenhum entusiasmo, seguindo a rotina no piloto automático. Esfregando os olhos, engoliu em seco, sentindo-se inquieta sob o olhar penetrante e inexpressivo da mãe, Zenilda. 

 

            "Você já sabe qual será a próxima apresentação?"

 

            Lorena deu de ombros, dando mais um passo para trás, enquanto olhava para o chão, sentada ereta na cadeira. "Jack está interessado em montar O Lago dos Cisnes, se eu for a escolhida para os papéis de Odette e Odile. Ele não tem certeza se mais alguém está à altura dos fouettés da Odile."

            "E por que ele não iria te querer?"

            "Bem, talvez não agora. Ele não ficou muito contente com a minha vinda para cá."

            Com um gesto de mão, Zenilda deu um sorriso discreto enquanto seus olhos se fechavam em lágrimas. "Você é a melhor que existe. Ele vai querer a melhor para uma variação tão difícil."

            "Tem a Maggye e a Lucélia."

            "Mas elas não são as melhores. Será uma boa apresentação, você se sairá bem. Espero que melhor do que da última vez que você a apresentou; o pas de deux estava um pouco rígido. De qualquer forma, ficarei triste por perder."

            Enrijecendo-se na cadeira, Lorena cerrou os punhos enquanto seu rosto se contorcia com o impacto da lembrança. Ela apertou os lábios e esfregou a têmpora dolorida, fechando os olhos enquanto respirava lenta e profundamente por um instante.

            "Você poderia tentar-"

            "Não", Zenilda a interrompeu bruscamente.

            Abrindo os olhos, Lorena lançou-lhe um olhar de frustração, com os cantos da boca contraídos. "Existem tratamentos."

            "Sou médica; não me trate com condescendência."

            "Não estou sendo condescendente com você, eu-"

            "Por que prolongar isso?"

            "Então não fique falando sem parar sobre como você vai sentir falta de…"

            "Não me é permitido pensar nas coisas de que sentirei falta?"

            "Você não precisa-"

            "Chega, Lorena", Zenilda a interrompeu firmemente, a aspereza de sua voz silenciando a filha


            Houve uma batida na porta aberta, e as duas mulheres olharam para encontrar Violeta parada ali, com um sorriso de desculpas no rosto. "Desculpe interromper."

            Endireitando-se um pouco na cama, Zenilda pigarreou, com uma expressão severa no rosto, enquanto chamava a médica para entrar. "Violeta, entre."

             Ao cruzar a soleira, ela sorriu com mais ternura do que antes, demonstrando uma gentileza compassiva ao olhar para a colega. "Só queria te dar a boa notícia de que você pode ir para casa hoje."

             Lorena sentiu um aperto na garganta e fechou os olhos, pensando em como seria muito pior ter Zenilda em casa com ela. Ela não se sentia preparada para cuidar da mãe, tanto ressentimento e distância entre elas, personalidades muito parecidas para que se dessem bem. Era para isso que ela havia concordado em ficar, claro, mas a realidade era bem diferente.  

            "Vou finalizar a documentação da alta e então você estará livre para ir."

            Limpando a garganta enquanto se levantava, Lorena olhou para o chão ao falar. "Preciso ir para casa buscar o carro."

            Zenilda assentiu com desdém e Lorena passou por Violeta para sair da sala. Caminhando pelos corredores, saiu do hospital para o ar gélido lá fora, o frio cortando-lhe as roupas úmidas. Transbordando de energia inquieta que nem o cansaço da ressaca e da corrida conseguiam conter, afastou-se da porta, dirigindo-se ao banco onde fumou no dia em que chegara à cidade. Sentando-se, bateu um cigarro do maço de Marlboro, acendeu-o com o isqueiro BIC azul e inclinou a cabeça para trás, apertando a ponte do nariz enquanto soltava uma baforada de fumaça.

            "Lorena!"

            Assustada ao ouvir seu nome ser chamado, ela se levantou num pulo, virando-se para observar Violeta caminhar em sua direção, encolhendo os ombros contra o vento enquanto enfrentava o frio com um suéter fino. Com uma expressão de desaprovação, Violeta estalou a língua ao se aproximar e ver o cigarro pendurado ao lado de Lorena.

            "Acho que você não precisa que eu lhe diga que eles não são bons para você."

            Um tanto envergonhada, com as bochechas corando enquanto hesitava por um instante, Lorena apagou o cigarro quase sem fumar que estava na lateral da caixa e o guardou de volta. Guardando a caixa no bolso, manteve as mãos nos bolsos e olhou para os tijolos sob seus pés, sentindo os olhos arderem. 

            "Venha e sente-se um instante", Violeta a convidou suavemente, colocando a mão no ombro de Lorena enquanto a ajudava a voltar para o banco. 

            Batendo palmas nas coxas, a médica suspirou pesadamente. Lorena ainda tinha o isqueiro na mão e brincava com ele enquanto tentava engolir a frustração, a vontade de chorar crescendo mesmo enquanto permaneciam em silêncio por um instante. Curvando-se para a frente, sua postura impecável se desfez, Lorena pressionou as palmas das mãos contra os olhos enquanto se balançava levemente, com os dentes cerrados.

            "Eu sei que isso deve ser difícil para você-"

            Ela se levantou num pulo, sentindo o rosto corar novamente, desta vez de raiva, enquanto sua voz saía embargada. "Você é a médica dela. Não deveria convencê-la a fazer o tratamento? Quer dizer..."

            Ao interromper a conversa, um som baixo e lamentoso escapou de seus lábios enquanto ela abaixava a cabeça, piscando freneticamente com a visão embaçada pelas lágrimas. Seu queixo tremia enquanto ela lutava para recuperar a compostura, e Violeta se levantou, suspirando suavemente ao abraçar Lorena. Lorena não se lembrava da última vez que havia recebido um abraço, e assim permaneceu ali, com o isqueiro apertado em uma das mãos, os braços pendendo ao lado do corpo enquanto Violeta acariciava suas costas.

            "Sinto muito, querida, mas mesmo com tratamento… estamos falando de talvez seis meses. Estaríamos apenas prolongando a morte dela, não a vida, e isso é muito tempo para sofrer, então sua mãe decidiu…"

            Desvencilhando-se do abraço, Lorena afastou-se, inclinando a cabeça para trás. Soltando uma risada abafada, passou a mão pelo rosto. Sua pele estava áspera e ela tinha consciência do forte cheiro de cigarro, vodca e suor. Fungando, pigarreou e baixou a cabeça, com o queixo agora encostado no peito.

            "Está bem", sussurrou ela, com os cílios molhados e grudados, a voz trêmula enquanto tentava não chorar. "Se é isso que ela quer... tudo bem. No fim, ela sempre consegue o que quer."

            Sua amargura era evidente e Violeta lançou-lhe um olhar de pena pungente que Lorena não percebeu. Afastando os cabelos despenteados do rosto, ela inspirou profundamente e expirou pesadamente.

            "Volto mais tarde."

            "Deixe-me te dar uma carona-"

            "Tudo bem, eu vou andando."

            Fazendo uma careta, Violeta assentiu com a cabeça, estendendo a mão para apertar levemente o braço dela. "Tudo bem, querida, mas... se precisar de alguma coisa, é só pedir, tá bom?" 

            Assentindo com a cabeça, sabendo que não faria isso, que estava acostumada a se virar sozinha em tudo, sem mãe para quem chorar, sem parceiro para desabafar, Lorena murmurou um agradecimento e saiu. Com os AirPods nos ouvidos, apertou o play na música e correu o caminho todo para casa, a chuva dando uma trégua enquanto suas pernas e quadris doíam, e entrou.

            Tirando as roupas e os sapatos molhados, ela subiu as escadas e ficou debaixo da água quente por meia hora, a pele úmida e vermelha pelo frio, e depois ainda mais vermelha pelo calor enquanto se esfregava para se limpar. Escovou os dentes e secou o cabelo com uma toalha, vestiu-se com calças de pregas amassadas e um suéter listrado limpo antes de descer. Enquanto preparava o almoço, bebeu dois copos de água, cozinhou as claras de dois ovos, descartando as gemas, e cortou uma maçã verde em fatias, retirando as partes machucadas.

            Depois de raspar os restos do almoço para o lixo, Lorena arrumou tudo, colocando o livro de volta na estante, escondendo os vestígios de sua bebida enquanto guardava a garrafa de vodca no quarto, e então pegou as chaves do carro da mãe. O Mercedes bordô estava estacionado na entrada da garagem, onde sua mãe o havia deixado, e Lorena teve que ajustar o banco para a frente enquanto subia ao volante, o motor roncando ao dar partida antes que ela pudesse manobrar o carro para a rua.  

            A última vez que ela dirigiu foi há mais de um ano, num carro alugado que a levara do aeroporto até o hotel onde ficaria hospedada por seis semanas para uma apresentação de Gisele com a Companhia Bolshoi em Moscou. Um pouco apreensiva, e grata pela ausência de trânsito e pela pequena população da cidade, Lorena dirigiu lentamente até o hospital e estacionou em frente. 

            Sentindo-se um pouco mais calma desta vez, menos desarrumada e certamente mais limpa, Lorena entrou apressadamente, chacoalhando as chaves do carro enquanto caminhava em direção ao quarto de Zenilda. Violeta estava sentada na cadeira que Lorena ocupava uma hora antes, e ambas as médicas olharam para ela. Sua mãe vestia as roupas com que evidentemente chegou ao hospital; os fios e tubos que serpenteavam por seu corpo já haviam desaparecido, enquanto ela aguardava Lorena buscá-la.

            "Pronta para ir?" perguntou Lorena, enfiando as mãos nos bolsos das calças enquanto erguia as sobrancelhas.

            "Vou pegar uma cadeira de rodas", disse Violeta, levantando-se.

            Acenando com a mão, Zenilda riu. "Eu consigo andar."

            Lorena pegou a bolsa da mãe e seguiu as médicas para fora da sala, acompanhando-as pelo corredor enquanto ouvia Violeta explicar tudo para a mãe. Uma enfermeira viria à casa duas vezes por dia para ajudar; ela tinha uma receita impressa de morfina que Lorena precisaria renovar na farmácia, além de uma série de outras coisas, como consultas médicas, dormir bastante e manter-se hidratada. 

            Abrindo a porta traseira do carro, Lorena colocou a bolsa da mãe no banco de trás enquanto Violeta ajudava Zenilda a entrar no banco do passageiro. Sentando-se ao volante, Lorena fechou a porta e colocou o cinto de segurança, pigarreando enquanto se ajeitava para ficar confortável e então ligou o carro. Saindo da vaga de ré, Lorena avançou lentamente e engatou a primeira marcha, saindo com cuidado do estacionamento e parando em um cruzamento enquanto olhava atentamente para os dois lados e esperava que um carro que se aproximasse passasse antes de virar. 

            "É uma placa de ‘dê a preferência’, não de ‘pare’; você poderia ter-"

            "Eu sei dirigir ", respondeu Lorena sarcasticamente, apertando o volante com força enquanto arrancava com o carro.

            "Quando foi a última vez que você-"

            "Eu dirigi até aqui, não dirigi?"

            "Bem-"

            "Só me deixem dirigir em paz para que eu possa chegar em casa inteiras."

            Zenilda fechou a boca e o silêncio foi ensurdecedor. Lorena estremeceu, esfregou a testa e acelerou, odiando a tensão. Felizmente, para seu grande alívio, a viagem foi curta; mal cinco minutos se passaram antes de ela chegar em casa, desligar o motor e puxar o freio de mão. Ficou ali sentada por um instante antes de abrir a porta e sair, com Zenilda já meio para fora.

            "Espere um segundo."

            "Eu consigo andar."

             "Espere", disse Lorena bruscamente, batendo a porta e contornando o capô. 

            "Não bata a porta."

            Revirando os olhos, Lorena aproximou-se da mãe e segurou a porta do carro aberta, estendendo a mão e deixando-a cair algumas vezes enquanto tentava, apreensiva, ajudar. Ela raramente tocava na mãe, então sentiu-se estranha ao segurar seu braço e ajudá-la a sair do carro, especialmente quando Zenilda insistia, irritada, que ela mesma o fizesse, movendo-se com sua autoconfiança habitual, como se não estivesse doente, como se nada estivesse errado. Mas suas roupas estavam um pouco mais folgadas e havia uma leve tensão em seu rosto enquanto se endireitava, pairando sobre a filha enquanto erguia uma sobrancelha.

 

            Com a boca semicerrada, Lorena fechou a porta e abriu a de trás, estendendo o braço por cima dos bancos para pegar a bolsa de Zenilda, trancou o Mercedes e seguiu a mãe até a porta da frente. Destrancou-a, deixou-a entrar primeiro e colocou a bolsa no aparador do corredor antes de fechar a porta e tirar os sapatos. A casa pareceu silenciosa e pequena demais para elas naquele momento; ficaram paradas na entrada por um instante antes de Zenilda se dirigir para a cozinha e emitir um som de irritação.

            "Você estava fumando aqui dentro."

            "Eu não fumei dentro de casa", protestou Lorena, sabendo muito bem que havia fumado.

            "Não minta para mim, eu consigo sentir o cheiro . O que eu já te disse sobre fumar dentro de casa? Só porque você ficou fora por tanto tempo, não significa que as regras mudaram." 

            "Tá bom, tá bom! Me poupe do sermão, por favor", Lorena revirou os olhos, caminhando a passos largos em direção à porta dos fundos e a abrindo com um estrondo. "Vou lá fora. Você está feliz?"

 

            Em pé na varanda úmida, Lorena tirou o maço amassado do bolso de trás e acendeu o cigarro, encarando as árvores que cercavam o quintal, franzindo a testa enquanto encolhia os ombros para se proteger do vento. Ela nem tinha fumado metade quando ouviu a mãe chamando seu nome.

            Resmungando baixinho de frustração, Lorena revirou os olhos enquanto se virava, deixando os ombros caírem. "O quê?"

            "Eu disse: você pode vir aqui, por favor?"

 

            Soltando uma baforada de fumaça e abanando o ar à sua frente, Lorena apagou o cigarro e olhou pela janela da cozinha, paralisando ao ver a mãe observando-a. Caminhando até a porta dos fundos, que estava aberta, ela entrou, fechou a porta e foi até o lixo, jogando a bituca e o pedaço de tabaco não fumado dentro. Foi até a pia lavar as mãos e olhou para Zenilda enquanto as secava.

            "O que você precisa?"

            "Perguntei se você queria uma xícara de café."

            "Ah, claro."

            Relutantemente, Lorena permaneceu na cozinha, encostando-se no balcão e tamborilando os dedos no mármore, observando Zenilda encher a chaleira, sentindo-se inquieta e agitada. Rapidamente, Lorena atravessou o corredor, pegou a chaleira da mão da mãe e a empurrou para o lado.

            "Deixa eu-."

            Soltando uma risadinha, Zenilda pegou duas canecas limpas no armário. "Eu não sou inválida. Não pedi pra você voltar para ficar me mimando."

            "Então por quê?"

            "Pelo bem da empresa. Temos algumas coisas para resolver, você e eu."

            Engolindo em seco, com a boca se estreitando por um instante, Lorena se virou e colocou a chaleira no chão, desligando-a antes de falar. "Que coisas?"

            Soltando um suspiro, Zenilda cruzou os braços sobre o peito, os lábios se curvando num sorriso irônico enquanto seus olhos pálidos brilhavam intensamente. "Não conversamos quase nada desde que você foi embora."

            "Nós enviamos e-mails."

            "Ocasionalmente."

            "Você visita."

            "Não é suficiente. Há… muita coisa que ficou por dizer. Eu sei que você está com raiva de mim, e talvez eu nem sempre tenha sido justa…"

            "Talvez?", disse Lorena com um tom de incredulidade silencioso, uma onda de raiva a invadindo.

            Zenilda passou a mão pelo rosto, as pálpebras se fecharam e ela balançou a cabeça antes de suspirar e pegar o café moído que preferia no armário. Colocando uma colherada em cada xícara, ela as pôs diante de Lorena, que estava parada em frente à chaleira fervendo, e lançou-lhe um olhar indecifrável.

            "Como eu disse, há muito o que conversar. Gostaria de esclarecer as coisas antes de partir."

            "Sério? É isso mesmo? Você quer morrer com a consciência tranquila? Se é por isso que estou aqui, vou poupar o nosso tempo e ir embora agora."

            "Esta é a nossa última chance real de passarmos um tempo juntos e conversarmos direito. Eu sei que há muitas coisas que você gostaria de me dizer, então estou apenas… te dando a oportunidade de dizer o que quer que seja ."

            Abrindo e fechando a boca algumas vezes, Lorena cerrou os dentes e agarrou a chaleira assim que a água ferveu, despejando-a sobre o pó de café e batendo-a de volta na panela. O som da colher batendo na lateral de cada xícara enquanto ela as mexia, uma a uma, preencheu o silêncio antes que ela jogasse a colher na pia com um estrondo e se virasse para a mãe.

            "Não tenho nada a lhe dizer."

            Pegando sua xícara, Lorena passou por ela e subiu as escadas. Entre goles de café preto escaldante, remexeu na mala ainda por arrumar e tirou uma regata justa e uma calça legging, vestindo-as e calçando meias antes de pegar a bolsa com suas sapatilhas de ponta e faixas de resistência. Depois de beber o café até a última gota amarga, Lorena deixou a xícara no criado-mudo e desceu as escadas, diminuindo o passo ao se aproximar do pé da escada, avistando a mãe na sala de estar, tomando café sozinha com a TV ligada. Zenilda olhou para ela ao ouvir o barulho de sua descida.

         "Estarei na garagem", disse Lorena, com uma leve ruga entre as sobrancelhas. "Se precisar de alguma coisa."

            Acenando com a cabeça, sua mãe voltou sua atenção para a TV e Lorena enfiou os pés nos tênis de corrida úmidos antes de sair pela porta da frente e contornar a casa. No final da entrada de carros, ela abriu a porta destrancada do que antes era a garagem, reformada há muito tempo e transformada em um estúdio de ensaio para Lorena. Acendendo a luz, Lorena olhou ao redor do cômodo inalterado e o achou limpo, pelo menos. Refletindo sobre o ambiente, com o cheiro de produto de limpeza e limpa-vidros, Lorena pensou nas incontáveis ​​horas de sua infância passadas na garagem, praticando até estar pronta para desmaiar de cansaço.

            O piso era flutuante e ela caminhou sobre ele para ligar o aparelho de som, que continha um CD antigo de Stravinsky e uma pequena pilha de outros compositores de música clássica. Ela sempre preferiu Vivaldi, então ligou o aparelho, ajustando o volume até ficar satisfeita. Havia também um suporte com pesos, a maioria deles além de sua força da última vez que os usara, e muitos ainda além de sua força enquanto ela se aproximava, pousando os sapatos e pegando os halteres.

            Nas duas horas seguintes, ela levantou pesos e fez exercícios diligentemente, usando suas faixas de resistência e um velho tapete de ioga enquanto realizava as repetições monótonas, até que sua pele ficasse encharcada de suor e seus braços parecessem de chumbo. Era a mesma coisa todos os dias, nenhuma alegria no treino rotineiro, enquanto ela se mantinha com os músculos definidos, sempre atenta ao equilíbrio entre musculosa e magra. 

            Depois de terminar com os pesos, ela saiu para fumar um cigarro e beber água, voltando em seguida para praticar seus movimentos de ponta. Fitas rosa-claro escorriam por seus dedos enquanto ela tirava as sapatilhas de ponta da bolsa e se sentava para tirar as meias e calçá-las, passando as fitas pelos tornozelos e amarrando-as bem baixas, do seu jeito preferido, antes de se dirigir à barra, na altura da cintura, e assumir a primeira posição com os pés virados para fora. 

            Enquanto o concerto para violino em Sol maior de Vivaldi continuava a tocar, Lorena fazia alguns exercícios básicos na barra, praticando relevés e échappés e depois um pas de bourrée na ponta dos pés. Ela não usava fita adesiva nem acolchoamento nos pés e nas sapatilhas, pois sua primeira professora, Arminda, acreditava que não ter nada entre os pés e as sapatilhas lhe daria mais controle sobre a articulação dos dedos, e seus pés calejados sentiam a dor surda nas pontas dos dedos machucados ao pressionarem a sapatilha. Em pé sobre uma perna com as mãos na cintura, ela elevou a outra perna para a posição de retiré e a manteve por três minutos antes de repetir o exercício com a outra perna, enquanto movia os braços pelas cinco posições, olhos fechados, corpo ereto, peito do pé totalmente esticado com os dedos perpendiculares ao chão e a ponta da sapatilha alinhada com o chão. 

            Foi um processo lento de aprimorar todos os minúsculos músculos do seu corpo para manter a postura ereta, garantindo que suas panturrilhas estivessem firmes, seus quadris alinhados com as pernas e com o peito, e em dez minutos, Lorena já estava com gotas de suor nas clavículas. Apesar de toda a corrida, musculação e treinamento de resistência, era o balé o mais extenuante, o que mais a exauria, o que mais castigava seu corpo. Infelizmente, era também no balé que ela era tão boa, tendo feito seu primeiro solo aos quatorze anos em um longo adágio com música de um quarteto de cordas de Tchaikovsky, que ela praticava a cada hora do dia durante semanas. Talvez se ela não tivesse desejado tanto agradar à mãe durante os primeiros anos de sua vida, nunca teria demonstrado talento para a dança, indisciplinada demais e com um corpo naturalmente inadequado para a dança – um comentário que a acompanhou ao longo de sua carreira: quadris largos demais, peito e coxas grandes demais. Mas ela dedicava diligentemente as horas que Zenilda ditava aos ensaios, seguindo à risca seu regime e dieta rigorosos, pesando-se quase obsessivamente ao medir seu corpo, e a cada oportunidade de falhar, ela prevalecia, sem muita escolha a não ser vencê -la.

            Ela passou mais cinco horas lá dentro praticando sua técnica, arabesques, piruetas e battements, antes de passar a praticar seus fouettés. Os comentários anteriores de sua mãe ecoavam em sua mente enquanto ela erguia uma perna musculosa a cada giro. O Lago dos Cisnes exigia trinta e dois fouettés, uma façanha considerável, mas alcançável para Lorena. A dificuldade estava em manter a postura perfeita, e ela persistiu, sem parar nem uma vez para fumar, absorta em sua técnica e postura enquanto se movia pelo piso flutuante, a perna se elevando repetidamente ao ritmo da música de Vivaldi. Lorena não parou, sabendo que, no momento em que o fizesse, sentiria toda a dor. 

            No fim, foi o som abafado de uma porta de carro batendo que a fez parar, a coxa forte escorregando enquanto ela tropeçava, recuperando o equilíbrio ao se lançar para a frente, ainda na ponta dos pés, e lentamente se abaixando de volta até os pés no chão. Desamarrando as sapatilhas de ponta, Lorena desligou o som e abriu a porta da garagem, espiando a escuridão que se instalara enquanto ela praticava. O carro de sua mãe ainda estava estacionado lá, com os faróis e o motor desligados, mas havia outro carro atrás dele, desconhecido.

            Apagando as luzes, ela caminhou descalça pela entrada úmida, sentindo a dor nos dedos dos pés, e contornou a casa, parando ao ver uma figura parada na varanda, vestindo um uniforme médico e carregando uma bolsa grande. Uma onda de irritação percorreu Lorena, que subiu os degraus laterais da varanda pisando forte, segurando as sapatilhas de ponta em uma das mãos enquanto erguia as sobrancelhas, expectante.

            "Veio buscar sua sacola de compras?"

            "O quê? Não", respondeu Eduarda, surpresa e perplexa. "Vim ver sua mãe. Eu... eu sou a enfermeira dela."

            Ao parar, a expressão de Lorena se fechou enquanto seu estômago revirava. "Você é a enfermeira dela?"

            "Sim."

            Ela abriu a boca para responder, sem saber o que diria, quando a porta da frente se abriu. Zenilda olhou para as duas, observando a expressão carrancuda no rosto da filha e o leve rubor nas bochechas da enfermeira à luz da entrada.

            "Duda, entre, entre."

            "Obrigada. Eu vou tentar ser breve. Não quero incomodar."

            "Bobagem. Obrigada por fazer isso; sei que você provavelmente quer chegar em casa para jantar."

            Presa atrás delas enquanto as três se encolhiam logo na entrada, Lorena tentou passar por Eduarda e contornar sua mãe, que bloqueava a passagem para a escada. Ao abaixar a cabeça e passar pela enfermeira, os olhos de Zenilda pousaram nela.

            "Posso lhe oferecer algo para comer, uma bebida? Lorena, você pode-"

            "Vou tomar um banho", Lorena a interrompeu apressadamente, em voz alta e desajeitada, enquanto se abaixava e se dirigia para o pé da escada.

            Seu corpo doía terrivelmente, mas ela subiu as escadas rapidamente antes que lhe pedissem mais alguma coisa, trancando-se no banheiro enquanto ligava o chuveiro e tirava a roupa. Lavando-se rapidamente, enxaguou o sabão e saiu, enrolando-se na toalha úmida que usara antes, colocando as roupas na lavanderia e aplicando desodorante antes de voltar para o quarto. 

            Vestindo roupa íntima limpa e uma blusa preta com listras brancas de algodão de mangas compridas, Lorena desembalou um pote de manteiga de karité e uma pedra gua sha de jade, sentando-se na cama enquanto massageava metodicamente seus membros tensos com a pedra. Em seu apartamento, ela tinha suplementos de magnésio e sais de banho, uma mini pistola de massagem para usar nos músculos doloridos das coxas, panturrilhas e ombros, mas se contentava com a pedra de jade enquanto tentava aliviar a tensão do corpo.

            Ela estava esfregando as solas dos pés cansados, machucados e calejados, com curativos em volta das unhas rachadas e bolhas de sangue, facilmente a parte mais feia do seu corpo, pensou Lorena — ou talvez fosse a barriga, ou talvez as coxas, ou os braços, que nunca pareciam estar tonificados o suficiente para o seu gosto — quando foi interrompida por uma batida na porta. Presumindo que fosse sua mãe, que havia terminado com Eduarda e perguntava sobre o jantar, Lorena disse para ela entrar e foi pega de surpresa um instante depois quando a porta se abriu hesitante, revelando sua velha amiga.

            "Ah, hum, desculpe, eu só... eu... já terminei, eu só... queria conversar com você sobre algumas coisas. Se você tiver um segundo."’

            Abrindo-a ainda mais, Eduarda pigarreou enquanto olhava ao redor do quarto inalterado e para a visão de sua velha amiga, seminua na cama, e se remexeu desconfortavelmente. Lorena parou, a pressão da pedra de jade em suas mãos afrouxando enquanto ela erguia a cabeça, endireitando-se, a testa franzida em confusão.

            Dando de ombros com indiferença, Lorena pegou mais manteiga de karité da banheira aberta e voltou à sua dolorosa massagem, passando a atenção para o outro pé. Depois de anos de balé, de ser manipulada por mãos adultas, dezenas de adolescentes hormonais confinadas juntas, de se trocar em camarins lotados, corpos nus por todos os lados, de bebidas pós-espetáculo onde tomava doses de vodca e ia para casa com uma colega de companhia — às vezes duas —, Lorena não tinha noção do seu corpo como algo além de uma ferramenta pela qual as pessoas pagavam para ver, dessensibilizada e distante demais dele para se sentir constrangida. Da mesma forma, Eduarda havia passado anos na faculdade de enfermagem e em sua carreira posterior, banhando pacientes em estágios, limpando todo tipo de fluidos corporais e vendo-os em todos os estados de nudez, para se sentir desconfortável. Mesmo assim, havia uma corrente subterrânea de constrangimento, ambas cientes de que haviam se visto de forma mais íntima do que isso, e mais do que gostariam de lembrar.

            "Certo, bem", continuou Eduarda, abaixando a cabeça e chacoalhando um frasco de comprimidos laranja enquanto, nervosa, colocava uma mecha de cabelo solta atrás da orelha. "Hum, então, ela está tomando morfina para... para a dor. Ela não pode tomar mais de uma dose a cada quatro horas. As instruções estão no frasco e... bem, ela sabe o que está fazendo, mas ela precisa descansar. Eu recomendo que você procure uma cama lá embaixo em breve, hum... as escadas vão começar a cansá-la mais rápido e, bem, ela precisa descansar. E talvez você queira garantir que ela esteja bebendo bastante água também."

            Lorena continuou a esfregar os pés com a pedra de jade, olhando para as mãos enquanto evitava encarar Eduarda. Ela ouvia, porém, com a garganta apertando ao saber que sua mãe estava doente e não iria melhorar. Lorena não queria arrumar uma cama lá embaixo, queria se poupar das discussões de ter que obrigar Zenilda a beber copos d'água e levar canja de galinha para ela na cama, de ter que cuidar da mãe de um jeito que ela nunca tinha cuidado de Lorena. Eduarda finalmente parou de falar e Lorena olhou para cima, erguendo as sobrancelhas enquanto Eduarda soltava um suspiro baixo e mexia na armação dos óculos, o rosto corando de irritação

            "Olha, você não quer falar comigo? Tudo bem, eu entendo, mas isso é sobre os cuidados com a sua mãe e garantir que ela esteja confortável nas próximas semanas, então se você pudesse apenas me ouvir-"

 

            Com um sorriso irônico, Lorena desceu da cama, deixando sua pedra gua sha sobre os cobertores, e caminhou até Eduarda. Tirando o frasco de comprimidos laranja da mão dela, deu-lhe uma leve sacudida, fazendo os comprimidos chacoalharem, e arqueou uma sobrancelha com frieza.

 

           "Morfina, no máximo a cada quatro horas. Repouso na cama e líquidos. É, eu entendi, não sou idiota."

 

            "E refeições regulares. Talvez algo um pouco mais substancioso do que frango com maçãs."

 

            "Algo mais?"

 

            Mudando o peso de um pé para o outro, Eduarda fez uma careta enquanto evitava o olhar de Lorena. "Volto amanhã de manhã."

 

           "Ótimo", respondeu Lorena secamente antes de fechar a porta na cara dela.

Chapter 4

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

            Os dias seguintes foram difíceis para Lorena. Ela acordava antes do amanhecer, trocava de roupa para correr, pegava seus cigarros, AirPods e celular na mesinha de cabeceira e descia as escadas em silêncio. Depois de pegar um ibuprofeno da gaveta e engoli-lo com água da torneira da cozinha, Lorena calçou os tênis e saiu de casa para sua corrida de trinta quilômetros, com a cabeça latejando por causa da vodca que havia bebido sozinha no quarto depois que a mãe foi dormir, lendo livros enquanto ignorava as mensagens de suas colegas bailarinas principais.

            Depois da corrida, cronometrada o suficiente para que Eduarda já tivesse ido embora quando ela voltasse para casa, poupando-a do encontro, ela guardava os poucos itens que havia comprado para a mãe no caminho e verificava se ela precisava de alguma coisa. Bebia dois copos de água e uma xícara de café, fumava um cigarro na varanda dos fundos e depois trocava de roupa, vestindo roupas adequadas para a dança, e desaparecia na garagem pelo resto do dia. Três horas de exercícios com pesos e movimentos no tapete de ioga, um pequeno almoço antecipado de claras de ovo e maçãs verdes parcialmente amassadas, perguntando sem jeito à mãe se ela estava com fome enquanto Zenilda se ocupava em seu escritório, antes de fumar outro cigarro e retornar à garagem para mais seis horas de balé. 

            Depois de um banho quente, Lorena preparava para si um jantar insosso com meio peito de frango e espinafre murcho, cozinhando a outra metade para a mãe enquanto Zenilda, em silêncio, preparava algo um pouco mais substancioso para acompanhar. Ela não repreendia Lorena por suas refeições modestas nem a convencia a comer a salada e as batatas que preenchiam o restante do seu prato. Lorena permanecia à mesa de jantar com a mãe, comendo em relativo silêncio, até que uma batida na porta anunciava a chegada da velha amiga para a visita noturna, a caminho de casa depois do trabalho. Esse era sempre o sinal para Lorena jogar os restos do jantar no lixo e subir as escadas, massageando os músculos doloridos com a pedra de jade e manteiga de karité enquanto fumava pela janela aberta. 

            Assim que Eduarda saiu, Zenilda assistiu à TV lá embaixo. Lorena preparou uma xícara de chá para ela e separou um pouco de morfina para que tomasse. A tensão nos cantos dos olhos e da boca da mãe denunciava a dor lancinante. Depois, Lorena aplicava gelo nas panturrilhas e nos músculos posteriores da coxa, colocava adesivos analgésicos Salonpas e pegava sua garrafa de vodca, misturando com água e bebendo o suficiente para embaçar a mente enquanto fumava sem parar, até adormecer no quarto frio de sua infância, após tomar outro ibuprofeno para aliviar as dores.

            É claro que havia as provocações e as discussões, a paciência de ambas as mulheres se esgotando depois de uma semana desde que Lorena chegara a Ilha Comprida. Uma semana, tão pouco tempo, passando depressa, mas agora com uma importância ainda maior. Uma semana era uma fração do tempo cada vez menor que restava à sua mãe, e essa constatação enchia Lorena de pavor enquanto ela rondava a casa como se estivesse assombrando Zenilda, sempre à margem, sem nunca saber o que dizer ou fazer, tão irritada com tudo aquilo que sentia que, se falasse, só conseguiria emitir gritos silenciosos. Ela odiava aquele constrangimento, desejando que seu irmão estivesse vivo para que outra pessoa pudesse assumir a responsabilidade de cuidar da mãe doente. Qualquer um, menos ela. Lorena não se importava se isso era egoísmo da sua parte.

            Na sétima manhã, ela acordou cedo e foi direto para a corrida sem olhar a hora, num ritmo acelerado demais enquanto se esforçava ao máximo, suada e pegajosa pelo esforço, com uma dor de cabeça latejante nas têmporas. Correu os dezenove quilômetros até o porto em Iguape e voltou para casa, o céu ainda escuro quando chegou, as bochechas coradas pelo frio do final de novembro. Eram pouco mais de sete horas quando entrou em casa, cedo demais para Eduarda ter aparecido ainda, mas Lorena se esqueceu disso por causa da sensação de enjoo no estômago, resultado do excesso de bebida e exercício.

            Sem nem tirar os sapatos molhados, Lorena foi direto para o banheiro do andar de baixo, vomitando na pia enquanto sua pele formigava de suor, com muito calor em suas camadas de roupa, e sua visão começou a ficar turva. Não saiu muita coisa, apenas bile azedo enquanto seu estômago revirava, arranhando sua garganta enquanto ela se agarrava à borda da pia. Respirando pesadamente, seu rosto acinzentado sob o rubor nas bochechas, os ouvidos de Lorena zumbiam levemente enquanto o som da aproximação de sua mãe estava abafado. A primeira vez que ela percebeu a presença de Zenilda foi quando a luz acendeu, assustando-a enquanto se endireitava, vislumbrando o rosto desaprovador de sua mãe no espelho antes que Zenilda a repreendesse.

            "Pelo amor de Deus, Lorena, são sete horas da manhã, o que diabos você está fazendo?"

            "Hum?" ela murmurou, piscando algumas vezes enquanto tentava dissipar o som abafado em seus ouvidos.

            Abaixando a cabeça para vomitar novamente, Lorena tossiu e engasgou, fazendo uma careta ao ter sua mãe ali como testemunha, ao saber que o cheiro de vodca emanava de seus poros enquanto gotas de suor se formavam em seu rosto. Ela se sentiu péssima, e ainda mais quando sua cabeça voltou a subir e ela viu a compreensão surgir no rosto de sua mãe.

            "Você está bêbada?"

            "Não."

            "Consigo sentir o cheiro em você", zombou Zenilda, entrando mais no banheiro para sentir o aroma da vodca que Lorena estava bebendo pura. "Você está fedendo. É isso que você está fazendo aí em cima, sozinha? Bebendo sozinha? Que patético, sinceramente."

            "Seria menos patético para você se eu me juntasse a você lá embaixo enquanto fazemos isso?"

            "Será que é pedir muito que você não passe o resto do nosso tempo juntas se embriagando?"

            "Estou aqui, não estou? Isso não basta para você?" Lorena disparou, os nós dos dedos ficando brancos na pia enquanto assumia um tom arrogante, a voz cortante. "Ou minha vida ainda é ditada pelo que você quer? Eu sei que pode ser chocante para você, considerando o quão pouco você me viu ao longo dos anos, mas eu não sou mais criança, sabia?"

            Com o rosto endurecido, a voz de Zenilda tornou-se áspera enquanto falava em voz baixa. "Na minha casa, as regras são minhas. Não me importa a sua idade."

            "Claro, claro, é sempre o que você quer, não é?"

            "Só peço que você mostre um pouco de consideração pelas outras pessoas que moram nesta casa, em vez de ficar aí me ignorando. Você mal falou comigo a semana toda; acho que não estou sendo irracional ao esperar um pouco de conversa, um pouco de companhia, pelo amor de Deus."

            "O quê, você quer que eu abra um sorriso, faça charme para você e diga o quão fantástica você foi como mãe?"

            "Ah, você é uma verdadeira mártir", exclamou Zenilda, cansada. "Deve ser tão difícil ser você, a única pessoa no mundo cuja mãe não é perfeita."

            Virando-se enquanto a raiva a consumia, Lorena sentiu a pressão aumentar no peito, a ardência atrás dos olhos enquanto antigas feridas se manifestavam. Era algo que ela nunca conseguira superar, nunca conseguiu se reconciliar com o fato de que sua mãe não lhe dera muita escolha na própria vida. As palavras ficaram presas em sua garganta enquanto olhava para a mãe, os cabelos soltos sobre os ombros, suavizando as linhas geralmente severas do rosto de Zenilda, um roupão de seda pendendo frouxamente de sua figura alta, com um pijama por baixo.

            Gesticulando sem ânimo com a mão, Zenilda soltou uma risada abafada, os olhos pálidos brilhando de irritação enquanto sua boca se contorcia em um sorriso zombeteiro. "Suponho que essa seja uma das coisas de ser mãe, você sempre tem a culpa."

         "Você não tem o direito de ficar chateada com o jeito que tudo terminou, e não tem o direito de me dizer como foi a minha infância. Eu sei como foi", gritou Lorena de volta para ela, com a voz embargada.

            "Ah, isso de novo. Você apanhava? Tinha o que comer? Tinha um teto sobre a cabeça e roupas para vestir? Alguma vez lhe faltou alguma coisa? Você sabe o quão bem você vivia em comparação com os outros? Pergunte aos seus amigos quantos deles tiveram tudo pago pelos pais. Você sabe quantos sacrifícios eu tive que fazer para que você pudesse ter o melhor? E agora você quer me dizer o quão horrível eu fui com você depois de tudo que fiz por você."

            "Você fez o que achava melhor, não o que eu queria para mim. E agora você usa minha conquista como prova de quão boa mãe você foi, quando tudo o que você já fez foi por obrigação, não porque você queria. Você me criou porque teve que fazer isso, porque papai me trouxe para casa e você não teve escolha. Me desculpe por isso. Me desculpe por você ter tido que criar uma filha que você nunca quis.”

            "Ah, Lorena-" Zenilda estalou a língua, seus ombros caindo enquanto uma onda de dor cruzava seu rosto.

            Lorena queria pressionar as palmas das mãos contra os olhos e chorar, a sensação crescendo, seus olhos ardendo com as lágrimas, sua voz rouca como se um nó se formasse em sua garganta. Havia tanta raiva dentro dela, reprimida por anos, tanto tempo desde que haviam revisitado aquela velha discussão, e ela sentia aquela velha dor no peito, tão desesperada para que sua mãe provasse que ela estava errada e admitisse seus erros, para que se desculpasse pela maneira como a havia tratado.

            "Mas isso não justifica nada, e não compensa o fato de eu não me lembrar de um único momento em que senti que você me amava, que sequer queria me amar. Eu sei que seria uma grande bobagem da sua parte saber que isso me tirava o sono, me perguntando por que era tão difícil ser amada por você, me esforçando tanto para ser perfeita, para te agradar, para que talvez você conseguisse, e você fica falando do teto sobre a minha cabeça e de como você me alimentava, como se isso fosse o suficiente? Não era isso que eu precisava de você, mas você nunca se importou com o que eu precisava, e nunca tentou me conhecer ou me entender."

            "Você gostaria que eu acreditasse nisso, não é? Que você é um grande mistério para mim", Zenilda riu, balançando a cabeça. "Você odeia o fato de ser tão fácil de decifrar, tão... tão inequívoca, que eu consigo saber exatamente o que você está pensando, que eu sempre te conheci. Você pode chorar o quanto quiser sobre como eu te incentivei a seguir sua carreira, que eu fui tão injusta com você por ser tão dura, mas eu fui dura porque me importo com você. Você não estaria aqui se isso não fosse verdade."

            Lorena soltou um suspiro quando se debateu por um instante, a raiva a inundando novamente enquanto enxugava as lágrimas. "Você acha que é por isso que estou aqui? Estou aqui porque papai e Léo morreram, e você conseguiu afastar qualquer outra pessoa que pudesse se oferecer para cuidar de você, então agora sou a única pessoa que lhe resta para fazer o seu trabalho. Você queria que eu viesse aqui, queria que eu desabafasse, então aqui está. Estou aqui porque você me pediu; não preciso das críticas também."

            Enquanto discutiam aos gritos, Lorena dirigiu-se para a porta enquanto Zenilda recuava para o corredor, e um movimento rápido chamou a atenção de Lorena. Virando a cabeça, ela viu Eduarda na porta da frente entreaberta, e Zenilda fechou a boca rapidamente ao se virar para seguir o olhar da filha, sua resposta morrendo na garganta.

            "Ah. Duda, que bom que você está aqui."

            "Hum... desculpe", murmurou Eduarda, atrapalhada enquanto se remexia inquieta, gesticulando para trás. "Bati na porta, mas ninguém atendeu, então pensei... bem, a porta estava destrancada, então eu só queria ter certeza de que estava tudo bem. Desculpe."

            "Por favor, não se incomode conosco. Entra, entra."

            Parada na porta do pequeno banheiro, Lorena estava de cabeça baixa, o rosto vermelho de raiva. A ponte do seu nariz doía e ela piscava rapidamente enquanto lágrimas ardiam em seus olhos, com medo de começar a chorar, desta vez de verdade. O silêncio era constrangedor enquanto os três permaneciam no corredor, a tensão palpável, e Lorena respirou fundo, com a voz trêmula, antes de seguir em frente, impulsionada pelos pés.

            "Preciso de ar", disse ela, com a voz quase num sussurro.

            Com a mão no bolso, onde ainda guardava o celular e os cigarros, ela passou pela mãe sem cerimônia e, em seguida, esbarrou abruptamente em Eduarda, que inexplicavelmente estendeu a mão como se quisesse impedi-la. A ponta dos dedos de Eduarda roçou o pulso de Lorena, que estremeceu com o contato enquanto continuava em direção à porta.

            "Lorena," Zenilda suspirou, como se fosse um pequeno incômodo ter que lidar com a raiva reprimida da filha. "Não fuja."

            Ao entrar pela porta, Lorena bateu-a com força atrás de si, inspirando profundamente o ar gelado e soltando um som lamentável. Caminhando até a beira da varanda da frente, Lorena curvou-se para vomitar nos arbustos de hortênsia antes de limpar a boca e procurar às apalpadelas o maço de cigarros no bolso. Apagando um cigarro, a mão de Lorena tremeu levemente enquanto ela tentava acender o isqueiro, encostando-o no cigarro e apoiando-se na coluna de madeira enquanto olhava para a manhã enevoada.

            Enjoada e com calor, ela permaneceu do lado de fora até que o ar frio começasse a penetrar seus ossos, tremendo levemente enquanto tirava a cinza da ponta do cigarro, soltando a fumaça enquanto encarava o Jeep azul surrado de Eduarda estacionado na entrada da garagem. Ela queria desaparecer, encontrar um lugar onde nem mesmo suas lembranças a incomodassem, mas, em vez disso, apenas apagou a ponta do cigarro e acendeu outro, fumando um atrás do outro na varanda até que a porta da frente se abrisse. 

            Em retrospectiva, ela deveria ter ido além da varanda da frente — talvez até a garagem —, mas Lorena esperava que a deixassem em paz. Ela não precisava questionar quem estava entrando pela porta da frente e, ingenuamente, pensou que Eduarda seguiria para o carro sem hesitar, tão magoada quanto Lorena com toda a situação. Lorena, porém, não teve essa sorte, enrijecendo-se enquanto Eduarda falava baixinho.

            "Você está bem?"

            Lorena engoliu em seco tudo o que queria dizer, os lábios comprimidos numa linha reta enquanto remoía sua amargura. Ficou em silêncio por um instante, o coração acelerado, o rosto contorcido de dor enquanto mantinha as costas voltadas para Eduarda.

            "Não preciso que você fique me vigiando. Não somos amigas."

            "Nós costumávamos ser."

            "É, bem, agora não somos mais", respondeu Lorena bruscamente.

            "Tudo bem, não somos amigas. Eu só queria ter certeza de que você está bem."

            Com um suspiro silencioso, Lorena fechou os olhos, esfregando a ponte do nariz enquanto sua garganta apertava. "Não, eu não estou bem. Você pode me deixar em paz agora?"

            Houve um silêncio tenso antes que ela ouvisse o arrastar de sapatos nos tijolos da varanda e observasse Eduarda sair pelo canto do olho. Ela fingiu que não estava olhando enquanto estreitava os olhos contra o céu cinzento da manhã, soltando fumaça pelos lábios enquanto Eduarda entrava no carro e ligava o motor. Lorena viu uma prancha de surfe no banco de trás e seus lábios se contraíram ao se lembrar dos dias de verão na praia, quando trocava o treino de cardio para ver Eduarda cair da prancha repetidas vezes, até conseguir ficar em pé e surfar as ondas.

            Sua garganta apertou e ela esperou até que o Jeep saísse da garagem antes de se dirigir aos degraus ao lado da varanda e subir a entrada de carros até a garagem. Entrando, ela se trancou lá dentro pelo resto do dia, remoendo seus sentimentos feridos, a culpa e o arrependimento a consumindo, seguidos por acessos de raiva que faziam seus olhos arderem, lutando para reprimir tudo. Ela havia reprimido tanto disso por tanto tempo que Lorena não sabia por onde começar a processar os sentimentos complexos em relação à sua mãe.

            Com o pai, que morreu quando ela tinha dez anos, era mais fácil. Lorena mal estava presente em sua vida, mesmo quando vivo. Suas expectativas em relação a ele sempre foram baixas, desde o momento em que ele a levou para a nova casa com estranhos dentro, passando-a para Zenilda cuidar enquanto se trancava no escritório todos os dias com uma garrafa de uísque e esportes na TV, assistindo a qualquer coisa — futebol, boxe, golfe, dardos —, seu mau humor impregnando a casa enquanto batia portas e proferia palavras raivosas contra a mãe dela. Sua raiva era assustadora, pois todos viviam sob seu efeito. Mesmo assim, não importava o quanto bebesse, ele sempre acordava sóbrio na manhã seguinte para trabalhar no escritório. Sua carreira como empresário era tão consolidada que lhe permitia trabalhar de casa quando quisesse, e suas contas bancárias continham ativas suficientes, ganhos ou herdados, para compensar investimentos ruins e o vício em bebidas. 

           Filha de uma mulher fria e um homem bêbado e cruel, Lorena nunca soube como agradar aos pais, sempre se esforçando ao máximo e sempre fracassando. Foi apenas no balé que ela vislumbrou um lampejo de orgulho nos olhos de alguém, recebeu palavras de encorajamento ou elogio, e mesmo assim, geralmente de professores, e ainda assim não com a frequência necessária. Lorena recebeu muito mais críticas do que palavras gentis em sua vida. Isso a deixou com pouca autoestima e uma necessidade desesperada por qualquer migalha de elogio. Ela dançava por horas enquanto tentava anestesiar a dor, a certeza de que as coisas que lhe haviam sido ditas e feitas seriam sempre ignoradas por sua mãe, que Zenilda jamais se veria como culpada da maneira como Lorena tantas vezes se via. Era aí que elas se diferenciavam; Lorena sempre se sentia culpada por nutrir qualquer tipo de ressentimento ou raiva em relação a Zenilda, mas sua mãe nunca sentiu o mesmo.

            Consumida pela raiva, ela perdeu o almoço, e Zenilda demonstrou seu carinho da única maneira que sabia. Ao ver a porta se abrir, Lorena parou, encarando a mãe enquanto recuperava o fôlego. Zenilda a olhou de cima a baixo, pigarreou e se encostou no batente da porta com os braços cruzados.

            "Você já comeu?"

            "Não estou com fome", murmurou Lorena, voltando à quinta posição, com os calcanhares alinhados aos dedos do pé oposto e os braços erguidos. 

            Da quinta posição, Lorena passou para um plié relevé, totalmente na ponta dos pés, mantendo a postura por um instante antes de iniciar uma pirueta e começar seus fouettés. Sua mãe ficou observando-a por alguns minutos, os olhos acompanhando os giros graciosos enquanto Lorena tentava ignorá-la, acostumada a ser observada atentamente durante os treinos, antes de deixá-la praticar.

            Ela não parou para comer, sentindo-se um pouco vazia à medida que o dia avançava, apenas água e cigarros para se manter em pé, amenizando a sensação de peso no estômago, e continuou por mais tempo do que o habitual, até se esgotar. Lorena não parou até que a sola estivesse tão macia que ela pudesse sentir seus pés afundando na sapatilha quando estava na ponta. Normalmente, ela gastava um par de sapatilhas a cada poucos dias, as horas exaustivas de ensaios e prática as desgastavam rapidamente, seja quando a palmilha quebrava ou amolecia, seja quando a plataforma perdia a firmeza e ela conseguia sentir o chão através delas, ou, mais provavelmente, quando seus pés afundavam na sapatilha conforme a sola amolecia. 

            Ela precisaria de um novo par, mas suas sapatilhas de balé serviriam para amanhã, até que as novas chegassem. Lorena sempre preferia as sapatilhas de ponta russas, a marca mais rígida, porém adequada aos seus pés estreitos e arco alto, mas havia mudado para as Grishko depois que a marca foi descontinuada; o calcanhar estreito e os bicos afilados se ajustavam melhor do que as sapatilhas Capezio, mais arredondadas. Ela dedicava grande parte do seu tempo a amaciar as novas sapatilhas de ponta, costurando as fitas e o elástico, recortando as etiquetas e moldando as novas sapatilhas ao formato dos seus pés, apenas para repetir tudo novamente alguns dias depois. Era cansativo para alguém que passara a vida inteira fazendo isso.

            Tirando os sapatos quebrados, Lorena desligou a música e se deixou cair no chão para alongar os músculos. O silêncio lhe dava tempo demais para pensar. Ela ainda estava ressentida com a discussão que tivera com a mãe naquela manhã, fervendo em sua amargura, mas ainda mais frustrada por saber que havia alguma verdade nas palavras de Zenilda. De sua companhia, apenas Lucélia vinha de uma família rica o suficiente para bancar o salário miserável que recebia no balé, e nesse aspecto, Lorena era sortuda. Nunca precisou se preocupar com dinheiro; tudo o que queria lhe era dado — contanto que Zenilda considerasse algo que valesse a pena —, mas Lorena sempre tentara não pedir muito, uma jovem de vinte anos mal-humorada tentando cortar laços com a família enquanto, ao mesmo tempo, deixava a mãe comprar seu apartamento em Knightsbridge. Os depósitos em sua conta bancária pagavam consultas médicas, roupas novas, noitadas e despesas de viagem não cobertas pelo trabalho. Mas Lorena sempre insistiu que não precisava disso, se virando com seu pequeno salário, as sapatilhas de ponta pagas pela empresa e os contratos publicitários, depois que ela já tivesse conquistado um nome suficientemente grande para si mesma.

            A discussão nunca tinha sido sobre isso para ela. Era algo mais profundo do que qualquer uma das duas admitiria de bom grado, mas toda vez que olhava para a mãe, Lorena tinha a sensação desconcertante de que Zenilda era fria com ela porque Lorena a fazia lembrar de seu potencial desperdiçado. Sua mãe sempre falava casualmente sobre sua época no Balé, sobre sua breve passagem como solista antes que uma terceira cirurgia nos tornozelos acabasse com qualquer perspectiva de carreira no balé e a levasse para a medicina. Agora, Lorena olhava para a mãe e sentia como se fossem espelhos uma da outra, cada uma mostrando à outra o que poderiam ter se tornado. Tantas vezes Lorena rezou por uma lesão que encerrasse sua carreira, e guardava esse desejo desesperado em segredo, sabendo que era a única saída, porque se desistisse agora, não teria nada a mostrar da vida, nada pela frente, e não seria melhor ter algo em que se destacasse para mostrar por todo o seu esforço, mesmo que odiasse? Isso a deixava tão amargurada.

            O balé havia roubado tanto dela, e Lorena sabia que jamais recuperaria aqueles momentos. Ela perdera qualquer chance de uma infância normal para ela pudesse dedicar mais tempo às aulas com Arminda; perdera também qualquer possibilidade de desenvolver uma relação saudável com a comida ou com o próprio corpo; perdera a oportunidade de comparecer ao funeral do irmão, que faleceu quando ela tinha quinze anos, estava na Inglaterra, e só soube da notícia após o término do programa intensivo de verão do Royal Ballet. O balé também lhe roubara um futuro em Ilha Comprida, levando-a para o outro lado do mundo, sozinha.

            Por fim, ela voltou para a casa silenciosa e escura, parando perto da porta dos fundos enquanto fumava antes de subir para tomar banho. Uma fresta de luz entrava pela porta do quarto da mãe, mas Lorena não fez mais do que hesitar por um segundo antes de fechar a porta do banheiro e ligar o chuveiro. Suas pernas doíam e ela teve que se sentar no chão do box enquanto lavava o cabelo, sabendo que deveria ter mais cuidado e tomar um banho quente com sais de Epsom para aliviar a dor, mas sem energia para isso naquele momento. Ela se sentia péssima, deixando a água quente correr sobre sua pele pálida enquanto permanecia ali por tanto tempo que suas articulações ficaram rígidas, tornando ainda mais difícil se levantar.

            Voltando para o quarto e vestindo um pijama limpo, ela enxugou o cabelo com a toalha e suspirou ao pensar em quanto tempo levaria para secar ao ar livre. Iria para a cama com o cabelo molhado, umedecendo os travesseiros, e o quarto já estava frio o suficiente sem essa perspectiva. Ela ponderou sobre isso enquanto massageava as panturrilhas com a pedra de jade, aplicando adesivos analgésicos em seguida, antes de decidir engolir o orgulho. Mesmo assim, levou mais cinco minutos até que conseguisse se obrigar a caminhar até o outro lado do corredor.

            Batendo à porta, ela a abriu um instante depois ao ouvir a voz suave da mãe. Hesitante, parou na soleira, encontrando o quarto dos pais intacto, o cheiro do creme para as mãos da mãe e do difusor de lavanda perfumando o ar, o zumbido da TV sobre a cômoda preenchendo o silêncio enquanto algum documentário passava. O quarto dos pais sempre foi relativamente proibido para Lorena durante a infância, a menos que fosse chamada pela mãe ou enviada para buscar algo para ela, e ela ainda mantinha essa reserva enquanto permanecia ali. Zenilda usava óculos, escrevia algo em um caderno de couro e ergueu os olhos por cima da armação de plástico ao ver Lorena. 

            "Posso pegar seu secador de cabelo emprestado?"

            Gesticulando em direção à porta do banheiro, Zenilda olhou para a página novamente e rabiscou algo mais. "Debaixo da pia."

            Murmurando um agradecimento, Lorena atravessou o tapete e abriu a porta, acendendo a luz e indo direto para a pia, abaixando-se para abrir a porta do armário. Uma bagunça organizada de produtos para a pele, maquiagem e cabelo preenchia o armário, e Lorena cuidadosamente retirou o secador de cabelo e fechou a porta. Apagando a luz, Lorena voltou para o quarto, mas diminuiu o passo ao ouvir a mãe falar.

            "Venha cá", Zenilda acenou, colocando seu caderno de lado. "Sente-se."

            Hesitando por um instante, Lorena cedeu, seus ombros caindo levemente enquanto caminhava até a beira da cama. Agachando-se junto à mesinha de cabeceira, ela conectou o plugue em uma tomada vazia e o entregou à mãe antes de se sentar no chão, sentindo-se criança novamente enquanto a mãe se movia para a beirada da cama acima dela. Fechando os olhos, Lorena sentiu a lufada de ar quente em seu couro cabeludo enquanto os dedos da mãe deslizavam por seus cabelos úmidos, pensando em todas as vezes que a mãe fizera isso por ela durante sua infância. 

            Zenilda não era o tipo de mãe que encontrava satisfação em cozinhar ou em trabalhos domésticos, não tinha tempo para sentimentalismos, nunca media a altura dos filhos em batentes de portas, nunca lia livros e brincava com ela, nunca assava biscoitos com ela, nem a ensinava a andar de bicicleta ou nadar. Ela sempre teve mais tempo para Léo, é claro, e providenciou os cuidados básicos de que Lorena precisava, mas Lorena sempre achou que sua mãe estava tão sobrecarregada com ela, a filha do caso extraconjugal do marido, com tanto potencial, que a única maneira de Zenilda se conectar com ela era através do balé. Secando seu cabelo e prendendo-o em um coque elegante, costurando as fitas e o elástico em suas novas sapatilhas de balé, as novas meias-calças e collants à medida que Lorena crescia, ajudando-a a se vestir para as aulas até que ela fosse grande o suficiente para fazer isso sozinha, os raros elogios quando Lorena se saía bem, as viagens São Paulo para assistir a apresentações de balé, só as duas. 

            Lorena nem sequer achava que sua mãe a odiasse de propósito, ou que soubesse que a odiava, mas aquilo a afetara profundamente e ela carregou esse sentimento consigo por tantos anos, tanta amargura guardada dentro de si. Ela desejava amá-la um pouco mais ou odiá-la um pouco menos, dividida entre os dois sentimentos enquanto ansiava por uma mãe com mais carinho, mais empatia e amor por ela, tentando tanto agradar Zenilda, como se isso fizesse alguma diferença, apenas para acabar decepcionada. E ela não podia culpá-la, na verdade, porque não era culpa de sua mãe que seu pai a tivesse traído, e não era culpa dela que Samira tivesse entrado no mar e nunca mais voltado, mas isso não diminuía a dor de saber que tinha um pai ruim e que sua mãe também não era lá essas coisas. 

            Assim que a raiz secou, Zenilda mandou que ela buscasse uma escova e começou a secar o resto do cabelo. A cabeça de Lorena estava inclinada para trás, apoiada nas pernas, enquanto a mãe secava a parte da frente, e o queixo encostado no peito enquanto ela secava a parte de trás. Desligando o secador e mergulhando-as em silêncio, Zenilda escovou os cabelos escuros de Lorena até que formassem uma mecha lisa de castanho-escuro nas costas e, em seguida, deu um rápido aperto no ombro dela.

            "Obrigada."

            "O jantar está na geladeira", foi tudo o que sua mãe respondeu.

            A boca de Lorena se contraiu e ela desligou a secadora da tomada e a guardou antes de sair silenciosamente do quarto, odiando o constrangimento da situação entre elas. Ela desejava que fosse diferente, havia passado tantos anos esperando que as coisas mudassem entre elas, que chegasse o momento em que a frieza de Zenilda desaparecesse de repente e ela se tornasse a mãe que Lorena sempre quis, mas ela havia parado de ter esperança nisso há muito tempo. Mesmo agora, se sua mãe se desculpasse, não significaria muito para ela, porque não mudaria nem desfaria nada.

            Pegando um monte de roupa suja do cesto do armário de roupa de cama, ela desceu as escadas e colocou uma leva para lavar antes de pegar o prato que sua mãe havia deixado na geladeira para ela. Meio peito de frango e um pouco de espinafre murcho. Ela esquentou no micro-ondas, comeu no balcão enquanto a chaleira fervia e depois fez uma xícara fraca de chá preto para si e outra para sua mãe, mais forte e com um pouco de leite. Levou esta última para o andar de cima, respirando fundo antes de bater na porta, com duas cápsulas de morfina na outra mão e um copo d'água, e as colocou na mesinha de cabeceira para Zenilda antes de dar boa noite.

            Lorena, porém, só foi para a cama uma hora depois, tomando seu chá fraco lá embaixo enquanto fumava perto da porta dos fundos e esperava a roupa terminar de lavar. Depois de separar as peças que podiam ir na secadora e as que precisavam ser penduradas no varal, Lorena terminou e trancou a porta antes de subir as escadas com um peso no peito que lhe dava vontade de chorar. Ela tinha chorado mais na última semana do que em anos, e dessa vez reprimiu as lágrimas, caindo na cama sem uma gota de vodca no sangue, cansada demais até para esse ato de rebeldia. Ela se cobriu com os cobertores e adormeceu.

Notes:

Se encontrarem algum erro, me avisem por favor, que eu arrumo.

Chapter Text

            Elas não voltaram a falar com a mesma franqueza depois daquela manhã. A raiva de Lorena diminuiu um pouco enquanto ela se movia timidamente pela casa, ambas imersas em um silêncio desconfortável, pois já haviam dito o que precisavam e não tocaram mais no assunto. Não o esqueceram, mas fingiram que tudo estava bem, como sempre fora entre elas. O relacionamento de Lorena com a mãe sempre oscilou entre um silêncio tenso e brigas violentas, e isso não mudaria no final das contas.

            Mais três dias se passaram, ocupados principalmente pelos treinos de Lorena, mas com algumas tarefas domésticas também. Lavar roupa e louça, limpeza geral da casa, a maior parte deixada para a faxineira que vinha uma vez por semana, uma ida ao supermercado enquanto empurrava um carrinho e enchia a geladeira e a despensa com alimentos mais substanciosos para a mãe, e salmão e uvas para si mesma. Ela havia terminado sua garrafa de vodca naquela noite e escondido a evidência no fundo do lixo quando a levou para a coleta, então as últimas três noites consistiram em caminhar até o Afrodite, sentar-se no balcão e pedir vodca com Coca-Cola Zero enquanto fumava e observava a decoração náutica kitsch, ignorando os olhares de uma mesa específica do outro lado do bar. Assim que sua mente se acalmava agradavelmente, sua frustração se dissipava, sua dor era esquecida, ela voltava para casa, cambaleando levemente na calçada enquanto fumava também, consumindo o maço aos poucos, e entrava silenciosamente, subia as escadas e se deitava na cama.

            Era a última quinta-feira do mês e ela acordou e saiu para sua corrida habitual, trinta quilômetros passando rapidamente enquanto Fiona Apple tocava em seus AirPods e ela respirava o ar fresco, a areia tornando a corrida mais árdua enquanto ela se mantinha na parte mais alta da praia, onde não estava tão úmida. Deixando pegadas profundas, ela continuou o caminho familiar de volta para casa e recuperou o fôlego do lado de fora, sentada nos degraus de pedra da varanda com as pernas esticadas, a cabeça inclinada para trás com um cigarro entre os lábios. O som da porta se abrindo chamou sua atenção e ela tirou o cigarro enquanto olhava por cima do ombro, as bochechas coradas pelo frio e o peito subindo e descendo rapidamente. Sua mãe estava se aconchegando em um roupão enquanto permanecia na porta, olhando para a filha.

            "Preciso que você vá à padaria para mim. Tenho uma encomenda para retirar."

            Levantando-se com dificuldade, Lorena sacudiu as pernas doloridas enquanto a ponta do cigarro se transformava em uma coluna de cinzas entre seus dedos. "Que horas?"

            "Eles abrem às oito. É só uma torta."

            "Uma torta?" Lorena respondeu com ceticismo e deboche. "Para quê?"

            "Vai ter uma confraternização na Violeta."

            Lorena parou, pega de surpresa. 

            Zenilda fez uma pausa apenas o suficiente para Lorena ficar desconfiada antes de suspirar e revirar os olhos. "Vamos jantar na casa da Violeta."

            "Desde quando você vai confraternizações?"

            "Desde que Violeta nos convidou outro dia."

            "Quando foi que eu disse que ia?", respondeu Lorena com sarcasmo.

            "Não seja ridícula. De que outra forma eu vou chegar lá?"

            "Ah, então agora você não pode dirigir?"

            "Lorena-"

            Com um gesto incisivo, o rosto de Lorena se contorceu em perplexidade. "Quando foi que jantamos juntas? Comemorando em família? Ao menos uma vez?"

            "Bem, eu gostaria de fazer isso pelo menos uma vez, então… antes tarde do que nunca."

            "Preciso praticar."

            "Você ainda pode praticar. Só terá que encurtar o treino."

            Uma risada estridente escapou de Lorena enquanto ela levava o cigarro aos lábios, dando uma tragada com um misto de irritação e divertimento no rosto. "Que irônico. Você está sugerindo que eu encurte o meu treino? É esse o valor que ele realmente tem para você?"

            "Sim. Agora, a torta. É uma torta de chocolate com nozes pecan, tá no meu nome."

            Lorena estremeceu levemente com as palavras da mãe, abriu e fechou a boca, mas nada saiu. Como poderia explicar a dor de saber a sobremesa favorita de alguém depois de doze anos sem dizer uma palavra, sem correr o risco de ser ridicularizada pela mãe? Engolindo qualquer vestígio de algo que pudesse subir pela garganta, Lorena pigarreou e estendeu a mão para pegar as chaves do carro. Zenilda voltou rapidamente para a entrada, pegou-as do prato no aparador do corredor e as colocou na mão de Lorena. Virando-se, Lorena caminhou a passos largos em direção à Mercedes, acenando com a mão em sinal de desdém para a severa advertência da mãe que a seguia.

            "E nada de fumar no meu carro!"

            Ela dirigiu até a cidade e estacionou de qualquer jeito em frente à padaria, pegou a caixa branca, pagou e voltou para casa, guardando-a na geladeira. Suas novas sapatilhas de ponta tinham sido entregues outro dia, já amaciadas com um estilete e um martelo, e ela vestiu um top e meia-calça antes de ir para a garagem dançar até que sua mãe abriu a porta bruscamente, com uma expressão de irritação no rosto.

            "O que você está fazendo? Precisa se arrumar. Eu disse à Violeta que chegaríamos em vinte minutos."

            Um pequeno som de objeção escapou de Lorena quando ela pousou com os pés no chão e gesticulou impotente antes de suspirar e balançar a cabeça. Sabendo que não adiantava discutir, ela simplesmente desligou o aparelho de som, desamarrou os sapatos, tirou-os e os deixou num canto para o dia seguinte. Caminhando descalça pela grama úmida enquanto o frio penetrava em seus pés, Lorena deixou pegadas molhadas em seu rastro enquanto entrava em casa e subia as escadas, onde sua mãe, sentada na sala de estar, suspirava alto para dar ênfase.

            Lorena tomou um banho rápido, irritada por ter que abrir mão dos alongamentos e esfoliações pós-exercício. Secou-se às pressas e voltou para o quarto. Pegou uma calça preta de pregas e um suéter, que lhe caía folgado, calçou meias e um par de botas pretas antes de vasculhar seus produtos de higiene pessoal, borrifar desodorante e perfume, e prender o cabelo em um coque elegante. Enfiando suas coisas nos bolsos, abriu a porta do quarto com um puxão e desceu as escadas correndo, indo direto para a cozinha enquanto Zenilda se levantava.

            "Temos algum ibuprofeno?", perguntou Lorena depois de vasculhar as gavetas e encontrar a caixa vazia de Advil que já havia aberto.

            "Gaveta da cozinha."

            "Não está aqui. Obviamente."

            "Tome um paracetamol. E não se esqueça da torta."

            Um som baixo de frustração ficou preso na garganta de Lorena, e ela pegou a cartela de paracetamol, tirou três comprimidos, engoliu-os a seco e depois bebeu água da torneira para tirar o gosto de pó. Secando as mãos, pegou a torta na geladeira e encontrou a mãe na porta da frente. Zenilda fez uma careta de desaprovação enquanto saía apressada, e Lorena vestiu um casaco de lã preto. 

            Sua mãe segurava a torta no colo enquanto Lorena ligava o carro e dava ré para sair da garagem. Ela não precisava de indicações para chegar à casa dos Fragoso; Ilha Comprida era pequena o suficiente para que ela se lembrasse de onde a maioria dos moradores morava, mesmo que não fosse uma visitante frequente tantos anos atrás. Daqui a doze anos, ela ainda seria capaz de percorrer o caminho até a casa de infância de Eduarda de olhos vendados. Mesmo assim, ela vinha evitando passar por lá ultimamente, feliz por estar fora do seu caminho para a cidade, embora elas já fossem adultas e ela presumisse que Eduarda não morasse mais com a mãe. Era dolorosamente familiar, no entanto, quando ela parou em frente à casa de madeira e desligou o motor. 

            Levou um minuto para ela se obrigar a se mexer, ressentida com Zenilda por tê-la feito ir com ela, sabendo que seria humilhante sentar ali e jantar com a mulher que fora sua melhor amiga, na casa onde Lorena te e sua primeira relação sexual, onde se escondia da mãe para ter uma folga do balé, com a mãe com quem lutava para ter qualquer tipo de relacionamento, e com pessoas que certamente sabiam o que ela fizera, mesmo que não tivesse falado com elas por mais de uma década até recentemente. Seu peito apertava, o pânico lhe causava um nó no estômago, e ela sentia uma vontade enorme de fumar um cigarro, algo para se distrair, talvez uma dose dupla de vodca, mas foi obrigada a seguir lentamente a mãe pelos degraus da entrada da casa enquanto um suor frio lhe percorria a pele, observando com pavor Zenilda bater na porta.

            Violeta abriu a porta e as cumprimentou calorosamente, convidando-as a entrar. Lorena ficou sem palavras ao cruzar a soleira. A única diferença imediata eram alguns porta-retratos com fotos mais recentes no aparador do corredor, e Lorena não quis ir além disso, pois uma nostalgia nauseante a invadiu. Violeta a cumprimentou, apertando seu braço enquanto lhe dizia para tirar o casaco e ficar à vontade. Sabendo que seu rosto estava um pouco mais pálido, Lorena evitou o leve franzir de testa da mãe enquanto, mecanicamente, tirava o casaco e o pendurava antes de segui-la pela sala de jantar até a cozinha com vista para o quintal.

            "Vou colocar isso na geladeira", disse Violeta enquanto tirava a torta da geladeira, ainda falando. "Posso lhe oferecer algo para beber? Você gosta de vinho branco, Zenilda?"

            "Aceito um copo, se não se importar."

            "Lorena?"

            "Ah, não, obrigada. Eu estou dirigindo."

            "Tenho refrigerantes? Chá? Café?"

            "Só água, por favor."

            Ela se remexeu desconfortavelmente na entrada da cozinha, encarando os armários brancos, as frases inspiradoras nos ímãs de geladeira, os livros de receitas e as ervas aromáticas, mais fotos e panos de prato coloridos. Era mais vibrante e vivida do que a casa em que Lorena cresceu, o cheiro do peru assando no forno preenchia o ambiente, uma bagunça organizada de pratos cobertos sobre as bancadas.

            Lorena ouvia vozes vindas da sala de estar e sentiu a garganta fechar. Ela queria muito beber, mas não era o fato de estar dirigindo que a fazia hesitar, embora talvez fosse melhor assim. Ela não queria beber perto daquelas pessoas, tentando fazer um único copo de vinho durar, tomando pequenos goles e fingindo apreciar o sabor enjoativo enquanto calculava as calorias, quando tudo o que queria era virar copo após copo só para sentir o efeito. Isso seria pior do que não beber nada.

            O copo d'água foi colocado em sua mão enquanto Violeta sorria calorosamente. Limpando a garganta, os lábios de Lorena se contraíram em um esforço para sorrir. "Obrigada. Hum, há algo em que eu possa ajudar ou..."

            "Não, obrigada, querida. As meninas estão na sala de estar. Por que você não entra?"

            Era a última coisa que ela queria fazer, mas não tinha muita escolha, lutando para encontrar uma desculpa que a deixasse na cozinha com a mãe, a aliada mais improvável a quem se agarrar. Hesitando por um instante, Lorena reprimiu um suspiro e se virou, atravessando a sala de jantar e saindo de volta para o corredor. Parada bem em frente à porta da sala de jantar, ela estava nas sombras enquanto observava as três mulheres espalhadas pelos dois sofás, mas foi vista por Keyla, que a encarou por um momento enquanto virava sua cerveja.

            "Você vai entrar?", ela perguntou, inclinando-se para a frente para colocar a garrafa sobre a mesa de centro.

            Sentindo-se velha demais para a incerteza da juventude, Lorena hesitou por alguns instantes enquanto outros dois pares de olhos a observavam antes de entrar na sala e ficar parada sem jeito na porta, com um braço em volta da cintura enquanto segurava o copo d'água na outra mão. Não era constrangimento por serem estranhas, mas sim o contrário. Ela passou tanto tempo com Eduarda, roubada das sessões de treino sem supervisão que sua mãe lhe impunha, que, naturalmente, Lorena também passou boa parte da infância com Keyla, e conhecia Íris melhor da adolescência, como a irmã mais nova de Teca.

            Foi Íris quem lhe sorriu calorosamente, como se nada estivesse errado. "Como vai? Faz tanto tempo! Você deve ter muitas histórias para contar sobre Londres. Como está a dança?"

            Dando de ombros levemente, Lorena pareceu ponderar sua resposta antes de conseguir dizer algumas palavras. "Está tudo bem."

            Dois pares de olhos a encaravam com expectativa, aguardando mais palavras que não vinham, enquanto Eduarda mantinha o olhar fixo à frente, dando um gole em sua taça de vinho branco. Limpando a garganta, endireitando-se, com a postura um pouco mais rígida que o habitual, Lorena gesticulou levemente com a taça enquanto erguia ligeiramente as sobrancelhas. "O que você faz?"

            "Eu dou aulas", Íris sorriu. "Na EMEF Britânia, a mesma escola que nós três frequentamos. Hum… Keyla trabalha na polícia local, e Eduarda…”

            "Enfermagem. Eu sei."

            Houve silêncio novamente e Keyla se remexeu no sofá, lançando um olhar perplexo para Lorena, tentando decifrar seu silêncio tenso, o desconforto do momento, pegando sua garrafa de cerveja e apontando para o assento vazio no sofá. O assento vazio ao lado de Eduarda.

            "Você gostaria de se sentar?"

            Se Lorena tivesse sido honesta, teria dito que não, que não queria sentar. Não ao lado da velha amiga, na sala de estar com a irmã e a cunhada, a julgar pelos anéis em seus dedos, tentando preencher o silêncio constrangedor, tentando não se deixar abalar enquanto seu pulso acelerado a deixava nervosa. A vontade de fumar um cigarro ou tomar um drinque forte só aumentava. Em vez disso, Lorena hesitou por um instante e cedeu, afundando no sofá, encostando-se o máximo possível no braço, ciente de que Eduarda também se pressionava contra o braço oposto, deixando espaço suficiente para mais duas pessoas entre elas. Ainda não era o bastante.

            Para se distrair, Lorena deu um gole d'água, apoiou o copo no colo e pigarreou baixinho. Keyla retomou a conversa falando sobre uma noite de jogos organizada com alguns amigos, alguns nomes familiares, outros nem tanto, e Lorena ficou aliviada por não estar envolvida. Ela bebia água de vez em quando enquanto ouvia a voz da mãe se misturando com a de Violeta na cozinha, o som da porta do forno abrindo e fechando, panelas tilintando. Teve que se conter para não ir perguntar de novo se podia ajudar em alguma coisa, embora fosse óbvio que tudo estava quase pronto.

            Em vez disso, ela suportou a conversa constrangedora, sendo mantida à margem, enquanto as outras três mulheres mal paravam para respirar, sabendo que, se cedessem, aquele silêncio terrível voltaria a se instalar, deixando o elefante na sala gritante. Foi quase uma misericórdia quando Violeta enfiou a cabeça para avisar que o jantar estava pronto, embora o próprio jantar fosse um tormento à parte.

            Antes mesmo que Violeta terminasse de falar, Lorena se levantou e a seguiu de perto, atravessando o corredor até a mesa posta para seis pessoas. Zenilda estava sentada na cabeceira, e Lorena ocupou a cadeira ao lado, à sua esquerda, pousando o copo d'água e puxando a cadeira para a frente. Violeta trouxe o peru enquanto Eduarda fazia uma pequena pausa, indecisa sobre onde se sentar, até que Keyla puxou a cadeira na extremidade oposta à de Zenilda, com Íris ocupando a cadeira ao lado dela, à sua direita, que ficava ao lado de Lorena. Rapidamente, Eduarda sentou-se na diagonal oposta à de Lorena, deixando Violeta do outro lado da mesa.

            "Agradeço o convite, minha colega", disse Zenilda, acenando para Violeta antes de seus olhos se fixarem em Lorena, arqueando levemente a sobrancelha enquanto um sorriso divertido se formava em seus lábios. "Tô feliz de estar com vocês e de conseguir passar um tempo com minha filha."

            Com o rosto endurecido, Lorena olhou para o prato à sua frente, fazendo um esforço enorme para não dizer nada. Zenilda ficou em silêncio e houve uma pausa, um pouco longa demais.

            Pegando o guardanapo, Lorena pigarreou ao colocá-lo no colo, a pausa constrangedora antes de Violeta apontar para a pilha de pratos.

            "Muito bem, Podem se servir."

            Lorena esperou que todos os outros se servissem primeiro, passando uma tigela de purê de batatas para sua mãe e depois de volta para o outro lado da mesa, antes de se servir com duas fatias de peru e uma pequena porção de vagem. Ela não adicionou nenhum carboidrato e recusou educadamente o molho que Íris tentou lhe oferecer, observando o molho de frutas vermelhas enquanto tentava calcular mentalmente as calorias antes de também recusá-lo. Macarrão com queijo estava definitivamente fora de questão, e ela observou com certa inveja Eduarda colocar um pouco de tudo em seu prato.

            Todos elogiaram a comida e agradeceram a Violeta enquanto começavam a comer. Lorena mexia na comida no prato, tomava goles de água e deixava a conversa a envolver. Ela ficou aliviada por serem um grupo relativamente falante, preenchendo o silêncio de uma forma que sua família sempre falhava em fazer, mesmo nas raras ocasiões em que todos se sentavam juntos à mesa para jantar. Ela não conseguia imaginar ter tanta conversa fiada para trocar com a mãe, mas até Zenilda parecia feliz em participar da conversa sobre trabalho com Violeta e Eduarda.

            "Então, Lorena, qual será sua próxima apresentação?", perguntou Violeta, tentando fazê-la sair do silêncio.

            "Eu estava em ensaios para uma apresentação de Natal de O Quebra-Nozes, mas... bem, obviamente, não vou interpretar o papel."

            "Qual era o papel?"

            "A Fada Açucarada", disse Lorena com um leve constrangimento, todo mundo com seus diplomas universitários e carreiras respeitáveis, enquanto a dela se resumia a sapatilhas de balé e tutus, cabelo e maquiagem.

            "Isso é tipo, um papel grande, ou...?" Keyla perguntou com um olhar perdido.

            "É o papel mais difícil", murmurou Eduarda, serrando seu pedaço de peru com intensidade. 

            "Ah, certo. Bom, talvez da próxima vez, né?", sugeriu Keyla.

            Lorena deu de ombros, indiferente. "Já interpretei esse papel quatro vezes, então... não importa muito."

            "E o que vem a seguir?", perguntou Íris.

            "Não sei."

            "Você estava me dizendo outro dia que o coreógrafo quer encenar O Lago dos Cisnes", Zenilda estalou a língua antes de dirigir o resto de suas palavras a Íris. "Ela será a escolha óbvia para Odette e Odile."

            Dando de ombros novamente, Lorena espetou alguns feijões verdes no garfo e mastigou metodicamente antes de pigarrear suavemente e pegar seu copo d'água. Ao levar o copo aos lábios, viu Eduarda olhando para o prato antes de seus olhos encontrarem o olhar de Lorena, e engoliu o gole d'água com dificuldade enquanto colocava o copo de volta na mesa com a mão pesada e mantinha os olhos baixos pelo resto do jantar. Ela não disse mais nada.

            Depois, ela agradeceu sinceramente a Violeta e insistiu em limpar, a firmeza de sua teimosia fazendo o médico ceder. Zenilda tentou ajudar, uma farsa com revirar de olhos, enquanto Lorena se debruçava sobre, limpando cuidadosamente enquanto ouvia Violeta conduzir a mãe para a sala de estar. As outras três mulheres ficaram para ajudar: Eduarda raspava os pratos enquanto Keyla guardava as sobras e Íris guardava as louças. Depois que Lorena terminou, Keyla acenou com a cabeça e lhe deu um pequeno sorriso.

            Lorena entrou na sala de estar e sentou-se ao lado de Zenilda, passando as mãos pelos joelhos ansiosamente enquanto tentava ignorar as conversas sobre o hospital. Ela percebeu a tensão no rosto da mãe enquanto a dor a dominava e se lembrou de que não havia trazido sua morfina. Ficou pensando se deveria se oferecer para ir buscar uma dose ou perguntar a Violeta se ela tinha algum comprimido em casa que pudesse ajudar. Mas achou que a mãe não agradeceria por reconhecer sua fraqueza, e fechou os lábios com força.

            Pouco tempo depois, chegou a torta e Lorena pediu licença para tomar um pouco de ar enquanto a torta era servida, saindo discretamente para a pequena varanda da frente e se encostando no corrimão de madeira. Ela esperava um alívio da atmosfera tensa, da qual ela mesma era a criadora, inspirando o ar fresco e frio na varanda enquanto resistia à tentação de fumar um cigarro por cortesia ao anfitrião, mas mal teve alguns minutos antes que a porta da frente se abrisse.

            Sem se virar, ela reconheceu Eduarda pelo passo hesitante, e uma pontada de irritação a invadiu. Colocando um prato com uma fatia de torta de chocolate com nozes-pecã no corrimão, Eduarda encostou em um dos postes de madeira e suspirou baixinho.

            "A torta é boa, se você quiser uma fatia."

            "Não, obrigada."

            "Tem certeza? Você mal comeu alguma coisa no jantar."

            Com um olhar de soslaio e raiva nos olhos verdes, Lorena esboçou um sorriso zombeteiro nos cantos da boca. "Está me monitorando agora, é?"

            "É apenas uma observação."

            "Que perspicaz", respondeu Lorena ironicamente, com um tom monótono. "Você não tem ninguém melhor com quem conversar? Teca não deveria estar por perto?"

            "O quê, planejando dar em cima dela de novo?"

            Um lampejo de irritação cruzou o rosto de Lorena quando ela se endireitou, virando-se abruptamente para encarar Eduarda. Por baixo da irritação, havia também uma pontada de vergonha, e Lorena ficou momentaneamente sem jeito, uma sensação incomum para ela, sentindo as bochechas esquentarem. Fazendo uma careta discreta enquanto olhava para sua fatia de torta, Eduarda pigarreou sem jeito.

            "Isso foi... desnecessário. Hum... Não guardo rancor, sei que as coisas... você estava com raiva de mim, eu sei disso, então... bem, isso foi há muito tempo."

            "Obviamente", murmurou Lorena. "A última vez que ouvi falar de vocês, vocês estavam noivas. Só estou surpresa que sua esposa não esteja…"

            "Ela não é minha esposa", interrompeu Eduarda, com um tom um tanto irritado enquanto ajeitava os óculos no nariz, os lábios se contraindo em sinal de aborrecimento. "Quer dizer, eu... nós estávamos noivas, mas terminamos, então..."

            "Ah. Não ouvi."

            "Bem, você não saberia. Estou surpreso que você sequer soubesse que estávamos noivas; até onde eu sei, você não tem Instagram, nem Facebook."

            O rosto de Eduarda se contorceu quando suas bochechas coraram ao admitir que havia procurado Lorena nas redes sociais, talvez até recentemente. Lorena deu de ombros indiferente, girando o isqueiro nas mãos enquanto engolia em seco. Ficaram em silêncio por um instante, e então Eduarda respirou fundo, os ombros endireitando-se enquanto estreitava os olhos para o dia sombrio além da varanda da frente.

            "Olha, eu sei que você está com raiva de mim, e eu também não te perdoei por tudo, então não espero que a gente supere isso, ou sejamos amigas ou algo do tipo, mas... isso aconteceu há muito tempo, e eu não acho que ficar nos evitando esteja ajudando ninguém, e bem, sua mãe precisa muito de você agora. Ela vai piorar muito e muito rápido, e você não está preparada para lidar com isso, então eu acho que precisamos deixar isso de lado e focar no que é importante agora para que eu possa ajudar a tornar as coisas mais fáceis para vocês duas. E eu sei que você não quer estar aqui, e não me quer por perto, mas pelo menos desta vez será diferente."

            Soltando um resmungo alto, Lorena arqueou uma sobrancelha com ceticismo. "Como?"

            "Bem, obviamente não estou mais apaixonada por você", respondeu Eduarda secamente.

            Surpresa, Lorena empalideceu ao se virar para Eduarda com os olhos arregalados, alarmada com a afirmação. Ela respondeu, ofegante: "Eu não…"

            Uma risada abafada escapou de Eduarda e seus ombros caíram em silenciosa devastação, seus olhos castanhos feridos enquanto seus lábios se curvavam em um sorriso amargo. Ela abriu e fechou a boca, riu novamente e deu de ombros, esfregando a testa e gesticulando fracamente com resignação. "Certo, Lorena."

            Por um instante, a situação ficou desconfortável e Lorena sentiu-se estranhamente desajeitada enquanto se remexia inquieta. Sem saber o que dizer, pigarreou sem jeito. "Minha mãe não trouxe morfina. Acho que vou buscar."

            "Tá", murmurou Eduarda, usando a colher para cortar um pedaço de torta e mastigando pensativamente enquanto a ignorava solenemente.

            Abrindo a porta da frente com cuidado, Lorena pegou o casaco no cabide e tirou as chaves do carro da mãe do bolso, passando pela velha amiga enquanto descia apressadamente os degraus e destrancava a Mercedes. Ao ligar o carro, ele deu um solavanco quando ela acelerou rápido demais, e Lorena acabou dando voltas e voltas enquanto fumava cigarro após cigarro até o fim, com os vidros abaixados, o ar frio levando a fumaça embora, tentando dissipar a adrenalina e a tensão em seu corpo. Ela ficou pensando em todas as vezes que estive com Eduarda, quando tudo era muito mais fácil entre elas. Elas eram jovens, melhores amigas desde a infância, e, no entanto, cresceram e se tornaram estranhas, e isso deixou um gosto amargo na boca de Lorena.

            Por fim, ela foi para casa, pegou a morfina e, a contragosto, voltou dirigindo para a casa de Violeta. Nuvens cinzentas já se acumulavam no horizonte, fazendo a tarde parecer mais longa do que realmente era. Lorena estacionou em frente à casa e subiu, com passos pesados, os degraus da varanda. Entrando, tirou o casaco e o pendurou antes de seguir o som das vozes. Todos estavam na sala de estar, tomando café ou vinho, e Lorena se sentiu desconfortável sob o olhar atento enquanto pigarreava, segurando o frasco de comprimidos laranja na palma da mão.

            "Aqui está", murmurou ela para a mãe. "Achei que você pudesse precisar delas.”

            Zenilda assentiu com a cabeça e pegou a garrafa, mas Lorena percebeu que ela estava irritada. Violeta levantou-se em silêncio e tocou o ombro de Lorena ao passar por ela, pegando um copo d'água na cozinha e colocando-o na mesa de centro em frente a Zenilda antes de conduzir Lorena para o sofá ao seu lado. Ela recusou silenciosamente a oferta de café, água ou torta, e permaneceu sentada com sua postura impecável, olhando fixamente para o nada até que sua mãe decidiu que era hora de ir embora.

            O alívio deixou Lorena fraca, com os ombros cedendo, e ela rapidamente se levantou, guardando os comprimidos da mãe no bolso, hesitando entre ajudá-la a se levantar ou deixá-la manter seu orgulho e fazer isso sozinha. Ela acenou com a cabeça para as mulheres no quarto e pegou o casaco novamente, vestindo-o enquanto agradecia baixinho a Violeta pelo jantar, antes de se despedirem na varanda, sob um céu azul-acinzentado profundo. 

            Caminhando silenciosamente até o carro, Lorena o destrancou e abriu a porta para a mãe antes de contornar o capô até o lado do motorista. Entrando no interior frio, ligou o motor e mexeu no aquecimento e nos faróis antes de partir pela estrada tranquila. Virando a cabeça, Zenilda franziu a testa enquanto fungava, depois inclinou-se para a frente para limpar algo do painel perto do volante, olhando para os flocos de cinza na ponta dos dedos.

            "Lorena", disse a mãe bruscamente, com o rosto corado de raiva por causa do cheiro persistente de cigarro. "Eu pedi para você não fumar no meu carro."

            "Desculpe", respondeu Lorena, sem ânimo.

            "Desculpe? Pelo amor de Deus, o que há de errado com você? Nunca mais vou conseguir tirar esse cheiro."

            Dando de ombros levemente, Lorena esfregou a testa, sentindo uma forte dor de cabeça tensional, e deixou a mãe se entregar ao seu discurso melodramático, sabendo que o cheiro de tabaco não teria impregnado os bancos de couro depois de uma única viagem de carro, e que mesmo se impregnasse, Zenilda não estaria por perto por muito tempo para se preocupar com isso. Seu rosto se contorceu de dor ao tocar na ferida causada por aquele pensamento.

           "Sem falar do seu comportamento lá dentro. Nem quero imaginar o que a Violeta estava pensando."

           "Meu comportamento?"

           "Você foi grosseira."

           "Você está brincando comigo? Eu fui grosseira? Eu nem queria vim! Você me obrigou."

           "Você não precisava se dar ao trabalho de me constranger."

           "É claro que tudo isso é sobre você. Por que eu sempre tenho que ser atenciosa, sacrificar o que eu quero para que você seja feliz? Passei a vida inteira colocando você em primeiro lugar, tentando te fazer feliz, e veja só onde isso me levou", disparou Lorena. 

            "Foi isso que te trouxe ao topo. Se não fosse por mim, você nunca teria a ética de trabalho, o talento ou os meios para chegar onde está agora, para ser a melhor do mundo. Na melhor das hipóteses você estaria se prostituindo para sobreviver como as outras garotas."

            Virando-se bruscamente, Lorena rangeu os dentes enquanto lançava um olhar furioso para a mãe. "Sim, eu sei muito bem que você é responsável pela minha situação atual."

            "Você pode se concentrar na estrada, por favor? Ou, melhor ainda, encoste o carro. Eu mesmo farei isso."

            Parando abruptamente na estrada vazia, Lorena desligou o motor e, atrapalhada com o cinto de segurança, abriu a porta com um empurrão. Zenilda saiu do banco do passageiro, mas Lorena não entrou, partindo sem dizer uma palavra, enquanto sua mãe soltava um grito de surpresa antes de sua voz se tornar mais ríspida.

            “Lorena. Entre no carro.”

            "Não", respondeu Lorena secamente, mantendo a cabeça erguida enquanto caminhava em linha reta. "Não, obrigada."

            Ela ouviu a porta do carro bater e soube que sua mãe não perguntaria de novo, não a seguiria enquanto ela tentava argumentar com a filha. Zenilda sempre lidava com absolutos, tudo do jeito dela ou nada feito, e Lorena sabia que teria mais sorte chamando um táxi do que convencendo Zenilda a levá-la para casa agora, com a Mercedes passando por ela um instante depois.

            Parando na beira da estrada, ela hesitou e então se virou. Sem precisar ir direto para casa, acendeu um cigarro e voltou, vagando pelas ruas enquanto tentava dissipar sua frustração, até finalmente encontrar o caminho para a praia. Estava vazia e o vento forte a sacudia enquanto observava as ondas escuras quebrarem na costa, e de repente se sentiu sem energia ao afundar na areia e abraçar os joelhos contra o peito, mergulhando em pensamentos. Ela não estava mentindo quando disse que sua mãe era responsável por aquela situação; esta não era a vida que Lorena teria escolhido para si mesma, e apenas em um esforço para agradar sua mãe, para conquistar um pouco de seu amor e orgulho, ela havia dançado obedientemente até o ponto em que não teve outra escolha a não ser continuar.

 

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            "Arabesque!" exclamou Léo, sentando-se enquanto Lorena permanecia de pé em uma perna só, rindo baixinho, até que suas mãos estivessem em sua cintura e perna e seu irmão a erguesse no ar.

            Ele a ajudou a se deitar novamente e sorriu radiante para a irmãzinha, seis anos mais nova que ele, que tinha quinze. Ele havia sido mandado para um internato no ano anterior, no início do nono ano, então Lorena não passava muito tempo com ele, mas Léo era generoso quando voltava para casa nas férias e feriados. Ela ficava com ele a maior parte do dia e estava feliz por ter alguém por perto, além do pai, que muitas vezes se esquecia de que ela estava ali. 

            Ela riu baixinho novamente quando Léo dobrou os joelhos e ergueu os braços acima da cabeça, na quinta posição dos braços, girando em círculos, parecendo ridículo para a diversão dela. Vestida para as aulas na SPCD, para as quais havia feito o teste em abril, finalmente elegível depois de completar seis anos, ela esperava a mãe terminar de se arrumar para o trabalho.

            Zenilda apareceu um instante depois, entrando na cozinha com ar descontraído e estalando a língua. "Leonardo, para com isso. Precisamos ir ou ela vai perder o voo. Lorena."

            Com a mão estendida, Zenilda esperou que a filha se aproximasse e a pegasse, antes de praticamente arrastá-la em direção à porta da frente, com uma mochila na mão, assustadoramente alta enquanto se inclinava sobre ela. Certificando-se de que Lorena estava devidamente presa no carro, com uma cadeirinha de elevação no banco de trás que permitia a Zenilda uma boa visão da menina, partiram para Iguape, onde um avião fretado levava Lorena de ida e volta para São Paulo para suas aulas. Ela frequentava as aulas da Little Dancers desde que Santiago a trouxe para casa, com apenas quatro anos na época, mas teve que fazer um teste para continuar na SPCD quando completou seis anos, estando agora matriculada na Divisão Preparatória para três aulas por semana. 

            Nos dias em que não tinha aulas, Arminda oferecia seis horas diárias de treinamento intensivo a pedido de Zenilda. Elas haviam dançado juntas na adolescência, embora a cirurgia no tornozelo da mãe, somada à sua altura imponente, tivesse impedido qualquer carreira futura. Já Arminda tornou-se bailarina principal do American Ballet Theatre antes de se dedicar ao ensino na SPCD. Ela morava por perto, a uma distância que permitia que Lorena fosse levada de carro até sua casa, mas só concordou em dar essas aulas particulares graças ao alto valor cobrado. 

            A vida de Lorena girava tanto em torno do balé que ela não tinha noção de outra coisa. Havia todo o jargão que ela havia aprendido: pliés, tendus, ballon, quinta posição, corpo de baile, bailarina principal, sapatilhas de ponta, Lago dos Cisnes e Tchaikovsky. Claro, ela não entendia a importância de tudo aquilo agora, o que as longas aulas reservavam para ela, como o condicionamento e o treinamento rigorosos, a rivalidade entre as meninas, a pressão da mãe a afetariam. Na época, tudo tinha sido divertido e ela se destacava, com seis anos de idade e já sendo cotada para a Divisão Infantil, reservada para meninas com pelo menos oito anos.

            A técnica ensinada na SPCD seguia a tradição clássica russa, conforme ensinada e aprimorada pelo fundador da escola, e consistia em cinco níveis de treinamento, geralmente um ano em cada um. A intensidade, a frequência e a complexidade da Divisão Infantil seriam maiores do que seu treinamento atual, mas Zenilda estava determinada a dar a Lorena todas as vantagens, mesmo que isso significasse começar o condicionamento para o trabalho de ponta anos antes do recomendado. Ela não tinha a intenção de prejudicar os pés de Lorena e não a deixaria começar a aprender a usar as pontas até que seus ossos estivessem completamente formados, mas não se importava em ser excessivamente cautelosa e esperar até que sua filha completasse onze anos para começar.

            Léo foi com ela porque estava em casa, e pegou na mão dela e na mochila quando Zenilda os deixou e lhe deu algum dinheiro para o almoço e para se ocupar na cidade enquanto Lorena ia para as aulas. O avião era pequeno e Lorena não gostava muito de voar, mas foi um voo curto, pouco mais de quarenta minutos, e logo estavam em São Paulo, pegando um táxi. Léo a deixou e acenou em despedida enquanto Lorena caminhava pelo caminho familiar até o estúdio onde praticavam.

            Outras meninas estavam lá, com seus collants rosa e meias-calças claras, e Lorena colocou sua bolsa no chão e tirou as camadas externas de seu agasalho preto, revelando uma roupa idêntica. Ela tinha chinelos na mochila e os calçou antes de começar a rotina de aquecimento que lhe fora ensinada à exaustão, até que a aula começou e ela se posicionou junto com as outras. Depois que todas se aqueceram juntas, Arminda bateu palmas para chamar a atenção delas enquanto se posicionavam ao longo da barra que circundava a sala espelhada.

            "Muito bem, meninas, vamos para a quinta posição", anunciou Arminda, enquanto as observava, vendo algumas delas com dificuldades, ainda sem a rotação correta do corpo. "Pernas juntas, dedos dos pés apontando para a frente. Lembrem-se de abrir os quadris para que a parte de trás dos joelhos se toque. Calcanhares e dedos dos pés se tocando, isso mesmo, mãos na barra."

            Calcanhar com ponta do pé, joelhos esticados e a pélvis alinhada corretamente sobre os joelhos, Lorena conseguiu executar o movimento com facilidade, com a rotação externa já ativada enquanto mantinha a posição incomum com elegância. Ela vinha praticando isso há algum tempo, em suas aulas particulares com Arminda e no estúdio improvisado que sua mãe havia criado na garagem, tirando os carros do espaço para que pudesse ser melhor aproveitado, e Lorena permanecia imóvel enquanto encarava seu reflexo pálido no espelho.    

            "Lembrem-se, a quinta posição é um ponto de partida e um ponto de retorno frequente", explicava Arminda enquanto caminhava pelo perímetro da sala, corrigindo a postura e a posição dos pés. "Agora, vamos fazer um demi-plié. E conter…"

            Depois, Lorena vestiu seu agasalho novamente e encontrou Léo esperando por ela na entrada da SPCD, exatamente onde ele a havia deixado. Ele tinha um livro de poemas, que comprou enquanto passeava pela cidade. No voo de volta para casa, ele deixou Lorena folhear as páginas, ficou fascinada pelo livro. A partir daquele momento, Lorena ficou apaixonada por poesias.

 

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            Sentada na areia úmida, enquanto fumava um cigarro até o filtro, ela olhou para os aglomerados de estrelas pálidas através das brechas nas nuvens e estremeceu com o vento frio. Estava tão escuro que ela não passava de uma sombra na praia, a ponta vermelho-cereja do cigarro flamejando brevemente a cada tragada, e Lorena sentiu uma profunda dor no peito enquanto olhava para o céu. Houve um tempo em que ela pensou que cursaria letras e escreveria um livro um dia, que o balé era apenas um hobby fantasioso para agradar sua mãe, que um dia ela teria permissão para desistir e se concentrar nos estudos, ir para a faculdade, ter uma vida normal. 

            Mas não foi bem assim. Ela sempre pensara que o universo era tão grande que podia fazer qualquer coisa, que tudo era possível, até perceber que não importava o tamanho do universo se você não fosse livre. Refletindo na praia enquanto repassava tudo, tomada por tanto arrependimento que parecia estar se afogando, ela quase conseguia entender por que Samira havia entrado no mar.

            Por fim, o frio penetrou fundo em seus ossos e ela tremia mesmo com o casaco, os membros enrijecendo enquanto permanecia encolhida. Forçando-se a levantar, caminhou pesadamente pelas dunas e passou por um restaurante à beira-mar, que estava escuro, Lorena voltou para casa exausta, com as bochechas e o nariz dormentes de frio e os ombros caídos enquanto pensava em quanta pouca coisa lhe trazia gratidão.

            De volta à casa, ela ficou um pouco do lado de fora, a luz intermitente da TV da sala indicando que Zenilda estava lá dentro, antes de decidir ir para a garagem. Acendendo as luzes, Lorena tirou as botas, o casaco e a calça jeans, alongou as panturrilhas tensas e calçou as sapatilhas de ponta. Ela tinha um CD com composições de Fauré e começou com o Requiem, aquecendo-se lentamente e recuperando o tempo perdido de prática, se esforçando ao máximo da única maneira que sabia para não ter que sentir a frustração.

            Três horas se passaram antes que ela desabasse no chão, de costas, fechando os olhos e respirando lentamente. Seu peito subia e descia, seu suéter estava completamente encharcado de suor, suas pernas nuas úmidas, e o corpo de Lorena parecia pesado contra o chão frio, mas ela não tinha forças para se levantar. Ela nem pretendia dormir ali, mas com Fauré tocando suavemente ao fundo e o cansaço do exercício físico e o desgaste mental do jantar, ela adormeceu ali mesmo no chão da garagem, sendo encontrada pela mãe quarenta minutos depois.

            "Vamos lá", murmurou Zenilda enquanto a sacudia para acordá-la. Lorena olhou em volta confusa, piscando os olhos ainda sonolentos, e se apoiou em um cotovelo para se levantar. "Vá para a cama.”

Chapter Text

            Dezembro chegou sombrio e melancólico, e o clima entre Lorena e Zenilda estava tenso. Sua mãe andava na ponta dos pés ao seu redor, o que Lorena achava extremamente irritante e parecia intencional, como se a mãe estivesse tentando transformá-la exatamente no tipo de megera que ela evitava provocar. Quieta, mal-humorada e secretamente sensível, Lorena a evitava ao máximo, o que não era tão difícil, já que sua mãe passava mais tempo na cama, acordando mais tarde e dormindo mais cedo ultimamente. E Lorena já estava acostumada a passar oito horas por dia na ponta dos pés, escondida na garagem, e o resto do tempo correndo quilômetros e quilômetros ao ar livre antes de dedicar as horas restantes do dia a cuidar da mãe.

            Passaram-se alguns dias desde o jantar nos Fragoso e Lorena cruzou o caminho de Eduarda uma vez, na varanda da frente, quando esta voltava da corrida e se espreguiçava lá fora enquanto fumava. Eduarda chegou e partiu da visita matinal com pouco mais do que um aceno de cabeça. Aquelas palavras trocadas na varanda da casa de Violeta a incomodavam, e ela se sentia frustrada e inquieta, remoendo-as na mente com muita frequência enquanto tentava abafar os pensamentos com música, balé, vodca com Coca-Cola Zero no Afrodite, o que nunca funcionava porque ela invariavelmente acabava lá com a irmã e os amigos, mas Lorena não conseguia parar de pensar nisso.

            Apesar das noitadas e das doses de vodca, ela ainda acordava cedo todas as manhãs, suando para eliminar o álcool, com os pulmões ardendo pelo esforço e pelo mau hábito de fumar, enquanto seus pés batiam na areia úmida e seus cabelos grudavam em suas bochechas pálidas. Era preciso uma devoção crucial para o balé, que não tinha relação com o amor, e embora Lorena não tivesse amor pelo balé, ela era devotada, uma disciplina incutida nela desde os quatro anos de idade. Mesmo com as piores ressacas, ela se arrastava para fora da cama para correr e suportava o sofrimento em silêncio, como só alguém tão disciplinada conseguiria.

            Sempre fora assim, desde que se lembrava: nada de desculpas, preguiça, erros ou desleixo. Quando criança, sua mãe ficava na garagem e fazia Lorena revisar o que havia aprendido nas aulas com Arminda ou na SPCD, corrigindo-a excessivamente, demonstrando um passo, uma posição do braço enquanto a observava de cima. E talvez tenha valido a pena, aquela disciplina que sua mãe lhe incutiu, aquela dedicação em submeter seu corpo à agonia em nome de uma elegância impecável em seus movimentos, porque Lorena sempre estava no mesmo nível de meninas vários anos mais velhas, absorvendo as instruções como se as estivesse memorizando, não aprendendo, até que não houvesse mais níveis a alcançar, mas ela ainda era apenas uma criança. Mesmo assim, isso não foi suficiente para sua mãe, nem mesmo quando Lorena fez seu primeiro solo aos quatorze anos.

           Nada parecia ser suficiente para Zenilda, que fazia tudo por Lorena: pagava aulas particulares, consultas de fisioterapia, comprava sapatos, collants e meias-calças sem fim, levava-a de carro para lá e para cá, pagava a mensalidade da escola de balé, arrumava o cabelo dela, preparava banhos de sal de Epsom, alongava os membros rígidos da filha e comparecia a todas as estreias, levava Lorena ao balé em São Paulo para mostrar os bailarinos principais, sussurrando observações para que ela as anotasse. 

            Uma parte de Lorena sabia que Zenilda tinha orgulho dela, que faria qualquer coisa por ela, mas Zenilda era incapaz de expressar isso de uma forma que Lorena entendesse, porque para Zenilda, tudo se resumia ao balé, e para Lorena, essa nunca foi a maneira de expressar amor. Elas simplesmente não se entendiam, o balé era a única coisa que as unia e, ao mesmo tempo, a coisa que frequentemente as colocava em desacordo. Mesmo naquela época, Zenilda nunca conseguia elogiá-la pela dança sem fazer algum tipo de crítica, e mesmo agora ela não se desculparia nem reconheceria que estava errada por ter forçado Lorena a praticar balé, dando-lhe pouca voz sobre o rumo de sua vida. Ela a amava de uma forma dura e intransigente, e Lorena nunca podia confiar que sua mãe não a magoaria se fosse honesta sobre o que queria, já que suas conversas frequentemente acabavam em gritos — e choro da parte de Lorena — , Lorena aprendeu a simplesmente aceitar que havia certas coisas sobre as quais ela nunca poderia conversar com Zenilda se quisessem ter conversas civilizadas. Sua mãe a amava, só não a entendia. 

            Houve um tempo em que tudo o que Lorena queria no mundo era que sua mãe se orgulhasse dela, e ela conseguiu isso dançando balé, mas parecia que não fazia a menor diferença. Mas esse nunca foi o sonho de Lorena. Seu sonho de se tornar escritora já não era mais seu, pois ela havia se decepcionado consigo mesma ao desistir dele e se concentrar no sonho da mãe. Ela não era mais a adolescente que amava livros e queria escrever um, mas, no fundo, aquela menina ainda estava lá, e Lorena se esforçava para ignorá-la. Ela havia renunciado tanto de si mesma para agradar Zenilda, e foi um trabalho árduo se transformar em algo que sua mãe pudesse olhar sem pensar no caso do marido. Ao renunciar tanto de si mesma nesse processo, ela ficou apenas com o balé para preencher sua vida.

            Ela havia terminado sua corrida um pouco mais tarde, acrescentando alguns quilômetros extras para garantir que chegaria depois que Eduarda já tivesse saído, e mal sentia os pés enquanto subia os degraus da varanda da frente, recuperando o fôlego. Tirando os tênis de corrida, Lorena cruzou a soleira da porta e esvaziou os bolsos sobre o aparador do corredor antes de passar pela mãe, sentar-se no sofá da sala de estar e seguir para a cozinha.

            "Café?", ela chamou, aguardando a confirmação da mãe antes de pegar uma segunda caneca.

            Lorena tinha estocado mais ibuprofeno e engolido um comprimido com um alprazolam roubado que encontrou na gaveta, uma receita recente para sua mãe, que parecia intacta. Ela se perguntou se era algo que Violeta havia receitado para ela por causa do pânico causado pela consciência de sua morte iminente e teve vontade de rir ao pensar em sua mãe tomando remédios para ansiedade. Mas serviriam perfeitamente para ela. Fechou a tampa e guardou o frasco na gaveta, seus olhos percorrendo os outros pacotes e frascos de comprimidos acumulados ao longo do tempo, antes de pegar um tubo de Anbesol e fechar a gaveta. 

            Preparando as xícaras de café, Lorena as levou de volta para a sala de estar e as colocou sobre a mesa de centro. Ela ficou ali, no espaço aberto em frente à TV, tirando a calça de moletom enquanto se esparramava no chão. Passou Anbesol nos dedos dos pés para aliviar a dor enquanto sua mãe se levantava e, em silêncio, trazia compressas de gelo para seus joelhos doloridos. Lorena agradeceu baixinho, com uma gratidão relutante, enquanto esticava as pernas e massageava os músculos tensos com os polegares. Ela ainda tinha uma tarde inteira de dança pela frente e precisava de algo para aliviar a dor para poder suportá-la. Lorena recostou-se, apoiando-se nos cotovelos e antebraços enquanto deixava as compressas de gelo aliviarem a dor nas articulações enquanto assistia à TV. 

            Enquanto tomava seu café, ela se deleitava com o breve alívio dos exercícios. Parecia interminável, sempre havia algo em que trabalhar, algo para praticar, e embora não estivesse cercada pelo resto de sua empresa, passando horas no mesmo estúdio, sentindo-se como se estivesse enlouquecendo na sala de espelhos e corpos musculosos e esbeltos, com inveja, orgulho e outros sentimentos desagradáveis a atormentando, não era menos árduo fazer isso em casa. Especialmente sob o olhar atento de sua mãe, que sempre fingia desinteresse, mas notava tudo, observava tudo sempre que estavam juntas. Lorena tendia a limitar suas interações com a mãe justamente por esse motivo.

            Elas tomaram o café em relativo silêncio, a TV desinteressante para Lorena enquanto ela massageava as panturrilhas, afundando os polegares o suficiente para contorcer o rosto numa expressão de dor, e Zenilda lia o jornal local, com os óculos de leitura no rosto, desfrutando de um raro momento de paz. Mas durou pouco. Quando a mãe começou a tossir, pálida e sem fôlego, Lorena removeu as bolsas de gelo e foi até a cozinha, pegou um copo d'água para ela e tirou dois comprimidos de morfina da embalagem.

            Levando-as de volta para a sala de estar, Lorena entregou-as a Zenilda, observando-a ajeitar os travesseiros. Lorena conseguia ver suas costelas através da blusa, o formato proeminente de suas omoplatas e as saliências de sua coluna. Um choque a atingiu na garganta, levando-a a ajeitar os travesseiros atrás das costas da mãe enquanto inalava o perfume Chanel nº 5, o creme para as mãos e o vago cheiro de doença, de morte. Engolindo os comprimidos com a água, Zenilda recostou-se suavemente nos travesseiros, soltando um suspiro baixo, com o corpo todo relaxado enquanto Lorena ajeitava o cobertor sobre seu colo.

            Ela ergueu a cabeça e encontrou o olhar duro da mãe por cima das armações dos óculos, os olhos escuros penetrantes e avaliadores. Lorena não precisou esperar mais do que um instante para que a mãe dissesse o que pensava. "Você emagreceu de novo. Precisa comer mais."

            Endireitando-se, Lorena cerrou os dentes enquanto soltava um suspiro forte pelo nariz, o ressentimento a consumindo enquanto fechava as mãos em punhos. Ela odiava quando sua mãe fazia comentários assim, sempre soando como uma crítica ou uma observação sarcástica; ela era magra demais, precisava controlar o peso, deveria comer mais, não deveria comer aquilo. Tinha sido assim a vida toda, comentários contraditórios que a faziam querer ser invisível — ou bater a cabeça contra uma parede de tijolos. 

            Em um gesto de defensiva, Lorena bufou e pegou sua caneca de café, inquieta sob o olhar atento da mãe, sentindo os olhos dela em suas coxas nuas, julgando, avaliando. "Como você sabe?"

            "Eu tenho olhos."

            "Certo, e daí? Tenho corrido mais desde que cheguei aqui. Não é nada."

            "Eu nunca te vi tomar café da manhã."

            "Eu nunca tomo café da manhã. Não tomo café da manhã desde que eu tinha, sei lá… quatorze anos?"

            "Só estou dizendo-"

            "Pois bem, não diga nada."

            Estalando a língua, Zenilda suspirou e balançou a cabeça. Ela apertou o copo d'água com força e Lorena apertou a caneca de café, imagens espelhadas uma da outra, Lorena sentindo a raiva que a consumia, a irritação que consumia a mãe. Elas se encararam por um longo momento, Lorena tensa e cautelosa, o alprazolam ainda não fazendo efeito, e ela franziu a testa, mal-humorada e petulante. 

            "Só quero ter certeza de que você está bem", respondeu Zenilda secamente após uma breve pausa.

            "Estou bem", Lorena disse com os dentes cerrados.

            "Você não está bem. Está ficando cada vez mais óbvio para mim que não está. Não sei o que é, se simplesmente não tinha percebido antes, ou se não passei tempo suficiente com você desde que você foi embora para saber, mas seja lá qual o problema..."

            "Você é o meu problema. Você, este lugar e…"

            Com a voz embargada, Lorena baixou a cabeça, a garganta apertando o resto das palavras. Sentiu o rosto esquentar, as mãos tremerem e os nós dos dedos ficarem brancos, com medo de quebrar a caneca de café se a apertasse mais. Com a boca se fechando, pousou a caneca de volta na mesa e se abaixou para pegar a calça de moletom, enfiando uma perna e depois a outra com raiva, tendo que apertar o cordão um pouco mais. Detestava admitir, mas sua mãe tinha razão, o que só serviu para deixá-la na defensiva, fazendo-a discordar por princípio. 

           Zenilda emitiu um pequeno som de objeção e revirou os olhos enquanto tirava os óculos de leitura. "É só isso, então? A culpa é toda minha, mas você nem me diz o que eu supostamente fiz de tão horrível. Eu não sou a culpada por todos os seus problemas, Lorena, e em algum momento você precisa amadurecer e parar de fugir assim que eu digo algo que você não gosta."

            Com os olhos já marejados de lágrimas, Lorena não conseguia olhar para a mãe enquanto forçava os pés a calçarem as meias, uma dor lancinante no peito enquanto falava, a voz trêmula e tão frágil. Ela se sentiu como uma criança novamente. "Então por que você nunca consegue dizer nada de bom?"

            Soava patético dizer aquilo, e isso só a fazia querer ir embora mais rápido. Sua mãe soltou um som de surpresa ao passar por ela, deixando Zenilda lutando para se levantar, o rosto contorcido de dor enquanto tentava, fracamente, se erguer. Lorena já estava enchendo os bolsos com seus pertences espalhados sobre o aparador, vestindo seu casaco acolchoado e tênis de corrida e batendo a porta atrás de si. Sua mãe ainda não havia terminado de falar, chamando-a, mas Lorena pôs fim à conversa quando uma onda repentina de raiva a dominou. Mas muito mais do que raiva, ela sentia tristeza. Uma tristeza tão violenta, tão intensamente palpável que doía respirar.

            Lá fora, Lorena piscava os olhos freneticamente, recusando-se a deixar as lágrimas rolarem. Já no degrau da varanda, olhou para o céu, de um cinza pálido e que inevitavelmente anunciaria a chegada da chuva. Apalpando os bolsos, Lorena conteve um gemido ao perceber que, na pressa de sair, havia esquecido de pegar o pequeno estojo branco com seus AirPods. Era um descuido que certamente pioraria seu humor, sem nada para distrair sua mente. Mesmo assim, preferiria morrer a voltar para dentro para buscá-los.

            Sua reação talvez tivesse sido exagerada para uma simples observação da mãe, mas a paciência de Lorena estava no limite, sua tolerância por ela não era muito alta, e qualquer aparente exagero poderia ser visto como apropriado quando colocado em perspectiva com uma vida inteira suportando conversas semelhantes. Enquanto caminhava, Lorena lutava para processar o emaranhado de emoções conflitantes — dor nova e antiga, raiva de si mesma, da mãe, a dor da tristeza, da culpa e do constrangimento, e uma série de emoções antigas trazidas à tona desde seu retorno — mas sentia que quanto mais caminhava, mais elas se dissipavam. Ela não era boa com emoções, reprimindo-as até não senti-las mais, até se anestesiar, vivendo como sonâmbula, apenas esperando o momento certo para acender a chama da raiva que incendiaria tudo o que ela havia engarrafado. Lorena frequentemente se sentia como se não fosse uma pessoa de verdade, sem qualquer apego ao próprio corpo, e como se não fosse adequada para nada além do balé, e só fosse vista como uma pessoa de verdade através do balé. Era a única coisa em sua vida que a fazia importar.

            Ela caminhava por Ilha Comprida enquanto sua raiva fervilhava, os olhos vermelhos apesar de seus melhores esforços para não chorar, até se encontrar na praia, com a grama marram ondulando nas dunas, madeira úmida sob seus pés e algas marinhas na costa, enquanto as ondas cinzentas deixavam montes delas em seu rastro. Gaivotas gritavam e ela as observava girando sobre a espuma branca, semicerrando os olhos contra o céu pálido, desejando ter seus óculos de sol para esconder os olhos vermelhos. Ainda era manhã e ela caminhava para cima e para baixo ao longo da costa, a praia dando lugar a uma estreita faixa de areia áspera sombreada por amendoeiras e coqueiros enquanto caminhava para o sul antes de voltar para o norte, de volta a Iguape e depois para o sul, até Ilha Comprida, fumando o resto do seu maço de Marlboro enquanto respirava o ar frio, o gosto de sal e madeira em seus pulmões enquanto suas articulações doíam. 

            De olho no relógio, Lorena finalmente voltou pelas ruas para comprar um novo maço de cigarros na loja e depois entrou sorrateiramente no Afrodite para beber. Uma decoração náutica kitsch a recebeu — âncoras, gaiolas de lagosta, redes e placas de peixe — enquanto ela se sentava na penumbra do bar local, ouvindo a música enquanto descascava amendoins no balcão para ocupar as mãos, deixando uma pilha sobre ele, e bebia vodca com Coca-Cola Zero a tarde toda em um ritmo constante. Ela fumou metade do maço de cigarros novos sentada no balcão, uma fina camada de fumaça a envolvendo enquanto o lugar ia se enchendo lentamente à medida que a tarde avançava para a noite.

            Sentada no bar, sua mente divagava, o efeito do alprazolam ainda presente enquanto se sentia sonolenta e um pouco tonta. Ela havia tomado vários medicamentos desde que acordara naquela manhã — ibuprofeno, paracetamol e alprazolam — e a mistura com as bebidas que vinha consumindo nas últimas seis horas a deixava confusa. De olhos fechados enquanto tomava mais um gole, Lorena não queria se lembrar, mas as lembranças vinham mesmo assim, constantes e implacáveis.

 

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            "É de Fernando Pessoa. Ele é um gênio", disse Eduarda enquanto folheava as páginas de ‘Mensagem’. "A bibliotecária da minha escola disse que ele é incrível. Peguei emprestado para você."

            Lorena pegou o livro gasto de Eduarda e folheou algumas páginas, o fascínio iluminando seu rosto enquanto seus olhos brilhavam e um sorriso se formava em seus lábios. Aos oito anos, ela era mais inteligente do que qualquer um imaginava, estudando em casa algumas horas por dia sob a supervisão frouxa do pai, que se trancava no escritório com seu uísque, mas ela era tão inteligente. O livro denso não a intimidava e ela estava ansiosa para lê-lo, não sabendo muito sobre, mas tão interessada no assunto, que simplesmente precisava saber mais.

            "Você conseguiu isso na escola?" , perguntou Lorena, olhando para cima com um olhar de desejo.

            Sentada na beirada da escrivaninha da mãe, Eduarda assentiu com a cabeça e sorriu. "Tenho que devolver em duas semanas, mas você pode ficar com ele até lá. Depois, posso pegar outro para você."

            "Sério?"

            "Sim, se você quiser. Parece muito chato, mas ele é muito inteligente, e você também, então talvez você goste e possa me contar do que se trata."

            "Lorena!" A voz de Zenilda ecoou de seu escritório, ficando mais alta um instante depois, enquanto ela se aproximava da porta aberta, quase passando por ela antes de parar ao ver as duas meninas. "Aqui estão vocês. Lorena venha, a Srta. Dantas está esperando por você."

            "Tchau", Lorena sorriu timidamente para Eduarda, pegando sua mochila enquanto segurava o livro com força.

            Eduarda sorriu e balançou os pés, acenando enquanto Lorena olhava para trás antes de sair do escritório. Zenilda esperava impacientemente e sua mãe franziu a testa ao ver o livro na mão de Lorena. Ela se abaixou e o puxou das mãos da filha, franzindo ainda mais a testa enquanto os cantos de sua boca se curvavam para baixo.

            "Onde você conseguiu isso?"

            "É da Duda."

            "Então devolva."

            "Mas-"

            "Agora."

            Voltando atrás, Lorena entrou rapidamente no escritório de Violeta e fez uma careta antes de largar a bolsa e abri-la. Guardando o livro dentro, ela levou um dedo aos lábios e Eduarda abafou uma risada com a mão, os cantos de seus olhos se franzindo. 

            "Até amanhã, Lorena Pessoa."

            Trocando um sorriso secreto com ela, Lorena saiu sorrateiramente para o corredor do hospital e rapidamente alcançou sua mãe. Elas passaram por Violeta, que sorriu radiante para Lorena antes de serem levadas para fora. Lorena estava colocando o cinto de segurança no banco de trás do carro, com a mochila aos pés, contendo o livro escondido. 

            Zenilda ligou o carro e seguiu pela rodovia. O carro estava silencioso, o rádio desligado, e Lorena brincava com os dedos no colo enquanto olhava para a estrada arborizada, com a pergunta crescendo em seu peito.

            "Mãe? Posso ir para a escola?"

            "Você vai à escola."

            "Mas será que eu posso ir para uma escola de verdade? Uma com outras pessoas?"

            "Você não teria tempo para dançar se estudasse em uma escola de verdade."

            "Ah. Mas tudo bem. Posso aprender matemática, ciências e ler muitos livros em vez disso."

            Sua mãe não era boa em entreter crianças, nunca teve paciência para perguntas ou ideias mirabolantes, e soltou um suspiro exasperado. Lorena olhou de soslaio para o rosto dela do banco de trás, os olhos se arregalando um pouco com a preocupação de tê-la chateado.

            "Você não precisa disso; você é especial. Nem todo mundo se torna bailarina quando cresce."

            Lorena teria preferido ser um pouco menos especial. Com os ombros ligeiramente caídos, ela disfarçou um bico enquanto abaixava a cabeça, a decepção a consumindo. Zenilda a observou pelo retrovisor e balançou a cabeça negativamente.

            "Não fique emburrada, Lorena."

            "Mas você foi para a escola e Léo também, por que eu não posso? Eu posso ser como você."

            "Você é como eu; eu também queria ser bailarina."

            "Mas você é médica."

            "Sim, porque tive que desistir do balé. Você não precisa desistir e não precisa da escola para dançar. Você precisa se dedicar às aulas para se tornar a melhor."

            "Eu posso fazer isso e ir para a escola", respondeu Lorena, emburrada, cruzando os braços sobre o peito. "É o que todas as outras meninas da minhas aulas fazem."

            "E é por isso que você é a melhor e elas não", respondeu Zenilda impacientemente, com sua irritação evidente. "Você sabe quantas crianças adorariam não ter que ir para a escola? Você tem sorte."

            Ela não se sentia muito sortuda, e enquanto outras crianças talvez adorassem não ir à escola, Lorena daria tudo para poder ir. Seria bom estar perto de outras crianças que não fossem mais velhas do que ela e que não dissessem coisas maldosas por inveja, se sentindo ameaçadas pela criança mais talentosa, em um nível acima de sua faixa etária. Se ela fosse para uma escola normal, estaria com pessoas da sua idade, e elas conversariam sobre algo além de balé. E Eduarda também estaria lá, duas séries acima dela, mas elas poderiam sentar juntas no recreio e no almoço. Haveria professores de verdade, e ninguém estaria bêbado a ponto de esquecer de alimentá-la, e seus pés não doeriam o tempo todo.

            Sabendo que era melhor não discutir, Lorena reprimiu quaisquer outros apelos e permaneceu em silêncio pelo resto do trajeto. Arminda Dantas tinha um estúdio em casa, onde dava aulas de fim de semana para pré-adolescentes ricas durante os meses de verão, e para Lorena, até cinco vezes por semana. O trajeto até lá era familiar e não demorava muito; Zenilda deixou a filha no estúdio e partiu para as rigorosas aulas que compunham a maior parte da sua semana.

            Mais tarde naquela noite, depois de tomar banho e jantar, quando deveria estar dormindo, Lorena se encolheu sob os cobertores com uma lanterna enquanto folheava as páginas de ‘Mensagem’, memorizando tudo enquanto lia durante a noite para poder contar a Eduarda pela manhã.

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            Com o cotovelo apoiado no balcão, Lorena tinha a cabeça entre as mãos enquanto se deixava cair, sonolenta, tonta e completamente exausta. Era tarde e ela havia terminado sua última bebida, tentando chamar a atenção de Adelson para pedir outra enquanto procurava o isqueiro, mas ele estava na outra ponta do balcão, lançando-lhe olhares furtivos. Lorena era uma bêbada silenciosa; não ficava barulhenta, agressiva ou alegre, apenas se afundava em seus pensamentos enquanto sua mente lentamente se tornava confusa e sua postura impecável se deteriorava com o tempo. 

            Adelson sabia quantas bebidas havia servido para ela, e quanto tempo ela esteve sentada no bar sem comer nada, nem mesmo um amendoim que ela havia descascado, e observou-a se curvar, a cabeça baixa e as pálpebras se fechando lentamente. Ela não estava dormindo, mas Lorena sentia a névoa dos medicamentos misturada com o álcool turvando sua mente enquanto falava devagar com Adelson.

            "Posso pedir… mais uma? Por favor."

            Ela esfregou a testa, franzindo a testa, soltando um suspiro áspero enquanto fechava os olhos com força e umedecia os lábios, tentando afogar seus sentimentos. Adelson estava à sua frente, envergonhado, pegando seu copo vazio do bar e recolhendo um punhado de amendoins descascados e algumas bitucas de cigarro que haviam escapado do cinzeiro transbordando.

            "Que tal um copo d'água?", sugeriu, com leveza.

            "Água? Não, não, uma vodka com Coca-Cola Zero, por favor."

            "Talvez em outra noite, tudo bem? Posso te trazer uma Coca-Cola Zero, mas nada de vodca."

            "Sem vodca?" Lorena repetiu lentamente, erguendo os olhos para encontrar os dele, com uma surpresa silenciosa no rosto. "Ah. Ah, você..."

            Dando de ombros em sinal de desculpas, ele sorriu levemente. "Desculpe."

            "Ah. Posso pedir só mais uma? Só mais uma e depois vou para casa. Ou posso pedir uma água com uma dose de vodka. Não estou causando problemas, então…"

            Alguém estava ao lado dela naquele momento, um olhar de Adelson parecendo passar o bastão para que essa pessoa resolvesse o problema, e Lorena ouviu o leve estalo de uma palma contra o balcão enquanto olhava para cima com uma expressão carrancuda no rosto. Keyla ergueu as sobrancelhas e sorriu de forma sombria.

            "Muito bem dançarina, já chega. Hora de te levar para casa."

            "Estou bem, estou ótima. Vou só... vou beber água então. Não quero ir para casa ainda."

            Olhando para o relógio em seu pulso esquerdo, Keyla cantarolou. "O lugar fecha em trinta minutos. Por que você não me deixa te dar uma carona para casa?"

            Adelson se afastou sem lhe oferecer um copo d'água e a ignorava enquanto separava garrafas de bebida, organizando-as cuidadosamente de costas para as duas mulheres. Com um resmungo, Lorena desceu do banquinho, graciosa mesmo perdendo o equilíbrio, semicerrando os olhos enquanto apalpava os bolsos do casaco acolchoado. "Eu vou andando.”

            "Andando? Está chovendo torrencialmente."

            "Um pouco de chuva não vai me fazer mal", disse Lorena com um sorriso discreto enquanto colocava a ponta do cigarro entre os lábios. Ela procurou o isqueiro nos bolsos, franzindo a testa por um instante antes de Keyla pegar o isqueiro BIC azul do balcão e acendê-lo, encostando a chama na ponta para Lorena. "Obrigada."

            Inspirando profundamente, os cílios de Lorena tremularam e ela cambaleou um pouco, agradavelmente embriagada, enquanto guardava o isqueiro no bolso e pegava o celular no balcão. Tirando um punhado de moedas, colocou algumas notas amassadas sobre o balcão e acenou com a cabeça para Adelson em agradecimento, enquanto ele olhava por cima do ombro. Keyla, por sua vez, encostava-se no balcão, com o telefone no ouvido.

            "Ei, você bebeu? Ótimo, pode vir nos buscar no Afrodite?"

            Ao desligar o telefone, ela começou a guiar Lorena pelo bar até onde Íris estava sentada com o resto das bebidas. Virando sua garrafa de cerveja, Keyla rapidamente terminou o resto enquanto Íris tomava seu copo de vinho. Elas vestiram seus casacos, deixaram uma gorjeta na mesa e acenaram para Adelson enquanto se despediam, e o barman começou a recolher os copos sujos.

            Keyla conduziu Lorena para fora, sob a chuva forte. Seu corpo mole e fácil de mover, Keyla a encostou na parede e destrancou a viatura policial estacionada do lado de fora. Encostada no tijolo frio, com os olhos fechados sob a luz amarela do teto, Lorena divagava enquanto o cigarro se consumia entre seus lábios. Um minuto depois, Keyla a trouxe de volta à posição de alerta, entregando-lhe uma garrafa de água pela metade.

            "Beba isso."

            Tirando o cigarro da boca, Lorena balançou a cabeça, soltando uma baforada de fumaça pelos lábios entreabertos. "Estou bem. Estou... estou ótima. Eu deveria ir."

            "Nem pensar que vou deixar você voltar para casa desse jeito, depois de ter bebido tanto. Dia difícil?"

            "Vida difícil", resmungou Lorena, dando outra tragada no cigarro.

            "É, bem, a de todo mundo não é?"

            Franzindo o nariz, Lorena tomou um gole de água, o ar frio anestesiando suas bochechas enquanto ela se encostava na parede para se apoiar. Seus olhos estavam pesados e ela mal conseguia sentir o frio, a vodka pulsando em seu sangue, mantendo-a aquecida enquanto se sentia mole como uma boneca de pano. Ela deu um sorriso fraco, a garrafa de água pendurada ao lado enquanto a cinza se dissipava da ponta do cigarro.

            "É mesmo? Você parece bem feliz com a sua."

            "Sim, isso não significa que não seja difícil, né? Assim como não significa que a sua seja o pior só porque você não está feliz com ela."

            "Quem disse que eu não sou feliz?"

            Keyla riu, abraçando a esposa com força para tentar se proteger do frio enquanto o vento as açoitava. "Você não é exatamente uma pessoa muito alegre, né?"

            "Certo, certo, eu deveria estar feliz que minha mãe está prestes a morrer."

            "É", interrompeu Íris, "isso não é... obviamente isso é muito difícil para você"

            "Vamos lá, eu não preciso da compaixão de ninguém. Não preciso ser tratado com condescendência, nem... nem que fiquem de babá, então se vocês pudessem... se todos pudessem parar, seria ótimo."

            "Claro", Íris deu de ombros.

            Eles mergulharam em silêncio e Lorena apagou o cigarro nos tijolos, deixando a bituca cair entre os dedos. Suas pálpebras estavam pesadas e ela considerou ir para casa a pé, sem entender por que ainda estava ali parada com eles, do lado de fora do Afrodite, enquanto o bar fechava. Antes que esse pensamento pudesse fazê-la se mexer, um carro irritantemente familiar parou em frente ao Afrodite, os limpadores de para-brisa espirrando a chuva enquanto os faróis cortavam a escuridão, e o estômago de Lorena revirou. Com um resmungo, ela lançou um olhar severo para Keyla.

            "Sério?"

            "Entra logo na merda do carro, Lorena", ela suspirou, cansada.

            Lorena obedeceu, não totalmente por vontade própria, enquanto era manobrada com pouco controle sobre os próprios membros – um alívio bem-vindo do controle que normalmente tinha sobre os menores músculos dos pés – e se viu no banco do passageiro da frente. Eduarda olhava diretamente para ela, e Lorena simplesmente fechou os olhos, afundando no assento enquanto se atrapalhava com o cinto de segurança. Mãos frias o tiraram de suas mãos, e ela o soltou sem forças enquanto Eduarda a prendia, o cheiro do perfume dela invadindo Lorena enquanto seu estômago se contraía. Ela havia bebido demais para lidar com a situação naquele momento; sua cabeça estava pesada, sua visão turva, seu corpo exausto, o gosto de vodca e cigarro na boca, e ela sentia uma leve náusea no calor sufocante do carro.

            "Deixa a gente primeiro", disse Keyla lá de trás, "a Íris tem que trabalhar amanhã cedo".

            Acenando com a cabeça sem dizer uma palavra, Eduarda engatou a marcha, o velho Jeep roncando pela rua enquanto ela trocava as marchas e ganhava velocidade. As ruas estavam vazias e o silêncio dentro do carro era denso, o rádio desligado, o ar-condicionado abafado, e Lorena sentiu uma vontade absurda de abrir a porta e sair. Ela teria preferido ir a pé, mas se viu empurrada para o banco do passageiro antes mesmo que pudesse protestar muito, cambaleando enquanto engolia qualquer outra reclamação. Agora, ela desejava ter reclamado mais.

            A chuva batia forte no para-brisa enquanto os limpadores se moviam para frente e para trás, o rangido trêmulo deles preenchendo o silêncio, e Lorena olhava fixamente para a frente, os faróis iluminando a estrada, uma parede escura de árvores de cada lado, interrompida por jardins frontais e casas de madeira fantasmagóricas. Finalmente, Eduarda parou o carro atrás de um SUV Toyota em uma entrada de garagem, o brilho amarelo dos faróis revelando uma pequena casa de madeira com um jardim bem cuidado e o brilho das luzes através da janela. Elas desabotoaram os cintos de segurança e saíram do carro, agradecendo a Eduarda e desejando boa noite antes de irem para a porta da frente. 

            Elas ficaram paradas na entrada da garagem enquanto observavam Keyla destrancar a porta da frente e as duas desaparecerem lá dentro com um aceno de mão. Saindo de ré da garagem, Eduarda engatou a marcha silenciosamente e percorreu as ruas escuras, mantendo-se em silêncio durante todo o trajeto. Lorena sentiu como se devesse se desculpar, mas não conseguia falar, com a garganta apertada e o estômago embrulhado de inquietação. Sua cabeça girava e ela olhava fixamente para frente, com o coração acelerado e a pele úmida dentro do casaco acolchoado, a adrenalina a invadindo só por estar sentada ao lado de Eduarda. Felizmente, era uma curta viagem até a casa de Zenilda, tudo em Ilha Comprida era tão perto.

            Estacionando atrás da Mercedes, Eduarda colocou o Jeep em ponto morto e Lorena olhou para ela. Tentava formular um agradecimento, seus lábios se entreabrindo enquanto respirava fundo, com a voz trêmula, mas não foi isso que saiu. Em vez disso, deixou escapar a pergunta um pouco arrastada que a incomodava desde o jantar na Violeta.

            "O que você quis dizer na outra noite?"

            "O quê?" Eduarda murmurou, agarrando o volante enquanto virava a cabeça para Lorena. Ela parecia tão surpresa quanto Lorena estivera na varanda. 

            Lorena não disse nada, apenas a encarou, com os olhos vidrados e os lábios entreabertos enquanto respirava superficialmente. Hesitante por um instante, Eduarda deu de ombros e gesticulou vagamente em sua direção.

           "Que outro significado existe? Eu era, mas agora não sou mais, então…"

            "Mas você... nós nunca fomos... as coisas que você disse..."

            Ela não conseguia nem formar uma frase completa, a dor era tão intensa que parecia recente. Era constrangedor estar tão presa a coisas que tinham acontecido há tanto tempo, coisas que ela pensava ter superado até ser arrastada de volta para Ilha Comprida e forçada a confrontá-las. Ela poderia ter deixado para lá, é claro, mas as palavras de Eduarda continuavam a atormentá-la e Lorena não conseguia entender, confusa e frustrada.

            "Eu não quis dizer aquilo. Eu teria dito qualquer coisa para te fazer ir embora", sussurrou Eduarda, fechando os olhos e encostando a cabeça no encosto.

            A raiva que ela havia guardado por anos transbordou quando sua resposta ecoou pelo carro, alta demais em sua embriaguez. "Por quê?"

            Com um suspiro trêmulo, os ombros caídos, a boca de Eduarda se contraiu em pesar. "Porque se eu não tivesse dito nada, você teria ficado, e você sempre foi boa demais para um lugar como este. Você é boa em muitas coisas, você sempre foi especial a vida toda, e eu sabia que se eu tivesse dito que te amava e te pedido para ficar, você teria arruinado sua vida por minha causa, e eu não queria ser a pessoa que te impediria de seguir em frente."            

           Com dificuldade para soltar a fivela, ela conseguiu desatar o cinto de segurança e abriu a porta bruscamente, o corpo todo rígido enquanto se lançava para fora do carro, agarrando-se ao teto e abaixando a cabeça. A chuva batia nas costas do casaco e encharcava seus cabelos. Um "obrigada" teria sido a resposta apropriada para a viagem de volta para casa, mas Lorena havia bebido demais para que a educação superasse a raiva, o ressentimento e a mágoa que a invadiam.

            "Vá para o inferno, Eduarda", disse ela suavemente antes de bater a porta com força.

            Abaixando a cabeça enquanto caminhava até os degraus, subindo-os apressadamente enquanto procurava às apalpadelas o mosquetão com as chaves no bolso do casaco, Lorena cerrou os dentes para impedir que o queixo tremesse. Os faróis do Jeep cortaram a escuridão quando ela enfiou a chave na fechadura e entrou. Fechou a porta com força, encostando-se nela enquanto soltava um suspiro preso. Doía, mesmo que ela esperasse algo assim, alguma resposta que não lhe trouxesse nenhum consolo, que renovasse a amargura que alimentava dentro de si.

            Cambaleando em direção às escadas, ela tirou os tênis de corrida e tropeçou no dedão do pé ao subir, agarrando-se ao corrimão enquanto sua visão embaçava e oscilava, e uma onda de náusea a invadia, com o peito subindo e descendo em respirações rápidas e superficiais. No topo da escada, empurrou a porta do quarto às cegas, surpresa ao perceber que não conseguia enxergar, que tudo estava embaçado e seus olhos ardiam, e bateu a porta atrás de si. Tirando o casaco com dificuldade, Lorena atravessou o quarto e parou ao lado da cama.

            Suas roupas estavam em uma pilha organizada, com as meias agrupadas aos pares, exatamente como sua mãe as havia separado para ela. Afastando tudo, Lorena sentou-se na cama e abraçou os joelhos, um soluço doloroso preso em sua garganta. Então, ela começou a chorar enquanto as lágrimas que embaçavam sua visão caíam, soluços ofegantes que a deixavam sem fôlego enquanto pressionava a testa contra os joelhos, o rosto corando. Ela não sabia por que aquilo a atingiu com tanta força, mas atingiu, e a dor parecia tão recente. 

            Ela não ouviu os passos se aproximando, e sua mãe nunca fora de bater na porta, então ela não sabia que não estava sozinha até ouvir a mãe falar do lado de fora. A voz de Zenilda estava estranhamente suave e cautelosa, abruptamente despertada pela chegada ruidosa da filha em casa e chamada do quarto pelos soluços que se seguiram.

            "Lorena?"

            Lorena soltou um suspiro profundo enquanto fechava os olhos com força, irritada e envergonhada por ter sua privacidade invadida. Ela não precisava de ninguém para testemunhar suas lágrimas, muito menos sua mãe. Inspirando profundamente, ela engoliu o nó na garganta. 

            "Não. Me deixe em paz. Por favor."

            Zenilda hesitou por um instante e Lorena manteve a testa pressionada contra os joelhos, mas ouviu o leve estalo da porta fechando um minuto depois e sentiu parte da tensão se dissipar; ela nem havia percebido que todo o seu corpo havia ficado tenso com a intrusão. Ficou feliz por Zenilda ter escutado, mas sua mãe nunca tivera muita paciência para suas lágrimas ou sentimentos e provavelmente estava grata por ser poupada da tarefa de despertar algum instinto materno oculto para confortá-la. Em vez disso, Zenilda voltou para a cama e Lorena se deitou de lado, sozinha com sua tristeza.

            Zenilda não sabia o que tinha acontecido entre Lorena e Eduarda; seu entendimento se limitava a dizer que elas tinham brigado por alguma coisa e se afastado, sendo lançadas para lados opostos do Oceano Atlântico, sem nunca mais se falarem. Ela nunca havia pedido detalhes a Lorena, mas também nunca pedia detalhes sobre nada que não estivesse relacionado, mesmo que tangencialmente, ao balé. Sempre fora um alívio para Lorena ter um mínimo de privacidade em sua vida pessoal, mesmo que o resto dela tivesse sido explorado além do que ela podia suportar.

            Com o rosto afundado nos lençóis, que exalavam um leve cheiro de manteiga de karité, perfume e amaciante, Lorena chorou no algodão enquanto seu corpo afundava no colchão. Bêbada e perturbada, ela se esgotou rapidamente, nunca se sentindo tão exausta em toda a sua vida. Era perfeito; significava que ela adormeceu e não se mexeu mais por doze horas.

Chapter 7

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

            Abrindo a porta da frente com cuidado, Lorena tirou os tênis de corrida e o casaco, esvaziando os bolsos e pegando os cigarros e o isqueiro. Caminhando até a cozinha aberta, seus olhos se voltaram para a mãe cozinhando no fogão, mas ela não parou.

            "Ei."

            "Ah, ah", protestou Zenilda enquanto Lorena se dirigia rapidamente para a porta dos fundos. "Sente-se. Eu preparei o café da manhã."

            Lorena achava que sua mãe não preparava seu café da manhã desde que ela tinha uns doze anos. No máximo, desde então, ela era lembrada de cortar uma maçã, comer um pouco de granola, algo para lhe dar energia para as aulas, mas Zenilda era médica, o que significava que estava ocupada demais para se preocupar em ser mãe assim que Lorena tivesse idade suficiente para se virar sozinha. A última vez que Lorena se lembrava de terem se sentado juntas para tomar café da manhã tinha sido há mais de um ano, em um café em Londres, na manhã seguinte à estreia de A Bela Adormecida, onde Lorena dançou o Adágio da Rosa com a mãe na plateia. Nunca era uma experiência agradável.

            Com desdém, Lorena revirou os olhos. "Sério?"

            A mãe tirou a frigideira do fogão e gesticulou com a espátula, arqueando uma sobrancelha. Lorena percebeu como a mão dela tremia com o esforço, observando Zenilda colocar os ovos sobre uma fatia de pão torrado em cada prato. Duas xícaras de café fumegavam por perto e a mãe, silenciosamente, fez um gesto para que Lorena as levasse até a mesa, após um momento de hesitação enquanto brincava com os cigarros e os guardava no bolso.

            Zenilda levou os pratos até a mesa e sentou-se em frente a Lorena. Sentada por um instante, observando a mãe enquanto ela pegava os talheres, Lorena sentiu uma inquietação percorrer seu corpo enquanto o suor secava em sua pele. Pegando sua xícara de café, mesmo que apenas para adiar a refeição, Lorena tomou um gole e esperou pelo propósito daquele café da manhã compartilhado. Sua mãe não era conhecida por fazer as coisas sem um bom motivo, e Lorena não conseguia imaginar que sua doença terminal a tivesse levado, de repente, a querer começar a tomar café da manhã juntas. 

            "Coma", ordenou Zenilda um instante depois, seus olhares se cruzando quando ela percebeu que a filha ainda não havia tocado na comida.

            Pegando a faca e o garfo, Lorena os manuseou por um instante, calculando a quantidade que comeria e avaliando o tamanho de cada porção antes de cortar o ovo. Lentamente, ela separou a gema cozida e a colocou de lado, antes de separar uma pequena fatia da casca da torrada e um pedaço maior de clara, levando tudo à boca e mastigando devagar. 

            "Então…" ela finalmente perguntou, enquanto o silêncio persistia.

            "Desculpe?"

            Ela encarou a mãe com um olhar vago, remexendo-se inquieta enquanto a impaciência crescia sobre ela. "Então, sobre o que você queria conversar?"

            "Não sei, Lorena", respondeu Zenilda, um pouco seca enquanto cortava a comida e arqueava uma sobrancelha. "Sobre o que você gostaria de conversar? Você está aqui há quase duas semanas e parece que todas as nossas conversas terminaram em discussão, e no resto do tempo você estava ocupada demais dançando. Então, que assunto de conversa faria você ficar sentada aí por mais de cinco minutos sem parecer que quer que a terra a engula? Eu ficaria feliz em ajudar."

            "Acho isso tão hipócrita vindo de você", refletiu Lorena, um pouco amarga enquanto dava outra pequena mordida, comendo o mínimo possível do pão. "Todas as vezes que implorei para você me deixar ir à praia com minha amiga, dormir na casa de uma amiga, ir a uma festa de aniversário, e você não deixou, você dizia que nunca havia tempo para isso. Eu estava sempre dançando. Mas agora... agora, quando é conveniente para você, bem, agora é um problema eu dançar tanto. Agora que você quer minha atenção exclusiva, isso é uma coisa ruim."

            "Eu nunca disse que era uma coisa ruim. Não coloque palavras na minha boca. Eu só gostaria que você pudesse passar mais tempo comigo. Eu penso que haverá tempo suficiente para dançar depois, então se você pudesse dançar menos…"

            Bufando, Lorena largou os talheres com um estrondo, cerrando os punhos sobre a mesa enquanto lançava um olhar irritado para a mãe. "O que você quer de mim?", perguntou Lorena baixinho, com a voz tremendo um pouco, baixa e intensa. "Quer assistir aos nossos filmes favoritos enquanto comemos besteira? Pintar as unhas uma da outra e contar tudo uma para a outra? Ah, mãe, isso não vai acontecer. Por que fingir que sabemos alguma coisa uma sobre a outra, que queremos passar tempo juntas?"

            "Não estou fingindo."

            "Mas eu estaria. A única razão pela qual estou aqui é porque você vai morrer", disse Lorena com uma risada fraca, que morreu em sua garganta ao ficar presa.

            Qualquer traço de diversão desapareceu rapidamente de seu rosto, e sua expressão se fechou. Ela observou o rosto da mãe se contorcer em uma dor quase imperceptível diante da lembrança brutal e sentiu uma pontada de culpa, pegando sua xícara de café e tomando um gole enquanto um silêncio constrangedor tomava conta da cozinha.

            "Desculpe", Lorena disse com a voz rouca, fazendo uma leve careta. "Não é fácil para mim estar aqui..."

            "Eu nunca disse que era."

            "Eu simplesmente... não sei o que você quer de mim."

            "Nem eu. Só quero que você esteja aqui para isso", admitiu Zenilda, com a voz um pouco tensa e o rosto um pouco contraído. "Não posso mudar as coisas como estão entre nós, e não sei o que posso dizer para que você se sinta um pouco menos zangada comigo, mas…"

            "Não quero que você diga nada. Só quero que isso acabe logo. É só nisso que consigo pensar agora, então… por favor, vamos apenas tomar nosso café da manhã."

            "Tudo bem", respondeu Zenilda com desdém, dando uma pausa para comer mais uma garfada antes de continuar. "Mas ainda assim não quero que você dance mais do que algumas horas por dia. Você não está em ensaios; faça uma pausa."

            Aquilo era praticamente inédito para Lorena, que lançou um olhar apreensivo para a mãe, imaginando se o câncer havia se espalhado para o cérebro sem que elas soubessem. De boca aberta, Lorena estreitou os olhos ligeiramente, incrédula.

            "Algumas horas?"

            "Sabe, houve uma época em que você teria feito qualquer coisa para não ter que dançar - mesmo que fosse só para ter a chance de dançar menos. Você me implorava com tanta frequência."

            "Sim, bem, isso foi antes de eu fazer disso minha carreira."

            "Você se lembra de quantas vezes costumávamos discutir sobre isso?"

            Com desdém, Lorena esboçou um sorriso irônico enquanto sentia os ombros tensos. "Como eu posso esquecer?"

            "E aí você simplesmente parou. Um dia, você parou de discutir comigo. Você cedeu. Assim, do nada", Zenilda estalou os dedos. "Como se você sempre tivesse desejado isso. Você nunca disse por quê."

            Lorena pegou sua xícara de café e a bebeu até o fim antes de pousá-la. Ela pigarreou e ergueu levemente as sobrancelhas diante da delicada indagação da mãe, um interesse incomum em sua vida.

            "Não mesmo."

            Aguardando pacientemente que ela continuasse, Zenilda assentiu após um instante e terminou seu café da manhã. Assim que terminou, Lorena parou de brincar com as crostas e a gema de ovo picada e se levantou. Pegando os dois pratos, levou-os para a cozinha, jogou a comida no lixo e despejou os pratos na pia.

            Depois disso, ela foi em direção à porta dos fundos enquanto sua mãe a chamava. "Duas horas. Você está me ouvindo, Lorena?"

            Revirando os olhos, ela fechou a porta dos fundos atrás de si e foi até a garagem, tirando o moletom e calçando as sapatilhas de ponta enquanto aumentava o volume da música e se aquecia. Ela não achava que morrer fosse desculpa para deixar sua rotina de lado, especialmente porque não era ela quem estava morrendo, mas ficou surpresa com a flexibilidade da mãe em relação ao regime rígido que havia imposto à filha, incutindo nela uma forte ética de trabalho e uma determinação inigualáveis, mesmo entre as bailarinas mais dedicadas. 

            Lorena nunca escondeu seu ódio pela dança, por mais disciplinada que fosse, então Zenilda sabia que ela a odiava, que queria parar de dançar por anos até finalmente ceder sem reclamar, matando de vez qualquer sonho de estudar em uma universidade. Não dançar agora, depois de ter dedicado toda a sua vida à dança, a única coisa em que concentrava toda a sua atenção para não ter que encarar a bagunça que era o resto da sua vida, era impensável. Praticar sozinha na garagem já não era uma distração suficiente, em vez de em um estúdio lotado com o resto da companhia, sempre com alguma coisa acontecendo, sempre alguma fofoca, bebida ou um rodízio de parceiras para dormir e distrair sua mente da solidão, da insatisfação com a vida, do vazio e da apatia que sentia. 

            Dançar apenas algumas horas por dia deixaria Lorena com mais tempo livre do que ela sabia o que fazer, tempo livre suficiente para passar um tempo com a mãe, algo que ela relutava em fazer. Lorena amava a mãe, mas de uma forma difícil de explicar. Ela só conseguia suportar a presença dela em pequenas doses, a culpava por grande parte dos problemas da sua vida, nunca conseguia ser vulnerável perto dela, e ainda assim a amava e temia as semanas seguintes, vendo-a definhar até morrer. Lorena não estava preparada para isso e não achava que passar mais tempo com Zenilda tornaria tudo mais fácil.

            Ainda assim, Lorena parou de dançar pouco antes do almoço, deixando os sapatos para trás e voltando descalça para casa, onde fumou um cigarro do lado de fora e depois subiu para tomar um banho. Colocando sais de magnésio na banheira, ela permaneceu na água quente até que sua pele ficasse rosada, deixando o magnésio agir em seus músculos doloridos enquanto se encostava na borda, com a mente divagando. Sem nada para fazer pelo resto do dia, ela considerou ir ao supermercado, mas já tinha ido no dia anterior, e então resolveu dar uma caminhada até o Gatitas para tomar um café, nem que fosse só para fazer algo que não envolvesse ficar presa em casa com a mãe. Lorena pensou brevemente em perguntar a Zenilda se ela queria ir, para tirá-la de casa e tomar um pouco de ar fresco, mas desistiu da ideia, determinada a ficar sozinha.

            Vestindo um suéter de crochê com listras alternando entre amarelo, rosa claro e azul escuro, ela calçou um par de botas e prendeu o cabelo num coque elegante com facilidade e prática, antes de descer as escadas e pegar o casaco no cabide. Enchendo os bolsos com o essencial, dirigiu-se ao escritório da mãe e bateu na porta antes de entrar. O cheiro de madeira, papel e couro a atingiu com um leve toque cítrico de lustra-móveis de limão assim que entrou pela primeira vez desde que voltara para casa, observando as prateleiras de madeira organizadas, a escrivaninha arrumada com o computador que sua mãe usava e algumas fotos emolduradas viradas para o lado oposto ao de Lorena. Ela estava ansiosa para saber quais fotos eram aquelas, se aparecia em alguma delas, se sua mãe a amava o suficiente para emoldurar uma foto sua e admirá-la enquanto trabalhava.

            "Vou sair rapidinho."

            "OK."

            "Liga se precisar de alguma coisa. E não se esqueça de tomar seus remédios."

            Revirando os olhos, Zenilda olhou para ela por cima das telas do computador, as leves rugas nos cantos dos olhos indicando a Lorena que ela estava sorrindo. Não muito — sua mãe nunca sorria muito —, mas claramente se divertindo com a preocupação da filha.

            "Sim, Lorena, tomarei meus analgésicos se precisar", respondeu Zenilda, exasperada, antes de fazer uma pausa e pigarrear enquanto digitava algo no teclado. "Você já terminou de dançar por hoje?"

            Revirando os olhos, Lorena suspirou baixinho. "Como você disse, não estou ensaiando para nada."

            "Muito bem, então te vejo mais tarde."

            "Tchau."

            Ela caminhou até o centro da cidade ouvindo música, seguindo o caminho familiar até o Gatitas e esperando na fila para pedir um café preto. O barista ligou a máquina, um barulho de moagem e vapor sibilante enquanto Lorena encontrava uma mesa escondida perto da janela, com um espaço de mesas vazias ao redor, e se sentava. Não estava muito cheio, o movimento do horário de almoço já havia passado, e enquanto Lorena mexia no celular, abrindo mensagens não lidas de Jack, Maggye e Lucélia e deixando-as sem resposta, alguns moradores locais entraram para fazer pedidos para viagem.

            Pouco depois, seu café foi trazido por uma mulher de cabelos escuros, olhos com delineador marcante e anéis de prata em quase todos os dedos. Lorena não a conhecia, mas conversava alegremente com os moradores locais que entravam e saíam, cuidando sozinha da máquina de café e esquentando muffins e bagels. A porta se abriu com um toque e Lorena pegou sua xícara. Ela olhou para cima ao ver uma mulher ruiva de uniforme médico entrar. Surpreendida pela aparição de Eduarda, que parecia estar em todos os lugares, mesmo para uma cidade pequena, as mãos de Lorena ficaram repentinamente desajeitadas e ela pousou a xícara com um estrondo, derramando café sobre suas mãos enquanto soltava um palavrão baixinho.

            Se ela esperava passar despercebida, falhou miseravelmente, pois o barulho chamou a atenção de Eduarda imediatamente. Com ar irritado, Lorena enxugou as mãos com guardanapos do dispenser e então tomou um gole de café. O Gatitas de repente pareceu muito pequeno e silencioso demais: o chiado da cafeteira, o tilintar dos pratos da cozinha, as batidas do coração de Lorena enquanto ela permanecia sentada em silêncio, evitando cuidadosamente olhar para as costas de Eduarda enquanto fazia seu pedido. Lorena ouviu trechos da conversa com a atendente, enquanto tentava ignorar Eduarda, odiando ter imaginado esse cenário por anos, as duas se encontrando no Gatitas como faziam antigamente. Não parecia certo para Lorena que elas pudessem estar no mesmo ambiente, tão próximas, e ainda assim não pudessem conversar como pessoas normais.

            Por mais que estivesse determinada a ignorá-las, Lorena ainda percebia que Eduarda havia terminado de falar com a atendente, continuava a lançar olhares furtivos para Lorena, sentada sozinha à mesa, e se inclinava em sua direção com uma determinação que lhe causava reviravoltas no estômago. Lorena não ergueu os olhos enquanto observava Eduarda se aproximar pelo canto do olho, fingindo não perceber nada até que sua sombra se projetasse sobre a mesa. Obrigada a reconhecer sua presença, Lorena soltou um suspiro cansado e ergueu o olhar para encontrar o olhar apreensivo de Eduarda. Sem pedir permissão, Eduarda puxou a cadeira à sua frente e sentou-se nela, ombros eretos enquanto juntava as mãos sobre a mesa, mordendo o lábio inferior ansiosamente.

            "Ah, pelo amor de Deus", murmurou Lorena baixinho.

            Ignorando-a, Eduarda abriu as mãos sobre a mesa. "Olha, me desculpe."

            "Não precisamos fazer isso."

            "Sim, nós precisamos", insistiu Eduarda em voz baixa, inclinando-se para mais perto, com um olhar intenso e um músculo da mandíbula tremendo. "Eu entendo, eu te magoei, não foi certo nem justo, mas eu só... as coisas não deveriam ter terminado assim. Quer dizer... você me descartou. Como se não fosse nada, como se eu não fosse ninguém. Então acho que você deveria pelo menos me ouvir."

            Um sorriso fraco e amargo cruzou o rosto de Lorena, e um leve aperto surgiu nos cantos de seus olhos. "Acho que ouvi tudo o que precisava na outra noite."

            "Não, você não ouviu."

            "Bem, de qualquer forma não importa", murmurou Lorena com a voz rouca, brincando com a xícara de café. "Então, vamos deixar por isso mesmo. Você decidiu que sabia o que era melhor para mim e não tem o direito de ficar chateada por não termos conversado desde então."

            "Ah, que besteira", exclamou Eduarda baixinho, com as bochechas corando enquanto ajeitava os óculos no nariz, irritada. "Eu tenho todo o direito."

            "Você não tem esse direito", disparou Lorena, com a garganta fechando ao sentir novamente a dor cortante e devastadora. "Você sabia que eu odiava isso, sabia que eu não queria mais fazer isso."

            "Se você odiasse tanto assim, já teria parado."

            "Eu ia. E aí você me disse-"

            Hesitante, Lorena baixou o olhar para a mesa, uma contração de dor cruzando seu rosto. Eduarda soltou um suspiro resignado, mexendo nos dedos enquanto também mantinha os olhos baixos, nenhuma das duas conseguindo olhar para a outra por muito tempo sem que uma culpa terrível e uma raiva ferida as dominassem.

            "Que diferença fez o que eu pensava?"

            "Isso fez toda a diferença para mim. Você me afastou e me jogou diretamente nos braços daquilo de que eu queria fugir."

            "Eu não fiz nada", protestou Eduarda veementemente. "A única coisa que fiz foi garantir que você tomasse sua própria decisão. Que você não estivesse simplesmente... desistindo de tudo por minha causa."

             Lorena soltou uma risada abafada, engolindo em seco enquanto um sorriso forçado cruzava seus lábios. Pegando a xícara, Lorena esvaziou o resto do conteúdo e a colocou sobre a mesa com um pouco de desajeitamento antes de se levantar.

            "Não teria sido por você, mas de qualquer forma, no fim, você escolheu por mim."

            Contornando as outras mesas e cadeiras, Lorena empurrou a porta ao som da campainha e sentiu o vento revigorante em suas bochechas coradas. Caminhando um pouco para longe da porta, pegou seus cigarros e acendeu um enquanto semicerrava os olhos para o mar cinzento, olhando por cima das dunas de areia, com a grama alta curvada sob a força do vento. A campainha tocou novamente quando a porta se abriu e Lorena fechou os olhos ao inalar o sabor do tabaco, seus ombros curvando-se levemente.

            "Me desculpa", insistiu Eduarda, e Lorena reprimiu um suspiro enquanto levava a mão ao cigarro, tirando-o dos lábios e soltando a fumaça ao se virar. Eduarda segurava dois copos de café para viagem e seu rosto estava franzido com uma expressão decididamente determinada. "Mas você ainda poderia ter parado. Não é minha culpa que você não tenha parado, só porque eu disse que não sentia o mesmo por você. Eu não era responsável pelo seu futuro, mas se fosse... eu teria feito o mesmo."

            "Obrigada pelo esclarecimento", respondeu Lorena secamente, virando-se novamente enquanto começava a descer a trilha que cortava as dunas.

            Apressando-se para acompanhá-la, com seus Crocs rangendo levemente nas tábuas de madeira úmidas, Eduarda seguiu o seu ritmo. Sem sair correndo, Lorena imaginou que teria que suportar a companhia dela enquanto ela desabafava.

            "Olha em volta, Lorena. Este lugar é um buraco; nada mudou desde que você foi embora, exceto que todos nós estamos lutando para conseguir morar aqui, já que os preços dispararam. São as mesmas pessoas, os mesmos lugares, os mesmos empregos de merda. Nada mudou. Se você quer dizer que eu escolhi por você, então fico feliz por ter feito isso, porque pelo menos você saiu daqui. Nem todos nós tivemos essa sorte."

            "Sorte? Você tem ideia de como eu me sentia sozinha? De como eu tenho me sentido sozinha? Eu não pude ir à escola, então você era minha única amiga. Não foi nada bom para mim deixar toda a minha vida para trás, não me senti sortuda por te perder. E agora eu deveria simplesmente me sentir bem com isso porque você me diz que o motivo de tudo era mentira, que você fez isso por minha causa?"

            "Você também era minha amiga", lembrou Eduarda, as palavras saindo entrecortadas e irregulares, "Eu também te perdi. Não estou tentando justificar, só estou tentando te explicar o que aconteceu. Não estou pedindo seu perdão, porque fiz o que achei certo. Pensei que precisava te deixar ir, mas você… você se afastou de mim mais do que eu imaginava."

            Havia alguma verdade nisso, e Lorena sabia disso. Ela havia se sentido tão magoada que afastou Eduarda, mas Eduarda a deixou fazer isso com muita facilidade, e Lorena ressentia-se disso agora mais do que da dor inicial da rejeição. Ela observou horrorizada enquanto os olhos de Eduarda se enchiam de lágrimas, seu lábio inferior tremendo levemente enquanto suas bochechas coravam de dor e raiva.

            "Jesus, não faça isso. Não vale a pena."

            "Ah, vai se foder", Eduarda disparou com a voz embargada, tentando cobrir o rosto enquanto ainda segurava as xícaras de café. "Você não é a única que tem o direito de ficar chateada."

            Por um instante, a situação ficou desconfortável. Lorena encarou Eduarda enquanto a observava tentar esconder as lágrimas, as mãos ocupadas demais para enxugá-las, a cabeça baixa e as bochechas coradas. Com um suspiro, Lorena se viu prendendo o cigarro entre os lábios enquanto estendia a mão para ela. Era como se não tivesse controle do próprio corpo, uma perspectiva assustadora para alguém cuja carreira inteira dependia disso, e Lorena sentiu uma pontada de pânico, mas continuou estendendo a mão, a decisão tomada em uma fração de segundo rápida demais para que pudesse parar.

            A respiração de Lorena ficou presa na garganta quando ela tocou as bochechas de Eduarda, seus dedos frios enxugando suas lágrimas enquanto ela ajeitava seus óculos, e o coração de Lorena disparou com o contato. As pálpebras de Eduarda tremeram e, depois de um instante, ela virou a cabeça delicadamente, uma ruga se formando onde suas sobrancelhas se juntaram na ponte do nariz. Abrindo e fechando a boca, o rosto de Eduarda corou novamente de vergonha antes que ela se virasse abruptamente e se afastasse rapidamente sem dizer uma palavra. 

            Deixada na entrada da praia, parada sobre as tábuas de madeira úmidas da passarela que cortava as dunas, com as ondas gélidas às suas costas, Lorena observou Eduarda se afastar apressadamente e ponderou por um instante se deveria chamá-la ou deixá-la em paz. Seu desconforto com toda a situação falou mais alto, e Lorena permaneceu ali por alguns minutos, o cigarro entre os lábios queimando até virar uma coluna de cinzas enquanto o vento agitava mechas de seu cabelo e secava as lágrimas que umedeciam seus dedos. Como se lembrasse delas, Lorena franziu a testa, olhando para as próprias mãos, e esfregou os polegares nas pontas dos dedos, remoendo a sensação das bochechas de Eduarda sob seu toque. 

            A frustração tomou conta de Lorena, que arrancou o cigarro dos lábios e o jogou de lado com raiva antes de se virar e sair pisando duro. Lutando para acender outro cigarro contra o vento forte que soprava direto da costa, Lorena caminhou pela praia enquanto se repreendia silenciosamente, assim como Eduarda, sua mãe e qualquer outra pessoa que a tivesse irritado em algum momento da vida; ninguém escapava de suas emoções instáveis. 

            Sua mãe, por ter lhe tirado qualquer chance de uma vida normal; seu irmão, por ter morrido e a deixado cuidando da mãe; seu pai, por seus acessos de raiva e embriaguez perpétua, enquanto a porta batia e o conteúdo da casa chacoalhava; sua mãe, novamente, por estar em fase terminal; Samira, por ter se afogado; Arminda, por tê-la ensinado balé; Mercy, por ter se aproveitado dela; Jack, por criar balés para ela dançar; Teca, por ser o objeto da atenção de Eduarda; e Eduarda, por ter partido seu coração. E a si mesma também, ao considerar, pela primeira vez, que talvez também tivesse partido o coração de Eduarda. 

            Ela fumava e levantava poeira enquanto caminhava, tentando dissipar um pouco da raiva, mas caminhou quilômetros e quilômetros antes de senti-la diminuir para um sussurro cansado, suas pernas doendo e uma dor de cabeça repentina atrás dos olhos. Isso a fez parar, tudo a corroendo por dentro enquanto sentia a culpa lancinante, a vergonha, a sensação horrível de ter feito Eduarda chorar, estremecendo por quão cruel ela tinha sido, mesmo que fosse um ato de defesa, mesmo que fosse apenas porque ela não sabia como dizer o quanto sentira falta da amiga, e como nada parecia certo sem ela, e como Lorena desejava tanto ter quinze anos de novo, antes que tudo desse tão terrivelmente errado.

           Ao pensar em ir ao Afrodite, ela desistiu da ideia, sabendo que se voltasse para casa na hora do jantar com cinco drinques na cabeça, outra discussão com a mãe começaria, e Lorena definitivamente não estava com paciência para isso. Em vez disso, se viu caminhando em direção ao Hospital Geral de Ilha Comprida. Seu celular indicava que faltavam aproximadamente duas horas para Eduarda terminar o trabalho, e Lorena ficou andando de um lado para o outro por um tempo, fumando e tentando se convencer a não ficar. 

            O céu ficou cinza enquanto ela permanecia ali, ainda ponderando, ou melhor, fingindo que ponderava para não ter que admitir que estava esperando por ela. Lorena sentou-se no banco e observou outra enfermeira sair para tomar um café enquanto fumava. Começou a chover quando o relógio se aproximava das cinco horas, o dia escurecendo, a água escorrendo em filetes pelo seu rosto e casaco, encharcando seus cabelos e formando gotas nas lentes dos óculos de sol, umedecendo a gola do suéter que deslizava para baixo. Ela não se moveu, o cigarro entre os lábios umedecendo enquanto continuava a fumar, mal percebendo a chuva enquanto esperava, sentindo-se inquieta com as emoções apertando seu peito.

            Por fim, Eduarda saiu com o casaco por cima do uniforme e uma bolsa no ombro, procurando as chaves do carro. Sua cabeça estava baixa por causa da chuva, de modo que não viu Lorena até que ela estivesse se aproximando diretamente do banco onde fumava. Apagando o cigarro na tinta descascada do banco, Lorena soltou uma baforada de fumaça enquanto se levantava, sem jeito e sem palavras por um instante, enquanto Eduarda olhava para cima e parava. Sua expressão estava carregada de cautela, e ela segurava as chaves do carro na mão, mantendo o olhar fixo enquanto as gotas de chuva começavam a cair sobre sua pele.

            Abrindo e fechando a boca, Lorena empurrou os óculos de sol para cima da cabeça, parecendo um pouco irritada enquanto a culpa a dominava. Cruzando os braços sobre o peito, franziu levemente a testa e sentiu as bochechas esquentarem enquanto permanecia em silêncio por um instante.

            "Eu também sinto muito", ela finalmente conseguiu dizer, apesar do nó na garganta.

            Foi um esforço admitir isso, curvar seu orgulho e dizer aquilo sem arrogância, para não imitar sua mãe e as qualidades infelizes que ela havia transmitido à filha como consequência de seu relacionamento complicado. Ela raramente dizia essas palavras em voz alta, apesar de sentir remorso por tudo o que fazia, até mesmo por ter nascido. Limpando a garganta, a boca de Lorena se contraiu em uma expressão sombria enquanto ela baixava os olhos para os tijolos desgastados pelo tempo sob seus pés.

            "Há quanto tempo você está esperando aqui fora?" foi tudo o que Eduarda respondeu.

            Encolhendo os ombros e abraçando os braços, o suave farfalhar do seu casaco acolchoado molhado, sentindo o frio um pouco mais intenso depois de tanto tempo ao ar livre, fez com que Lorena sentisse outra pontada de constrangimento. "Não muito", murmurou, e então inclinou a cabeça para o lado, o rosto se contorcendo enquanto soltava uma risada sem graça. "Uma hora, mais ou menos."

            "Por que?"

            "Eu só queria pedir desculpas", explicou Lorena, sem jeito. "E eu não tenho mais o seu número, e não sei onde você mora, então... eu tive que vir aqui."

            "Você não sabe onde eu moro?", repetiu Eduarda, com um misto de perplexidade e divertimento no rosto.

            "Bem, eu presumi que não fosse com a sua mãe."

            "Não é. E meu número continua o mesmo, então… bem, acho que você não se lembraria dele daquela época mesmo."

            Lorena decidiu não lhe contar que se lembrava de cada dígito, que havia discado o número diversas vezes nos últimos doze anos, o polegar pairando sobre o último número antes que sua coragem vacilasse e ela não ligasse. Como tudo poderia ter sido diferente se ela tivesse feito isso, cedido à saudade e à angústia que a consumiam, em vez de criar o máximo de distância e tempo possível entre elas e as lembranças.

            "Acho que as coisas realmente não mudam por aqui."

            "Sim. Provavelmente está tudo exatamente como você se lembra", murmurou Eduarda, olhando para baixo enquanto enfiava as mãos nos bolsos. 

            "Não tudo – não você", disse Lorena, encarando-a com uma expressão de desânimo e os cantos da boca curvados para baixo. Era difícil conciliar a pessoa à sua frente com a adolescente que iluminava todo o seu mundo, cujo riso costumava ser tão alto e contagiante, que nunca parecera tão cansada da vida.

            Hesitando por um instante, os lábios de Lorena se curvaram num sorriso triste. "Sabe o que eu me lembro de você? Você costumava rir muito."

            Eduarda soltou uma risada rouca, seus olhos encontrando os de Lorena. "Minha irmã sempre diz que eu era uma das pessoas mais felizes que ela conhecia, mas... agora eu simplesmente existo."

            "Sim. Odeio te ver assim... Não sei, você era tão cheia de vida. E agora não é mais."

            Fazendo uma leve careta, os lábios de Eduarda se contorceram num sorriso hesitante e amargo. Ela não respondeu depois de um instante, e Lorena pigarreou enquanto dava um passo para trás. "Desculpe, não quero ser má, eu só..."

            Balançando a cabeça, Eduarda soltou uma risada sem fôlego. "Está tudo bem."

            Não era bem assim, mas a situação entre eles era complicada demais para entrarem no assunto sem dizer coisas horríveis um ao outro, e nenhum dos dois queria mesmo chegar a esse ponto. Podiam dizer que tinha acontecido há muito tempo, o quanto quisessem, mas isso não mudava o fato de que tinha acontecido, que grande parte de suas vidas tinha sido vivida sem a presença um do outro depois de terem destruído o relacionamento, magoado tanto um ao outro que realmente não parecia valer a pena repetir tudo sem sentir uma culpa e uma vergonha terríveis. 

             Após uma pausa constrangedora, Lorena engoliu em seco e assentiu. "Bem... é isso então. Eu só queria dizer que sinto muito."

            "Obrigada", respondeu Eduarda suavemente, com uma expressão triste e derrotada enquanto seus ombros caíam, os cabelos ruivos adquirindo um tom mais escuro à medida que permaneciam na chuva. "Eu também."

            "Sim", murmurou Lorena, mordendo o lábio e assentindo novamente. "Bem…"

            Virando-se, ela começou a se afastar sem dizer mais nada, seus passos lentos e cansados enquanto colocava os óculos de sol e sentia a garganta apertar. Era doloroso e ela podia sentir a pressão aumentando atrás dos olhos, a ardência das lágrimas chegando, sabendo que estava prestes a chorar. Inspirando superficialmente, com a respiração entrecortada, ela apalpou os bolsos, procurando cigarros ou AirPods, qualquer coisa para se distrair da terrível tristeza que a oprimia.

            Ela ouviu o arrastar de sapatos nos tijolos e estremeceu ao ouvir a voz de Eduarda. "Precisa de uma carona?"

            "Eu... não", respondeu Lorena com a voz rouca e trêmula. "Não, eu... obrigada."

            "De qualquer forma, vou à sua casa."

            "Hum… eu só…"

            Sua voz estava embargada pela emoção e ela sentiu as bochechas corarem enquanto continuava andando, pigarreando enquanto buscava desesperadamente alguma explicação. Naquele momento, entrar no carro de Eduarda com ela parecia a pior coisa do mundo; seu estômago embrulhava e suas mãos tremiam, tentando abrir o maço de cigarros enquanto a chuva caía torrencialmente em suas costas.

            Ao parar, a boca de Lorena se contraiu. Estava encharcada e congelando, depois de horas na rua, e tremia de frio, tão derrotada que achava que não tinha energia para voltar para casa a pé. Mas também sabia que, se tivesse que sentar no banco da frente ao lado de Eduarda, ia desabar em lágrimas, e isso era ainda pior do que a perspectiva de caminhar para casa na chuva, com o tecido roçando em sua pele molhada. 

            "Lorena", Eduarda suspirou suavemente, logo atrás do ombro esquerdo dela. "Me deixa levar você."

            Após uma pausa, Lorena assentiu brevemente. Não conseguia falar, sua garganta fechou, e também não conseguia olhar para Eduarda, mudando sua trajetória e seguindo-a até o Jeep azul desbotado. Foi a ideia de parecer mesquinha, de se fazer de ridícula ao recusar uma carona quando estavam indo para o mesmo lugar, que a convenceu a aceitar, esperou enquanto Eduarda destrancava o carro e então entrou no banco do passageiro.

            Na noite anterior, ela estava bêbada demais para processar tudo com clareza, com Eduarda ao seu lado, confinada dentro do carro. Desta vez, completamente sóbria, Lorena desejou a nitidez de sua mente e de seus sentimentos enquanto colocava o cinto de segurança, suas emoções tão intensas que ela pensou que poderia se engasgar com elas. Eduarda ligou o carro e deu ré para sair da vaga antes de pigarrear.

            Ao inspirar suavemente, Lorena fechou os olhos, sentindo a ardência se intensificar. "Por favor, não."

            "O que?"

            "Por favor, não fale", disse Lorena, ofegante. "Porque eu vou... eu vou começar a chorar e... eu só..."

            Ela soltou um suspiro trêmulo enquanto ajeitava os óculos de sol para pressionar as pontas dos dedos gelados contra as pálpebras. Um tremor percorreu seu corpo, as roupas encharcadas e a pele úmida enquanto ela inspirava profundamente, tentando se acalmar antes de desabar em lágrimas. 

            "Está bem", sussurrou Eduarda.

            Um alívio inundou Lorena enquanto ela permanecia sentada assim por um instante, os dentes cerrados para impedir que batessem, sentindo as pontas dos dedos umedecerem apesar de seus melhores esforços. Um momento depois, o ar quente começou a sair em jatos pelas saídas de ar na potência máxima, enquanto Eduarda girava o botão até o fundo, o para-brisa embaçando nas bordas, e o carro ficou repentinamente aconchegante. Tirando as mãos do rosto, Lorena inspirou profundamente e se inclinou para a frente, levando os dedos congelados sobre as saídas de ar, sentindo a pele arrepiar.

            "Obrigada", ela disse com a voz rouca.

            Elas não trocaram uma palavra durante o resto do caminho até a casa de Zenilda. O silêncio era constrangedor enquanto Lorena respirava fundo, entrecortada, e piscava rapidamente para conter a ardência nos olhos. Algumas lágrimas escaparam e foram enxugadas às pressas, enquanto Eduarda abria e fechava a boca uma dúzia de vezes, apertando o volante com força enquanto lutava para manter o silêncio prometido. Não era uma viagem longa, mas Lorena mal podia esperar para que terminasse. A tensão era palpável e enlouquecedora, e ela nunca se sentira tão aliviada ao avistar a casa de madeira branca, com a Mercedes bordô estacionada do lado de fora e as árvores esqueléticas cercando o quintal.

            Desligando o motor, Eduarda tirou a chave da ignição e ficou sentada por um instante enquanto Lorena permanecia imóvel. Lentamente, Lorena desabotoou o cinto de segurança e abriu a porta, saindo com movimentos rígidos. O vento gélido cortava suas roupas molhadas, dissipando qualquer resquício de calor que ela pudesse ter encontrado no carro. Do outro lado, Eduarda saiu e recolheu seus pertences do porta-malas enquanto Lorena se dirigia para a varanda da frente sem dizer uma palavra. 

            Subindo rapidamente as escadas, Lorena entrou e deixou a porta aberta, chutando os sapatos e pendurando o casaco acolchoado molhado antes de descer os degraus de dois em dois e desaparecer lá em cima. Tirou alguns pertences dos bolsos e os jogou na cama desarrumada antes de entrar no banheiro e tirar as roupas molhadas. Suas coxas estavam rosadas onde o jeans havia grudado na pele e a água quente ardeu quando ela entrou sob o jato, demorando enquanto o calor abrasador a envolvia e ela chorava baixinho.

            Saindo do banheiro, ela vestiu o roupão que estava pendurado atrás da porta e enrolou o cabelo numa toalha antes de voltar para o quarto. Apesar do frio, abriu uma das janelas e sentou-se no parapeito enquanto fumava, olhando para o Jeep azul estacionado na entrada da garagem, afundando-se em sua própria miséria.

 

~•~•~•~•~•~

 

Eram tempos de férias e Lorena tinha dez anos. Seu pai havia falecido recentemente e sua mãe não sabia o que fazer com ela naquela manhã, já que Arminda estava de férias e Léo ligou na noite anterior para avisar Zenilda que não voltaria para casa, que iria para viajar com alguns amigos em vez de cuidar da irmã. Lorena estava naquela idade em que Zenilda não confiava totalmente em deixá-la sozinha em casa, embora ela fosse bastante independente e tivesse se virado sozinha quando deixada em casa com o pai bêbado várias vezes. Mas ele estava morto e não havia mais ninguém para cuidar dela, então Zenilda a arrastou para o hospital com uma mochila cheia de tarefas escolares para fazer em seu escritório, que ficava fora do caminho, mas por perto.

            Seguindo a mãe até o hospital, Lorena desejou poder ter um recesso de primavera normal também. Ela sabia que Duda ia à praia com Keyla quase todos os dias, com a prancha de surfe que ganhou dois anos antes no seu aniversário de onze anos, o rosto sardento e o cabelo laranja desbotado pelas horas passadas ao sol. Em vez disso, as férias escolares eram como qualquer outro dia para Lorena, exceto pelo fato de que ela não precisava ir à SPCD por uma semana ou mais. Em vez disso, sua mãe só fazia seus treinos na garagem adaptada.

            No ano anterior, Lorena começou a fazer aulas de ponta, com sua mãe fazendo testes em seus ossos para garantir que seus pés estivessem desenvolvidos o suficiente, e isso só serviu para aumentar ainda mais o ressentimento de Lorena pelo balé. Aos dez anos, ela começava a se incomodar com a prática constante, com a insistência da mãe para que dançasse, para que dedicasse todo o seu tempo a construir uma carreira no balé. Lorena passou a se calar sempre que o assunto balé era mencionado, não declarando mais que queria ser bailarina como sua mãe fora – ainda que por pouco tempo – e parou de chorar de dor nos pés enquanto sua mãe enfaixava seus dedos e aplicava pomada antibiótica, cortando suas unhas curtas e dizendo bruscamente que ela se acostumaria. Seus pés não perdoavam, formando bolhas de sangue e hematomas, unhas lascadas e microfraturas enquanto Arminda insistia para que ela dançasse sem acolchoamento, alegando que isso a beneficiaria a longo prazo.

            "Muito bem, sente-se à minha mesa e faça seu dever de casa. Não me perturbe a menos que seja importante; eu virei ver como você está quando tiver tempo."

            "OK."

            "Se você... oh, bom dia, Violeta."

            "Oi, Zenilda. E Lorena! Você está ajudando sua mãe hoje?"

            "Olá, doutora Fragoso", respondeu Lorena timidamente.

            Zenilda lançou um olhar sombrio para Violeta. "Léo está viajando e sem o Ferette... bem, ela não vai atrapalhar."

            "Ah, bem, minhas filhas estão indo para a praia, se você quiser mandá-la junto. A Keyla tem quase quinze anos, então já tem idade suficiente para ficar de olho nela, e as duas nadam muito bem. É melhor ela pegar um pouco de sol e ar fresco do que ficar presa aqui o dia todo, não é?"

            "Ah," Zenilda hesitou, seus olhos se voltando para Lorena, que estava sentada na cadeira da mãe com a mochila abraçada ao peito. 

            Lorena percebeu que sua mãe não concordava com aquela afirmação, que Zenilda preferia que ela ficasse em casa estudando para que pudesse dançar quando chegasse. Ela queria manter Lorena longe de possíveis lesões nos pés ou tornozelos, não queria que ela se cansasse brincando sem propósito, nem que sofresse insolação ou queimaduras solares por passar horas ao ar livre sem supervisão. Talvez ainda mais importante, algo que Lorena ainda não entendia completamente, era mantê-la longe de Eduarda. Ela não queria nenhuma distração para a filha, mas a amizade inesperada que surgiu durante as visitas ao hospital no início da manhã e no final da tarde, perto do horário escolar ou das aulas, estava fora de seu controle.

            "Ela não tem roupa de banho. Eu não tenho protetor solar nem toalha-"

            Acenando com a mão de forma amigável, Violeta sorriu e disse: "Não se preocupe com isso. As meninas têm tudo e ela pode entrar só de camiseta. Provavelmente é melhor assim, considerando a cor da pele dela."

            "Bem… eu acho que sim", concordou Zenilda com um tom duvidoso, franzindo a testa antes de dar de ombros com indiferença. "A água vai fazer bem para as articulações dela. Não que ela seja uma grande nadadora."

            Virando-se para Lorena, Zenilda fez um gesto para que ela se aproximasse e tirou um celular flip do bolso. "Deixe sua bolsa aí. Pegue isso e ligue para a recepção se precisar de alguma coisa. Não se esqueça de passar bastante protetor solar, tá bom?"

            "Tá bom", concordou Lorena prontamente, mal conseguindo conter a empolgação ao pegar o telefone.

            Tocando-lhe brevemente o ombro, Zenilda conduziu-a em direção à porta, um leve sorriso nos lábios ao ver a inquieta ansiedade da filha. Violeta riu baixinho enquanto dava passagem para Lorena sair do escritório, caminhando lentamente até chegar à porta da frente, que se abriu para a sua saída. Assim que seus pés tocaram os tijolos, Lorena disparou, como se a mãe fosse mudar de ideia e ir atrás dela.

            Ela sabia onde ficava a praia por causa das corridas que sua mãe a mandava fazer para melhorar o condicionamento físico e a resistência, e como Ilha Comprida era pequena o suficiente para saber onde tudo ficava, mesmo que raramente fosse a algum lugar além de casa, do hospital, da casa de Arminda ou de Iguape. Não demorou muito para chegar às dunas, abrindo caminho entre elas enquanto a areia se acumulava em seus sapatos. O céu estava azul-claro e nublado, e o dia um pouco ventoso, apesar do sol. Protegendo os olhos do brilho do sol no mar, Lorena observou a extensão de areia e água, turistas circulando em suas toalhas, cortando as ondas, construindo castelos de areia. Não demorou muito para avistar Eduarda.

            A amiga dela estava sentada numa prancha de surfe, esperando uma onda, enquanto a irmã, com a água na altura da cintura, segurava a prancha para ela. Lorena chutou areia dourada para cima e viu Eduarda levantar as pernas e se agachar na prancha encerada. Keyla gritou incentivos ininteligíveis enquanto Eduarda se soltava e uma pequena onda a trouxe para perto. Ela conseguiu se levantar antes de perder o equilíbrio, os braços girando sem parar, até que ela caiu na água. 

            Emergindo em meio a um jato d'água, a risada de Eduarda ecoou pela distância entre elas, seguida pela de Keyla, e Lorena se juntou a elas, sorrindo enquanto se aproximava. Ainda protegendo os olhos do sol, Lorena ergueu a outra mão e acenou, chamando a atenção de Eduarda. Ela observou a amiga se animar, levantar-se de um salto e caminhar pela água rasa até chegar à praia, correndo em direção a Lorena com um largo sorriso no rosto bronzeado.

            "Lorena!" Eduarda gritou ao se aproximar, correndo como um cachorrinho e a envolvendo em um abraço, sem se importar com a água salgada que escorria de sua pele. "Você veio nadar? Por favor, diga que veio nadar."

            Rindo da expressão suplicante no rosto de Eduarda enquanto ela juntava as mãos, Lorena fez uma careta. "Sua mãe disse para a minha mãe me deixar vir."

            Levantando as mãos, Eduarda sorriu radiante enquanto fechava os olhos. "Sim!"

            "Ela disse que eu preciso usar protetor solar primeiro."

            Segurando a mão dela, Eduarda arrastou Lorena até as toalhas empilhadas ao lado de uma mala pronta. Havia garrafas de água e chinelos junto com roupas descartadas, e Eduarda pegou um frasco inteiro de protetor solar enquanto Lorena desabotoava seus sapatos e tirava as meias. A areia estava levemente morna sob seus pés descalços, e ela abriu o zíper da saia plissada, mantendo a camiseta branca para nadar. Eduarda já havia colocado protetor solar nas mãos e disse a Lorena para fechar os olhos antes de espalhá-lo em seu rosto, rindo baixinho, e depois em seus braços e pernas enquanto Lorena permanecia imóvel.

            "O que aconteceu com seus dedos do pé?", exclamou Eduarda, ajoelhando-se na areia, com os olhos arregalados de preocupação enquanto olhava para cima.

            "Ah, hum, são sapatilhas de balé", exclamou Lorena, sentindo-se um pouco envergonhada enquanto mudava cuidadosamente o peso de um pé para o outro, com os pés cheios de bolhas e hematomas de uma aparência desagradável. 

            Franzindo a testa enquanto se endireitava, Eduarda fez uma careta. "Talvez você devesse perguntar à sua mãe se pode parar de usá-las.”

            Um sorriso hesitante cruzou o rosto de Lorena. "Talvez."

            Deixando a garrafa cair na areia, Eduarda agarrou a mão de Lorena novamente e começou a puxá-la para a beira da água. "Você está pronta? Está muito frio."

            Com os pés firmemente fincados no chão, hesitante diante da imensidão do mar, Lorena soltou uma risada nervosa. "Espera, espera! Eu não sei nadar bem."

            Diminuindo o passo, Eduarda deu-lhe um sorriso radiante. "Está tudo bem, eu te ensino."

            Soltando a mão, Eduarda mergulhou nas ondas, rindo enquanto seus cabelos molhados caíam pelas costas, semicerrando os olhos por não usar os óculos que começara a usar recentemente, e fez um gesto para que Lorena entrasse também. Mudando o peso de um pé para o outro por um instante, Lorena entrou no mar, soltando um chiado agudo quando o sal impregnou seus pés sujos, mas seguiu Eduarda até a água roçar a barra de sua camiseta, antes de mergulhar, emergindo com um respingo e uma risada enquanto seus dentes começavam a bater. Keyla riu enquanto se aproximava com a prancha de surfe da irmã na mão e as duas passaram o resto da manhã ensinando Lorena a nadar direito, fazendo-a se segurar na prancha e chutar com os pés enquanto se afastavam um pouco mais. 

            Na hora do almoço, elas dividiram seus sanduíches de presunto e água com Lorena antes de voltarem para a água e nadarem a tarde toda. Conforme o dia avançava e elas saíam da água, cavavam buracos na areia e recolhiam pedrinhas e conchas interessantes. Keyla as deixou sentadas na areia por quinze minutos antes de voltar com três sorvetes para elas, sorrindo enquanto entregava um para Lorena e se sentava na areia ao lado da irmã. As três esticaram as pernas ao sol enquanto o sal secava em seus cabelos, e Lorena comeu sorvete pela primeira vez enquanto olhava para seus pés machucados e pensava que talvez tivesse sido o melhor dia de sua vida.

 

~•~•~•~•~•~

 

            Ela ainda estava sentada no parapeito da janela com a cabeça para fora, fumando outro cigarro enquanto segurava a gola do roupão fechada para se proteger do frio, quando ouviu uma leve batida na porta. Lorena sabia que não era sua mãe, que teria entrado sem bater, e soltou uma baforada de fumaça enquanto seus olhos se voltavam para a porta fechada.

            "Sim?"

            A porta se abriu e Eduarda espiou cautelosamente pela fresta. Lorena a chamou impacientemente com uma das mãos, enquanto dava outra tragada no cigarro com a outra. Parecendo um pouco apreensiva, Eduarda entrou no quarto que costumava frequentar quando Lorena estava sozinha em casa, o que acontecia com frequência, e apoiou uma mão na cintura enquanto abaixava a cabeça, mexendo nos óculos.

            "Eu... bem, por hoje já terminei tudo."

            Lorena assentiu com a cabeça, tirando a cinza do cigarro enquanto a observava. "Como ela está?"

            "Eu..." Eduarda começou e depois riu. "Você sabe que pode simplesmente perguntar a ela."

            Dando de ombros, Lorena esboçou um sorriso divertido e ergueu as sobrancelhas com ceticismo enquanto levava o cigarro de volta aos lábios. Revirando os olhos, Eduarda bufou baixinho e sorriu ironicamente.

            "Ela está… tão bem quanto se pode esperar. Ela está tentando adiar a próxima dose de morfina, então… talvez seja melhor dar uma olhada nela daqui a uma hora ou mais. Hum… certifique-se de que ela coma alguma coisa também. E você. Você também deveria comer alguma coisa."

            "Certo."

            "Certo, então voltarei amanhã de manhã."

            "Está bem", murmurou Lorena.

            Eduarda assentiu com a cabeça, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto hesitava por um instante. Virando-se para a porta, ela parou quando Lorena falou.

            "Obrigada."

            Segurando firmemente a borda da porta, Eduarda olhou por cima do ombro, seus olhos percorrendo Lorena, observando o roupão e a toalha enquanto ela se enroscava no parapeito da janela, fumando um cigarro atrás do outro. Uma expressão comovente cruzou seu rosto, um leve suavizar nos cantos dos olhos enquanto um sorriso discreto se formava em seus lábios.

            "Ainda sinto sua falta", confessou ela baixinho antes de sair, a porta se fechando suavemente atrás dela.

            Lorena encarou a porta fechada por um minuto antes de seus olhos começarem a arder intensamente. Enxugando os cantos dos olhos enquanto fungava, sua expressão se contraiu e ela murmurou entre dentes cerrados: "Droga."

            Apagando o cigarro no cinzeiro aos seus pés, Lorena desceu do parapeito da janela e a fechou com um puxão mais forte do que o necessário. Desfazendo o nó da toalha, esfregou-a nos cabelos úmidos e depois afundou o rosto no algodão macio, respirando fundo algumas vezes antes de reprimir a frustração. Lá fora, Eduarda entrou no jipe e foi para casa. 

            Secando o cabelo com a toalha enquanto caminhava de um lado para o outro no quarto, Lorena finalmente trocou de roupa, vestindo calças de moletom e uma blusa de manga comprida branca com listras azuis, antes de descer as escadas. Era hora do jantar e estava escurecendo dentro de casa quando Lorena acendeu as luzes ao passar pela cozinha. Sua mãe estava no quarto, no andar de cima, então Lorena começou a preparar o jantar, selando salmão na frigideira e cozinhando quinoa e brócolis em panelas. 

            Depois de servir duas porções, Lorena subiu as escadas e bateu na porta do quarto da mãe antes de abri-la devagar. Zenilda estava na cama, encostada nos travesseiros, com um exemplar do jornal da manhã no colo e os óculos de leitura no rosto, resolvendo as palavras cruzadas. Ela olhou para cima ao ver Lorena chegar.

            "Eu preparei o jantar. Posso trazer para você se-"

            "Vou comer à mesa; não perdi toda a compostura", zombou Zenilda, largando o jornal e jogando as pernas para fora da cama.

            Seu rosto se contorceu de dor e seus ombros caíram levemente enquanto ela parava por um instante. Uma pontada de preocupação passou por Lorena quando ela deu um passo à frente, estendendo a mão para ajudar. Antes que pudesse fazer qualquer esforço para ajudar a mãe a se levantar, Zenilda já estava de pé, calçando chinelos e caminhando em sua direção.

            Virando-se, Lorena abriu a porta mais amplamente e atravessou o patamar, descendo as escadas rapidamente enquanto sua mãe a seguia em um ritmo mais lento. Na cozinha, pegou os dois pratos e os levou para a mesa antes de buscar os talheres. Ela já estava sentada quando Zenilda se juntou a ela, sentando-se à sua frente e observando a comida.

            "Obrigada."

            Lorena assentiu com a cabeça, cortou um pedaço de salmão e mastigou devagar. Zenilda lançou-lhe um olhar inquisitivo enquanto comia a própria comida, dando algumas garfadas antes de finalmente falar.

            "Está tudo bem?"

            Levantando os olhos, Lorena engoliu a mordida, com uma expressão de leve surpresa e perplexidade no rosto. "Desculpe?”

             "Está tudo bem?"

            Dando de ombros, a expressão sombria de Lorena se transformou em uma carranca enquanto sua boca se achatava. "Claro. Por que não seria?"

            Com as sobrancelhas arqueadas num olhar incrédulo, Zenilda murmurou em dúvida. Elas terminaram o jantar em silêncio e Lorena foi a primeira a terminar, levantando-se sem esperar pela mãe e jogando os restos da comida no lixo antes de lavar a louça. Assim que Zenilda terminou, Lorena pegou o prato dela e também lavou. 

            Zenilda preparou duas xícaras de café enquanto Lorena limpava as bancadas, e então pigarreou ao colocar uma xícara perto de Lorena. Olhando para cima, Lorena enxaguou e secou as mãos, arqueando uma sobrancelha em sinal de expectativa.

            "Pensei em assistir a um filme."

            "Está bem", murmurou Lorena. "Bem, trarei morfina para você assim que terminar aqui."

            Sua mãe deu um sorriso discreto e assentiu com a cabeça antes de pegar seu café e ir para a sala de estar. Saindo para fumar, com o céu escuro e a noite fria, Lorena caminhava de um lado para o outro na varanda dos fundos, encarando o contorno sombrio da garagem, dividida pela falta de ensaio de balé naquele dia. Ela considerou brevemente atravessar a varanda e entrar na garagem, calçar suas sapatilhas de ponta e fazer o aquecimento ao som de Tchaikovsky, mesmo que fosse só para acabar com a culpa, mas não o fez. Durante a maior parte da sua vida, Lorena ansiou por uma pausa do balé, então terminou o cigarro e voltou para dentro, pegando um copo d'água e duas cápsulas de morfina antes de pegar seu café e ir para a sala de estar.

            A mãe dela estava assistindo Cisne Negro há quinze minutos quando Lorena estendeu os comprimidos e a água, enquanto seus olhos se voltavam para a TV. Virando os comprimidos com um gole d'água, Zenilda apontou para a tela.

            "Você já assistiu a esse filme?"

            "Uhum", murmurou Lorena, dando um gole de café enquanto se lembrava de uma noite de cinema com Maggye e Lucélia alguns anos atrás, criticando a técnica enquanto eles passavam vodca e cigarros uns para os outros.

            Pegando o copo da mãe, inalando o cheiro fresco do pijama, com o aroma de sabão em pó e o perfume da mãe, Lorena engoliu em seco. Colocou o copo de água na mesa de centro e pigarreou baixinho antes de se sentar na outra ponta do sofá. Sentada ereta, Lorena bebeu seu café enquanto assistia ao filme com a mãe, sem trocar uma palavra por um longo tempo.

            Ela acabou sentada ali assistindo a tudo, com as xícaras de café vazias. Lorena estava sentada de pernas cruzadas em uma ponta, enquanto a morfina deixava sua mãe um pouco sonolenta e ela afundava nas almofadas na outra ponta. Assim que os créditos começaram a rolar, Lorena se inclinou para frente, pegou o controle remoto e desligá-lo. 

            "Bom filme", murmurou ela.

            "É… interessante."

            Lorena soltou uma risada rápida, um sorriso cruzando seu rosto enquanto olhava de soslaio para ela. Zenilda estava se levantando, parecendo um pouco pálida enquanto seu rosto se contraía, mas ela não se levantou, apenas ficou sentada ali por mais um instante. 

            "Qual é o seu filme favorito?", perguntou Zenilda por fim, lançando-lhe um olhar de soslaio.

            Inspirando profundamente, Lorena fechou os olhos com um tremor enquanto expirava lentamente. "Retrato de uma jovem em chamas."

            "Nunca ouvi falar desse."

            "Você não iria gostar", Lorena deu de ombros, indiferente.

            "Claro."

            Com as mãos nas coxas, Lorena se levantou com esforço. Abaixando-se para pegar as xícaras de café e o copo d'água vazio, Lorena as acomodou contra o estômago enquanto fazia uma pausa. Os cabelos escuros, emaranhados por terem secado ao ar livre, caíam ao redor do seu rosto enquanto ela mantinha a cabeça baixa, batendo levemente em uma das xícaras e mordendo o lábio inferior.

            "Eu sei que você quer que a gente passe mais tempo juntos, hum… é só que… eu quero que você faça a cirurgia…"

            Levando a mão à testa, Zenilda soltou um suspiro pesado enquanto fechava os olhos. "Lorena. A cirurgia não é possível..."

            "Tratamento então. Você poderia estar fazendo quimioterapia, o que poderia lhe dar alguns meses de vida, talvez tempo suficiente para que um novo tratamento seja desenvolvido. Teríamos mais tempo para nos conhecermos melhor, se fosse realmente isso que você quisesse."

            Sua mãe lhe deu um sorriso triste ao encontrar seu olhar. "Eu não gostaria de nada mais do que isso, mas simplesmente não é possível. Você ficaria infeliz se tivesse que ficar aqui pelos próximos seis meses, e eu sentiria muita dor, então prefiro aproveitar ao máximo o nosso tempo agora em vez de prolongar isso..."

            "Eu sei que será um alívio para você que tudo isso acabe, mas não será um alívio para mim", interrompeu Lorena, com um tom de raiva na voz, mascarando o medo e o pânico de perder a mãe.

            "Sinto muito", suspirou Zenilda.

            Com os nervos à flor da pele, Lorena saiu do quarto, deixando as xícaras na pia da cozinha, e subiu as escadas furiosa, se jogando na cama no escuro. Puxou os cobertores sobre si e encarou o teto, fervendo de raiva em silêncio, desejando desesperadamente que as coisas fossem diferentes em tantos aspectos. Frustrada, com energia demais que não havia sido gasta dançando e emoções reprimidas que, em sua maior parte, mantivera escondidas, Lorena se sentia vulnerável demais. Piscou para afastar a ardência nos olhos e cedeu a um momento de fraqueza, tirando o celular do bolso e hesitando. 

            Ela não participava de nenhuma rede social, mas era relativamente fácil pesquisar um nome e navegar pelo Facebook e Instagram enquanto se entregava a um breve momento de saudade, sentindo secretamente falta da antiga amiga, mesmo que ela não tivesse expressado o mesmo sentimento, e buscando conforto nas fotos que Eduarda havia postado desde a última vez que Lorena cedeu a esse impulso. Um quadrado azul do porto de Iguape com veleiros e iates ancorados; dunas, areia e capim-marinho com um céu azul e uma pequena faixa de mar; uma foto dela com a irmã e amigos tomando drinques em um bar em Iguape no seu aniversário; andando de caiaque com Keyla; mais fotos da praia; sentada em uma prancha de surfe com roupa de neoprene, os cabelos molhados caindo sobre os ombros; jogando Scrabble no terraço da casa da mãe; uma fogueira na praia no verão; o casamento de Keyla e Íris. 

            Uma pontada de saudade atravessou Lorena e ela fechou a aba do navegador, amargurada e solitária enquanto sentia a dor aguda da falta que Eduarda lhe causava. E junto com ela, vinha a dor da saudade da mãe, que ainda estava bem viva por enquanto, mas com um abismo de milhares de quilômetros entre elas, sem esperança de superá-lo, já que Zenilda se resignara a morrer sem lutar contra isso. Lorena reprimiu suas emoções enquanto se conformava com uma vida inteira sentindo falta de ambas.

Notes:

o que tão achando?

Chapter 8

Notes:

feliz dias das mães pra quem? pra Zenilda que não é

Chapter Text

            Recém-saída do banho após uma manhã de corrida e dança, Lorena vestiu uma blusa fina de mangas compridas e ajeitou alguns fios rebeldes com o coque antes de pegar suas coisas. Saindo do quarto, caminhou de um lado para o outro no corredor antes de atravessar até a porta fechada do quarto da mãe e bater. Ao ouvir a voz de Zenilda, entrou, um pouco hesitante, enquanto mexia nos dedos.

            "Eu vou ao Gatitas tomar um café... se você quisesse vir."

            Sua mãe pareceu surpresa com a oferta, mas sua expressão permaneceu inalterada, indiferente enquanto colocava o livro de lado com um aceno de cabeça. "Eu bem que preciso sair de casa."

            Assentindo com a cabeça, Lorena mudou o peso de um pé para o outro antes de se virar e sair do quarto sem dizer mais nada. Descendo as escadas, calçou as botas e pegou as chaves do carro da mãe, conferindo se tinha tudo antes de sair para fumar enquanto esperava Zenilda se arrumar. Demorou vinte minutos, então ela conseguiu dar outra tragada, encostada no corrimão de madeira que cercava a varanda da frente, seus óculos escuros escurecendo o mundo enquanto observava a rua silenciosa. Os passos da mãe anunciaram sua chegada e ela fechou a porta atrás de si enquanto Lorena se endireitava e se virava. 

            Estalando a língua, Zenilda revirou os olhos. "Você pode tirar esses óculos ridículos? O sol nem nasceu direito ainda."

            "O brilho intenso machuca meus olhos."

            "Eu teria presumido que, depois de tanto tempo em Londres, você já estaria acostumado com isso."

            Dando de ombros enquanto segurava as chaves, destrancava o carro e ia para o lado do passageiro abrir a porta para a mãe, Lorena deu um sorriso discreto. "Mas eu não estou."

            "Bem, você está ridícula."

            Contendo um suspiro, Lorena agarrou a manga do casaco da mãe e a ajudou a entrar no carro. A mãe insistiu que não precisava de ajuda, mas apertou o braço de Lorena com a mesma força. Fechando a porta, Lorena contornou o capô, entrou no carro, ligou o motor e deu ré até a rua. Mexeu no rádio para preencher o silêncio e olhou de soslaio para a mãe, enquanto Zenilda olhava pela janela, indecisa se deveria tentar puxar conversa ou guardar para o café. Optou pelo silêncio.

            Levou apenas alguns minutos para chegar ao Gatitas, sem trânsito algum, e Lorena tentou estacionar em paralelo na rua com cuidado, dando ré algumas vezes enquanto Zenilda tentava explicar o que ela estava fazendo de errado. Seguiu-se uma discussão, pois Lorena insistia que não precisava de ajuda. Dando ré mais algumas vezes antes de tentar novamente, ela conseguiu estacionar de forma um tanto torta depois de raspar o pneu na guia e quase bater na traseira do carro da frente. Puxando o freio de mão bruscamente, Lorena desligou o motor e saiu do carro, um pouco constrangida com sua má direção e com as críticas da mãe, e foi ajudar Zenilda a sair. Elas discutiram mais um pouco enquanto a mãe se apoiava nela com força para que ela saísse do carro, dispensando a ajuda de Lorena com um gesto de desdém o tempo todo. 

             Um pouco contrariadas quando atravessaram a calçada até a porta do Gatitas, Lorena abriu a porta com um puxão ao som da campainha, um músculo da mandíbula tremendo, e a segurou aberta para que sua mãe entrasse primeiro. Lorena perguntou o que ela queria e foi até o balcão onde a atendente estava atrás da máquina de café, a cumprimentou alegremente. Lorena pediu seus cafés e se juntou à mãe na mesa que Zenilda havia escolhido, longe da porta e das rajadas de ar frio que entravam sempre que ela se abria.

            Lorena pegou um sachê de açúcar do pote e o manuseou com cuidado, enquanto seus olhos percorriam o ambiente. Ela sentia como se tivesse energia demais ultimamente, e não a gastasse o suficiente com o balé, o que deixava seu corpo não tão cansado quanto gostaria. Isso lhe dava muito tempo para pensar. Brincando com o açúcar, pigarreou, olhando para a mesa e para suas mãos delicadas.

            "Então… tem algo que você queria fazer antes de…"

            Ela ergueu o olhar para observar sua mãe arquear as sobrancelhas e cruzar os braços sobre o peito. "Se tem algo que eu queira fazer?"

            Dando de ombros enquanto continuava a mexer no celular, a boca de Lorena se contraiu em irritação. "Sei lá, jantar no seu restaurante favorito, encontrar algum amigo. Você quer ir escolher um vestido para... sei lá. Não sei o que as pessoas fazem quando sabem que estão..."

            "Morrendo?", perguntou Zenilda, arqueando uma sobrancelha.

            Com os lábios tremendo num sorriso sem humor, Lorena voltou o sachê pro lugar e recostou-se na cadeira. "O que você quer fazer?"

            Silenciosa, com o olhar desviado do rosto de Lorena, ela esperou até que a atendente colocasse duas xícaras sobre a mesa antes de falar. Limpando a garganta enquanto envolvia a xícara com as mãos frias, Zenilda a levou até a metade da boca e disse.

            "Já liguei para o nosso advogado para que ele venha à nossa casa na próxima quarta-feira. Se você pudesse estar presente, eu agradeceria."

            "O advogado?"

            "Só para garantir que o testamento esteja atualizado. Já faz alguns anos desde a última revisão. Quero ter certeza de que tudo, todos os bens, estão em ordem. E os preparativos para o funeral. Você já tem com o que se preocupar sem ter que administrar tudo isso."

            "Ah."

            "Obviamente, tudo fica para você. Igual a antes. Só que é melhor revisar tudo antes. Assim você evita dores de cabeça mais tarde."

            "Certo. Hum…"

            Lorena sentiu-se um pouco fraca, o rosto um pouco mais pálido enquanto puxava a xícara e o pires para mais perto de si, percebendo que sua mão tremia levemente. Ela não havia pensado muito em nada disso, que haveria preparativos para o funeral e que teria que decidir o que fazer com a casa, as coisas da mãe e talvez até mesmo os pertences restantes do pai e do irmão. Parecia assustador e Lorena percebeu o quanto não queria fazer nada daquilo, seu coração disparado, sua garganta apertada e sua pele ficando úmida.

            Estalando a língua, Zenilda soltou uma risada discreta. "Você parece assustada."

            "Estou com medo."

            "Eu já te disse, você não precisa se preocupar com nada."

            "Como você consegue sentar aí e falar sobre o seu próprio funeral com tanta… calma?"

            "Já fiz isso antes, então não é nada de novo."

            "Claro."

            Suspirando, Zenilda tomou um gole de café e Lorena fez o mesmo ao se lembrar da sua bebida. Pensou que talvez a cafeína fosse uma má ideia, considerando o quão agitada já estava, mas era algo para tentar disfarçar, algo para esconder o tremor nas mãos, o nó na garganta.

            "Vamos falar de outra coisa", disse a mãe, despreocupadamente, mudando de assunto. "O que você vai fazer depois?"

            "Como assim, o que eu vou fazer depois?"

            "Imagino que você ainda esteja ansiosa para retornar a Londres."

            "Lá é a minha casa, onde tenho um emprego. Amigos."

            A última parte era um pouco forçada, mas ela tinha Maggye, Lucélia e Jack, passava tempo suficiente com seus colegas de trabalho para considerá-los amigos, quase todos os dias trancada em um estúdio com eles, os conhecia bem o suficiente para afastar a solidão antes que ela a consumisse completamente. Dependendo do status de relacionamento das meninas, ela dormia com cada uma delas de vez em quando ao longo dos anos, nada além disso, e um deles geralmente estava por perto para um drinque quando ela precisava, ou para o brunch ocasional, enquanto elas evitavam a comida e bebiam quantidades copiosas de álcool para comemorar o fim de uma temporada ou novas audições. Não era uma vida muito agitada, mas era o suficiente. Ela era sua própria companhia quando não estava dançando, caminhando por mercados, indo a consultas de fisioterapia para manter o corpo em movimento, fumando no Hyde Park depois de passear por Londres. Ela não tinha muitos hobbies, mas passava uma quantidade enorme de tempo no Observatório Real de Greenwich ou na Biblioteca Britânica, lendo e às vezes escrevendo. Sua vida inteira era o balé, mas ela amava literatura. Mesmo depois de ter deixado aquele sonho para trás, ela não conseguia se conter, aquela angústia infantil no peito por algo mais, algo mais envolvente. 

            Seu apartamento não era aconchegante. Ela não tinha fotos emolduradas nas bancadas, nem animais de estimação, nem plantas; sua vida era voltada para alguém que viajava com relativa frequência, passando semanas no exterior com companhias de balé estrangeiras e longas horas de trabalho mesmo quando ficava em Londres. Lorena havia se tornado bastante habilidosa em reduzir sua vida ao conteúdo de uma única mala de viagem; conseguia viver com ela por meses, se necessário, e já havia passado semanas seguidas em quartos de hotel sem problemas. A única coisa, além da bagunça de sapatilhas de ponta, roupas, collants e meias-calças, batons e delineadores espalhados, perfumes e uma variedade de luminárias e cinzeiros, que indicava que uma pessoa morava ali era a pequena fileira de livros variados enfileirados no parapeito da janela da sala de estar. Mesmo assim, não era uma vida muito interessante.

            "Eu imaginei isso, mas não tinha certeza."

            "O quê, você achou que eu ficaria aqui?"

           "Não", respondeu Zenilda secamente, “mas você não terá muito tempo antes de se aposentar da dança. Eu estava curiosa para saber se você já havia pensado sobre isso, o que fará depois, considerando que eu não estarei aqui para descobrir. Se você quiser algum conselho, talvez devêssemos conversar sobre isso agora.”

            Lorena soltou uma risada abafada e alisou o polegar na alça da xícara antes de levá-la aos lábios e beber, semicerrando ligeiramente os olhos. Ela havia considerado várias coisas: dar aulas na Royal Ballet Company ou até mesmo voltar e lecionar na SPCD, ou encenar seus próprios balés, talvez ficar sentada em seu apartamento fumando e bebendo o dia todo enquanto sua mente se desvencilhava do corpo e seus pulmões ou fígado eventualmente falhavam, talvez dar uma palestra no TED ou ser convidada para falar em um segmento da BBC sobre o quão chocantemente exploradora e prejudicial era a indústria do balé, ou voar de volta para São Paulo para poder entrar no mar na costa de Iguape, como sua mãe fizera tantos anos atrás, e acabar com tudo de vez. Havia algumas opções que ela havia considerado. 

            "Não, não pensei nisso. Provavelmente vou conseguir dançar por mais uma década, talvez mais, então… tenho tempo. A menos que me lesione."

            "Você não deveria dizer isso", repreendeu-a a mãe, batendo com os nós dos dedos na mesa de madeira. "Dá azar."

            "Certo. Eu não gostaria de ter esse azar", murmurou Lorena sarcasticamente, com a cabeça baixa sobre a xícara de café.

            Encarando-a com um olhar gélido por um longo momento, Zenilda exalou com dificuldade. "Olha, você pode não gostar, pode até se ressentir por eu estar te incentivando a seguir esse caminho, mas no fim das contas, é nisso que você é boa. Não é uma carreira com perspectivas a longo prazo, e você tem sorte de todo o seu esforço ter valido a pena, porque você pode fazer isso por mais tempo do que a maioria. Mas eu não quero morrer sem saber se você tem um plano para depois que se aposentar da dança, e espero que você esteja certa de que isso não acontecerá antes de pelo menos mais uma década, porque é difícil ser boa em algo e depois perder essa habilidade. Então você pode ficar aí sentada com esse seu sarcasmo e esse seu olhar enquanto se lamenta, mas quando estiver fazendo cirurgias para se consertar, você não vai achar graça nenhuma. E vai ficar com todo esse potencial desperdiçado."

            Com os lábios tremendo, Lorena forçou um sorriso torto. "Eu já desperdicei todo o meu potencial."

            Esvaziando a xícara, ela a pousou no pires e empurrou a cadeira para trás. Levantando-se, pigarreou, pegou os óculos de sol e os colocou no rosto para cobrir o olhar acusador. "Preciso comprar algumas coisas na loja."

            "Não tenha pressa", murmurou Zenilda, dando de ombros com indiferença.

            Atravessando a antiga lanchonete, Lorena saiu e caminhou pela rua, afastando-se do Gatitas, o som das ondas quebrando abafando seus pensamentos. Seu ressentimento pulsava dentro dela como uma corda, e ela respirou fundo e devagar enquanto se afastava, acendendo um cigarro e indo em direção ao mercado. Ela não precisava de nada, já que tinha ido no dia anterior, mas entrou para comprar outro maço de cigarros para não ter que voltar amanhã. 

            Sem pressa, ela finalmente retornou, sua mãe tomava outra xícara de café enquanto outra esfriava, aguardando o retorno de Lorena. Sentando-se novamente, ela tomou um gole do café, morno, mas forte, e pigarreou.

            "Pensei em dar aulas", informou Lorena, de forma concisa.

            "Dar aulas? Parece uma ótima ideia."

           Resmungando em sua frustração e ressentimento, Lorena tomou seu café em silêncio e não fez muito mais do que murmurar ou acenar com a cabeça pelo resto do tempo em que esteve ali, enquanto sua mãe mantinha a conversa unilateral. Isolando-se, Lorena só queria ir para casa e se trancar no quarto, dormir o resto do dia enquanto ignorava a dor no corpo, nas pernas e nos quadris, talvez com a ajuda de alguns ibuprofeno, talvez um alprazolam, para poder se distrair e parar de pensar. Idealmente, algumas vodcas com Coca-Cola Zero no Afrodite ajudariam a aliviar a dor, mas ela não achava que teria energia para voltar para casa.

            A viagem para casa foi silenciosa, o zumbido do rádio preenchendo o silêncio, mais constrangedor do que na ida para a cidade, e Lorena estacionou na entrada da garagem e ajudou Zenilda a sair do carro sem dizer uma palavra. Destrancando a porta da frente, ela deixou a mãe entrar primeiro e depois tirou o casaco e os sapatos, deixando-os em seus respectivos cabides na entrada antes de desaparecer escada acima. Tirando o suéter e a calça jeans, ela subiu na cama e vasculhou o criado-mudo em busca do estoque de comprimidos que escondia ali, pegou lentamente das gavetas da cozinha e engoliu dois comprimidos de ibuprofeno secos antes de se esticar na cama, deixando o corpo afundar no colchão.

            Ela cochilou brevemente, o quarto frio contra suas pernas nuas, mas não se mexeu, tentando forçar o corpo a relaxar, todas aquelas técnicas de meditação inúteis que tentara ao longo dos anos falhando mais uma vez. Mas ela conseguiu dormir a tarde toda, só que não tanto quanto esperava, nem o resto do dia. Quando ficou claro que sua mente não a deixaria dormir mais, ela pegou um livro na mesa de cabeceira, um dos romances de Clarice Lispector ‘Perto do Coração Selvagem’, do qual só lera dois capítulos até então, e decidiu terminar a leitura. Deitada de bruços, folheou as páginas distraidamente, a garganta seca e a cabeça doendo um pouco enquanto semicerrava os olhos na penumbra que descia.

            Pouco depois, ao ouvir uma porta de carro bater lá fora, Lorena se levantou da cama, abandonando o livro, e foi até a janela para espiar. Um Volvo branco estava estacionado na entrada da garagem, um carro desconhecido para ela, e Lorena parou para vestir um shorts antes de descer as escadas para atender a porta. Ela estava quase chegando ao pé da escada quando ouviu uma batida, e desceu os últimos degraus e a distância até a porta para abri-la, sendo pega de surpresa ao ver Violeta parada na porta com uma travessa tampada na mão e sua filha pairando nervosamente atrás dela.

            “Doutora Fragoso, olá”, Lorena a cumprimentou com cautela.

            “Oi, querida, só queria dar uma passadinha para ver como sua mãe está enquanto a Duda faz o exame dela. Trouxe lasanha também.”

            “Oh, isso é... obrigada, é muita gentileza sua”, respondeu Lorena sinceramente, estendendo a mão para pegar a travessa oferecida e dando um passo para trás. “Vocês gostariam de entrar? Vou buscá-la para vocês.”

            “Obrigada, querida.”

            Lorena assentiu com a cabeça, recuou e se virou, caminhando pelo corredor e virando à direita antes de chegar à porta da cozinha. Ela aconchegou a travessa contra o peito enquanto batia na porta do escritório da mãe e a abria com o ombro, o som da porta da frente fechando e vozes baixas a seguindo. Zenilda olhou para cima ao vê-la chegar, apoiando as mãos nos braços da cadeira para se levantar.

            “É a Eduarda?”

            “E a Dra. Fragoso”, disse Lorena, erguendo levemente a travessa. “Ela nos trouxe lasanha.”

            Saindo do escritório, Lorena olhou para trás, em direção à porta. Eduarda pendurava o casaco e tinha a bolsa de equipamentos aos seus pés. Violeta caminhou até ela e lhe deu um sorriso caloroso, que Lorena tentou retribuir com um leve tremor nos lábios antes de seguir para a cozinha. Indo até a geladeira, Lorena colocou a travessa lá dentro e fechou a porta, passando as mãos pelas coxas da calça de moletom enquanto seus olhos vagavam em direção à entrada do corredor, esperando por sua mãe.

            “Hum… posso lhe oferecer um café? Um chá?”

            "Um café seria ótimo", disse Violeta enquanto se sentava em um dos bancos no balcão da ilha.

            Enquanto punha a água para ferver, Lorena olhou para a porta ao se movimentar pela cozinha, pegando quatro canecas limpas, olhando por cima do ombro. Sua mãe e Eduarda não apareceram, e ela cruzou o olhar com Violeta ao ouvir o riso discreto, um breve sinal de perplexidade cruzando o rosto da jovem antes de ela ficar sem graça.

            “Ela só está verificando como ela está primeiro.”

            “Ah. Como você toma seu café?”

            “Um pouco de leite, se tiver. Você deveria colocar a lasanha no forno para aquecê-la.”

            Concordando com a cabeça, Lorena pegou a assadeira e mexeu nos botões do forno até conseguir que funcionasse, depois colocou a assadeira na grade inferior. A chaleira terminou de ferver e ela adicionou água quente a cada xícara. Dois cafés pretos, um com um pouco de leite e, hesitante na última xícara, adicionou leite e duas colheres de açúcar, imaginando se a preferência de Eduarda havia mudado. Pelo que Lorena sabia, ela poderia ter passado a tomar apenas chá. 

            Colocando a xícara de Violeta à sua frente, ela alinhou as outras duas na borda da ilha e segurou a sua própria. Com vontade de escapar, de ir fumar lá fora para evitar toda a situação, Lorena achou que seria indelicado deixar Violeta sozinha na cozinha, então ficou do outro lado da bancada da ilha e tomou um gole de café.

            "Como você está?", perguntou Violeta baixinho, virando a alça da xícara em sua direção e erguendo-a para tomar um gole.

            Abrindo e fechando a boca, as sobrancelhas de Lorena se franziram e ela não sabia o que dizer. Estar bem era uma mentira óbvia, mas mesmo que tivesse considerado a honestidade, não sabia como expressá-la em palavras. Exalando suavemente, deu de ombros, as bochechas formando covinhas enquanto fazia uma careta. Com o rosto suavizado por compreensão e pena, Violeta assentiu.

            Antes que pudesse fazer outra pergunta ou expressar suas condolências, Lorena rapidamente fez a sua própria: "Como vai o trabalho?"

            Violeta deu uma risadinha discreta e sorriu para ela. "Bem, pelo menos é consistente. Nada naquele hospital mudou desde que você era pequena."

            “Nada mudou nesta cidade.”

            “Deve parecer estranho para você, mudar-se para longe, crescer e voltar para descobrir que tudo continua exatamente igual.”

            Lorena ponderou e deu de ombros com indiferença, assentindo com a cabeça. Era uma cidade pequena com casas de veraneio cada vez maiores e mais modernas surgindo. Mas para Lorena, sempre parecera tão grande. Quando era mais jovem, seu mundo era tão pequeno que os lugares em Ilha Comprida que raramente visitava pareciam outro mundo, tanta coisa acontecendo que sua mãe a mantinha afastada. Mas agora que tinha ido embora e voltado, tudo parecia sufocantemente pequeno, e ela se sentia grande demais para aquilo, encontrando as mesmas pessoas repetidamente, por mais que quisesse evitá-las. Em Londres, seria difícil encontrar as mesmas pessoas em seu trajeto diário, mesmo que tentasse; as multidões eram tão densas que ela via mais gente a caminho do estúdio do que nos dias mais movimentados de verão, quando corria até Iguape.

            "Só um pouquinho", disse Lorena com um leve sorriso.

            Ela foi poupada de mais conversa fiada pelo som de passos e vozes, e Lorena olhou para o corredor enquanto esperava a aparição das outras mulheres. Dando um gole de café, Violeta se virou no banquinho para cumprimentar Zenilda.

            “Zenilda.”

            "Violeta, oi", respondeu Zenilda bruscamente ao entrar na cozinha, parecendo exausta enquanto dava um sorriso discreto à colega. "Ah, você tem café, ótimo."

            Lorena acenou com a cabeça para as outras duas e sua mãe pegou a sua e estendeu a outra para Eduarda, que estava logo atrás dela, à sua esquerda, parecendo um pouco incerta. Ela pegou a xícara com um agradecimento silencioso e tomou um gole. Observando sua reação, Lorena tinha certeza de que nada havia mudado, embora não soubesse por que aquilo importava tanto para ela, e quando os olhos de Eduarda se voltaram para os seus um instante depois, ela desviou o olhar. 

            Zenilda sentou-se à mesa da cozinha, seguida por Violeta, que já fazia perguntas sobre sua saúde: sobre uma consulta para novos exames, para acompanhar a progressão do câncer, saber como ela estava, se a dose de morfina deveria ser aumentada, e Lorena permaneceu firme na cozinha. Eduarda juntou-se às mulheres, sentando-se com sua xícara de café e participando da conversa médica, enquanto Lorena cruzava os braços e tentava conter o ciúme que a invadia, por não ser tão fácil para ela sentar e conversar com elas. Tomando um gole de café enquanto rondava o forno, resistiu à vontade de fumar um cigarro atrás do outro lá fora até que elas saíssem, e ocupou-se em verificar a lasanha, o som do forno chamando a atenção quando ela abriu a porta.

            “Ah, a lasanha. Obrigada, Violeta, foi muito atencioso da sua parte. Vocês duas vão ficar para o jantar?”

            Lorena fechou a porta do forno com um pouco de força enquanto seus ombros enrijeciam, lançando um olhar intenso por cima do ombro, como se desejasse que seus olhos dissessem não. Alheia à sua turbulência interna, ao pânico de ter que enfrentar mais um jantar com alguém de sobrenome Fragoso, ou melhor, com qualquer pessoa, Violeta concordou prontamente.

            “Se não for incômodo, isso seria ótimo.”

            “Claro”, insistiu Zenilda, empurrando a cadeira para trás. “Vou fazer uma salada…”

            "Eu faço isso", murmurou Lorena, com a voz dura e o olhar acusador, enquanto se dirigia à geladeira e abria a porta com um puxão.

            Tirando do armário tudo o que parecia adequado para uma salada, ela pegou uma faca e de forma um tanto incisiva, começou a lavar e picar tudo, com a cabeça baixa sobre a tábua de cortar, fervendo de raiva. Enquanto o cheiro da lasanha impregnava a cozinha e o céu escurecia lentamente lá fora, apesar de serem pouco mais de cinco horas, as três mulheres conversavam animadamente enquanto tomavam café com as xícaras vazias. Lorena, então, se ocupava na cozinha, teimosamente e em silêncio, recusando-se a se juntar a elas, buscando outras coisas para fazer. Pegou uma jarra de água vazia e a encheu com água filtrada, adicionou gelo, organizou os talheres na bancada e vasculhou a geladeira em busca de molhos para salada com poucas calorias. Finalmente, a lasanha saiu do forno, fumegando. Ela a colocou cuidadosamente sobre o fogão e pegou quatro pratos. 

            Atravessando a mesa com relutância, ela colocou os jogos americanos e os talheres, enquanto Eduarda se levantava para ajudar, levando os pratos. Seus caminhos se cruzaram quando Lorena voltou para pegar a salada e o molho. Eduarda cuidadosamente levou a travessa e a colocou sobre um suporte que Lorena havia posicionado no centro, enquanto Lorena levava a jarra de água e os copos.

            "Alguém gostaria de vinho ou refrigerante?", ela ofereceu.

            Todos concordaram que a água estava boa, o que a fez afundar desajeitadamente na cadeira em frente a Eduarda, relutante em ser a única pessoa com um copo de Coca-Cola Zero, no qual ela planejava colocar um pouco de vodca escondida. Em vez disso, sóbria e desejando desesperadamente não estar, ela deixou que todos se servissem antes de colocar um pequeno pedaço de lasanha em seu prato e uma porção maior de salada para que seu prato parecesse mais cheio. Limpando a garganta enquanto puxava a cadeira para mais perto, Lorena olhou com desconfiança para a massa e a carne moída.

            Elas continuaram a conversar sobre trabalho e moradores locais — alguns conhecidos de Lorena e outros que deviam ter se mudado para Ilha Comprida depois que ela partiu — e Lorena tentou evitar o queijo e a massa o máximo possível, dando pequenas mordidas na carne e se concentrando principalmente na alface. Ela comia com os olhos fixos no prato, incapaz de levantar o olhar com Eduarda sentada à sua frente. Finalmente, Violeta disse seu nome e ela foi obrigada a olhar para cima.

            “Lorena, alguma novidade sobre sua próxima apresentação? Você disse que seria em O Lago dos Cisnes no jantar lá em casa, certo?”

            “Ah, não. Não, isso não vai acontecer por um bom tempo. Eles vão terminar de apresentar O Quebra-Nozes primeiro, antes que nosso diretor confirme qualquer coisa e anuncie o elenco.”

            “Lembro-me de ter visto sua apresentação em São Paulo”, continuou Violeta, “você estava muito bem”.

            "Minha apresentação?" Lorena repetiu, hesitante.

            “Sim, nós fomos na noite de estreia.”

            "Nós?"

            “Eu e a Eduarda. A Duda queria ver, então eu fui com ela. Sua mãe comprou os ingressos para nós. Nós adoramos.”

            Lorena se virou para olhar para a mãe, que retribuiu o olhar, com o olhar pálido e indecifrável. Zenilda nunca lhe contara que elas tinham ido ao espetáculo, muito menos à noite de estreia, com ingressos que ela conseguira para as duas. Fazia seis anos, a segunda vez que interpretou os papéis de Odette e Odile, e sua primeira apresentação no Brasil, numa temporada de O Lago dos Cisnes. Encontrou a mãe depois, em um bar, e ficou hospedada em um hotel durante as seis semanas da temporada, sem retornar a Ilha Comprida nenhuma vez. Sua mãe não disse uma palavra sequer. 

            “Era o Lago dos Cisnes, não era, Zenilda? Já faz alguns anos, mas tenho certeza que era. Você dançou dois papéis.”

            "Foi sim", murmurou Eduarda, seus olhos desviando-se para Lorena, mas de alguma forma ainda evitando encará-la. "Você tava bem, muito bem."

            Lorena não conseguia falar. Não conseguia falar, sua raiva tão silenciosa enquanto sentia a garganta fechar. O calor subiu pela parte de trás do nariz e seus olhos ardiam furiosamente enquanto tentava engolir. Tentou de novo. Não conseguia falar. Já fazia seis anos que ela tinha ido embora, vinte e quatro anos e já se afogando em sua solidão, e não via Eduarda há tanto tempo, mas ela estivera lá. Bem ali na plateia, sem que Lorena soubesse, e ela não tentou vê-la. A dor de Lorena era tão intensa; ela não queria ouvir os elogios, saber que Eduarda tinha ido apoiá-la, saber que elas tinham estado tão perto, que elas tinham sido tão próximas que tudo poderia ter sido resolvido, mas, no fim das contas, ela não quisera falar com Lorena.

            Sua inspiração silenciosa foi um tremor, prendendo-se na garganta enquanto ela pegava o copo d'água. Bebeu metade, pousou o copo e sentiu o estômago revirar, sem responder ou reconhecer as palavras de Eduarda enquanto cortava outro pedaço da lasanha e o levava à boca, mastigando lentamente enquanto tentava abafar a dor que a invadia. Seu peito estava pesado e Lorena respirou fundo durante o resto do jantar, enquanto as duas médicas continuavam como se nada estivesse errado, como se não percebessem a tensão nos corpos de suas filhas, que mal conseguiam se olhar ou falar uma com a outra.  

            Elas terminaram de comer e Eduarda ajudou Lorena a arrumar a cozinha. Em seguida, Lorena preparou mais café para todos, enquanto as mães se dirigiam para a sala de estar para conversar um pouco mais. Lorena as seguiu pelo corredor, mas não entrou direto na sala. Pegou seus cigarros e isqueiro na tigela de objetos pequenos sobre o aparador e, então, virou-se parcialmente para Eduarda. Virando o maço de cigarros na mão, Lorena hesitou por um instante antes de apontar com a cabeça para a porta da frente. Eduarda parou no final do corredor, com o café na mão, e Lorena não esperou para ver se ela vinha antes de abrir a porta e sair.

            Encostada no pilar de madeira da varanda da frente, Lorena colocou um cigarro entre os lábios e acendeu o isqueiro, aproximando a chama da ponta e tragando profundamente. Suas pálpebras se fecharam enquanto ouvia a porta da frente se fechar e os passos arrastados nos tijolos, antes de Eduarda se aproximar do parapeito, encostando-se nele, a uma distância segura entre elas. Abrindo os olhos, Lorena olhou de soslaio para ela e depois para o céu, quase sem nuvens, enquanto contemplava o brilho das estrelas. Por um instante, ficaram assim, a poucos metros de distância, observando as estrelas em silêncio.

 

~•~•~•~•~•~

 

            Aos onze anos, Lorena já tinha permissão suficiente para ficar sozinha em casa. Ela terminava a lição de casa na mesa da cozinha pela manhã, corria um pouco e depois esperava um táxi para levá-la até a pequena pista de pouso nos dias em que tinha aulas na SPCD, ou para a casa de Arminda, onde recebia o dinheiro que a mãe deixava para ela. Depois de terminar as aulas, dependendo de onde estivesse, pegava um voo curto para casa e caminhava até o hospital para esperar a mãe, ou Arminda chamava um táxi para levá-la para casa, onde Lorena passava o resto da tarde na garagem praticando mais um pouco. Ela não dava trabalho, seguindo fielmente a rotina estabelecida, um pouco receosa de que a mãe descobrisse se ela não a cumprisse, mas como não era supervisionada, Zenilda não sabia exatamente o que ela estava fazendo.

            A mãe dela não sabia que, durante suas corridas, Lorena corria pela praia e parava para observar a amiga surfando. Eduarda pegava uma onda e se jogava na areia ao lado dela para conversar, ou a desafiava para uma corrida na areia, às vezes tirando as calças e os sapatos e correndo pela água rasa. Zenilda não sabia que Eduarda ia de bicicleta até a casa de madeira branca e a deixava no final da entrada, correndo até a garagem e batendo antes de entrar. Lorena demonstrava posições ou técnicas enquanto Eduarda se esparramava no chão, com os joelhos ralados e bronzeada, areia grudada nos tênis ou sandálias e o cabelo embaraçado por causa do mar. 

            Ela não sabia que, nos fins de semana, Lorena fazia uma corrida mais longa, mas passava parte do tempo no quarto de Eduarda, jogando Pokémon no Game Boy ou ouvindo seus CDs enquanto Lorena trançava seu cabelo ou deixava Eduarda pintar suas unhas dos pés sem que sua mãe visse. Elas assistiam a vídeos do YouTube, se Keyla não estivesse ocupando o computador, e Eduarda pedalava ao lado de Lorena durante parte da corrida. Elas se viam no hospital e Eduarda lhe dava mais livros da biblioteca da escola, que Lorena escondia debaixo da cama e lia à noite.

            Estava tudo bem, contanto que Zenilda achasse que sua filha estava fazendo exatamente o que ela mandava, seguindo sua rotina rígida. Ela não se importava que as duas meninas fossem amigas, se vissem no hospital e se mantivessem ocupadas enquanto as mães trabalhavam, mas ainda não sabia a extensão dessa amizade. 

            Para comemorar seu décimo segundo aniversário, Lorena passou a maior parte do dia na casa da Arminda e depois ficou em casa praticando na garagem, como de costume. Sua mãe comprou uma sapatilha e roupas novas de balé e para ela e reservou ingressos para assistirem juntas à encenação de Romeu e Julieta. Lorena queria uma bicicleta, livros e visitar o planetário.

            Enquanto praticava seu chassé, uma batida na porta da garagem a interrompeu e ela abaixou o braço enquanto Eduarda entrava. Com um largo sorriso, ela carregava uma caixa retangular embrulhada nos braços, a mochila escolar pendurada em um ombro e o cabelo solto da trança.

            "Feliz aniversário!"

            "Obrigada", disse Lorena com um leve constrangimento, já que não era muito fã de aniversários, franzindo o nariz enquanto cruzava os braços sobre a barriga.

            "Isto é para você."

            "Você me trouxe um presente?"

            Eduarda revirou os olhos e riu. "Eu trouxe dois, bobinha."

            "Obrigada."

            “Você ainda não sabe o que é. Vamos, abre, abre!”

            A empolgação de Eduarda era contagiante e Lorena a acompanhou, pegando os presentes e se ajoelhando. Ela encarou e mordeu o lábio antes de rasgar o papel de presente. Lorena inspirou profundamente e olhou para Eduarda, a boca entreaberta em descrença enquanto os cantos começavam a se curvar em um sorriso ao ver o que era.

            “É um caderno, pra você escrever suas próprias poesias e um telescópio, já que você gosta que de olhar as estrelas”

            Era um caderno brochura de capa preta com folhas pautadas e amareladas. O telescópio era infantil, barato e de qualidade inferior, mas isso não importava para Lorena. Ela poderia escrever suas poesias e ainda observar o céu à noite, as estrelas e os planetas com o telescópio. Uma onda de alegria a percorreu e Lorena sorriu radiante, uma felicidade como nunca sentira a invadiu enquanto se levantava num pulo e abraçava a amiga com força.

            Eduarda riu enquanto a abraçava, mais alta que Lorena, um pouco desengonçada por ainda estar na fase estranha da puberdade, e a levantou do chão, fazendo Lorena rir junto. Com as bochechas rechonchudas doendo de tanto sorrir, Lorena a soltou.

            “Eu amei! Muito obrigada!”

            "Eu sabia que você ia gostar", disse Eduarda, satisfeita consigo mesma enquanto sorria amplamente, brincando com uma pulseira de silicone azul de uma marca de surf.

            Avançando rapidamente, Lorena segurou seus ombros e lhe deu um beijo na bochecha, sentindo seu rosto corar ao se afastar. "São os melhores presentes que já recebi."

            “Assim que você configurar, me avise. Talvez sua mãe possa perguntar para a minha se eu posso ir na sua casa, aí a gente observa às estrelas e depois você lê seus poemas pra mim.”

             "Claro", concordou Lorena, embora seu estômago tenha se revirado ao pensar repentinamente em sua mãe. 

            Zenilda revirava as coisas de Lorena regularmente, jogando fora tudo o que considerava inútil, separando os poucos brinquedos que Lorena podia doar para caridade e descartando descartando as folhas com rascunhos que Lorena escrevia, revistas sobre o espaço ela trazia de suas viagens frequentes a São Paulo, compradas em bancas de jornal no aeroporto. Ela também não podia ficar com os pôsteres de galáxias que estavam dentro das revistas e que estavam pregados nas paredes, e Zenilda não gostava dos CDs gravados que Eduarda fazia para ela, achando as músicas inadequadas. Zenilda não gostava de muitas coisas, mas Lorena achava que sua mãe teria que aceitar os presentes de aniversário que sua amiga lhe dera.

            “Ok, bem, preciso ir antes que minha mãe chegue para o jantar.”

            “Certo. Obrigada.”

            Sorrindo, Eduarda voltou para fora e Lorena a seguiu até a porta, parando na soleira e acenando em despedida. Enquanto observava Eduarda pegar a bicicleta e empurrá-la pela calçada, viu sua mãe chegar de carro, um arrepio de pânico a percorrendo enquanto engolia em seco. Eduarda acenou para Lorena antes de partir, um pequeno aceno também para Zenilda enquanto a médica saía do carro, e Lorena rapidamente voltou para dentro da garagem e fechou a porta, escondendo o caderno e arrastando a caixa do telescópio meio desembrulhado para o canto tentando fazer passar despercebido e retomando seu lugar na barra.

            Ela não ouviu o clique dos saltos da mãe por causa do som da música, mas sabia que podia esperar por ela, com o coração acelerado enquanto retomava seu chassé. Quando a porta se abriu, ela parou e deu um sorriso nervoso para a mãe.

            “O que a Eduarda estava fazendo aqui? Você deveria estar treinando. Não quero que ela te distraia.“

            "Eu sei", Lorena a tranquilizou rapidamente. "Ela não estava me distraindo. Hum... ela só queria desejar feliz aniversário."

            “Ah. Que gentileza.”

            Concordando rapidamente com a cabeça, Lorena deu-lhe outro sorriso. "Estava praticando chassé."

            "Mostre-me."

            Lorena fez algumas demonstrações enquanto Zenilda pairava na porta, sempre se sentindo mais nervosa sob o olhar atento da mãe do que sob o dos professores. Ela não tinha certeza do porquê; talvez porque sua mãe esperasse mais dela do que eles. Ninguém mais em sua turma era obrigado a praticar além das aulas na SPCD. 

            "Ótimo", Zenilda assentiu. Ela se preparou para sair, mas parou, sua atenção sendo atraída pelo presente meio desembrulhado. "O que é isso?"

            “Ah, é um presente de aniversário. Da Duda.”

            Entrando na garagem seu semblante se contraiu ao observar a foto do telescópio na lateral. Pegando a caixa do presente sem dizer uma palavra, virou-se para sair. O pânico fez Lorena dar um passo cauteloso para frente, com uma expressão envergonhada.

            "O que você está fazendo?"

            “Vou devolver o que você recebeu.”

            "Mas-"

            Fazendo uma pausa, lançando um olhar cortante por cima do ombro para a filha, com os olhos duros e a boca numa linha reta, Zenilda a encarou com severidade. "Eu te disse para não se distrair. Você precisa se concentrar se quiser se dançar bem."

            "Por favor, não", implorou Lorena, com o rosto se contorcendo enquanto dava mais um passo à frente. "Por favor. Eu trabalho duro. Prometo que... eu não vou me distrair. Só me deixe ficar com ele."

            “Eu disse não, Lorena.”

            "Mas é meu", argumentou Lorena de forma grosseira, com o lábio inferior tremendo. "Foi um presente."

            Seus olhos começaram a se encher de lágrimas, o rosto pálido corando de raiva enquanto ela começava a ficar chateada. Bufando de irritação, Zenilda segurou a caixa debaixo do braço e voltou para dentro, seus saltos fazendo barulho no piso de madeira enquanto ela ia até a filha. Segurando o queixo de Lorena com a mão, Zenilda ergueu sua cabeça e fez uma careta de exasperação ao ver os grandes olhos verdes, marejados de lágrimas, os cantos da boca de Lorena se curvando para baixo enquanto ela fazia beicinho, o queixo se entupindo com o esforço para engolir os soluços.

            “Você não tem tempo a perder com bobagens como observar as estrelas”, suspirou Zenilda. “Agora, pare de chorar. Continue praticando até eu voltar.”

            Soltando a mão, Zenilda se virou e saiu do quarto. Fechando a porta, hesitou do lado de fora por um instante antes de suspirar e balançar a cabeça, sem saber o que fazer com a filha. Zenilda não gostava de lágrimas, não tinha paciência para emoções e não acreditava em ceder a caprichos infantis. Talvez Lorena tivesse um telescópio, até que isso lhe enchesse a cabeça com outras ideias, alimentadas pelo tempo que passara com a filha de Violeta. Ela não achava necessário manter Lorena longe dela, mas definitivamente não queria incentivá-las a passar mais tempo juntas, já que a garota espirituosa que frequentava o hospital acabaria sendo uma distração indesejada. Por ora, Zenilda tentaria manter Lorena focada, o que significava nada de presentes fúteis.

            Ao voltar para o carro, ela colocou a caixa no banco do passageiro e ligou o motor. Era um curto trajeto até a casa de Violeta, a algumas ruas de distância, e ela tirou a caixa do carro, percebendo a ausência do veículo da colega. Ela teria preferido discutir o assunto diretamente com ela, mas talvez fosse melhor deixar seu ponto de vista claro para a garota. Batendo na porta, esperou até que ela se abrisse um minuto depois.

            "Oi, Doutora Ferette", disse Eduarda, saltitando na ponta dos pés, transbordando energia inquieta enquanto sorria. "Desculpe, minha mãe ainda não chegou em casa."

            “Tudo bem. Na verdade, vim para te ver”, disse Zenilda, ajeitando o presente meio desembrulhado para chamar sua atenção. Ela observou a testa de Eduarda se franzir em confusão ao ver o presente que acabara de entregar. “Foi muito generoso da sua parte comprar um presente para ela, Eduarda, mas espero que você entenda que Lorena não pode aceitá-lo.”

            “Ah. Hum… ela não está em apuros, está? Eu não queria…”

            “Não, não, ela não está em apuros. Só não é uma boa ideia para Lorena ter distrações na vida dela, não quando ela tem coisas mais importantes para se concentrar. Aqui está.”

            Estendendo a caixa para ela, Zenilda observou-a hesitar, a decepção fazendo seu rosto se fechar, antes de pegar a caixa comprida e segurá-la desajeitadamente nos braços. Ela estava ficando mais alta, agora com quatorze anos e prestes a entrar no ensino médio. Zenilda sabia que ela era uma boa menina, mas não era nada de especial, e provavelmente nunca sairia de Ilha Comprida, e sabia que Eduarda não conseguia entender por que ela estava fazendo aquilo, mesmo que fingisse que sim. O melhor que Zenilda podia fazer era tentar ser educada em sua rejeição, em vez da irritação que espreitava logo abaixo da superfície. Crianças seriam crianças, ela supôs.

             “Foi um presente muito atencioso”, garantiu Zenilda. “Talvez você possa se divertir um pouco com ele.”

            Eduarda olhou para ela com tanto espanto em seus olhos que Zenilda se sentiu um pouco insegura por um instante. Elas se encararam enquanto Zenilda esperava a resposta de Eduarda, sem saber que Eduarda estava tentando entender porque Zenilda presumiria que ela tinha algum interesse em observar as estrelas, antes de Zenilda assentir com a cabeça.

            “Obrigada, Eduarda. Ah, e talvez possamos manter isso em segredo? Talvez seja melhor não contar para sua mãe. Eu detestaria que ela se envolvesse também. Você e a Lorena talvez não consigam... se ver se a situação sair do controle.”

            “Ah. Sim, claro, Doutora Ferette. Não vou contar a ela.”

            "Boa menina", Zenilda sorriu discretamente antes de se despedir e ir para casa.

            Lorena ainda estava praticando quando Zenilda entrou na garagem, com os olhos vermelhos e o peito tremendo com soluços entrecortados enquanto encarava a mãe, emburrada. Suspirando e cruzando os braços, Zenilda lançou-lhe um olhar exasperado. "Vamos, entre e tome um banho antes do jantar. Você vai superar isso.”

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            “Boa noite para observar as estrelas”, disse Eduarda para quebrar o silêncio, com as mãos apoiadas no corrimão de madeira branca. “Você ainda está interessado em tudo isso?”

            Dando de ombros e com os cantos da boca curvados para baixo, a expressão de Lorena tornou-se sombria. "Não tenho muito tempo para isso. Nem muita utilidade, então..."

            “Ah, que pena.”

            “Hum.”

            O vento soprou forte por um instante, a ponta vermelho-cereja do cigarro de Lorena tremulou por um momento antes de brilhar novamente, permanecendo acesa. Ela o retirou dos lábios, segurando-o entre o indicador e o dedo médio enquanto soltava lentamente a fumaça pelo canto da boca, longe de Eduarda. Lambendo os lábios, ela ficou sem palavras por um momento, tanta angústia a atormentava que não tinha certeza se queria tocar no assunto novamente, para saber mais.

            “Então… você foi ver eu me apresentando?” Lorena perguntou, cautelosamente.

            Com a boca franzida, Eduarda fez uma careta e soltou uma risada sem graça. "É. Eu só... você estava aqui, e eu precisava ver com meus próprios olhos."

            “Ver o quê?”

            “Se valeu a pena. O que eu... o que eu fiz.”

            “E valeu?”

            Mostrando os dentes com cautela, Eduarda inclinou-se para a frente, dobrando levemente os braços para sustentar seu peso antes de cambalear para trás. Soltando um suspiro resignado, deu de ombros, sem se comprometer. "Você teve que ir embora para poder fazer aquilo"

            "Certo, mas valeu a pena? Para você, não para a minha carreira."

            Abrindo e fechando a boca, Eduarda endireitou-se e esfregou a nuca. Mesmo no escuro, Lorena pôde ver o rubor em suas bochechas enquanto ela se esforçava para responder por um instante.

            "Não", admitiu Eduarda, com a voz embargada. Ela engoliu em seco, visivelmente emocionada. "Não, não valeu a pena para mim."

            Assentindo com a cabeça, como se isso a tivesse satisfeito, a mão de Lorena tremeu levemente enquanto ela levava o cigarro aceso aos lábios. Não a satisfazia saber que não tinha valido a pena para Eduarda; a dor aguda da devastação só a feria ainda mais. Depois de um instante, ela soltou um suspiro trêmulo, uma nuvem de fumaça saindo junto.

            “Você não tentou me ver.”

            “Eu... não. Não, eu não achei que você fosse querer isso.”

            "Ah."

            Eduarda agarrou-se firmemente ao corrimão de madeira enquanto permanecia em silêncio por um momento, esforçando-se ao máximo para não falar, até que se tornou insuportável não perguntar. Ela não olhou para Lorena enquanto falava, apenas para o céu enquanto Lorena fumava ao seu lado, tentando manter a fumaça longe do rosto.

            “Você queria que eu tivesse ido te ver?”

            Nenhuma resposta veio e o silêncio se prolongou por alguns instantes. Lorena não sabia como dizer que sim, claro que queria, e não sabia como dizer a Eduarda que doía saber que ela tinha ido vê-la se apresentar e só soube disso naquele momento, e como ela tinha tentado discar aquele último dígito e ligar para ela, mas nunca conseguiu, que ela também queria falar com ela. Ela estava com raiva, mas só estava com raiva porque doía, e doía só porque ela desejava que tivesse sido diferente, que nada daquilo tivesse acontecido. Não era justo colocar a culpa apenas em Eduarda, e ela sentiu sua raiva diminuir um pouco, seus ombros se curvando levemente.

            "Ainda me lembro do seu número", confessou Lorena baixinho, semicerrando os olhos enquanto olhava para o céu noturno.

            "O que?"

            “Seu número de telefone. Você disse que não mudou, então ainda me lembro dele.”

            “Ah. Você... você lembra?”

            Com os lábios contraídos em um sorriso melancólico, Lorena deu uma tragada no cigarro. “Eu também ainda sinto sua falta.”

Chapter 9

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

            Uma luz cinzenta começou a surgir nas janelas congeladas do quarto quando Lorena acordou, bocejando e se espreguiçando enquanto seu corpo protestava. Ela se vestiu com calças de moletom Adidas e uma blusa sem mangas, engolindo analgésicos e uma xícara de café antes de abrir a porta da frente. Ela saiu devagar, caminhando para aquecer os músculos e articulações rígidas, fumando enquanto navegava no celular e escolheu Alanis Morissette para sua corrida.

            Acelerando o passo, ela correu até a praia, tudo sombrio e sem brilho enquanto o sol lutava para surgir. A praia estava vazia e seus pés batiam com força na areia enquanto ela respirava fundo, aumentando o ritmo à medida que caminhava com dificuldade pela areia que se movia suavemente sob seus pés. A névoa estava mais densa sobre a água à medida que subia, o som da água correndo na costa abafado por sua música, e ela se sentiu completamente sozinha no mundo ao passar por Ilha Comprida e seguir para Iguape.

            Ao chegar ao porto, ela deu meia-volta e começou a retornar para Ilha Comprida. Passou por um homem passeando com seu cachorro, duas mulheres de roupa esportiva caminhando juntas enquanto conversavam em voz alta e um surfista matinal, mal visível através da neblina, nada mais que uma sombra escura ondulando com as ondas. Com os pulmões ardendo pelo esforço e o suor secando em sua pele por causa do vento, Lorena continuou pela costa antes de atravessar a cidade e voltar para casa. 

            Na varanda da frente, ela bateu os pés para soltar a areia molhada dos sapatos e os tirou antes de entrar. Com as meias úmidas no chão, deixou os sapatos do lado de fora e subiu as escadas, com as panturrilhas e coxas ardendo, antes de tirar as roupas suadas no banheiro enquanto enchia a banheira. Despejou uma quantidade generosa de sais de magnésio para banho e observou o vapor subir, deixando o espelho aveludado à medida que o ar esquentava. Sua pele nua formigava, o ar ainda frio demais para o seu gosto, e ela colocou Études de Philip Glass em repetição no celular antes de entrar na água quente.

            Com a cabeça encostada na borda, ela se deleitava com o calor enquanto ouvia a música suave, imaginando movimentos de dança enquanto sua pele ficava rosada e parte da sensibilidade se esvaía de suas pernas. Seus quadris doíam, seus joelhos, tornozelos e canelas doíam, mas mesmo assim ela saiu da banheira, vestiu um collant e desceu para dançar por algumas horas. Dançar com o corpo dolorido era a única coisa que parecia anestesiar um pouco a dor, desgastando-a a ponto de não sentir mais a dor persistente que permeava todo o seu corpo.

            Duas horas não foram suficientes para se cansar tanto quanto gostaria, e depois, vestiu roupas limpas por cima do collant e preparou uma xícara fraca de chá preto, levando-a para a sala de estar onde sua mãe estava. Sentada ao lado dela, Lorena lia ‘O Invencível Verão de Liliana’ de Cristina Rivera Garza, desligando-se da TV enquanto virava as páginas, com a mente um pouco confusa por causa do Alprazolam que havia tomado na cozinha. Sua mãe ocasionalmente fazia um comentário ou uma pergunta, e Lorena demorava a responder, com as pálpebras pesadas e a expressão vazia enquanto erguia a cabeça lentamente, sob o olhar vago da mãe, que a encarava, aguardando uma resposta.

             Por fim, sua mãe deve ter se cansado da conversa unilateral, e Lorena começou a sentir tonturas enquanto afundava na poltrona em que estava encolhida, as pálpebras se fechando lentamente e o estômago embrulhado de náusea. Optando por uma caminhada para clarear a mente, pensando que talvez tivesse tomado o comprimido cedo demais, que deveria tê-lo guardado para dormir, ela vestiu o casaco e os sapatos e disse a Zenilda que ia à loja. Sua mãe enumerou uma lista de coisas para ela comprar e Lorena, desajeitadamente, fez uma lista no celular antes de sair. Caminhando para a cidade, ela fumou e ouviu música enquanto colocava um pé na frente do outro, uma sensação de calma serena a inundando com tamanha intensidade que Lorena se sentia como um zumbi, incapaz de sentir quase nada. Seu caminho a levou para a cidade e ela vagou pelas ruas, de um lado para o outro, até parar em frente à fachada desbotada do Afrodite.

            O Afrodite abriu na hora do almoço, embora só houvesse aposentados ou alguns turistas de passagem quando Lorena entrou, pouco depois das três. A música estava baixa, e Lorena sentou-se em seu lugar de costume no balcão, pediu uma vodca com Coca-Cola Zero e tomou quatro delas em uma hora, intercalando com cigarros, antes de, cansada, recolher seus pertences, agradecer e sair. Atravessando a rua, dirigiu-se ao mercado local e passou pelas portas automáticas, pegando uma cesta e procurando às pressas a lista que havia feito no celular para sua mãe. Percorreu os corredores seguros, enchendo a cesta com proteínas magras, vegetais e analgésicos sem receita, acrescentando algumas coisas para a mãe e, em seguida, passando pelo caixa, adicionando um maço de cigarros à pequena pilha no caixa. 

            Com as sacolas reutilizáveis no colo, uma dor de cabeça latejante e a cabeça ainda girando um pouco, ela saiu para a chuva torrencial que começara a cair. Abaixando a cabeça contra a água, as sobrancelhas franzidas e a boca em uma linha rígida, ela partiu para casa, dividida entre se amaldiçoar por não ter trazido o carro e se convencer de que caminhar e tomar alguns vodcas tinha sido a melhor escolha, que um pouco de chuva não lhe faria mal. Com os AirPods nos ouvidos, tentando acender um cigarro para aguentar a caminhada, as sacolas batendo desajeitadamente enquanto pendiam de seus antebraços, os dentes cerrados na ponta do cigarro enquanto observava a coluna branca se curvar sob a chuva.

            Ela parou num cruzamento, um carro se aproximando em meio à chuva, e viu-o piscar os faróis, sinalizando que ela podia atravessar. Apressando-se para cruzar a rua, conseguindo pisar na poça que se formava devido ao transbordamento de um bueiro entupido, Lorena viu as luzes de freio vermelhas acenderem quando o carro virou na mesma direção que ela e parou no acostamento. Levantando a cabeça, Lorena viu que era um Jeep azul, e sua boca se apertou em torno do cigarro que lutava para apagar enquanto ela reduzia a velocidade, observando o vidro abaixar.

            Eduarda inclinou-se sobre o banco do passageiro com um olhar solene, observando a triste visão de sua ex-amiga completamente encharcada, e elevou a voz para ser ouvida acima do motor em marcha lenta e do chiado da chuva. "Entra."

            Normalmente teimosa, Lorena estava disposta a ceder sem discutir, só desta vez, sentindo a chuva nos sapatos e na nuca, os cabelos escuros grudados no rosto e no pescoço, caindo em mechas molhadas sobre os ombros. Seus braços doíam pelo peso das compras, sua cabeça girava por causa do Alprazolam e da vodca, e ela tremia enquanto tentava cerrar os dentes para impedir que batessem. Mesmo assim, hesitou por um instante antes de procurar o cigarro molhado, jogando-o de lado e alcançando a maçaneta da porta, colocando as sacolas no chão e entrando. 

            Fechando a porta, ela suspirou pesadamente com o calor que escapava das saídas de ar e colocou o cinto de segurança, as pálpebras se fechando lentamente com o peso. Ela podia sentir o olhar de Eduarda sobre ela e manteve os olhos fechados enquanto permaneciam em silêncio por mais um instante. "Obrigada."

            "De qualquer forma, estou indo para a sua casa", respondeu Eduarda com indiferença, como se nenhum das duas soubesse que ela teria parado de qualquer maneira, que ela era gentil demais para não parar, mesmo com alguém que tinha ido embora sem dizer uma palavra.

            De olhos fechados, ouvindo a chuva bater no para-brisa enquanto os limpadores rangiam para frente e para trás, Lorena respirava devagar. Eduarda, porém, não parava de olhar para ela enquanto dirigia lentamente pela estrada, sem trânsito para atrapalhar, e pigarreou.

            "Você está bem?"

            Abrindo os olhos lentamente, Lorena olhou para ela. Parecia levemente surpresa com a pergunta, seus olhos verdes um pouco vidrados enquanto inclinava a cabeça para o lado. "Eu não sei."

            "Não?"

            Com o cenho franzido, Lorena esfregou a testa, abrindo e fechando a boca. A vodca fez maravilhas para torná-la mais honesta, suavizando sua habitual reticência enquanto falava antes que pudesse se conter. "Sinto que... talvez eu não esteja conseguindo lidar com essa situação."

            "Não", Eduarda sussurrou em concordância, "você definitivamente não está. E ninguém espera que esteja."

            Uma onda de irritação passou por Lorena, repentina e intensa, e ela engoliu em seco. "Estou com tanta raiva dela", sussurrou. "Não é uma merda? Ela está doente e eu só consigo sentir tanta raiva."

            “Tudo bem.”

            Cobrindo o rosto com as mãos, Lorena soltou uma risada rouca. "Não está tudo bem."  

            "Você está com raiva porque está triste, e isso é confuso, e tudo bem.”

            "Eu não sei como fazer isso", sussurrou Lorena, com a voz embargada. 

            "Eu sei. Não é algo para o qual você possa se preparar. É… difícil."

            Ela sentiu as lágrimas se acumularem, ardendo nos cantos dos olhos, ameaçando transbordar. Com as mãos sobre o rosto, soltou um som lamentoso, que logo se transformou em uma risada abafada. "Quem me dera que tudo fosse diferente... Não era para ser assim."

            "Eu sei", sussurrou Eduarda, "eu também gostaria que não fosse assim."

            "Você gostaria de ter feito as coisas de forma diferente?"

            "Todos nós temos coisas que gostaríamos de ter feito de forma um pouco diferente."

            "Não, sobre… você e eu…"

            "Eu já te disse que faria tudo de novo. Mas se eu pudesse ter feito diferente… eu gostaria que tivéssemos continuado amigas."

            Lorena soltou uma risada abafada. Eduarda olhou para ela, percebendo o sorriso amargo, o olhar dolorido em seus olhos verdes, e Lorena sentiu uma saudade tão intensa que sua garganta se fechou, a respiração falhando. Ela estava em um carro com a mulher que mais amara no mundo, sua melhor e única amiga, e sentiu a antiga dor de seu coração partido através da névoa de calma. Com as pálpebras se fechando, o sorriso de Lorena se alargou um pouco.

            "Certo."

            "Sinto muito, de verdade. Eu também gostaria que fosse diferente, só que... não sei, talvez o seu retorno seja uma chance para nos perdoarmos e nos despedirmos."

            "É por isso que você acha que estou aqui? Para te perdoar."

            "Você está aqui por causa da sua mãe, eu sei disso, mas… não precisa ser assim."

            "Como deveria ser?"

            Soltando um suspiro cansado, Eduarda gesticulou impotente enquanto indicava para a esquerda e freou lentamente ao se aproximarem da curva. "Não sei, Lorena, como você gostaria que fosse? Não somos mais amigas — você deixou isso bem claro — e eu me desculpei praticamente todas as vezes que nos encontramos, e isso não parece ser suficiente para você, então, se há algo que você quer que eu faça..."

            Ela parou de repente, as bochechas coradas enquanto se virava no banco para olhar para Lorena, e Lorena respirou fundo para interrompê-la. Em vez de falar, inclinou-se para frente, o interior do carro tão escuro quanto o céu lá fora, enquanto a chuva batia forte no veículo, e na penumbra, no calor do carro, a sensação era de uma intimidade insuportável, como se fossem as únicas duas pessoas em Ilha Comprida. Eduarda frequentemente causava esse efeito em Lorena, e ela não conseguiu se conter, virando-se também para ela, a poucos centímetros de distância, enquanto se afundavam em suas respectivas amarguras, misérias e mágoas, inclinando-se para frente enquanto Eduarda parava de falar abruptamente.  

            Lorena conseguia ver o coração de Eduarda pulsando em sua garganta, um tremor nervoso sob a pele, e se inclinou um pouco mais, os olhos fixos em seus lábios entreabertos. Ela não sabia se era a vodca, ou talvez o efeito do Alprazolam, que havia acalmado seus sentimentos, abafando a ansiedade habitual que poderia tê-la impedido, mas se aproximou até que sua testa tocasse levemente a de Eduarda. Seu coração batia forte no peito e havia uma agradável sensação de peso em seu corpo, quente e cansada, e ela suspirou pesadamente, as pálpebras se fechando lentamente.

            Eduarda ficou imóvel por um longo momento, sua respiração quente contra os lábios de Lorena, mas depois de um segundo, virou o rosto, esquivando-se do toque de Lorena. Recuando, Lorena abriu e fechou a boca, mas não disse nada, e em vez disso, pegou o cinto de segurança, desabotoando-o e abrindo a porta sem dizer uma palavra. Ela ouviu Eduarda chamar seu nome, suplicando baixinho e exasperada, mas a porta já estava batendo quando ela arrancou pela chuva, deixando suas compras para trás. Com as bochechas em chamas, Lorena abaixou a cabeça e saiu correndo, atravessando a rua na frente dos faróis do Jeep. 

 

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            O verão em que Lorena tinha doze anos foi um dos períodos mais felizes de sua vida. Léo havia decidido estudar no exterior por um ano na Itália e passou as férias no sul da França, o que deixou Lorena relativamente sem supervisão. Embora estivesse com medo de quebrar sua rotina rígida, ela encontrou muitas oportunidades para passar dias na praia com Eduarda. Aos quatorze anos, sua amiga estava começando a ficar desengonçada e havia colocado aparelho nos dentes alguns meses antes, ficando um pouco insegura com isso, mas nada que a impedisse de sorrir amplamente ao ver Lorena correndo pela praia para encontrá-la.

            Ela fingia que era uma coincidência, que estava correndo até Iguape para fazer um pouco de exercício aeróbico extra, e parava para se alongar enquanto observava Eduarda surfar por um tempo. Anos passados na água a tornaram uma ótima nadadora, e ela estava ficando muito boa no surfe, ou boa o suficiente para impressionar Lorena, cuja paixão crescente pela amiga só aumentava. Às vezes, ela tirava os sapatos e as meias e entrava na água, molhando a barra da calça de moletom ou da legging, com areia entre os dedos, o que tornava a corrida para casa desconfortável. Zenilda não fazia ideia de nada, e Lorena ansiava por esses momentos com a amiga, longe dos olhares de reprovação da mãe pela distração que Eduarda representava. Ela não as impedia de se verem no hospital, porém, pensando que aqueles minutos roubados nos corredores enquanto esperavam por suas respectivas mães eram tudo o que havia de importante na amizade delas.

            Eduarda ainda pegava livros emprestados da biblioteca da escola para Lorena, trocava-os secretamente e lia-os debaixo das cobertas, escondidos debaixo da cama até serem devolvidos, e Lorena ainda frequentava a casa dos Fragoso, jogando Sims 3 no computador da família e lendo Crepúsculo juntos, ou ouvindo Keyla e Eduarda discutirem sobre coisas inconcebíveis, já que Lorena muitas vezes se sentia filha única sem a presença do irmão mais velho. 

            Era evidente para ela que ele era o filho favorito da mãe, mas nunca estava por perto, e isso deixava Lorena desconcertada por estar ali e ser tão malvista. Ela não tinha certeza do que tornava isso tão óbvio, apenas achava que sua mãe não a amava, e não sabia como contar a alguém. Para quem visse de fora, parecia que ela era mimada, com dezenas de milhares de dólares gastos em aulas de balé e transporte, apenas mais uma garota rica cujos pais atendiam a todos os seus caprichos. Só que Lorena não gostava de balé e nunca teve muita escolha, insistindo que gostava, mesmo que fosse apenas para agradar a mãe, o que parecia menos frequente ultimamente. Zenilda simplesmente não sabia o que fazer com a filha, e Lorena era muito jovem para entender as coisas. Por mais inteligente que fosse, faltava-lhe a maturidade emocional e mental para perceber que não era algo que ela tivesse feito e nada que pudesse mudar, apenas uma questão de desconexão entre as duas. 

            Foi na amizade com Eduarda que ela encontrou felicidade, risos e amor, correndo pela praia, ouvindo música juntas, compartilhando revistas e contando à amiga as últimas novidades sobre o espaço. Eduarda era atenciosa e sempre reagia exageradamente a tudo, como se tudo que saísse da boca de Lorena fosse a melhor coisa que já ouvira. Por isso, não foi surpresa que sua paixão por Eduarda crescesse à medida que envelhecia e se tornava mais consciente da amiga, dos corpos das pessoas e de como as coisas funcionavam. Ela não sabia se era normal se sentir assim, não sabia o que fazer com o calor no peito, com o frio na barriga de ansiedade sempre que via Eduarda, mas estava lá e era palpável. 

            Certo dia, Lorena foi deixada no hospital depois de passar o dia com Arminda, mas sua mãe estava trabalhando até tarde, então a mandou para casa sozinha com a mochila a tiracolo e o sol escaldante. Lorena não foi muito longe quando um Honda Accord azul parou ao seu lado, o vidro abaixando enquanto Eduarda colocava a cabeça para fora, com um sorriso largo. Seu cabelo estava molhado, deixando manchas escuras na camiseta vermelha desbotada que vestia, um sinal claro de que ela estivera no mar.

            "Ei!"

            "Ei," Lorena não conseguiu conter o sorriso, parando no acostamento.

            “O que você está fazendo?”

            “Indo para casa. Acabei de voltar da casa da Arminda.”

            “Entra. Vamos tomar milkshakes.”

            Hesitando apenas por um instante, Lorena abriu a porta traseira e colocou sua mochila dentro antes de entrar no carro. Ela colocou o cinto de segurança enquanto Keyla olhava por cima do ombro dela e sorria. "Oi."

            "Ei."

            Ela sempre era gentil com Lorena, mas Lorena era um pouco tímida perto das pessoas, insegura e pouco sociável, já que sua vida girava em torno do balé em vez da escola, como a de qualquer adolescente normal. Lorena observava as irmãs discutirem. Era o ano em que Eduarda tinha descoberto Taylor Swift e Keyla tinha cortado o cabelo e estava passando por uma fase decididamente mais ousada, e elas discutiram sobre a música, com Keyla insistindo em ouvir Ana Carolina.

            "Bem, então a Lorena deveria escolher. Ela é a convidada."

            "Não", protestou Keyla. "Ela vai escolher o que você quiser."

            "O quê? Não, ela não vai. Ela pode escolher o que quiser."

            "Sim, será o que você quiser. Certo, Lorena?"

            Com as bochechas levemente coradas, Lorena deu de ombros e sorriu sem jeito. "Minha mãe só me deixa ouvir música clássica, então eu não conheço nenhum outro tipo de música além das da Duda."

            "Tá vendo! Até ela admite isso."

            "Então são duas contra uma."

            “Eu tô pouco me fudendo”

            Continuaram a discussão até que Keyla saiu vitoriosa aumentando o volume da música e Lorena conteve um sorriso diante das travessuras das duas, mas logo esqueceu quando Eduarda se voltou para ela.

            “Qual sabor de milkshake você vai quer?”

            “Ah, bem, eu não posso ter essas coisas. Minha mãe diz que não faz bem.”

            "Mas tem um gosto bom", Eduarda sorriu.

            Abrindo e fechando a boca por um instante, Lorena se remexeu desconfortavelmente. "Não sei... ela vai ficar brava se descobrir."

            “Bom, sua mãe não está aqui”, disse Keyla, olhando para Lorena pelo retrovisor. “E não vamos contar para ela, então se você quiser um, tudo bem.”

            “Hum… não sei.”

            “A gente pode comprar outra coisa, se quiser. Você gosta de batatas fritas?”

            “Ela também não me deixa comer essas coisas.”

            "O que ela te deixa comer?"

            Dando de ombros com ar despreocupado enquanto mexia os dedos no colo, sentindo-se um pouco sobrecarregada, um pouco constrangida, envergonhada por estar detalhando a dieta que sua mãe a obrigava a seguir, Lorena abriu e fechou a boca.

            “Muitas coisas. Só preciso estar saudável para ser bailarina.”

            “Tudo bem, um milkshake não vai fazer mal.”

            "Está bem", Lorena concordou baixinho.

            Poucos minutos depois, elas chegaram à sorveteria, outros adolescentes por perto aproveitavam a liberdade das férias. Com suas camisetas úmidas e shorts jeans, as irmãs não destoavam dos outros moradores locais, mas Lorena se sentia completamente deslocada em seu agasalho preto e tênis de corrida, com os cabelos escuros presos em um coque e a pele surpreendentemente pálida em comparação ao bronzeado intenso dos outros, que pareciam ter acabado de voltar da praia. 

            Pequena e tímida, Lorena seguia Eduarda como uma segunda sombra, entrando sorrateiramente no local. Keyla trabalhava meio período no Gatitas, a antiga lanchonete perto da praia, então pagou algumas notas dobradas e pediu três milkshakes: um de morango para si e dois de chocolate, já que Lorena pediu o mesmo que Eduarda. Pouco depois, com três copos na mão, elas saíram e Keyla avistou alguns amigos e foi se juntar a eles. Eduarda, por sua vez, sentou-se em uma das mesas do lado de fora, com Lorena parada à sua frente, observando alguns garotos jogando futebol enquanto se exibiam para as garotas que tomavam sol. Lorena não estava acostumada a ver tantas crianças em idade escolar por perto; elas geralmente estavam na escola quando ela corria para Iguape e voltava, ou com ela em São Paulo ou mais ao sul para suas aulas na casa da Arminda. As diferenças em sua vida nunca haviam sido tão óbvias quanto naquele momento, enquanto estava ali, cercada por alunos do ensino médio e fundamental, com a sensação de que não tinha absolutamente nada em comum com nenhum deles.

            "Você gostou?", perguntou Eduarda, tirando-a de seus pensamentos.

            “Ah, hum,” Lorena hesitou por um momento antes de tomar um gole com o canudo. Era rico e enjoativamente doce, e ela se obrigou a engolir. “É, é bom.”

            Animada, Eduarda deu um leve toque com o pé na panturrilha de Lorena enquanto sorria. "Viu? Eu te disse que é gostoso."

            Lorena murmurou em concordância, com o estômago embrulhado de desconforto e culpa enquanto tomava outro gole. O sol estava quente demais e ela não parava de olhar em volta, como se esperasse que sua mãe estivesse ali, observando-a desobedecê-la, fazendo-a sentir calor sob as mangas compridas do agasalho, e Lorena sentiu uma pontada de pânico no peito. Eduarda falava sobre a escola, o início da oitava série, mencionando pessoas de quem Lorena já tinha ouvido falar, mas nunca tinha conhecido, e sobre seu aniversário dali a alguns meses e como Violeta disse que poderia dar uma festa e que Lorena teria que ir. Zenilda a deixara ir a uma das festas antes, quando Eduarda fez nove anos, ficando na cozinha com Violeta e alguns outros pais, não permitindo que Lorena comesse nenhum pedaço do bolo de aniversário, nem que corresse solta no quintal com as outras crianças. Ela não tinha conseguido ir a nenhuma das outras festas, suas aulas eram muito demoradas e importantes agora para que ela as faltasse por causa de uma festa de aniversário. Mesmo assim, Eduarda estava esperançosa e Lorena não queria estragar tudo para ela.

            Terminando seus milkshakes, elas jogaram os copos no lixo e Eduarda chamou Keyla para longe dos amigos para que fossem embora. Sentada no banco de trás, Lorena sentiu a culpa crescer, uma sensação angustiante de pavor a invadindo enquanto passava as mãos ansiosamente pelas coxas, até chegarem em casa. Ela agradeceu e se despediu, pegando sua mochila e entrando apressadamente. Sua mãe ainda não havia chegado, mas Lorena estava tomada pelo pânico de que ela já soubesse do milkshake, que tivesse lido a culpa em seus olhos e a ajudado a se livrar dela. Deixando a mochila no chão da entrada, Lorena foi até o banheiro do andar de baixo e vomitou tudo com uma sensação de alívio, os olhos ardendo enquanto começava a chorar, a garganta doendo. Mas a culpa diminuiu depois que ela deu descarga e enxaguou a boca com água, e quando sua mãe chegou do trabalho, Lorena estava praticando na garagem como se nada tivesse acontecido. 

 

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            Havia alguns trechos de terra não urbanizada, ou trilhas que serpenteavam pelos quintais dos vizinhos, e a densa vegetação rasteira bloqueava a maior parte da chuva enquanto ela corria às cegas pela mata fechada, então Lorena chegou em casa antes de Eduarda. Mortificada e em pânico, ela não foi até a porta da frente, mas direto para a garagem, entrando e acendendo a luz. Com a adrenalina correndo em suas veias, Lorena tirou a roupa, ficando apenas com o collant que usava por baixo, chutou os tênis molhados e calçou as sapatilhas de ponta. 

            Úmida e tremendo, ela ligou o som e afastou os cabelos molhados do rosto, posicionando-se na barra e começando lentamente sua rotina habitual de aquecimento. Seu coração ainda batia forte e ela sabia que a única maneira de apagar o constrangimento do quase-beijo, anestesiar a dor da rejeição, era se exaurir para poder dormir profundamente, em vez de reviver a lembrança repetidamente pelo resto da noite. Ela esperava que Eduarda também se sentisse constrangida demais para querer falar sobre o assunto. Uma hora se passou enquanto ela se escondia na garagem praticando, mas uma rajada repentina de ar frio a fez parar, enchendo Lorena de pavor.

            Eduarda estava parada na porta da garagem, com as mãos nos bolsos, os ombros tensos enquanto estudava a postura elegante de Lorena, a nitidez de seus traços enquanto a encarava com um pânico quase totalmente disfarçado. Abraçando-se, envergonhada por seu corpo no collant, com os braços e pernas nus arrepiados, Lorena sentiu o rosto corar. Mordeu o lábio inferior enquanto olhava para o chão, o gosto metálico de sangue vindo em seguida. 

            "Eu guardei suas compras", murmurou Eduarda.

            Lorena assentiu com a cabeça, esticando um tornozelo. A tensão era insuportável enquanto ela permanecia em silêncio. Ela esperava que Eduarda não dissesse mais nada, mas Eduarda continuou parada na porta e Lorena lutou contra a vontade de se encolher enquanto esperava que ela falasse. Tirando a mão do bolso, as chaves tilintaram enquanto ela as segurava e Eduarda abriu e fechou a boca por um instante antes de pigarrear. 

            “Por favor, não faça isso de novo.”

            Com um aceno de cabeça, Eduarda saiu sem olhar para ela, fechando a porta atrás de si. Soltando um suspiro, Lorena passou as mãos pelos cabelos úmidos e inclinou a cabeça para trás, sentindo o rosto quente nas palmas das mãos enquanto reprimia um gemido. Depois disso, perdeu a vontade de dançar, tirando os sapatos e jogando-os no chão enquanto suas bochechas coravam novamente, sua mente confusa, seu corpo pesado e nada parecia certo. 

            Ela não voltou para dentro, apenas abriu a porta da garagem e sentou-se de pernas cruzadas no batente, fumando três cigarros seguidos na esperança de que isso amenizasse a sensação de mal-estar que emergia da névoa persistente das drogas que havia tomado. O veneno da fumaça lhe parecia bom nos pulmões, prejudicial e merecido, e a lufada de ar frio lhe trouxe alguma clareza. Ela estava presa demais ao passado para pensar com clareza em Ilha Comprida, mas isso era antes, quando as coisas eram diferentes. Quando pensava em felicidade, pensava no passado, mas as coisas tinham mudado e a mesma pessoa associada àquelas lembranças felizes já não evocava os mesmos sentimentos. 

            Enquanto fumava e refletia, uma dor de cabeça começou a surgir e o vento trouxe a chuva em sua direção, molhando o chão da garagem. Então, ela pegou suas coisas e entrou. Depois de um banho rápido e roupas limpas, preparou o jantar e ficou perambulando pela cozinha, bebendo copo após copo d'água e engolindo dois comprimidos de ibuprofeno enquanto tentava afogar a dor de cabeça. Fez arroz com brócolis, feijão, frango e salada para o jantar, servindo duas porções e levando-as para a mesa enquanto chamava pela mãe. 

            Elas comeram em relativo silêncio, com Zenilda fazendo algumas perguntas indiscretas sobre por que Eduarda havia trazido as compras e o quanto Lorena havia bebido. Depois, Lorena se arrumou e bebeu outro copo d'água, pensando em voltar ao Afrodite e tomar mais algumas vodcas, antes de sair furtivamente e fumar outro cigarro, tentando reimaginar a noite em sua mente, piorando a situação de Eduarda e melhorando a si mesma para que a vergonha não a consumisse. Voltando para dentro, jogando a bituca no lixo, ela bebeu outro copo d'água e quase vomitou na pia, sentindo-se tonta, com calor e terrivelmente inchada, dominada pela culpa e pela vergonha.

            Subindo as escadas lentamente, com o rosto brilhando como cera enquanto respirava superficialmente por entre os lábios sem sangue, Lorena chegou ao banheiro e ligou o chuveiro antes de vomitar no vaso sanitário. O som da água era um abafamento suficiente para seus vômitos, algo que ela descobrira na infância, quando a culpa por comer besteiras com Eduarda a fazia se sentir mal ao chegar em casa e a realidade a atingia novamente. 

            Escovando os dentes, ela foi até o quarto e tirou a roupa, sentindo a pele quente e repuxada demais. Tateou às cegas no escuro em busca dos dois primeiros comprimidos que seus dedos encontraram na bagunça da mesa de cabeceira. Engoliu-os a seco, empurrando-os para dentro da boca, e então se arrastou para a cama, o frio penetrando no quarto e o vento assobiando pelas frestas das janelas. Lorena ficou acordada por um tempo na escuridão, desejando estar morta para não ter mais que lidar com o fardo da própria existência.

Notes:

pobi da lorena, só sabe sofrer

Chapter Text

            No sábado, Lorena acordou cedo e se vestiu como de costume para sua corrida, sua vida seguindo uma rotina semelhante às últimas semanas, enquanto se aproximava de um mês em Ilha Comprida. Ela tinha plena consciência de que quase metade do tempo que lhe restava com a mãe já havia passado e se sentia presa, sem saber como deveria se sentir a respeito, sem saber o que fazer durante o tempo que lhes restava. O que poderiam fazer em tão pouco tempo para consertar as coisas? O que sua mãe poderia dizer para desfazer tanta raiva e ressentimento que Lorena sentira nos últimos vinte e seis anos? Era uma marcha lenta rumo à morte e Lorena temia cada dia em que acordava em sua cama de infância.

            Saindo sorrateiramente, ela passou por uma fileira de casas escuras, ainda mergulhadas na penumbra do silêncio da madrugada, e correu até a praia, seguindo seu caminho habitual pela orla até Iguape. O vento soprava levando o cheiro limpo da maresia, arranhando suas bochechas, penetrando sua blusa e calça de moletom enquanto ela deixava pegadas na areia molhada. Ela olhou para o mar, as ondas infinitas escuras contra o tênue clarear do céu nublado, nenhuma estrela à vista enquanto sua respiração pairava pesada no ar gélido.

            Ao se aproximar de Iguape, as praias maiores, populares nos meses mais quentes, a receberam com aquele mesmo cheiro de sal no ar, misturado a um leve odor de algas em decomposição e lixo enquanto ela caminhava até a estrada, o asfalto firme sob seus pés aliviando suas articulações doloridas. Chegando ao porto, ela encontrou seu ponto de retorno e começou a voltar pelo mesmo caminho, os dias ficando cada vez mais curtos e a deixando correndo de volta na penumbra do amanhecer. Antes de ir para a praia, ela engoliu um Alprazolam para acalmar o nó de emoções que se contorcia em seu peito, e se deleitou com a familiar sensação de tranquilidade em sua mente enquanto a névoa descia.

            Correndo pela espuma das ondas na praia, o forte cheiro de algas marinhas impregnando o ar enquanto ela pisava em longas tiras na areia, ela contemplava a imensidão da paisagem cinzenta, a água escura e o céu clareando gradualmente com o nascer do sol, oculto por uma densa camada de nuvens. Seu corpo inteiro doía, uma dor que piorava a cada dia, dado o pouco que ela dançava agora. Todas as suas articulações e tendões eram estruturados para o balé, décadas dedicadas a aperfeiçoar as posições e técnicas implacáveis e antinaturais, fortalecendo o corpo para poder praticá-lo. Agora que dançava apenas algumas horas por dia, tudo doía e ela precisava reduzir o ritmo, mancando, com os pés e tornozelos sendo os locais mais afetados pela dor.

            Enquanto contemplava o mar, a ideia de um mergulho na água fria pareceu-lhe subitamente atraente, como se pudesse aliviar a dor, torná-la mais suportável. Mesmo que por pouco tempo. De vez em quando, ia nadar no Third Space em Battersea, pagando duzentas libras por mês para poder trabalhar o seu treino de musculação e resistência. Às vezes, porém, optava por nadar, aliviando as articulações e os músculos do peso que carregavam, mesmo que por um breve instante. Olhando para o mar durante um longo minuto, sozinha na praia, com a mente confusa e o corpo dolorido, Lorena tirou os AirPods e os sapatos. 

            Esvaziando rapidamente os bolsos de todos os seus pertences, ela tirou as meias e caminhou até a areia molhada onde as ondas quebravam na praia. Preparando-se para o frio, Lorena encontra o mar, avançando enquanto uma nova onda quebrava e a recebia com força, passando por cima dos seus dedos dos pés enquanto ela soltava um suspiro de choque com a intensidade da água gelada. Ela nunca fora fã de água e parecia uma ideia estúpida nadar completamente vestida, mas não hesitou, apenas continuou a entrar na água até que ela atingisse suas canelas. Logo, a água rodopiava em torno de suas panturrilhas, encharcando sua calça de moletom, e Lorena tremia violentamente, todo o corpo tenso enquanto sua pele formigava de dor por causa da água gelada. Então, a água chegou à sua cintura, com os braços estendidos enquanto ela continuava a caminhar, uma onda se formando à sua frente enquanto seus lábios tremiam e ela cerrava os dentes com força para tentar impedir o próximo tremor.

            Quando outra onda se formou à sua frente, ela fechou os olhos e inspirou profundamente antes de mergulhar, deixando a água lhe cobrir a cabeça. Estava escuro sob a superfície, turbulento e extremamente frio, mas ao mesmo tempo tranquilo e sereno, e ela permaneceu submersa mesmo quando o choque do frio a fez expelir o ar dos pulmões. Esperando até se acostumar com o frio entorpecedor, com os pulmões ardendo por ar, ela emergiu novamente. Inspirando profundamente, agradecida, com o peito subindo e descendo, Lorena se endireitou, ainda capaz de ficar de pé, com a água agora lambendo seu peito, antes de nadar para frente, as ondas a erguendo e arrastando-a de volta para a costa enquanto ela lutava contra elas, a água fria e cinzenta lambendo-a, o sal ardendo em sua boca enquanto engolia um pouco do mar, lutando contra a maré enquanto seu corpo estava dormente e sua mente vagava em paz. 

            Por fim, sentiu-se tonta e cansada, com o corpo todo tremendo, incapaz de se adaptar a temperatura tão baixa, e voltou para a margem, a areia se movendo sob seus pés enquanto caminhava com dificuldade pelas águas rasas. Ao sair do mar, a água escorria por ela e ela se agarrou às roupas encharcadas, batendo os dentes enquanto cambaleava de volta para seus sapatos e meias abandonados, sem sequer um casaco ou um suéter seco para vestir, e caiu de joelhos. Virando-se, estendeu-se na areia, com os braços e pernas estendidos sem vida, e respirou fundo entre os tremores violentos causados pelo vento cortante que lhe penetrava os ossos. 

            Ela não se importava muito, encharcada e sozinha, um momento de paz em meio a tanta coisa errada. Lorena não sabia exatamente quando tudo tinha dado errado, apenas que em algum momento ela começou a se sentir mal o tempo todo, chorando antes das aulas, se preocupando demais com as coisas enquanto tentava agradar a todos, odiando sua aparência e constantemente ansiosa por fracassar em tudo. Há muito tempo, ela vivia em um estado constante de tristeza, e estar de volta a Ilha Comprida a fez entender que talvez estivesse deprimida, possivelmente já estivesse deprimida há algum tempo.

            Deitada na areia, ela se sentiu como uma criança novamente, com um sentimento ruim por dentro por uma infinidade de razões, e agora, aos trinta anos, sentia como se tivesse chegado ao fundo do poço daquela miséria. Ela estava ali há bastante tempo e, ocasionalmente, tentava sair, mas por muito tempo, simplesmente aceitou que aquela era a sua vida. Não havia ninguém para ajudá-la, abandonada e magoada, aquela que ninguém mais amou, e sentia falta da pessoa que era antes de se sentir assim, desejava poder se ajudar, desejava não ter que sentir falta da única pessoa por quem já se importou, desejava ter pedido desculpas, desejava nunca ter ido embora. Deitada na areia, ela se sentia mais perdida do que nunca, porque não deveria sentir saudade de casa, não deveria ansiar pelas coisas que tanto queria deixar para trás quando tudo deu tão terrivelmente errado. Ela fechou os olhos.

 

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            Lorena, agora com treze anos, estava começando a crescer, receosa enquanto se perguntava qual seria sua altura final. Se Zenilda a tivesse dado à luz, teria desejado os genes da mãe, que ela fosse alta demais para fazer uma carreira de verdade no balé, mas sabia que sua mãe ficaria furiosa se uma coisinha dessas acabasse com os sonhos que ela havia incutido na filha.

            Caminhando pela praia com Eduarda, de bochechas rosadas por causa do vento que lhe queimava a pele exposta, Lorena chutava areia para o alto, com as mãos nos bolsos, deixando a corrida de lado para curtir a companhia da amiga. Aos quinze anos, Eduarda era mais alta que ela, usava óculos, aparelho nos dentes e tinha sardas desbotadas no rosto. Ela havia começado a cuidar de crianças para os moradores locais e entretinha Lorena com histórias enquanto caminhavam, ocasionalmente se esbarrando de brincadeira.

            “Então, talvez eu tenha um novo emprego no Gatitas. Eles estão procurando uma garçonete, então a Keyla falou com o chefe dela. Talvez você possa ir me ver enquanto eu trabalho.”

            “Pensei que você já tivesse um emprego de babá.”

            "Sim, mas é só às vezes e eu preciso começar a economizar, sabe, para a faculdade e essas coisas."

            "Você é muito jovem para pensar em faculdade", Lorena riu.

            Dando de ombros, Eduarda esboçou um sorriso torto. "Ei, você é quem sabe exatamente o que vai fazer desde criança. Talvez eu esteja velha demais para começar a pensar nisso agora."

            “Então, qual será sua área de estudo principal?”

            “Ainda não sei. Não sei o que quero fazer. Talvez eu possa simplesmente pular a faculdade. Assim, não precisarei te deixar para trás.”

            Lorena riu, dando-lhe um empurrãozinho de novo, sorrindo evidenciando as covinhas enquanto suas bochechas ficavam um pouco mais vermelhas. "Certo, e onde você moraria? O que você faria?"

            "Eu adoraria morar alí", disse Eduarda, apontando para uma antiga cabana de pescador situada no topo das dunas. 

            A casa estava ali há mais de setenta anos, mas ninguém morava lá. Era um pequeno chalé de madeira que havia resistido ao pior das intempéries, com parte da madeira apodrecida, todas as ferragens de metal enferrujadas em um tom alaranjado e a tinta desgastada pelo sal, areia e água. Era um dos poucos que restavam na região, a casa mais próxima ficava a cem metros da praia, um pouco ao norte de Ilha Comprida, mas ainda dentro dos limites da cidade. Era um barraco caindo aos pedaços, com telhas faltando, e Lorena duvidava até mesmo que tivesse eletricidade, mas era um sonho engraçado de se imaginar.

            "Vamos comprar um dia", ela sorriu para Eduarda. "Aí você pode surfar todos os dias e eu fico olhando as estrelas do convés."

            “Certo. O que mais você quer?”

            “Persianas azuis e um lugar para eu ler e escrever.”

            Eduarda riu, entrelaçando seu braço no de Lorena e a desequilibrando. "Podemos morar lá juntas até nossos cabelos ficarem brancos e então podemos morrer no mesmo dia, assim nunca mais precisaremos nos separar."

            Com desdém, Lorena franziu o nariz. "Você não quer se casar e ter filhos?"

            “Não, eu quero você. Vamos lá, vamos apostar corrida.”

 

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            Por mais sombrio que fosse o dia, a luz que entrava pelas pálpebras fechadas de Lorena ainda se atenuava quando uma sombra a atingiu. Com os cílios úmidos entreabertos, ela piscou lentamente para a figura que pairava sobre ela, vestindo um casaco de lã com zíper até o peito, a testa franzida em preocupação.

            "Eu sei que é uma cidade pequena", disse Lorena com a voz rouca por causa da água salgada. "Mas como você consegue estar em todos os lugares?"

            "Que diabos há de errado com você?", perguntou Eduarda, franzindo ainda mais a testa.

            Sentando-se, com areia grudada nos cabelos molhados enquanto tremia, Lorena passou a mão no rosto. "É, boa pergunta."

            Seus lábios estavam levemente azulados, mas ela não parecia se importar muito com isso, abraçando-se enquanto tremia, olhando para o mar. Eduarda bufou, mudando o peso de um pé para o outro enquanto cruzava os braços sobre o peito.

            “Não, falando sério, eu pensei... pensei que você fosse um cadáver.”

            Lorena soltou uma risada ofegante enquanto seus dentes batiam ruidosamente. "Eu estava nadando."

            "Sim, eu percebi; você está encharcada. Por que você estava nadando nesse gelo? Está tentando pegar uma pneumonia?"

            "Porque dói", admitiu Lorena, com a voz embargada. "Tudo dói pra caralho."

            Sua expressão se tornou sombria e ela se levantou apressadamente, guardando suas coisas nos bolsos e tentando calçar as meias sobre a pele molhada. Elas acabaram amontoadas contra as solas dos seus pés, mas ela não se importou, enfiando os pés nos tênis de corrida e ignorando a velha amiga. Antes que pudesse sair, porém, Eduarda falou.

            “Deixe-me pegar algumas roupas secas para você e eu te levo para casa.”

            "Estou bem."

            “Você vai acabar ficando doente.”

            “O que isso tem a ver com você?”

            "Quer dizer, eu sou enfermeira. É bem provável que você acabe me vendo no hospital de qualquer jeito, então é melhor evitar a viagem e resolver isso logo."

            Lorena soltou um som cortante na garganta enquanto procurava seus cigarros às apalpadelas. Acendendo um, com os dentes batendo na ponta, lançou um olhar cauteloso para Eduarda enquanto tragava trêmulo e, em seguida, puxava o cigarro para longe, soprando a fumaça ao vento.

            “Afinal, onde você mora?”

            Os ombros de Eduarda caíram enquanto ela soltava um suspiro cansado e gesticulava em direção às dunas. "Bem aqui."

            Seguindo a direção do aceno vago de Eduarda, Lorena sentiu como se tivesse levado um soco no estômago ao olhar para o chalé. Uma fumaça persistente escapou de sua boca enquanto ela soltava um suspiro agudo, virando a cabeça para Eduarda e lançando-lhe um olhar penetrante enquanto se encaravam por um longo e constrangedor minuto. Uma pontada de dor a atravessou, sua boca se fechando com força enquanto lutava para respirar, como se uma faca em seu peito tivesse sido girada. Lorena passava correndo por ali todas as manhãs, mal lhe dedicava um segundo olhar, exceto para notar que não era mais o barraco decadente de sua infância. Um comprador de fora do estado procurando uma casa de férias em uma cidade desejável, pensou ela, como a maioria dos moradores hoje em dia. Ela se perguntou se deveria ter imaginado.

            "Oh."

             Foi tudo o que ela conseguiu dizer, levando o cigarro de volta aos lábios com um leve tremor na mão, grata por o tremor o disfarçar. Ela não sabia o que mais dizer, voltando sua atenção para a casa restaurada, as telhas ainda desgastadas pelo tempo, mas de uma forma encantadoramente desbotada. As molduras das janelas e as persianas eram azuis. Ela teve vontade de chorar.

            "Vamos lá", suspirou Eduarda, começando a caminhar em direção às dunas. 

            A curiosidade falou mais alto e Lorena a seguiu. Não era tanto a perspectiva de roupas secas e uma carona para casa que a motivou, mas sim o interesse pela casa de Eduarda. Elas haviam falado tantas vezes sobre aquele lugar durante a adolescência, sobre comprá-lo um dia, reformá-lo — chegaram até a invadir o interior algumas vezes, o lugar empoeirado e vazio — que ela queria ver o que Eduarda tinha feito com ele. Terminando o cigarro e seguindo-a pelas dunas, Lorena observou uma cadeira no pequeno deck de frente para o mar, uma prancha de surfe encostada no corrimão de madeira e um telescópio apontado para o céu. Era familiar, e enquanto subia os degraus de madeira, Lorena parou, estendendo a mão para tocar o metal frio, os rebites agora enferrujados. Depois que Zenilda o tirou dela, elas encontraram algumas raras noites para sair escondidas de casa juntas e observar as estrelas com ele. Ela o reconheceria em qualquer lugar.

            Tirando a areia dos sapatos, Eduarda entrou pela porta dos fundos, pintada no mesmo tom de azul das molduras e persianas das janelas. Hesitando na soleira, Lorena mordeu a parte interna da bochecha, a dor no peito atenuada pela dor mais aguda na boca. Seus pés molhados pareciam escorregadios dentro das meias, a areia áspera entre os dedos enquanto os encolhia, os sapatos rangendo. Olhando através da porta dos fundos aberta, ela tinha uma visão direta do corredor, até a porta da frente azul, observando o piso de madeira e as ripas pintadas de branco nas paredes. O corredor estava repleto de fotos e pinturas emolduradas, mapas locais impressos e um espelho oval.

            Ela se obrigou a cruzar a soleira e caminhar pelo corredor, passando por algumas portas fechadas e pela porta aberta por onde Eduarda havia entrado, até chegar à sala de estar integrada. Um sofá e duas poltronas ladeavam uma mesa de centro. O teto era de madeira natural, com as vigas expostas, e as janelas deixavam entrar bastante luz solar, tornando a pequena casa aconchegante. Havia vasos de plantas, fotos emolduradas na lareira de pedra e um tapete vermelho estampado no chão. 

            Outra prancha de surfe estava encostada ao lado da porta, junto com um par de botas de chuva e alguns casacos pendurados. Lorena se virou lentamente, observando o lugar, uma profunda angústia a invadindo enquanto imaginava a vida de Eduarda. Ela conseguia imaginá-la acordando cedo todas as manhãs para surfar antes de vestir seu uniforme e ir trabalhar. Preparando o jantar na cozinha depois de alguns drinques no Afrodite com amigos. Um cachorro também não estaria fora de lugar, algo como um Golden Retriever, correndo pela areia atrás das bolas de tênis que Eduarda lhe jogaria. Ela pensou em sugerir isso, mas se calou, absorvendo a decoração em silêncio.

            Atrás da parede, a cozinha estreita tinha vista para as dunas através de uma janela alta voltada para o norte. As ripas de madeira das paredes também eram brancas ali, mas os armários eram pintados do mesmo azul da porta, com madeira rústica na bancada e prateleiras combinando com pratos e copos acima. Havia mais quadros e plantas emoldurados, uma cafeteira italiana no fogão, moedores de sal e pimenta na bancada, um pote de utensílios e um pano de prato dobrado sobre a porta do forno. Era um ambiente aconchegante e acolhedor, com tantos toques de lar que Lorena sentia falta em seu apartamento em Londres. Ela se perguntou se sua vida teria sido assim se tivesse ficado.

            Eduarda saiu do cômodo em que havia entrado, que Lorena supôs ser seu quarto, e ocupou-se em outro cômodo antes de retornar com uma toalha dobrada. Abrindo outra porta, fez um gesto para que Lorena entrasse e estendeu a toalha para ela enquanto se aproximava. "Pode deixar seus sapatos aí. É melhor se secar, ou você vai pegar um resfriado."

            Na ponta dos pés, Lorena tirou os sapatos e passou por Eduarda, entrando no banheiro. As paredes eram de ripas brancas, o chão também era de azulejos brancos, e havia uma pequena banheira com cortina de chuveiro, um vaso sanitário e uma pia pequena. Tirando as roupas encharcadas, que pingavam água por todo o chão e o tapete do banheiro, Lorena as colocou na pia e se secou com a toalha. Segurando as peças de roupa, ela vestiu uma calça de moletom cinza com bolinhas e um suéter azul-marinho de lavagem suave, transferindo seus pertences para os bolsos. Havia meias também, e Lorena limpou a areia dos pés antes de calçá-las, sentindo-se seca e relativamente aquecida, envolta nas roupas de Eduarda enquanto inalava o cheiro do sabão dela. 

            Saindo do banheiro, ela enxugou as pontas do cabelo ainda molhadas com a toalha e encontrou Eduarda na sala de estar, acendendo a lareira. Levantou-se e limpou as mãos nas coxas da calça jeans enquanto encontrava o olhar de Lorena. Apontando para o sofá, Eduarda foi até ele e pegou uma manta xadrez dobrada sobre o encosto. Pegando a toalha de Lorena, entregou-lhe a manta e se afastou.

            “Sente-se. Vou preparar algo quente para você beber.”

            “Você não precisa fazer isso.”

            "Eu sei."

            Lorena afundou no sofá, enrolou-se no cobertor e ficou olhando para o fogo enquanto ouvia Eduarda fazer barulho na cozinha por alguns minutos, antes de voltar com duas canecas. Entregando uma para Lorena, Eduarda encostou-se na parede a sua frente enquanto segurava a sua. Era chá, e Lorena acariciou a caneca com as mãos geladas, deixando o calor penetrar em suas palmas. Afastando os cabelos úmidos do rosto, Lorena pigarreou.

            “Então… há quanto tempo você mora aqui?”

            “Alguns anos. Hum… foi colocado à venda pouco depois de eu e a Teca terminarmos. Me pareceu uma boa na época, e de qualquer forma eu não teria condições de comprar mais sofisticado.”

            "Ah."

            Ela tomou um gole de chá e ficou em silêncio por um momento, olhando ao redor antes de seus olhos voltarem para Eduarda. Abrindo e fechando a boca, Lorena inclinou a cabeça para o lado. "Por que vocês terminaram?"

            “Ah, sabe, simplesmente não deu certo. Ela não queria ficar aqui, principalmente com o quanto o custo de vida subiu, e eu não queria deixar minha família para ir para um lugar novo. Nós queríamos coisas diferentes e nenhuma de nós queria seder”, Eduarda deu de ombros. “E a outra coisa…”

            “Que outra coisa?”

            Eduarda acenou vagamente com a mão enquanto sorria ironicamente. "Ah, você sabe... Acho que passei a vida inteira falando de você, e acho que existe essa... dor no meu peito desde que você se foi e acho que ela simplesmente sabia o que era causa perdida, então..."

            Ela parou de falar, os olhos percorrendo o lugar, erguendo-se para o teto enquanto respirava fundo, o rosto contorcido de dor e um sorriso triste cruzando suas faces. "Eu costumava vir aqui o tempo todo e pensar em você. Eu me perguntava se você também pensava em mim. Você nunca ligou, nunca mandou mensagem, nunca escreveu para mim. Eu pensei que certamente você pensava em mim às vezes, talvez no meu aniversário, pelo menos."

            Lorena soltou uma risada rouca, a garganta apertando enquanto a parte de trás dos seus olhos ardia. "Faria alguma diferença se eu pensasse?"

            Sua voz estava rouca e trêmula quando terminou de falar, hesitante, como se estivesse ponderando a verdade, antes de levar a caneca à boca, engolindo um pouco do chá quente, sentindo uma dor na garganta enquanto precisava forçá-lo a descer. Havia um nó em sua garganta e seus olhos se encheram de lágrimas, e ela mal conseguia ver Eduarda através da névoa, não conseguia ver o olhar de devastação semelhante ao da sua velha amiga, que lutava com suas próprias emoções.

            "Por que você não se esforçou mais? Para me perdoar. Quer dizer... você simplesmente foi embora", disse Eduarda, com a voz embargada pela dor.

            Uma lágrima quente escorreu pela bochecha fria de Lorena, e ela a enxugou, o rosto corando de raiva, vergonha e mágoa. "Eu não tentei nada", admitiu Lorena. "Não liguei, nem mandei mensagem porque eu sabia... eu estava envergonhada do que fiz, mas depois... aí eu simplesmente... eu sabia que teria te perdoado imediatamente. E eu não queria. O que é pior, ser rejeitada ou voltar rastejando depois de ser rejeitada? Eu não queria ser tratada assim por ninguém mais. Nem mesmo por você."

            “Mas como você pôde acreditar em mim tão facilmente?”, perguntou Eduarda, incrédula e perplexa. “Bastaram algumas palavras e você foi embora por doze anos. Isso é o que mais dói. Será que eu realmente não importava? Você pode... simplificar e me dizer que eu nunca importei para você para que eu possa parar de me perguntar...”

            "Claro que você importava. Você importava para mim mais do que qualquer outra pessoa, eu te amava mais do que amei qualquer outra pessoa. Mas você não me amava de volta. E aqui estou eu, doze anos depois, e ainda sou aquela que ninguém ama. E você é quem ficou se perguntando se eu lembrava de você quando foi você quem escolheu me deixar ir? Não vou mentir para você só para te fazer se sentir melhor."

            “Não estou pedindo para você faça eu me sentir melhor. Eu só quero um desfecho. Achei que estava tudo bem, que tudo isso era passado, mas agora você está aqui e trouxe tudo de volta à tona”, Eduarda divagou, enxugando os olhos por baixo das armações de plástico dos óculos. “Tudo parece tão... inacabado. Eu não sei o que você quer que aconteça...”

            Lorena deu uma risadinha discreta. "Eu também não sei o que quero que aconteça. Espero que seja algo que eu não precise processar por mais doze malditos anos. É que... minha mãe está morrendo e nós estragamos nosso relacionamento anos atrás e nada parece certo agora. Eu não sei o que estou fazendo."

            “Eu sei disso, só que... você não pode voltar aqui e arruinar a minha vida.”

            "Você preferiria que eu parasse de falar com você, então?", perguntou Lorena, com um sorriso irônico nos lábios enquanto tomava outro gole de chá.

            “Eu não quero que você pare de falar comigo. Eu nunca quis isso.”

            Murmurando hesitante enquanto tomava outro gole de chá, Lorena ergueu as sobrancelhas com um olhar cético e Eduarda bufou baixinho, olhando para a caneca e tomando um gole da sua. O silêncio foi denso por um instante, o crepitar do fogo e o som da chuva começando a bater no telhado. Encostada na parede, a poucos centímetros de distância, enquanto Lorena se encolhia com o cobertor nos ombros tentando se aquecer, Eduarda abriu e fechou a boca algumas vezes antes de falar novamente.

            “Como foi me deixar para trás?”

            Fechando os olhos, Lorena expirou lentamente enquanto seus ombros caíam. "Eu não sei. Foi horrível. Acho que... você fazia eu me sentir eu mesma, e desde que eu fui embora... eu simplesmente... não me sinto mais eu mesma."

            Eduarda suspirou, um som carregado de anos de amarga tristeza, e virou o resto do chá. Por um instante, ela refletiu sobre as palavras de Lorena como se fossem sal na ferida, antes de estender a mão para pegar sua caneca vazia. Lorena a entregou, cruzando brevemente o olhar com ela, antes de Eduarda se afastar, encerrando a conversa. Ela a ouviu na cozinha, colocando as canecas na pia, e então reapareceu um momento depois com os sapatos de Lorena na mão.

            “Você deveria ir para casa. Ela… não está bem”, murmurou ela, com uma expressão grave no rosto. 

            Assentindo com a cabeça, Lorena calçou os sapatos e os amarrou antes de se levantar. Dobrou a manta, colocou-a sobre o encosto do sofá e passou a mão pelos cabelos enquanto seguia Eduarda até a porta da frente. Saindo, ambas abaixaram a cabeça e foram em direção ao Jeep, estacionado na areia. Entrando com dificuldade, Lorena sentiu o cansaço a atingir em cheio; seu corpo ainda estava gelado, as articulações um pouco rígidas e a conversa lá dentro drenando toda a energia que lhe restava. Com um suspiro cansado, fechou a porta e os olhos, permanecendo sentada ali por um instante.

            Ela sobressaltou-se de surpresa, os olhos arregalados, ao sentir Eduarda se inclinar sobre ela para procurar o cinto de segurança. Depois de colocá-lo no lugar, recuou um pouco e olhou para Lorena antes de pousar a mão em seu ombro e ajudá-la a se recostar no banco, afundando-se sobre ele. Encostando a cabeça pesada no encosto, Lorena contemplou o dia cinzento enquanto Eduarda ligava o carro e saía de sua propriedade. 

            Era um dia escuro, as nuvens carregadas e a manhã ainda relativamente cedo. Havia luzes acesas nas casas pelas quais passavam, o ar quente escapando pelas saídas de ventilação, e Lorena se sentia confortável no banco do passageiro, com uma sensação de familiaridade por estar no carro com Eduarda. Ela havia sido quem ensinara Lorena a dirigir, levando-as para estradas isoladas que contornavam praias remotas onde ninguém se aventurava. Lorena tinha quinze anos na época – agora tinha trinta, e nenhuma das duas era mais quem fora um dia, tanto tempo havia se passado que elas não se reconheceriam, não fosse pela aparência, praticamente a mesma. Sentada no banco do passageiro, Lorena sentiu como se estivesse em outra vida; de que outra forma suas vidas tão diferentes poderiam ter se cruzado?

            Foi uma viagem curta, de apenas dez minutos, e nenhuma das duas disse uma palavra. Eduarda parou na entrada da casa de Zenilda e Lorena desabotoou o cinto de segurança e abriu a porta, com uma perna para fora do carro enquanto se virava no banco para agradecer, com a boca já aberta para dizer isso. Mas não foi isso que saiu; as palavras que ela optara por não confessar ficaram presas na garganta e agora escaparam sem parar.

            "Eu pensei em você no seu aniversário", murmurou Lorena, soltando uma risadinha suave enquanto sorria levemente. "Pensei em você o tempo todo, especialmente à noite, quando não conseguia dormir. As menores coisas me faziam lembrar de você. E ainda fazem." 

            Eduarda olhou para ela, surpresa em seus olhos enquanto seus lábios se entreabriam levemente. Com um sorriso que se intensificou, triste e dolorida, Lorena estendeu a mão e pressionou o dorso dos dedos na bochecha de Eduarda por um breve instante.   

  “Sempre pensei em você, minha quase. Me desculpe por tudo.”

Chapter 11

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

            Elas se encontraram com o advogado na quarta-feira. Lorena abriu a porta para um homem que lhe pareceu vagamente familiar, convidou-o a entrar e o levou até o escritório de sua mãe. Ela ofereceu café e preparou três xícaras antes de se juntar a eles no escritório, optando por ficar de pé enquanto se encostava no canto das estantes de mogno e tomava seu café aos poucos. O ambiente cheirava a madeira e lustra-móveis, e uma luz cinzenta filtrava-se pelas grandes janelas com vista para a entrada de carros e as árvores que margeavam a propriedade. Ela desejou que sua mãe não a tivesse convidado para estar ali; o ar estava abafado e ela sentia um pouco de calor sob a gola da blusa. 

            O advogado tinha uma pilha de documentos e Lorena tentou prestar atenção no início, tomando goles de café enquanto ele explicava as mudanças nos bens de sua mãe e os novos impostos federais sobre herança, que afetavam qualquer valor acima de trinta milhões, dos quais a herança de Lorena estaria acima do limite. Isso era novidade para ela, pois sabia que seus pais tinham empregos bem remunerados e haviam investido muito dinheiro, possuindo vários imóveis, incluindo o apartamento de Lorena em Knightsbridge, mas ela nunca havia atribuído um valor exato à fortuna deles. 

            Enquanto tomava seu café, ela se viu fixando o olhar nos porta-retratos na mesa da mãe. Ainda não sabia quais fotos eram e encarava fixamente o verso das molduras, ignorando o jargão jurídico. Sua mente estava lenta enquanto uma leve euforia a invadia, resultado do Oxypynal que havia pegado emprestado da mãe. Ela o tomara depois de terminar sua corrida, na esperança de aliviar a dor, sentindo as primeiras dores na canela por ter corrido demais, mas havia se esquecido da visita do advogado e agora desejava ter esperado, sentindo-se um pouco tonta. 

            Não que ela tivesse muita participação, tomando seu café e olhando fixamente com um olhar vago, até que eles terminaram e ela se despertou de seu torpor atordoado. O advogado estava de pé, estendendo a mão para ela, falando enquanto Lorena piscava atônita para ele. Lentamente, ela apertou sua mão, um esforço fraco de sua parte, e assentiu em silêncio enquanto ele dizia que entraria em contato no futuro para ajudá-la a executar o testamento. Houve um momento de constrangimento, os três cientes de que, na próxima vez que conversassem, sua mãe estaria morta. 

            Zenilda acompanhou a advogada até a saída e Lorena ficou no escritório, recolhendo xícaras de café e parando para observar as fotos emolduradas. Havia uma do irmão na formatura, uma foto de família do ano em que Lorena tinha seis anos e uma de sua primeira apresentação solo, aos quatorze anos, sem sorrir, vestida com a fantasia de Clara. Havia um leve brilho de poeira no vidro, como se tivessem sido esquecidas, já que sua mãe quase não frequentava o escritório até ser diagnosticada com câncer terminal e obrigada a encontrar algo para fazer em casa. Engolindo em seco, Lorena recolheu a última xícara e saiu.

            Ela lavou as xícaras, enquanto se ocupava na cozinha, preparando torradas e quebrando dois ovos na frigideira para fazer o café da manhã da mãe. Zenilda voltou para a cozinha, pálida e visivelmente frágil, sentando-se em um dos bancos da ilha, incapaz de ficar em pé por muito tempo. Lorena se recusava a reconhecer as mudanças visíveis desde sua chegada: o peso que a mãe havia perdido, a palidez no rosto, a raiz branca do cabelo aparecendo, a necessidade constante de se sentar ou a dificuldade para subir as escadas sem ficar ofegante. 

            "Bem, isso está resolvido", disse Zenilda para quebrar o silêncio, o que Lorena sabia que significava que ela devia estar se sentindo desconfortável, porque sua mãe nunca perdia tempo dizendo o óbvio.

            Ela respondeu com um murmúrio distraído, a torrada ficou pronta e ela a colocou em um prato junto com os ovos. Zenilda olhou para ela enquanto Lorena colocava o prato na mesa com uma faca e um garfo.

            “Onde está o seu?”

            “Não estou com fome.”

            "Você-"

            "Vou praticar", interrompeu Lorena, tirando rapidamente a blusa para revelar o collant rosa claro por baixo. 

            Seus braços se arrepiaram enquanto ela sentia intensamente o frio, e ela contornou a ilha da cozinha, colocando a blusa no balcão e tirando os cigarros e o celular do bolso. Colocando tudo de lado, ela desamarrou a calça moletom enquanto sua mãe a observava, mal conseguindo enfiar os polegares no cós para tirá-la quando Zenilda interrompeu.

            "Lorena", Zenilda disparou com raiva, e sua filha se virou com uma expressão de indignação para ver o olhar chocado da mãe. "Isso está ficando ridículo - consigo ver todas as suas costelas aí dentro."

            Soltando um suspiro pesado, Lorena inclinou a cabeça para trás e revirou os olhos. "Nem começa."

            “Se você saísse com essa roupa, as pessoas pensariam que você está se matando de fome .”

            “Você é muito dramática. É só perda de massa muscular. Eu não tenho dançado tanto ultimamente.”

            “Isso não é perda muscular, pelo amor de Deus, o que há de errado com você?”

            Com as bochechas coradas, Lorena se virou bruscamente, seus olhos verdes acusadores lançando um olhar carrancudo para a mãe. "Por que você se importa?"

            Zenilda soltou um resmungo surpreso, arqueando as sobrancelhas enquanto dava um pulo para trás. "Eu sou sua mãe. É meu dever me importar."

            "É mesmo?" perguntou Lorena, com a voz embargada pelo constrangimento. "Porque nunca senti que você fez isso."

            "Não seja... ridícula", respondeu Zenilda, mas uma tosse rouca a interrompeu enquanto ela cobria a boca com a mão, os ombros curvados enquanto tossia com tanta força que seu rosto ficou vermelho.

             Quando ela afastou a mão, Lorena viu sangue na palma da mão, um frio na barriga enquanto a raiva se dissipava, substituída pelo medo. Com o sangue escorrendo do rosto, Lorena observou a mãe virar a mão, que estava no colo, tentando escondê-la, e rapidamente se aproximou, estendendo a mão para agarrar seu pulso e forçar sua mão de volta para cima. Olhando para o sangue, Lorena prendeu a respiração, os olhos encontrando os da mãe.

            Retirando a mão bruscamente, Zenilda desceu do banquinho e contornou a bancada para lavar as mãos na pia. Lorena a encarou com os olhos arregalados, o coração disparado. Zenilda parecia indiferente, o que só aumentava a preocupação de Lorena, que procurava a mesma expressão de pânico no rosto da mãe, mas encontrou apenas uma resignação sombria.

            “Isso já aconteceu antes?”

            Zenilda não respondeu, dirigindo-se ao armário para pegar um copo, enchendo-o na torneira e tomando um gole para afastar o gosto metálico do sangue. Ela não olhou para Lorena, cuja respiração era curta e ofegante, as mãos cerradas em punhos enquanto sentia um frio arrepio de pavor percorrer seu corpo, dominado um instante depois pela pontada de raiva diante do silêncio da mãe.

            "Mãe."

            Com um gesto de desdém, a expressão de Zenilda endureceu. "Vá embora."

            Parada na cozinha por mais um instante, o rosto inexpressivo de medo, sentindo-se tão jovem e perdida enquanto observava sua mãe morrer lentamente, Lorena lutou com todas as suas forças para reprimir tudo. Depois de alguns segundos, foi como se um interruptor tivesse sido acionado, sua expressão endurecendo enquanto ela rangia os dentes, os olhos carrancudos e os ombros tensos. Sem dizer mais nada, saiu, batendo a porta ao sair, e se trancou na garagem, prolongando o máximo que pôde, acumulando quase três horas de esforço distraído antes que sua mãe aparecesse na porta, encolhida em um roupão, insistindo que já havia praticado o suficiente por aquele dia.

            Após o banho, ela vestiu roupas confortáveis e sentou-se no parapeito da janela enquanto fumava, remoendo sua frustração, com os pés dormentes. lendo ‘poesia completa, volume II’ de Emily Dickinson e espalhando cinzas sobre o peito. Com o tempo, começou a sentir dor de cabeça, o efeito do Oxypynal diminuindo à medida que a tarde se aproximava, e finalmente se moveu para pegar algo para comer, cortando uma maçã verde em fatias e cozinhando dois ovos. 

            Querendo evitar outra discussão, ela considerou brevemente deixar a mãe se virar sozinha, mas estava ficando cada vez mais óbvio que a saúde física de Zenilda estava se deteriorando rapidamente e até mesmo o ato de ficar em pé para preparar o almoço a deixava exausta. Ressentida com a situação, Lorena preparou uma sopa de legumes e levou morfina e água para ela antes de levar a comida para o andar de cima. Batendo na porta, ela conseguiu girar a maçaneta desajeitadamente com o cotovelo e abriu a porta com o ombro, encontrando a mãe deitada sobre os travesseiros em vez de sentada, como de costume. Ela lançou um olhar rápido para a filha antes de voltar sua atenção para o jornal que estava lendo.

            "Aqui está", murmurou Lorena, colocando tudo sobre o criado-mudo para ela.

            "Obrigada", respondeu Zenilda baixinho, o jornal farfalhando enquanto ela o colocava de lado. Lorena já estava quase na porta quando sua mãe acrescentou: "Não se esqueça de comer alguma coisa.”

 

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            Ela tinha quatorze anos quando conseguiu seu primeiro solo, bem a tempo da apresentação de Natal de O Quebra-Nozes. Não era a primeira vez que Lorena se apresentava naquele balé; dois anos antes, ela havia sido uma ratinha, considerada muito jovem para um solo na época, apesar de ser a melhor de sua faixa etária. Achavam-na muito pequena, com apenas doze anos na época, e incapaz de caber na fantasia de Clara. Seu aniversário tinha sido alguns dias antes, e o dia em que a escalação foi anunciada ficou particularmente memorável para Lorena, não pelo motivo da escalação em si, mas porque foi a primeira vez que ela experimentou fumar.

            Ao sair da SPCD depois de terminar as aulas, vestida com seu habitual agasalho, os pés doendo e um pouco constrangida com os cochichos das outras garotas, cheias de inveja e competição, Lorena caminhou pelos corredores, ansiosa para chegar em casa. Fazer amigos não era fácil para ela, com exceção de Eduarda, e sabia que não era muito querida na turma, apesar do pouco favoritismo ou elogio que Arminda lhe demonstrava. Por isso, Lorena ficou feliz que sua mãe tivesse reservado seus voos logo após as aulas, para que ela não precisasse ficar sozinha. Sempre que havia um anúncio de elenco, era um grande dia, então Lorena não se surpreendeu totalmente ao ser seguida.

            “Você é Clara?”

            Lorena olhou para a esquerda enquanto diminuía o passo, ajustando a alça da mochila no ombro enquanto Lucélia a acompanhava. Dois anos mais velha, Lucélia era mais alta, era linda, confiante e extrovertida nas aulas, além de ser uma garota rica, com o pai pagando sua estadia na residência estudantil. Elas dançavam juntas há anos, Lorena sempre à frente de suas colegas, e Lorena podia ouvir a inveja na voz de Lucélia ao saber da notícia que começara a se espalhar.

            "Sim."

            “Claro que sim”, debochou Lucélia, revirando os olhos. “Não sei por que mais alguém se deu ao trabalho de fazer o teste. Acho que você é a dançarina mais nova da nossa turma, então faz sentido.”

            Ela examinou Lorena de cima a baixo, da cabeça aos pés, e franziu os lábios. "Algumas pessoas têm toda a sorte, né? Eu não consegui ser a Clara no ano passado, nem no ano retrasado. Ainda nem tive meu primeiro solo. "

            “Ah, hum… sinto muito.”

            Revirando os olhos, Lucélia tirou um maço de cigarros enquanto se aproximavam da porta da frente do prédio. Ela apagou um e pegou um isqueiro, cobrindo a chama com a mão enquanto segurava o cigarro entre os lábios. Lorena a observava com uma leve ruga entre as sobrancelhas, olhando furtivamente ao redor e depois de volta para a garota mais velha.

            “Você deveria estar fumando?”

            Rindo baixinho, Lucélia guardou o isqueiro no bolso e tirou o cigarro, dando a Lorena um sorriso ligeiramente condescendente. "Todo mundo fuma se quiser continuar aqui."

            "O que você quer dizer?"

            “Eles são muito específicos sobre o que querem na SPCD. Sabe… o corpo perfeito”, Lucélia revirou os olhos. “Talvez você devesse considerar isso também; você não vai ficar tão magrinha por muito tempo. Todo mundo sabe que tem mais chances de se conseguir um bom papel se couber nas roupas.”

             Lorena hesitou por um momento, um sobressalto de pânico percorrendo seu corpo enquanto encarava Lucélia com os olhos arregalados. "Sério?"

            “Hum. Se você não entrar na roupa, eles simplesmente escolherão outra pessoa.”

            “E fumar… ajuda?”

            “Claro? Isso diminui a fome.”

            Observando-a por um instante, Lucélia inclinou a cabeça para o lado e sorriu, erguendo as sobrancelhas sugestivamente. "Quer experimentar?"

            Abrindo e fechando a boca, Lorena mostrou os dentes com cautela, dividida entre o nojo do cheiro, o medo do câncer e a ideia de não caber mais nas fantasias, e a raiva da mãe por seu corpo não estar "certo". Ela ainda estava na idade em que o medo de irritar a mãe superava tudo. Com o pulso acelerado, mudou o peso de um pé para o outro, olhando em volta para se certificar de que não havia mais ninguém observando. Lorena assentiu rapidamente.

            Lucélia tirou o cigarro dos lábios e entregou-o a Lorena, com os olhos ligeiramente semicerrados, desconfiada da sua colega tão certinha. Lorena pegou-o e segurou-o desajeitadamente entre os dedos pequenos, hesitando antes de levar a ponta aos lábios. Já tinha visto pessoas a fumar em filmes ou perto do aeroporto, por isso pensou que sabia o que fazer, mas assim que tragou uma baforada de fumo, começou a tossir.

            Rindo, Lucélia deu um tapinha nas costas dela, e Lorena fez uma careta enquanto afastava o cigarro. Gentilmente, incentivando Lorena a levantar o braço e levando o cigarro de volta à boca, Lucélia revirou os olhos novamente. "Não traga direto. Você tem que deixar na boca por um segundo. Tente de novo."

            Obedecendo docilmente, Lorena deu outra tragada, inalando a fumaça para a boca antes de exalá-la para os pulmões. Ela não tossiu, mas não gostou muito do gosto, e seu rosto se contorceu em desgosto enquanto ela expirava lentamente. Devolvendo o cigarro para Lucélia, ela fez uma careta.

            “Isso aí”, disse Lucélia, aprovando, antes de dar uma tragada e rir. “Você se saiu melhor do que eu na minha primeira vez; eu vomitei em tudo quanto é canto.”

            "Acho que não gostei", disse Lorena, envergonhada.

            “Ninguém fuma porque gosta. Todas fumamos para sermos magras.”

            Movendo o peso de um pé para o outro, Lorena apertou a alça da bolsa com força enquanto abria e fechava a boca por um instante, hesitante, mas com um toque de desespero no olhar. "Onde você os compra?"

            “Os cigarros? Alguns dos alunos mais velhos compram para mim.”

            “Ah. Você... você acha que... eles também vão comprar para mim?”

            Rindo, Lucélia tirou o maço do bolso e entregou para Lorena, antes de pegar o isqueiro e colocá-lo também na mãozinha dela. "Aqui. Veja como você se sai com isso primeiro. Por minha conta."

            Com um sorriso rápido, Lucélia se afastou, jogando a mochila de ginástica no ombro e saindo com a autoconfiança de uma adolescente que se achava experiente e madura, fumando enquanto atraía olhares. Olhando para os cigarros e o isqueiro, Lorena hesitou antes de rapidamente guardá-los na mochila e seguir seu caminho, parando um táxi na rua até o aeroporto.

            O gosto de tabaco na língua lhe causava náuseas enquanto avançavam lentamente no trânsito, e ela pegou sua garrafa de água quase vazia, tomando alguns goles, mas sentindo o gosto rançoso persistir na garganta. Ao chegar ao aeroporto, comprou um chiclete em uma banca para tentar disfarçar o gosto com menta.

            Após o voo, ela caminhou da pista de pouso até em casa, procurando por Eduarda na praia e encontrando-a vazia. Ela estava com frio em seu agasalho e casaco acolchoado, caminhando com dificuldade, mas o esforço de carregar sua mochila logo a aqueceu, e Lorena ficou feliz por finalmente chegar em casa, tirando as roupas e colocando-as no cesto de roupa suja, vestindo roupas de balé limpas e praticando por mais algumas horas dentro da garagem, como previsto. 

            O frio cortante que impregnava o quarto foi rapidamente dissipado pelo controle absoluto que exercia sobre o próprio corpo, e ela permaneceu ali mesmo ao ouvir a mãe chegar em casa. Zenilda abriu brevemente a porta para ver como ela estava antes de deixá-la sozinha. Sua mãe só retornou pelo menos duas horas depois, e uma lufada de ar frio fez Lorena interromper seus ensaios solo enquanto se virava para olhar para a mãe, que estava parada, furiosa, na porta.

            "Onde você conseguiu isso?", perguntou Zenilda, mostrando os cigarros que Lorena havia deixado em sua mochila.

            Por um instante, Lorena ficou sem reação, com as bochechas coradas por ter sido pega em flagrante. Ansiosa, ela abraçou a barriga e olhou para o chão. Cogitou ceder à pontada de raiva por sua mãe ter mexido em suas coisas, mas sabia que isso só irritaria Zenilda ainda mais.

            “Uma menina da companhia me deu.”

            "Por quê?", perguntou Zenilda secamente.

            Lorena deu de ombros levemente e fez uma careta. "Ela disse que todo mundo fuma.”

            “Você entende o quão prejudiciais isso é para você?”

            “Ela disse-“

            Lorena hesitou e ficou em silêncio, mas Zenilda avançou mais para dentro da garagem, segurando o maço de cigarros com força enquanto amassava a caixa em suas mãos. "Ela disse o quê?"

            "Ela disse que isso ajuda a emagrecer", sussurrou Lorena.

            Com um resmungo desdenhoso, os olhos pálidos brilhando de raiva, Zenilda balançou a cabeça. "E você achou que ia escolher o caminho mais fácil, é? Em vez de trabalhar duro, prefere aceitar conselhos de uma garota idiota para facilitar as coisas para você?"

            “Não, eu…” Lorena se esforçou para se defender. “Eu não ia fumar, ela só… ela me deu…”

            "Não minta para mim", retrucou Zenilda. "Eu senti o cheiro nas suas roupas. Você acha que sou tão distraída que não perceberia? Elas estão fedendo a fumaça."

            Com as bochechas corando novamente, Lorena fechou os olhos com força, o rosto se contorcendo de culpa enquanto encolhia os ombros. "Eu só experimentei, eu não..."

            "Vou jogar isso no lixo e vamos esquecer tudo isso por enquanto, mas se eu te pegar fumando de novo, você vai se arrepender amargamente. Entendeu?"

            Lorena assentiu rapidamente com a cabeça, sentindo um alívio percorrer seu corpo, e esticou os tornozelos enquanto evitava o olhar da mãe. Após mais um minuto de silêncio tenso e angustiante, Zenilda finalmente saiu. Com o coração acelerado, Lorena respirou fundo, sentindo a tensão se dissipar, e soltou um pequeno gemido de desânimo. Ela deveria ter agido com mais cautela e prometeu ser mais esperta no futuro. 

            Esperando até que sua mãe fosse dormir naquela noite, Lorena desceu as escadas na ponta dos pés e vasculhou o lixo silenciosamente, tirando o pacote amassado e escondendo-o dentro de um par de meias. Por um longo tempo, as meias permaneceram intocadas em sua gaveta, até que Lorena começou a crescer. A puberdade finalmente chegou, e ela se tornou consciente das mudanças em seu corpo, sentindo pânico e vergonha. Ela sempre fora atenta a certos aspectos de seu corpo e sua aparência, nunca permitindo nada prejudicial à saúde, sempre precisando se manter em forma, mas essa preocupação se intensificou à medida que crescia.

            Ela não era a única; havia algumas meninas assustadoramente magras em suas aulas, todas alguns anos mais velhas que ela, que ocasionalmente causavam problemas médicos e visitas ao hospital. Lorena não se lembrava de nada ter sido feito a respeito, exceto uma vez, quando uma delas foi expulsa por questões de responsabilidade. Parecia quase incentivado que todas compartilhassem dessa fixação doentia com o peso, com a companhia reutilizando os mesmos figurinos belíssimos de balés anteriores, e as bailarinas tendo que se ajustar aos figurinos durante as provas ou se esforçando ao máximo para que coubessem na apresentação. Se não conseguissem, ou os figurinos eram cortados ou o figurino improvisado com uma peça de qualidade inferior, o que era o mesmo que avisar a todos que elas não tinham conseguido se ajustar aos figurinos.

            As refeições também eram públicas, o horário do almoço era passado observando o que os colegas estavam comendo, os professores ocasionalmente apareciam para julgar, fazendo comentários maldosos em sala de aula, fazendo alguns chorarem e outros sendo completamente ignorados. Lorena temia o dia em que seria desprezada, em que se sentiria como um desperdício de tempo e espaço por não conseguir se privar de comida o suficiente. Ela acabou pulando o café da manhã, entregando o dinheiro que sua mãe lhe dava para táxis para comprar cigarros de Lucélia, o que começou ocasionalmente se tornou um hábito, e depois se tornou diário, substituindo o café da manhã por um cigarro enquanto tomava banho pela manhã, e às vezes outro quando chegava em casa. 

            Não era que ela não soubesse que aquilo lhe fazia mal, que era errado se sentir daquela maneira. Todas sabiam que as bailarinas com transtornos alimentares tinham carreiras ainda mais curtas em uma indústria que já não oferecia longevidade; elas adoeciam com frequência, se machucavam facilmente e pareciam exaustas o tempo todo. Eram obcecadas por críticas negativas e nunca conseguiam reconhecer as positivas, colocando muita pressão sobre si mesmas. E embora Lorena estivesse relativamente no início de suas lutas com a autoimagem, que se intensificariam com o tempo, ela já estava mergulhada em uma profunda autocrítica.

            Antes mesmo de completar quinze anos, Lorena já havia ouvido alguns comentários de seus professores sobre seus ombros e quadris, um comentário sarcástico de uma das meninas mais velhas sobre como ninguém queria uma bailarina com o porte físico de um jogador de futebol, e as constantes comparações entre as meninas, a ponto de Lorena começar a se comparar mentalmente a elas também. Ela começou a se preocupar com as críticas da mãe, conseguindo se manter relativamente a salva disso até então, mantendo uma altura perfeitamente normal. Mas havia um número mágico do qual ela se deu conta: qualquer menina com mais de 50 quilos tinha acesso muito limitado a parceiros nas aulas, para proteger os meninos de possíveis lesões. Consciente de que precisava se manter abaixo desse número mágico, Lorena desenvolveu uma obsessão doentia por se pesar quase diariamente na balança do banheiro da mãe, por aprender as calorias dos principais alimentos e, eventualmente, por fumar regularmente o maço que escondia na gaveta de meias, fumando no banheiro com a janela aberta e uma toalha enrolada no corpo para que a mãe não sentisse o cheiro.

 

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            Depois de jantar com a mãe, Lorena sentiu-se inquieta, sufocada e prestes a explodir se Zenilda dissesse algo, mesmo que num tom ligeiramente inadequado. Decidiu então ir a pé até o centro da cidade para tomar uns drinques no Afrodite. Era em momentos como esse que ela preferia estar em Londres, rodeada por uma dúzia de pessoas ansiosas para sair e beber. Ela não conhecia uma única pessoa na companhia de balé que não tivesse algum vício; todos bebiam demais, quase todos fumavam e mais da metade cheirava qualquer droga que aparecesse. Ela já tinha experimentado, claro, quase tudo. Todos os fins de semana do final da adolescência até o início dos vinte anos eram uma névoa de drogas em sua memória, mas nunca tinha gostado muito, deprimida demais para sentir a mesma euforia que o resto da companhia. O melhor que conseguia era uma vaga sensação de paz e vazio, dependendo da droga que usava. 

            Desejando ter tomado algo antes de sair, talvez um dos Zolpidem, ela caminhou até o Afrodite. Eram pouco mais de seis horas e sua respiração formava uma nuvem à sua frente enquanto caminhava, com os AirPods nos ouvidos, ouvindo Rita Lee a caminho da cidade. O som abafado da música a recebeu quando se aproximou da fachada desgastada do bar; tirou os AirPods e respirou fundo o ar salgado antes de empurrar a porta torta e ser atingida pelo calor abafado e pelo cheiro de cerveja velha. 

            Seus olhos pousaram em uma mesa onde estavam Keyla, Íris e alguns amigos. Ela cruzou o olhar com a da policial e acenou educadamente enquanto continuava seu caminho até o bar. Sentando-se em seu lugar de sempre no canto, pediu o de sempre e virou o copo rapidamente antes de pedir outro. Ela se perguntou quantos conseguiria beber antes que Adelson a interrompesse; esperava que fossem mais do que da última vez. Lorena precisava desesperadamente de uma embriaguez completa.

            Depois da quinta dose, as coisas começaram a ficar um pouco nebulosas, um pouco confusas, enquanto ela se entregava ao calor suave da vodca, fumando um cigarro atrás do outro e na sua própria companhia. Eduarda tinha aparecido uma hora antes, entrando com os cabelos despenteados pelo vento e os ombros do casaco acolchoado molhados pela chuva que começara a cair. Lorena a viu entrar e sabia que Eduarda também a viu, mas não tinha certeza se Eduarda tentou chamar sua atenção, pois estava concentrada demais em ignorá-la cuidadosamente. 

            Foi só na sétima vez que Eduarda se aproximou do bar, separadas por dois bancos, esperando para ser atendida por Adelson. Terminando sua bebida, Lorena olhou de soslaio para ela, inclinando a cabeça para o lado enquanto apoiava a bochecha na mão, encarando-a por alguns segundos antes de falar.

            "Ei."

            Eduarda olhou para ela de relance, uma leve surpresa cruzando seu rosto antes de sua expressão se suavizar com um sorriso. "Oi", murmurou ela.

            Gesticulando com o copo vazio, Lorena arqueou uma sobrancelha. "Posso te oferecer uma bebida?"

            Com os lábios franzidos enquanto ponderava por um instante, tamborilando os dedos no balcão com um olhar pensativo, Eduarda assentiu. Abriu um sorriso para Lorena, um sorriso um pouco reservado, mas ainda assim caloroso. "Claro."

            Adelson se aproximou, pegando o copo vazio de Lorena enquanto ela tirava o cartão de crédito. "Poderia me trazer outra vodca com Coca-Cola Zero e um—" olhando para Eduarda, ela ergueu as sobrancelhas.

            “Uma Heineken, por favor.”

            “E uma Heineken, por favor”, repetiu. “Obrigada.”

            Adelson assentiu com a cabeça e já estava colocando gelo em um copo limpo para ela, pegando a garrafa de vodca da seleção no balcão e medindo uma dose. Ele completou com refrigerante e a colocou diante de Lorena enquanto ela o agradecia, pegando um cigarro do maço no bar e colocando-o na boca. Procurando o isqueiro, ela o acendeu e tragou profundamente.

            "Sabe, você realmente deveria considerar parar de fumar", Eduarda disse, apontando para o cigarro.

            Franzindo o nariz, Lorena soltou a fumaça. "Eu sei, eu sei. Vou parar assim que me aposentar."

            “Aposentar? E quando isso vai acontecer?”

            “Não sei. Provavelmente não antes de dez anos.”

            “Dez anos é tempo, dá para muito estrago.”

            “Sim. Mas me ajuda a manter a forma.”

            "Lorena-"

            Revirando os olhos, Lorena deu outra tragada e segurou a fumaça nos pulmões por um instante antes de exalar suavemente. Eduarda abanou o ar delicadamente e agradeceu baixinho a Adelson enquanto ele colocava uma garrafa de cerveja aberta à sua frente. Passando o cartão de crédito, Lorena deu-lhe um sorriso rápido e tomou um gole da bebida.

           "Você deveria se preocupar com a sua saúde", insistiu Eduarda, pegando a garrafa de cerveja e dando um gole rápido enquanto se encostava no balcão.

            “Certo, claro que sim”, respondeu Lorena alegremente. “Preciso me manter em forma e saudável para não me machucar. Que pena seria se eu tivesse que me aposentar cedo.”

            Eduarda soltou um suspiro de arrependimento enquanto seu rosto se franzia em confusão. "Sabe, eu não entendo. Você odiava tanto o balé, e mesmo assim continuava fazendo. Nunca entendi isso."

            “Você disse que não me amava-“

            “Não, eu entendo, só que... o que eu tinha a ver com você escolher o balé? Eu só fiz isso porque não queria que você ficasse por minha causa, mas você poderia ter feito qualquer coisa, ido para qualquer lugar. Você era tão inteligente; acho que você era a pessoa mais inteligente que eu conhecia. Você sempre falava em ir para a faculdade e escrever um livro um dia, e você simplesmente desistiu do que amava para fazer sua mãe feliz.”

            Lorena ficou em silêncio por um longo minuto, apagando distraidamente o cigarro e mordendo o lábio inferior. Sua boca estava seca e ela engoliu um gole da bebida, já com vodca suficiente para ser sincera demais, bêbada demais para se lembrar de mentir. Depois de mais um instante, deu de ombros e pigarreou, olhando para o tapete do bar enquanto girava lentamente o copo suado.

            “Eu passei na FUVEST.”

            "O quê?" Eduarda exclamou, sem fôlego.

            “Eu tinha conseguido entrar na USP. Eu não ia ficar por sua causa, eu ia estudar letras, como sempre disse. Eu…” ela parou de falar e soltou uma risada abafada enquanto encarava o balcão, com os olhos vidrados e uma expressão de dor no rosto, cansada e derrotada. “Eu… eu até comprei um martelo na loja de ferragens. Eu ia quebrar meus pés. Eu ia dizer para minha mãe que ia desistir do balé, que ia para a universidade, e se ela tentasse me impedir… eu ia garantir que nunca mais pudesse dançar.

            Ela soltou outra risada, desta vez rouca devido à dor que se desfez em seu rosto. Levantando a cabeça, encontrou o olhar de Eduarda, percebendo a palidez chocante de seu rosto. "No fim, não precisei contar a ela, porque fui te contar primeiro e... bem, você sabe o resto."

            "Você ia para a universidade?", perguntou Eduarda com a voz rouca, os olhos marejados de choque. 

            “Hum-hum.”

            Abrindo e fechando a boca por um instante, Eduarda a surpreendeu com um olhar angustiado e confuso. "Eu... por que você não foi mesmo assim?"

            Traga mais uma baforada de fumaça, Lorena esfregou os olhos cansados e deu de ombros novamente. "Eu já tinha te perdido. Se eu fosse para a faculdade, ela teria me cortado da mesada. Acho que eu teria ficado bem se ela tivesse me cortado da mesada porque eu ainda teria você, mas... sei lá, eu não teria nada se a perdesse também. Eu não podia perder vocês duas, então... eu cedi, aceitei o que pude. Só que isso teve o custo do meu futuro e, sabe, da minha felicidade e... de tudo isso."

            Hesitante por um instante, com o rosto quase pálido, Eduarda pousou a garrafa de cerveja e se afastou sem dizer mais nada. Confusa, Lorena franziu a testa enquanto apagava o cigarro no cinzeiro e a observava partir. Virando seu drinque de vodca com Coca-Cola Zero, ela refletiu por um momento, encarando a garrafa de Heineken quase intocada. A ideia de colocar sua boca onde a de Eduarda estivera parecia mais íntima do que qualquer uma das coisas que já fizera com outras garotas, e ela estava ocupada pesquisando no Google quantas calorias e carboidratos havia na garrafa quando foi interrompida.

            "Que diabos você disse para ela?", perguntou Keyla, irritada.

            "Hum? Ah, então, estávamos falando sobre a faculdade", respondeu Lorena com uma expressão confusa no rosto. 

            Com um resmungo, Keyla passou a mão no rosto e balançou a cabeça antes de sair. Desistindo da Heineken com base nos resultados do Google, Lorena guardou suas coisas lentamente, agradeceu a Adelson, colocou uma nota de cinquenta no pote de gorjetas e fechou o zíper do casaco antes de passar entre as mesas e sair. Enquanto procurava seus AirPods e o celular, colocando um fone em cada orelha, sua atenção foi atraída pelas duas irmãs mais adiante na calçada: Eduarda visivelmente chateada e Keyla alheia a tudo, puxando seu braço repetidamente, tentando fazer a irmã conversar com ela. 

            O olhar de Eduarda fixou-se em Lorena, que pareceu desabar, o queixo caído enquanto lançava a Lorena um olhar dolorido. Com uma leve ruga entre as sobrancelhas, Lorena colocou outro cigarro entre os lábios e se virou, deixando-as a sós enquanto acendia o isqueiro e caminhava rapidamente para casa, remoendo a conversa, alimentando-se da raiva, do ressentimento e da dor, a dor surda do amor, tudo isso misturado ao medo por sua mãe, ao luto prematuro por sua perda. A respiração ficou presa na garganta enquanto caminhava, o peito apertando, o coração batendo forte enquanto o estômago se revirava em náuseas. 

            Ela se esforçou tanto para se manter firme até chegar em casa, tirando os sapatos e o casaco e seguindo a rotina. Ainda era cedo o suficiente para que Zenilda estivesse acordada, apoiada em algumas almofadas na sala de estar, com um cobertor sobre o colo e a TV ligada nos comerciais. Lorena percebeu que sua mãe não tinha tempo a perder assistindo aos intervalos comerciais, e essa constatação a atingiu com tanta força que lhe tirou o fôlego. Olhando para ela do outro lado do sofá, a expressão de Zenilda se fechou em pesar ao contemplar a triste cena da filha.

            "Gostaria que você conversasse comigo", Zenilda suspirou baixinho.

            O primeiro soluço foi pouco mais que uma respiração entrecortada, mas os olhos de Lorena logo se encheram de lágrimas enquanto ela cambaleava para a frente, apenas anos de dança graciosa a mantendo de pé antes que ela finalmente desabasse de joelhos ao lado da mãe. Enterrando o rosto no colo da mãe, Lorena agarrou punhados do cobertor de cashmere e soltou um som rouco de dor desenfreada, desmoronando enquanto tudo jorrava dela. 

            Surpresa, Zenilda hesitou por um instante antes de pousar delicadamente a mão nos cabelos escuros da filha, observando-a soluçar livremente em seu colo com uma demonstração tão crua de emoção que fez seus próprios olhos lacrimejarem levemente. Lorena nunca havia demonstrado suas emoções tão abertamente com Zenilda, nunca havia recorrido a ela em busca de consolo — nem por um joelho machucado, um dedo do pé quebrado ou mesmo um coração partido — e ambas ficaram chocadas ao vê-la desabar em lágrimas, ansiando pelo conforto da mãe tão perto do fim.

Notes:

gostaram? o próximo capítulo promete

Chapter 12

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

 

            Lorena acordou na manhã seguinte, com os olhos lacrimejando e uma forte dor de cabeça, e permaneceu na cama. Era a primeira manhã que não saía para correr, a vergonha a fez se encolher debaixo das cobertas depois de engolir alguns comprimidos de ibuprofeno e fechar os olhos, na esperança de que o sono voltasse. Mas ele não veio, e ela estava inquieta e com calor, a cabeça latejando, a garganta seca e os olhos coçando. Sentia uma leve náusea, que foi agravada pelo som dos passos da mãe descendo as escadas, vozes abafadas conversando, enquanto ela corretamente presumia que Eduarda havia chegado para sua consulta matinal.

            Esforçando-se ao máximo para não estar em casa ao mesmo tempo, mesmo agora que elas estavam se comportando cordialmente, ou seja lá como se explicasse o estranho relacionamento delas, ela se deitou de costas e ouviu os passos delas ficarem cada vez mais altos na escada. Aguçando os ouvidos, ela ouviu a conversa enquanto encarava o teto, sentindo-se suada e frustrada.

            “É preciso considerar colocar uma cama no andar de baixo. Você não deveria estar subindo e descendo as escadas agora.”

            "Não quero uma cama lá embaixo", respondeu sua mãe secamente. "Vou morrer na minha cama, não numa cama de hospital montada na sala de estar."

            “Zenilda, você mal consegue andar. Ela sabe? O que você já contou para ela?”

            “Ela não quer saber. Que bem isso faria? Ela sabe que estou morrendo; essa é a essência da questão.”

            “Acho que ela merece saber como estão indo seus exames médicos.”

            A mãe suspirou, a voz frágil e derrotada. "Ela nunca está por perto; não está lidando bem com a situação. Achei que ela ficaria bem, mas... tem mais coisas acontecendo e eu não sei como... ela não quer falar comigo. Talvez você..."

            Eduarda soltou uma risada abafada: "Ela também não fala comigo."

            “Hum. Ela sempre foi assim.”

            Lorena teve vontade de zombar daquilo, sua raiva explodindo. Foi sua mãe quem a moldou daquela forma, sempre tão indiferente aos sentimentos, desejos e necessidades de Lorena. Zenilda não se importava em cuidar dela, em abraçá-la quando ela caía, em enxugar suas lágrimas. No máximo, Lorena era erguida e colocada de pé novamente pelas mãos fortes da mãe, com palavras severas dizendo para ela parar de chorar e tentar de novo. Como uma criança criada por alguém tão distante poderia se tornar uma adulta capaz de conversar com ela? Mesmo quando tentava, sempre acabava em discussão, e Lorena sempre teve medo de parecer ingrata. Chegou ao ponto de desistir de tentar, não dizer nada, apenas se tornar ressentida e quieta, o que sua mãe descartava como típica angústia adolescente.

            "Certo, vamos te levar para o chuveiro", Eduarda suspirou baixinho, enquanto seus passos seguiam pelo corredor em direção ao quarto de sua mãe.

            Na cama, tentando dormir, jogando os cobertores para o lado enquanto pressionava as pontas dos dedos contra a testa, engolindo em seco, Lorena respirava devagar. Seu pulso acelerou, a ansiedade de ouvir as pessoas falando dela demorava a diminuir, e ela estava estranhamente fixada no fato de que Zenilda precisava de ajuda para tomar banho, que estava ficando tão fraca que uma enfermeira precisava ajudá-la com isso, preocupada com essa situação, mas também aliviada por não ter que se preocupar em garantir que sua mãe se lavasse e se vestisse todos os dias.

            Ela ficou deitada ali por mais um tempo antes de sair da cama e descer as escadas em passos firmes. Preparando uma xícara de café forte, pegou seus cigarros no aparador e sentou-se na varanda da frente, fumando e deixando a cafeína fazer efeito. Esticou as pernas enquanto pensava, sentindo o ar contra suas bochechas coradas, e ouviu o som de passos descendo as escadas cautelosamente novamente, vozes através da porta fechada. Ignorando-as enquanto se deleitava com a quietude da manhã, Lorena tomou goles de café enquanto tentava prolongar o confronto com sua mãe.

            A quantidade de vodca que ela havia bebido não fora suficiente para apagar a lembrança da noite anterior. Nunca em sua vida ela se comportara daquela maneira na frente da mãe; sua dor era reservada para momentos de solidão. Claro, ela já havia chorado na frente de Zenilda, mais vezes do que gostaria de admitir, mas nunca havia ido até ela em busca de consolo, chorado em seu colo, e não chorava daquele jeito na frente dela há anos. Se se permitisse pensar demais nisso, ficaria mortificada com suas próprias ações, então evitava o assunto propositalmente, fumando enquanto massageava os músculos tensos das panturrilhas.

            Quando a porta da frente se abriu, ela olhou por cima do ombro enquanto Eduarda soltava um grito de surpresa, pressionando a mão contra o peito enquanto suas bochechas coravam. "Nossa, você me deu um susto danado."

            Pegando suas coisas, Lorena se levantou e encarou Eduarda. "O que ela está escondendo de mim?"

            Saindo completamente e fechando a porta atrás de si, a expressão de Eduarda era perfeitamente inocente enquanto ela erguia as sobrancelhas num olhar educadamente inquisitivo. "O quê?"

            Com um sorriso irônico, Lorena se afastou dela, caminhando até o parapeito e pousando a caneca vazia com força sobre a madeira pintada. Passando a mão pelos cabelos, um músculo da mandíbula se contraiu. "Não se faça de desentendida; eu estava na cama, eu ouvi vocês conversando."

            “Ah. Pensávamos que você estivesse correndo.”

            “Não estava com vontade. O que ela não está me contando?”

            Hesitando, Eduarda fez uma careta sem jeito e caminhou lentamente até Lorena. Ela colocou a bolsa no chão e cruzou os braços, o casaco acolchoado farfalhando enquanto se encostava na coluna. "Você deveria falar com ela."

            “Ela quer que você me conte.” Eduarda ficou em silêncio e Lorena soltou um suspiro de irritação, lançando-lhe um olhar severo. “Olha, eu sei que ela está tossindo sangue.”

            Por um instante, Eduarda ficou atordoada e fechou os olhos. Ao expirar, sua respiração ficou suspensa no ar por um segundo. "Os últimos exames de sangue dela não foram muito bons. O câncer está se espalhando. É um tipo muito, muito agressivo. Tossir sangue significa que há sangue ao redor do pâncreas, talvez no estômago ou nos pulmões. Hum... eu sei que dissemos que talvez mais um mês, mas não podemos ter certeza. Vai ser rápido, ela vai piorar muito rapidamente no final. Quando isso acontecer... serão apenas alguns dias, talvez. Não haverá muito aviso prévio."

            "Certo", Lorena disse com a voz rouca e a garganta apertada. "Hum... o que eu preciso fazer?"

            “Bem, minha mãe e eu vamos ajudar com a maior parte disso. Hum… em breve, estarei aqui na maior parte do tempo para garantir que ela esteja bem cuidada. Eu sei que isso não é o ideal para você, mas se você puder estar aqui… ter pessoas queridas por perto, mesmo que seja apenas para sentar ao lado dela e conversar, é um conforto.”

            Lorena esfregou a testa e engoliu em seco. "Tá."

            "É só uma questão de esperar. Minha mãe aumentou a dose de morfina para não sentir dor. Ela pode ficar confusa, mas vai dormir mais. Eu... acho que nas próximas semanas ela não vai conseguir sair da cama."

            Assentindo com a cabeça, Lorena fechou os olhos, sentindo o estômago revirar com um pavor nauseante. Ela sabia de tudo isso, claro, sabia o que viria a seguir e como terminaria, mas era tudo tão confuso. Era difícil ter um relacionamento complicado com a mãe, ressentindo-se de tudo o que ela havia feito Lorena passar, mas sem querer perdê-la. Por tanto tempo, tinham sido apenas as duas, e ela era tudo o que restava da família de Lorena. Independentemente de como as coisas estivessem entre elas, perder a única pessoa que lhe restava era algo difícil de aceitar.

            "Se houver algo que eu possa fazer", Eduarda ofereceu hesitante, "se você precisar conversar... Eu sei que as coisas entre nós estão bem, a oferta está feita."

            Com os lábios tremendo num sorriso, Lorena pressionou as palmas das mãos contra os olhos e ficou parada por um instante. Respirando fundo, soltou um suspiro pesado, pegou a caneca e os cigarros e, virando-se, falou baixinho.

            “Você deveria ir trabalhar.”

            Com a boca semicerrada, Eduarda assentiu com a cabeça e pegou sua bolsa. "Te vejo mais tarde."

            Abrindo a porta da frente, Lorena entrou novamente, fechando-a com cuidado. Jogou os cigarros na tigela de bugigangas e levou a caneca para a cozinha, diminuindo o passo ao avistar a mãe sentada em um dos bancos. Zenilda olhou para ela, pálida e abatida, com os cabelos levemente úmidos nas têmporas e um pijama limpo por baixo do roupão. Sua mão tremia um pouco enquanto ela pousava a xícara de café.

            "Como você está se sentindo?", perguntou Zenilda, um tanto reservada e sem jeito.

            Evitando o olhar enquanto a vergonha a invadia, Lorena caminhou até atrás dela e colocou a caneca na outra extremidade do balcão. "Estou Bem", respondeu secamente. "Como você está se sentindo?"

            "Bem."

            "Você comeu?"

            “Eduarda fez torradas para mim.”

            "OK."

            Ela hesitou por um segundo e então assentiu, ansiosa para escapar. Caminhando em direção à porta dos fundos, destrancou-a e saiu, indo descalça até a garagem. O chão da entrada estava frio e ela encolheu os ombros ao segurar a maçaneta da porta lateral. Ao girá-la, viu que estava trancada. Franzindo a testa, tentou novamente, sacudindo a maçaneta enquanto a porta se recusava a abrir.

            Virando-se, ela voltou para a casa e parou na porta, perplexa. "Você trancou a garagem?"

            "Sim."

            "Por que?"

            “Porque o que você está fazendo não é saudável, e enquanto você não parar, enquanto você não perceber isso, você não vai dançar.”

            Com uma risada ofegante, Lorena passou a mão pelo rosto. "Tá falando sério?"

            “Você vai se machucar.”

            “Claro, óbvio que essa é a sua preocupação. Não podemos deixar isso acontecer, podemos?”

            Com as palmas das mãos batendo no balcão, o rosto de Zenilda ficou vermelho de raiva, o peito subindo e descendo rapidamente. "Chega, Lorena. Não tolero sua imaturidade quando estou me esforçando tanto para te ajudar."

            Lorena franziu a testa. Ela fora uma criança madura, sem espaço para coisas infantis comuns em sua vida de rotina rígida, mas agora, como adulta, sentia-se tão infantil, tão malcriada com a mãe e tão perdida em relação ao rumo de sua vida, de uma forma que nunca sentira na infância, quando tudo estava claramente planejado para ela. Agora, com o apoio dessa rotina injustamente retirada de sua vida, ela não conseguia evitar recorrer a uma birra que não lhe fora permitida na adolescência. Mas birra não tinha graça nenhuma na sua idade; não havia dignidade nela, e ela sentiu a raiva tomar o seu lugar rapidamente.

            “Cuide de si mesmo. Eu sei que está se espalhando, sei que está piorando e não temos muito tempo. Pare de se preocupar comigo e começa se preocupar com você.”

            "Eu já sei o que há de errado comigo", disparou Zenilda, com as bochechas rosadas de raiva e acinzentadas por baixo. "Estou morrendo. Mas você está determinada a ignorar isso ou qualquer problema."

            "Não estou ignorando isso", murmurou Lorena enquanto olhava para o teto.

            Ela quase estremeceu com a franqueza das palavras da mãe, com a maneira clínica e racional como ela falava sobre a própria morte, que não era mais apenas algo que poderiam discutir como um problema futuro a ser resolvido, mas sim algo que estava acontecendo e era muito real. Embora não estivesse ignorando a situação, Lorena a considerava algo para lidar em um mês, mas a gravidade do momento — a mãe tossindo sangue, a respiração ofegante, a rapidez com que estava enfraquecendo e a perda de peso descontrolada — não podia mais ser ignorada.

            “Tudo bem, claro, você não está ignorando, mas também não está exatamente processando a situação.”

            "Eu só... tenho muita coisa acontecendo", Lorena passou a mão nos cabelos, cassando-os de nervoso com a voz fraca

e hesitante. "Então, por favor... me deixe em paz. É melhor assim; é pior quando você se mete.”

 

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            Aos quinze anos, Lorena já estava completamente apaixonada por sua melhor amiga. Ela nunca contou para Eduarda, pois não queria que ela se sentisse mal por sua paixão secreta. Eduarda era sua melhor amiga, sua única amiga, e para Lorena, isso significava tudo, mas não era o suficiente. Ela teria feito qualquer coisa por ela, ansiando por aqueles minutos roubados a sós, observando Eduarda deslizar pelas ondas em sua prancha de surfe, o calor de seus braços ao redor dela sempre que a abraçava forte, levantando-a levemente do chão, e como essa sensação percorria o corpo de Lorena, que a olhava como se ela fosse o sol. Seria óbvio para qualquer um.

            Lorena passava uma semana em agonia só de olhar para Eduarda, o coração acelerado, o olhar tímido nos olhos dela enquanto se provocavam sem piedade, fazendo de tudo para sentir as mãos de Eduarda fazendo cócegas em suas costelas ou entrelaçando seus dedos, sempre de mãos dadas. Para Eduarda, parecia tão natural, uma pessoa carinhosa, sempre buscando a amiga, agarrando seu braço ou sua cintura, jogando Lorena sobre os ombros e correndo pelas ondas enquanto suas risadas ecoavam na água. Ela nunca deu a Lorena a menor pista de que a via como algo além de sua melhor amiga, algo que constantemente era lembrada, mas Lorena não conseguia lutar contra a dor no peito. Às vezes era difícil respirar, sentada com Eduarda, ouvindo um CD que ela havia gravado, a tensão entre elas tão palpável para ela, mas que nunca parecia afetar Eduarda.

            Mesmo quando beijou Eduarda pela primeira vez, Lorena o fez sem pensar, sem nem saber o que se passava na cabeça da amiga, agindo por puro desespero de beijá-la, de ser beijada por ela. Ela nem havia planejado, foi puramente um impulso do momento, quando voltou de São Paulo depois das aulas com chocolates em formato de coração que comprara para Eduarda e foi correr na praia para fazer um pouco de exercício cardiovascular. Ela estava em seu lugar de sempre, claro, surfando sozinha nas águas cinza-aço, e Lorena a observou por um instante, mantendo distância para que Eduarda não a visse. 

            Observando-a flutuar com o balanço do mar, sentada em sua prancha, Lorena sorriu para si mesma, sentindo novamente aquele aperto no estômago e uma dor no peito. Não demorou para Eduarda avistá-la: os braços cortando a água enquanto se preparava para pegar uma onda que se elevava atrás dela, saltando rapidamente para os pés na prancha encerada, joelhos flexionados enquanto deslizava sobre a linha cinzenta. Seu olhar foi atraído por Lorena, que riu ao ver a amiga cair da prancha e emergir um instante depois em meio a um jato d'água.

            Pegando sua prancha, Eduarda foi até a areia, pulando em um pé só enquanto se abaixava para soltar a tira de velcro do tornozelo, arrastando a prancha para a areia antes de correr em direção a Lorena. Preparando-se para o impacto, já resmungando mesmo enquanto ria do abraço molhado que a envolvia, ela sentiu aquele calor reconfortante preenchê-la novamente ao ser momentaneamente erguida do chão.

            “São pra você.”

            Lorena estendeu os chocolates de corações, com um sorriso nos lábios enquanto observava o rosto de Eduarda se iluminar. Ao pegá-las, Eduarda riu, tão animada e vivaz, os cantos dos olhos se fechando e um rubor rosado em seu rosto.

            “Chocolate! Que legal, obrigada!”, disse ela radiante para Lorena, pegando sua mão e apertando seus dedos antes de entrelaçá-los.

            Elas caminharam um pouco pela praia, Eduarda balançando as mãos entrelaçadas de forma brincalhona enquanto ria. Lorena deu um empurrãozinho nela com o quadril e Eduarda a retribuiu com o ombro, ambas trocando olhares de soslaio, disfarçando os sorrisos.

            Parando perto da pilha de pertences de Eduarda, elas se sentaram na areia. Eduarda secou as pontas do cabelo molhado com uma toalha e abriu o zíper da parte de trás da roupa de mergulho, libertando os braços e puxando-a para baixo até a cintura. Lorena sentiu frio só de olhar para ela, mas Eduarda parecia relativamente indiferente, mexendo na embalagem dos corações e entregando um com o polegar. 

            “Agora me sinto mal, por não ter nada pra te dar.”

            "Tudo bem, eu não gosto de doces mesmo", Lorena deu de ombros, com o estômago cheio de borboletas.

            A visão de Eduarda era tão ruim que ela precisava segurar o coração e apertar os olhos para ler as palavras nele sem seus óculos. "Me beije."

            Seu rosto se iluminou com um sorriso quando ela se virou para encarar Lorena. Com um frio na barriga, Lorena hesitou por um instante antes de se inclinar rapidamente, antes que pudesse perder a coragem, antes que pudesse pensar além de seus impulsos. Eduarda ficou imóvel, surpresa quando os lábios de Lorena tocaram os seus em um beijo desajeitado e suave, que durou um momento antes de ela se afastar.

            Com os olhos arregalados e os lábios entreabertos, Eduarda a encarou em silêncio atônito por alguns segundos. A boca abrindo e fechando, as bochechas de Lorena coraram enquanto ela desviava o olhar. "Desculpa."

            "Não, não precisa ficar assim", respondeu Eduarda rapidamente, com as bochechas coradas enquanto olhava para o chocolate em suas mãos.

            Ela colocou um dos corações na boca e estendeu outro para Lorena, que balançou a cabeça, olhando para o colo enquanto torcia a barra do moletom nas mãos. Houve um minuto de silêncio enquanto elas ouviam o som das ondas quebrando e do vento, antes de Eduarda sorrir apreensivamente, lançando um olhar de soslaio para Lorena.

            “Por que fez isso?”

            “Hum… eu só queria saber como era a sensação.”

            “Espere, esse foi... esse foi o seu primeiro beijo?”

            Lorena fez uma leve careta, esfregando a bochecha e dando de ombros com indiferença. "É."

            "Oh." 

            “Foi ruim?”

            “Não, não, foi... não, eu... você…”

            Fechando os olhos e balançando a cabeça, Lorena pressionou as mãos contra o rosto quente. "Por favor, esqueça que eu fiz isso.”

          Levantando-se rapidamente, ela saiu correndo antes que Eduarda pudesse fazer qualquer coisa além de gritar seu nome, lutando para se manter de pé, os ombros curvados em derrota por ter ficado para trás. Terminando sua corrida com as bochechas queimando de vergonha, estremecendo cada vez que pensava nisso, Lorena enxugou a testa na manga enquanto diminuía o passo pela rua em direção à sua casa, se repreendendo enquanto seu peito doía com a intensidade de sua paixão. Ela nem deveria gostar de garotas, muito menos de sua melhor amiga, mas o sentimento havia crescido e crescido, florescendo ao longo dos anos, aquele calor reconfortante em seu peito sempre que estava perto de Eduarda, aquela onda de nervosismo em seu estômago sempre que sua amiga a tocava, fosse um de seus abraços entusiasmados ou a maneira como sempre segurava a mão de Lorena, brincando distraidamente com seus dedos ou cabelo, rindo enquanto praticamente se jogava sobre ela. Isso sempre fazia o coração de Lorena disparar, piorando progressivamente à medida que ela crescia e percebia a gravidade de seus sentimentos.

            Ao se aproximar do final da entrada da garagem, ela tirou os fones de ouvido e parou, ficando estática por um segundo. Sua mãe ainda não havia chegado, mas o pânico tomou conta de Lorena por um motivo diferente. Não adiantava tentar adiar a chegada dela, então ela encolheu os ombros, baixou a cabeça e caminhou em sua direção. 

            "Ei", murmurou Eduarda.

            "Ei."

            “São pra você.”

            Um buquê foi enfiado na frente de Lorena, que olhou para cima, pega de surpresa, com uma expressão confusa no rosto. Eduarda havia trocado de roupa, vestindo jeans justos e uma regata, com os cabelos emaranhados e frisados por causa do mar, e segurava as flores em uma das mãos com uma expressão nervosa no rosto. Olhando para ela, cautelosa e envergonhada, Lorena sentiu o corpo esquentar, o coração disparar e ficou sem jeito por um instante. 

            "Obrigada", murmurou Lorena, estendendo a mão para pegá-las, olhando para as margaridas enquanto um sorriso curvava os cantos de sua boca e as covinhas apareciam em suas bochechas. "Você não precisava fazer isso."

            “Eu queria.”

            "Por que?"

            Eduarda hesitou e então se inclinou, beijando Lorena em resposta. Seus lábios estavam frios e rachados, e ela acariciou a cintura de Lorena, o beijo demorado e suave. Afastando-se alguns instantes depois, Eduarda encostou a testa na de Lorena, a respiração um pouco ofegante enquanto seu nariz roçava a bochecha úmida de Lorena.

            "Não quero esquecer como é te beijar."

            Aquele dia foi o início de algo que elas jamais poderiam desfazer, algo que inevitavelmente levaria a doze anos sem se falarem. Radiante de alívio e felicidade ao ser beijada pela garota por quem já estava apaixonada, Lorena não fazia ideia de que aquele era o começo de tanta dor que estava por vir.

            Mesmo três meses depois, após meses buscando a companhia uma da outra sempre que possível — na garagem, na praia ou no quarto de Eduarda — quando Zenilda as flagrou, quando parecia o fim do mundo, elas não poderiam imaginar que aquilo não seria nada comparado à devastação de um dia se tornarem estranhas. Talvez se sua mãe nunca as tivesse flagrado, as coisas teriam sido diferentes, de certa forma, mas Lorena não tinha como saber disso na época. E, independentemente do relacionamento com Eduarda, foi certamente um declínio abrupto para algo com que ela ainda lutava aos trinta anos, incapaz de falar sobre isso enquanto enfrentava os mesmos problemas que a atormentavam na adolescência, só que de forma ainda mais solitária. Se ela soubesse o quanto tudo mudaria dali em diante, talvez tivesse trancado a porta naquela tarde em que Eduarda apareceu.

            Ela estava mostrando seu ballon para ela, Eduarda estava esparramada no chão de shorts e camiseta, Lorena de collant e meia-calça, praticando enquanto uma camada de suor cobria sua pele. Eduarda frequentemente vinha assistir aos treinos. Assim que os pés de Lorena tocaram o chão, Eduarda sorriu, pegou sua mão e a puxou para frente, envolvendo-a em seus braços enquanto Lorena se remexia.

            “Estou toda suada.”

            "Não me importo", Eduarda riu enquanto a prendia, com as costas de Lorena contra seu peito, e beijava a lateral de seu pescoço.

            Lorena não conseguiu conter o sorriso, revirando os olhos. "Você disse que não ia me distrair desta vez."

            “Não estou. Mas está na hora de uma pausa.”

            A ideia de Eduarda para uma pausa envolvia virar Lorena em seus braços, acariciar seu rosto com a palma da mão e beijá-la lentamente. Com os cílios tremulando, Lorena sorriu, o coração acelerado, o estômago embrulhado de uma alegria nervosa, mesmo depois de tantos meses. Ela nunca perguntou se isso fazia de Eduarda sua namorada, e sabia que Eduarda também estava um pouco nervosa, confessando a Lorena que nunca havia beijado outra garota antes, que não queria que ninguém mais soubesse porque não sabia o que dizer à mãe e à irmã. Lorena entendia isso muito bem, e não queria que Zenilda descobrisse, então ambas evitaram pensar em algo além de duas adolescentes tentando se entender, tateando no caminho, ambas um pouco desajeitadas e tímidas. Elas tinham se saído tão bem até então.

            "Você voltou a fumar", Eduarda suspirou baixinho enquanto se afastava.

            "Foi só um", admitiu Lorena, envergonhada. "Não achei que você fosse notar; masquei um chiclete depois."

            “Eu ainda consigo perceber. Você não deveria fazer isso, não é bom para você.”

            "Eu sei, é que..." Lorena interrompeu a frase com um suspiro suave.

            “O quê?”

            Revirando os olhos, Lorena deu-lhe um sorriso discreto. "Nada. Só coisas de balé."

            "Se você odeia tanto isso, porque simplesmente não para?", perguntou Eduarda, estendendo a mão para acariciar delicadamente o rosto de Lorena e beijando-a suavemente, uma, duas vezes.

            Cobrindo a mão de Eduarda com a sua, Lorena se aconchegou em seu toque enquanto sorria amargamente. "Não quero que ela fique brava. Talvez quando eu tiver idade suficiente para ir para a faculdade. Aí eu conto para ela."

            "Isso ainda está muito longe", protestou Eduarda. "Por que você continua dançando se odeia isso agora?"

            "Não sei", murmurou Lorena, franzindo a testa. "É mais fácil. Minha mãe... só é mais fácil."

            “Você deve fazer o que te faz feliz.”

            Lorena sorriu, estendendo a mão para puxar Eduarda para mais perto pela camiseta. "Você me faz feliz."

            Com uma risada discreta, Eduarda se deixou puxar e a beijou novamente. Elas pararam de falar por um tempo, os sons suaves de Debussy preenchendo a garagem enquanto Lorena se esquecia completamente do ensaio, um erro grave, em retrospectiva. Sua mãe deveria estar no hospital até pouco antes do jantar, então foi uma surpresa quando ela abriu a porta da garagem quarenta minutos mais cedo do que o esperado.

            “Lorena, você-“

            Não havia como esconder: Eduarda deitada de costas, com a mão na cintura de Lorena, que estava sentada ao seu lado, inclinando-se para beijá-la. Elas se separaram tão rapidamente, Lorena se levantando num pulo enquanto Eduarda se endireitava bruscamente, que houve uma breve pausa enquanto Zenilda, em silêncio, assimilava a cena que acabara de presenciar. 

            As duas garotas estavam vermelhas de vergonha, com expressões de culpa, evitando olhar para qualquer lugar, até mesmo uma para a outra. Lenta em sua reação, Zenilda teve o rosto rígido de raiva, seu tom cortante e ameaçador enquanto quebrava o silêncio silenciosamente.

           “Eduarda, acho melhor você ir para casa.”

            Levantando-se rapidamente, Eduarda hesitou por um instante, olhando para Lorena enquanto ela abria a boca e a fechava em seguida, passando o dorso da mão pelos lábios enquanto fazia uma careta. Sem dizer uma palavra, dirigiu-se à porta da garagem e Zenilda deu um passo para o lado para deixá-la passar. Com as mãos cerradas em punhos, o rosto tenso de pânico, Lorena não conseguia falar, a garganta apertada, o calor intenso nas bochechas enquanto a tensão se prolongava por mais alguns segundos. Ela precisava se obrigar a se mover, dando alguns passos à frente enquanto os ombros caíam, uma elegância em meio ao desespero, como uma flor murcha.

            “Mãe, eu-“

            Zenilda nunca tinha levantado a mão para ela antes, não daquela forma, então Lorena não viu o tapa chegando. Sua mãe deu um passo à frente, a mão se movendo tão rápido que Lorena só conseguiu piscar antes de sua cabeça virar bruscamente para o lado, uma breve dor no lado esquerdo do rosto antes de se transformar em uma latejamento quente. Piscando rapidamente, tentando processar o que havia acontecido, sua boca abriu e fechou silenciosamente enquanto lágrimas quentes enchiam seus olhos, uma marca vermelha intensa se formando em sua bochecha.

            “Vai pro seu quarto. Agora.”

            Não houve conversa, nem gritos, e isso era ainda mais assustador para Lorena: a raiva silenciosa da mãe. Ela não contou a Eduarda sobre o tapa, e sua mãe nunca mais o fez, apenas uma vez, mas Lorena jamais conseguiu esquecer.

            Os gritos começaram uma semana depois, quando Zenilda lhe contou que iria para Londres para o curso intensivo de verão da Royal Ballet School. Eram apenas cinco semanas, mas pareceram uma eternidade, como se todo o seu verão fosse desaparecer. Ela sabia que era intencional, que sua mãe teria usado todos os meios possíveis para afastá-la o máximo possível de Eduarda, mas saber disso não fazia diferença. Só fez com que Lorena sentisse mais ressentimento por Zenilda, odiasse ainda mais o balé e se apegasse ainda mais a Eduarda.

 

 

~•~•~•~•~•~

 

 

            Tinha sido um dia perdido. Sem poder dançar, embora Lorena achasse que não demoraria muito para encontrar as chaves da garagem se vasculhasse as coisas da mãe, optou por uma longa caminhada, tentando prolongá-la o máximo possível. As horas que passou fora de casa ainda não foram suficientes, e ela voltou inquieta, lavando roupa, guardando a louça e evitando atrapalhar a mãe. Preparou o almoço para elas, trocou os lençóis, tomou um Alprazolam e pensou em ir ao Afrodite, mas não conseguiu reunir energia nem para se trocar.

            Em vez disso, Lorena preparou um banho, adicionando sais de magnésio, ouvindo Debussy, tomando uma xícara de café enquanto lia ‘As Flores do Mal’ de Charles Baudelaire, virando-as às páginas com os dedos molhados. Ela ficou lá por mais de uma hora, deixando a água morna sair e enchendo com mais água quente, a cabeça girando, sentindo-se um pouco tonta com a água quente que deixava sua pele rosada e a fazia sentir vertigem. Ela sabia que não deveria estar no banho depois de tomar alguns comprimidos, mas seu corpo doía demais e o calor aliviou a dor por um tempo, bom demais para recusar.

            Quando finalmente saiu do quarto, vestiu-se com calças de moletom e um velho casaco com capuz da Royal Ballet Company, preparou outra xícara de café e deitou-se na cama, fumando, desafiando a regra da mãe de não fumar dentro de casa. Nem sequer abriu uma janela, fumando três cigarros seguidos enquanto contemplava a névoa cinzenta que pairava sobre ela, o cheiro de tabaco reconfortante a cada baforada de fumaça. 

            Ela ouviu Eduarda chegar enquanto seu quarto começava a escurecer, pensou em acender outro cigarro, mas apenas ficou olhando para o teto que escurecia gradualmente até se deitar no escuro. De olhos fechados, sentindo o frio entrar pelas janelas, o vento assobiando pelas frestas, Lorena escutou os sons suaves da casa. Ela podia ouvir as vozes baixas de sua mãe e de Eduarda, os passos lentos, o som da chuva começando a cair, o farfalhar das árvores que cercavam a propriedade. Tudo isso a fazia se sentir tão sozinha, tão invisível e despercebida, até que, pouco depois, houve uma batida hesitante em sua porta.

            "Entre", ela disse suavemente.

            A porta se abriu e Lorena pôde ver a silhueta de Eduarda na entrada. Estava escuro demais para distinguir qualquer coisa além disso, e Eduarda hesitou por um instante, também tentando penetrar a escuridão do quarto de Lorena. Sentando-se, Lorena tateou em busca do abajur no criado-mudo, fechando os olhos ao estremecer com a claridade repentina, levando a mão ao rosto para protegê-los da luz. Ela lançou um olhar fulminante para Eduarda, tentando se concentrar em suas palavras.

            “Desculpe, você estava dormindo?”

            “Não, não, eu estava, hum, pensando.”

            “Ah. Hum… você tem um segundo para falar?”

            "Claro", suspirou Lorena, passando a mão pelos cabelos e pegando seus cigarros e isqueiro, levantando-se enquanto os guardava na gaveta do criado-mudo e retirava uma lata de balas de menta, consciente do forte cheiro de tabaco que impregnava seu corpo. 

            Ela despejou duas pastilhas na mão e ofereceu-as a Eduarda, que hesitou, fechando a porta atrás de si e indo até a cama. Estendendo a mão, deixou que Lorena colocasse duas pastilhas em sua palma. Fechando a latinha, Lorena a jogou de volta na gaveta e viu a atenção de Eduarda se fixar nos pacotes de comprimidos, nos frascos laranja e nas cápsulas soltas. Fechando-a rapidamente, Lorena colocou as pastilhas de menta na boca e saboreou a forte sensação de frescor na língua enquanto cruzava os braços sobre o peito. 

            “Como ela está?”

            “Hum? Ah… bem, é… é o que eu te disse esta manhã.”

            “Ah. Então…”

            Eduarda parou diante de Lorena, a cabeça baixa enquanto brincava com a manga da blusa comprida que usava por baixo do uniforme médico. Levou um minuto para que ela falasse, e Lorena a encarou enquanto esperava pacientemente, confusa e apreensiva.

            “Por que você não me falou sobre a USP?”

            Pega de surpresa pela pergunta, Lorena abriu e fechou a boca, em silêncio por alguns segundos antes de dar de ombros com indiferença, os lábios se curvando num sorriso irônico. "Não parecia haver qualquer sentido depois."

            “Mas se você tivesse me dito- ”

            "O quê?" Lorena a interrompeu suavemente. "Que diferença faria?"

            "Teria feito toda a diferença. Você não... eu... por que você não me contou?"

            Piscando surpresa com a exclamação suave enquanto Eduarda se esforçava para expressar sua frustração, Lorena ergueu levemente as sobrancelhas. Ela percebeu um rubor subindo pelo pescoço de Eduarda, um leve brilho em seus olhos, e a testa de Lorena se franziu em confusão. Ela nem sabia como responder.

            Eduarda a encarou por alguns instantes, esperando, o peito subindo e descendo rapidamente, os olhos inquietos enquanto encontrava o olhar de Lorena e depois desviava o olhar para os lábios dela, seus pensamentos inconfundíveis. A boca de Lorena estava seca, as balas de menta se dissolvendo em sua língua enquanto ela não conseguia engolir, e ela se sentia impotente enquanto antecipava o que aconteceria a seguir, a emoção fazendo seu estômago revirar como se ela fosse adolescente novamente. Isso também a aterrorizava, a possibilidade de seu desejo ser correspondido, de que aquilo que existira entre elas tantos anos atrás ainda estivesse lá, sob a culpa, o arrependimento, a dor e a raiva. Ela desejava que não estivesse e não tinha certeza do que queria que Eduarda fizesse.

            Mas quando Eduarda se moveu com repentina urgência, Lorena não a impediu. Não desviou o olhar como Eduarda fizera no carro, apenas fechou os olhos ao sentir mãos quentes acariciando seu rosto. Era um beijo voraz, desesperado e intenso, e Lorena sentiu-o percorrer todo o seu corpo até os dedos dos pés. Se pudesse emitir um som, teria sido um ruído tão descaradamente necessitado que a teria mortificado, amolecendo sob os lábios de seu primeiro e único amor enquanto algo se quebrava dentro de seu peito. 

            Foi um beijo rápido, impulsivo e apressado, que terminou muito depressa. A boca de Eduarda se separou da de Lorena, sua respiração ofegante, e seus olhares se encontraram por um instante antes que ela rapidamente retirasse as mãos e percebesse a gravidade do que havia acontecido. Nenhuma das duas sabia o que dizer, e a boca de Eduarda abriu e fechou por um momento antes de Lorena balançar a cabeça, implorando que ela permanecesse em silêncio. Com os olhos arregalados e o rosto empalidecido pelo pânico, Eduarda deu um passo para trás, virou-se e caminhou em direção à porta, deixando Lorena sozinha enquanto a observava partir, os dedos subindo para tocar seus lábios formigando.

Notes:

quando você acha que não dá pra zenilda ficar mais detestável ela vai lá e bate na lorena

Chapter 13

Notes:

(See the end of the chapter for notes.)

Chapter Text

            Nos dias que se seguiram ao beijo, Eduarda evitou Lorena. Ela sabia disso porque Lorena não acordava mais ao raiar do dia para correr e voltar cedo para dançar o dia todo, então Lorena percebia a chegada de Eduarda todas as manhãs, ouvindo-a entrar com uma chave que Zenilda devia ter lhe dado, o som abafado de sua voz enquanto subia as escadas e batia na porta de Zenilda, entrando em seu quarto para ajudá-la a tomar banho e se trocar, verificando seu pulso e pressão arterial e tudo mais que seu exame médico envolvia. 

            Ela voltaria naquela mesma noite, direto do seu turno, e Lorena chegaria da sua caminhada, ouvindo-a dentro de casa enquanto permanecia no quarto, fazendo exercícios de Pilates em silêncio, tentando compensar a falta do balé. Seus pesos e faixas de resistência também estavam trancados na garagem, mas Lorena se virava, com uma toalha no chão no lugar do colchonete de ginástica, atenta aos passos cansados da mãe.

            Eduarda não bateu na porta de Lorena nenhuma vez, e Lorena presumiu corretamente que estava sendo evitada. Isso não a incomodava muito, ou era o que ela dizia a si mesma enquanto repassava o beijo repetidamente, atormentada por ele enquanto tentava se convencer de que não a queria de jeito nenhum, nem mesmo para conversar. Era confuso, além de uma situação já ruim, mas Lorena não sentia muita coisa, consumindo os analgésicos de Zenilda em um ritmo constante, porém imperceptível, ou pelo menos era o que ela esperava, engolindo-os e passando o dia em um torpor.

            Sua mãe era sua única companhia, e elas eram péssimas nisso. Zenilda assistia reprises de sitcoms antigas com risadas gravadas e estridentes, enquanto Lorena sentava no chão e pintava as unhas dos pés para se distrair, aproveitando a oportunidade agora que não estava dançando. Sua mãe tossia de vez em quando, e Lorena a flagrava discretamente limpando o sangue dos dedos, o rosto pálido, e fingia não notar porque a mãe não queria que ela percebesse. A ansiedade a envolvia com uma sensação gélida de pavor, mas Lorena não tinha muita escolha a não ser suportá-la.

            Às vezes, elas conversavam, sobre nada importante, mas a mãe trazia à tona lembranças, fazia perguntas sobre coisas que tinham acontecido há muito tempo, das quais Lorena quase havia esquecido, indagava sobre outras bailarinas da companhia e discutia quais tinham sido suas apresentações favoritas de Lorena, quais balés ela detestava, qual tinha sido seu balé preferido na juventude. Era o mais perto que conseguiam chegar da paz, insatisfatório, mas tão cheio de potencial que Lorena ressentia amargamente o fato de que só perto da morte iminente da mãe elas puderam ser assim uma com a outra. Quase lhe dava vontade de gritar, só para ter um mínimo de normalidade em seu relacionamento.

            Lorena quase se esqueceu completamente do Natal até que sua mãe mencionou que iriam passar na casa de Violeta. As duas discutiram acaloradamente enquanto Lorena tentava desconvidar-se, e Zenilda insistia em estar presente em seu último Natal. Zenilda pediu a Lorena que comprasse outra torta de chocolate com nozes-pecã na padaria pela manhã e garrafas de bebida alcoólica para todos como presentes. Lorena, então, tomou a liberdade de dirigir a Mercedes até Iguape e comprar um pijama novo e um roupão para a mãe. O que mais ela poderia comprar para alguém que estava a poucas semanas da morte? Qualquer outra coisa seria inútil.

            Elas não tinham árvore de Natal em casa, e nunca tinham tido, pelo menos que Lorena se lembrasse. Ela se perguntava se alguma vez houvera uma naquele primeiro Natal, mas tinha certeza de que não. Sempre havia presentes, é claro, pilhas coloridas embrulhadas na sala de estar, mas não havia nada da magia do Natal. Ela embrulhou o presente da mãe no quarto enquanto uma panela de sopa fervia no fogão, deixando o presente no quarto e indo servir o jantar para elas.

            Durante a última semana, Zenilda parou de jantar à mesa, contentando-se em comer no sofá ou quando Lorena lhe trazia algo para o quarto. Mover-se pela casa com tanta frequência a cansava cada vez mais rápido, e o máximo que fazia era ir ao banheiro ou tentar preparar um chá ou café, que Lorena invariavelmente fazia para ela, mandando-a de volta para o sofá. Com sua própria tigela de sopa no colo, Lorena mexia a colher e navegava no celular enquanto Zenilda ligava a TV sem dizer uma palavra.

             "Vou subir. Você vai subir?" Lorena perguntou à mãe assim que terminaram de jantar.

            Ela se levantou, guardando o celular no bolso e ajeitando as almofadas decorativas. Zenilda tentou se erguer sozinha, soltando um gemido de dor na garganta, e Lorena se aproximou, segurando suas mãos e a ajudando a se levantar. Com o corpo levemente desequilibrado, Zenilda precisou ser acompanhada até a escada pelo braço firme da filha. Agarrando-se ao corrimão, Zenilda subiu cada degrau com dificuldade, enquanto Lorena a segurava pacientemente e a mãe insistia que ela estava bem. Sua respiração estava ofegante e o rosto pálido, denunciando o esforço. 

            Ajudando-a a chegar ao quarto, Lorena a acomodou na beira da cama e Zenilda afundou nos travesseiros, as pálpebras se fechando lentamente. Cobrindo-a com os cobertores, Lorena reprimiu a crescente preocupação enquanto observava o rosto da mãe, tenso de dor, magro e pálido.

            "Você quer que a TV seja ligada?", ela murmurou.

            "Não", respondeu Zenilda sem fôlego, com uma tosse rouca no peito. 

            As bochechas coraram pelo esforço enquanto uma crise de tosse a acometia, e Lorena desapareceu no banheiro para encher o copo d'água que ficava no criado-mudo e pegar um lenço umedecido debaixo da pia. Colocando o copo sobre a mesa, Lorena sentou-se na beirada da cama e pegou as mãos da mãe, limpando o sangue. Zenilda manteve os olhos fechados, o maxilar cerrado, altiva por ter sido obrigada a engolir o orgulho. Sua mãe não era uma mulher frágil, e Lorena sabia o quanto devia tê-la consumido por estar tão doente.

            Ela a fez engolir um pouco de morfina e beber o resto da água antes de apagar as luzes e deixá-la dormir. Voltando para o seu quarto, Lorena fechou a porta suavemente e caminhou de um lado para o outro por um tempo, os pés calçados com meias em silêncio no chão enquanto fumava com a janela aberta, o ar frio dissipando o cheiro de fumaça e fazendo-a estremecer. Indo para a cama cedo, ela lutou para dormir, bem depois da meia-noite, quando finalmente conseguiu adormecer.

            Era meio da manhã quando ela acordou, o dia estava escuro e sombrio enquanto a chuva batia forte nas janelas, e ela sentia como se não tivesse descansado nada. A visão do presente embrulhado da mãe aos pés da cama, esquecido quando ela foi dormir, lembrou-a de que era Natal. Lorena não teve pressa, fumando perto da janela aberta, checando o celular, abrindo mensagens de outros dançarinos — principalmente Maggye, Lucélia e Jack — antes de descer as escadas. 

            Sua mãe não estava no sofá nem na cozinha aberta, então Lorena bateu na porta fechada do escritório. Mesmo doente, ela sabia que a mãe se recusaria a ficar na cama até que fosse inevitável. Sua suposição se confirmou um instante depois, quando ouviu a voz da mãe. Ao abrir a porta, observou-a mexer em alguns papéis, escondendo-os da vista de Lorena ao colocar uma das pastas pretas idênticas que enfeitavam as prateleiras de baixo sobre as páginas. Limpando a garganta, Zenilda ergueu as sobrancelhas enquanto apoiava o queixo na palma da mão.

            Com um gesto expressivo, Lorena ergueu o presente embrulhado. "Feliz Natal."

            “Ah. Certo, certo, Feliz Natal.”

            Em seguida, ela colocou o presente sobre a mesa e foi até a cozinha, preparando café para as duas enquanto deixava a mãe abrir sozinha, odiando o constrangimento da situação. Ela podia ouvir o farfalhar silencioso do papel de embrulho enquanto mexia o café, o tilintar da colher na borda das canecas, e esperou mais um minuto antes de voltar para o escritório, colocando uma das xícaras sobre a mesa.

            "Obrigada", disse Zenilda, passando os dedos pelo tecido grosso do robe.

            Lorena assentiu com a cabeça e sua mãe bateu levemente na tampa de uma caixa fina e embrulhada sobre a mesa. "Receio que você terá que esperar algumas semanas pelo outro", disse ela a Lorena com um sorriso irônico.

            Com o rosto contorcido por uma expressão cautelosa, Lorena pegou o presente e rasgou o papel, revelando uma caixa fina com a marca Burberry estampada na tampa. Era um cachecol de cashmere no clássico xadrez bege da marca, e ela agradeceu à mãe enquanto o tirava da caixa, desdobrando-o em sua mão.

            "Para os seus passeios", foi tudo o que sua mãe disse com um aceno breve de cabeça.

            Houve uma pausa e Lorena pigarreou. "Você já tomou café da manhã?"

            Zenilda fez questão de olhar para o relógio. "Já é quase meio-dia. Sim, eu já tomei café da manhã. Você deveria tomar café da manhã ou almoçar."

            “Vou trazer uma sopa para você.” Zenilda assentiu e Lorena ficou por perto. “A que horas vamos para a casa da Dra. Fragoso?”

            “Ela disse para chegarmos lá às quatro.”

            "OK." 

            Hesitando por mais um instante, segurando o cachecol na mão, sem saber o que dizer ou fazer, tendo passado todos os Natais sozinha desde os dezenove anos. Consciente de que aquele era o último Natal de Zenilda, ela não sabia se deveria se esforçar para passar um tempo com ela, ou se deveriam tratá-lo como qualquer outro dia e fingir que estavam juntas indo à casa de Violeta. De qualquer forma, o Natal já estava quase na metade, então Lorena presumiu que valia a pena ser gentil o suficiente para tentar.

            "O que você está fazendo?"

            “Estou analisando alguns documentos”, respondeu Zenilda, evasivamente.

            “Ah, então, precisa de ajuda?”

            A resposta da mãe foi tão abrupta que Lorena ficou surpresa com a rispidez. "Não. Não, não é nada com que você precise se preocupar."

            Uma expressão de perplexidade e descontentamento cruzou o rosto de Lorena, e ela bufou baixinho. "Tudo bem, então eu vou... trazer a sopa."

            Ela tomou um gole de café e saiu do escritório, indo até a cozinha, onde serviu sopa em duas tigelas, enchendo a da mãe e ficando apenas com uma pequena porção para si, antes de colocar a da mãe no micro-ondas para esquentar enquanto jogava fora a embalagem do cachecol. Tomando café enquanto o zumbido do micro-ondas preenchia a cozinha, ela segurou o cachecol em uma das mãos, passando o polegar sobre a maciez da caxemira, e se perguntou que presente sua mãe deixaria para ela receber depois de sua morte.

            Levando uma tigela de sopa para Zenilda, ela observou a mãe virar um pedaço de papel para esconder o conteúdo. Resistindo à vontade de revirar os olhos e de dizer à mãe que, de qualquer forma, seria ela quem se livraria do acervo da biblioteca depois que morresse, então não adiantava esconder nada, Lorena pousou a sopa.

            "Estarei lá em cima se precisar de mim."

            "Obrigada."

            Em seu quarto, Lorena tomou sua sopa e passou as três horas seguintes se exercitando, trabalhando silenciosamente diferentes áreas do corpo com agachamentos, afundos, abdominais, pranchas e flexões. Sua mãe entrou enquanto ela fazia flexões sobre a toalha estendida no chão, e Lorena se levantou, o rosto brilhando de suor enquanto respirava com dificuldade. Zenilda franziu a testa, olhando para a toalha e depois para a filha.

            "O que você está fazendo?"

            “Flexões.”

            "Flexões?"

           "Só alguns exercícios."

            Abrindo e fechando a boca, os cantos da boca de Zenilda se contraíram em desaprovação. "É Natal."

            “Tá, e daí?”

            “Você estava fumando aqui?”

            "Não", mentiu Lorena, dando de ombros.

            Suspirando, fechando os olhos e balançando a cabeça, Zenilda esfregou a testa, apoiando-se pesadamente no batente da porta. "Só... se arrume. Vamos nos atrasar."

            “Você disse que tínhamos que estar lá às quatro; são três e meia.”

            “Eu disse que temos que estar lá às quatro. No máximo.”

            "Tudo bem", suspirou Lorena, fazendo um gesto de desdém. "Vou me arrumar."

            “Vou esperar lá embaixo.”

            Após um banho rápido, Lorena escovou os dentes e o cabelo, vestindo uma blusa verde escuro sem mangas e uma calça preta com risca de giz. Apressada, borrifando perfume e passando protetor labial, pegou o celular e fumou um cigarro escondida na janela antes de deixar o maço no quarto. Tomou dois comprimidos de ibuprofeno e desceu as escadas. 

            Zenilda estava esperando na sala de estar e Lorena foi buscar a torta e as quatro sacolas de presente com garrafas de vinho, pegando as chaves do carro e calçando os sapatos antes de abrir a porta da frente. Ela conseguiu colocar tudo no carro e voltar para buscar a mãe antes mesmo de Zenilda trancar a casa, fazendo isso por ela e depois a guiando lentamente até o carro.

            Foi uma viagem rápida e Lorena estacionou em frente à casa da Violeta, ajudando a mãe a sair do carro. Ela já não se opunha mais à necessidade de ajuda para isso, e Lorena sentiu a mão de Zenilda apertar-lhe com força enquanto se apoiava nela. A porta da frente abriu-se e Lorena olhou para cima, vendo Eduarda descer correndo os degraus para ajudar, carregando o peso de Zenilda e guiando-a com facilidade. Ao soltá-la, Lorena remoeu o ressentimento por um instante, pensando que não era boa em cuidar da mãe, que não servia para nada além do balé. 

            Pegando a torta no carro e as quatro sacolas de presente, ela as seguiu até a porta da frente e entrou. O cheiro de pão a atingiu primeiro, seguido pela visão das guirlandas no corrimão da escada e um pequeno presépio na mesa de apoio no corredor. A casa estava aconchegante e Lorena tirou os sapatos enquanto equilibrava cuidadosamente a caixa branca em uma das mãos, vislumbrando Eduarda ajudando Zenilda a se sentar em um sofá através da porta da sala de estar.

            “Oi”, Keyla a cumprimentou quando ela entrou na sala de jantar e lançou a Lorena um olhar avaliador. “Precisa de ajuda?”

            "Hum, obrigada", murmurou Lorena enquanto Keyla pegava a caixa da torta.

            "Geladeira?"

            “Sim, por favor.”

            Violeta apareceu então, dobrando um pano de prato nas mãos, com a expressão iluminando-se. "Lorena! Feliz Natal."

            “Feliz Natal, Dra. Fragoso”, ela a cumprimentou baixinho, segurando duas sacolas de presente em cada mão. “São da minha mãe.”

            “Obrigada, querida.”

            Ela pegou os presentes de Lorena e os entregou às outras garotas, que agradeceram, antes de Lorena se ver sentada em frente à mãe na sala de estar decorada, com uma xícara de café aquecendo suas mãos, já que havia recusado a oferta de vinho. Eduarda murmurou um "olá" baixinho ao se encontrar na mesma sala que Lorena, incapaz de evitá-la, mesmo com as bochechas coradas. Ela vestia jeans escuros, uma regata branca e uma jaqueta verde por cima, passando as mãos ansiosamente pelas coxas enquanto se sentava ao lado de Zenilda e encontrava os olhares de Lorena, sem revelar nada em particular. 

            Iris falava longamente sobre a decisão dela e de Keyla de adotar, enquanto Lorena ouvia educadamente, sem dizer muita coisa. Quando lhe perguntaram o que achava de ter filhos, Lorena quase deu uma risada alta, certa por um momento de que estava brincando, antes de gaguejar uma resposta surpresa, dizendo que achava que não queria. 

            "Você está saindo com alguém?", perguntou Iris, inclinando a cabeça para o lado enquanto se inclinava para pegar sua taça de vinho.

            Lorena viu o olhar da mãe, pelo canto do olho, desviar-se para o seu rosto, curioso com a resposta, enquanto interrompia a conversa com Eduarda. Também percebeu o olhar pálido de pânico quando Eduarda se deu conta, por um instante, de que Lorena estava com outra pessoa, perdendo o fio da meada enquanto aguardava a resposta. Limpando a garganta, Lorena tomou um gole de café e esfregou a nuca, detestando a atenção enquanto encarava a árvore de Natal, inquieta.

            “Não. Não, eu... não estou saindo com ninguém. Estou muito focada no trabalho.”

             Era uma desculpa esfarrapada, mas não totalmente mentira. Ela estava focada no trabalho, mas isso era mais uma forma de preencher sua vida vazia, sem nenhum relacionamento, nem amizades realmente satisfatórias. Pelo menos o balé ocupava uma boa parte do seu dia, e o tempo restante era gasto se preparando para a quantidade de dança que praticava. Entre viagens de ida e volta ao teatro, consultas de fisioterapia, sessões de academia, banhos de magnésio e massagens para recuperação. Era incrível como se podia preencher um dia com tanta coisa sem fazer. Até mesmo as compras no supermercado para as refeições simples que preparava, maços de cigarro ou garrafas de vodca, consumiam um bom tempo. Tudo isso contribuía para uma vida bastante insatisfatória.

            “Certo, você deve estar muito ocupada”, concordou Iris prontamente. “Quantas horas por dia você pratica?”

            “Depende da época da temporada. Hum, na semana de ensaios, são pelo menos oito horas, começando com uma aula de aquecimento de uma hora e meia com toda a companhia. Depois, geralmente incluo algum treino de musculação ou resistência. Talvez dez horas por dia, mais ou menos. Na semana de ensaios técnicos, hum, essa é a semana que antecede a estreia, são dois ensaios gerais por dia, e durante a temporada, tenho uma aula de aquecimento, três horas de ensaio pela manhã e a apresentação à noite. Depois que a temporada termina, tudo recomeça, ou às vezes tenho uma ou duas semanas de folga, então faço algum treinamento cruzado ou simplesmente mantenho as aulas em dia. Às vezes, viajo para algum lugar para dançar como convidada.”

            Iris pareceu um pouco intimidada com a perspectiva de tanto exercício. "É um pouco intenso, não é? E você faz isso desde criança?"

            “Bem, não era tão extremo quando eu tinha quatro anos”, disse Lorena com um leve sorriso. “Começou a piorar um pouco quando eu tinha dezesseis. Hum, eu estudei em Londres nos últimos anos. Eles tinham um programa vocacional e depois um programa pré-profissional quando eu fiz dezoito. Foi aí que consegui meu primeiro contrato profissional com o Royal Ballet.”

            "Você deve adorar", disse Iris com uma expressão impressionada no rosto.

            Soltando um risinho discreto de divertimento, Lorena cantarolou, com um sorriso forçado. "Sou boa nisso."

            Ela conseguiu direcionar a conversa para o trabalho de Iris, ouvindo-a falar sobre seus alunos, sobre o financiamento insuficiente do governo e o número cada vez menor de alunos à medida que as famílias eram forçadas a sair da cidade. Lorena perguntou se elas ficariam em Ilha Comprida depois da adoção, e Iris prontamente insistiu que não iriam a lugar nenhum, apesar de sua mãe e sua irmã terem se mudado para outros lugares desde que Lorena havia partido. 

            A conversa fluiu enquanto Keyla entrava, e então Eduarda foi ajudar a mãe, e depois Violeta chegou, sentando-se por um tempo enquanto conversava com Zenilda. Todas entravam e saíam, o cheiro de comida preenchendo a casa, o calor deixando as janelas aveludadas, e Lorena estava com vontade de beber algo ou fumar um cigarro, pensando se não deveria ter tomado algo mais forte do que ibuprofeno antes de vir. Suas mãos estavam suadas e ela se sentia desconfortável em uma casa com pessoas que claramente se amavam, a facilidade da conversa, o jeito como as mãos de Violeta sempre tocavam os braços, as costas ou os ombros de suas filhas e de Iris, o jeito como Keyla olhava para a esposa, a ternura entre elas. Na cozinha, quando saiu da sala de estar e do desconforto de estar sentada com a mãe e Eduarda, ela viu Keyla acariciar a bochecha de Iris, como se virou para ela para um beijo, interrompendo a delicada intimidade entre elas, e sentiu uma pontada de inveja.

            Lorena não conseguia nem descrever o mal-estar que sentia, aquela saudade angustiante de algo que ela se recusava a admitir que queria. Em Londres, sempre tinha a oportunidade de se sentir superior, de ser solteira e livre, fazendo o que bem entendesse sem ninguém para a inibir. Mas não tinha ninguém com quem acordar nem com quem adormecer, e Lorena fingia que isso a fazia sentir-se livre, mas na verdade era apenas solidão.

 

~•~•~•~•~•~

 

            O programa intensivo de verão durava cinco semanas, mas Zenilda conseguiu que as duas embarcassem num avião uma semana antes do início. Elas tinham discutido sem parar durante duas semanas, a casa cheia de gritos, o irmão dela de volta da faculdade, mantendo-se cautelosamente afastado. Lorena tentou de tudo, insistindo com a voz rouca que não iria, os olhos vermelhos e inchados enquanto implorava e suplicava, recusava-se a praticar, precisava ser carregada até o carro por Léo para ir às aulas na casa da Arminda, onde ficava sentada, carrancuda e desafiadora, enquanto a paciência da professora se esgotava. 

            Lorena saia de casa sorrateiramente de manhã cedo, indo para a casa de Eduarda. Sua amiga a levava escondida até o quarto, onde Lorena se aconchegava na cama estreita e dormia encostada em suas costas. Ela chorou muito em diversas ocasiões, e Eduarda acariciava suas costas, enxugava suas lágrimas e beijava seus cabelos enquanto tentava confortá-la, dizendo que seriam apenas algumas semanas, que tudo acabaria num piscar de olhos. Elas sabiam que Lorena não teria escolha, não importava o que quisesse, e Eduarda não fingia o contrário. 

            No fim, Lorena estava em um avião ao lado da mãe, com fones de ouvido, braços cruzados sobre o peito e os olhos ainda vermelhos de tanto chorar naquela manhã. Léo as levou até a pista de pouso e a abraçou para se despedir com um sorriso rápido, dizendo para ela se comportar e que a veria quando voltasse. Lorena não sabia na época, mas aquela seria a última vez que veria o irmão vivo. 

            O voo não foi muito longo, embora tenha sido o mais longo que ela já fizera, e Londres estava úmida e um pouco nublada quando pousaram em Heathrow. Elas não conversaram durante todo o voo nem no trajeto até o hotel; Lorena permaneceu silenciosa e irritada, recusando-se a responder a qualquer tentativa de Zenilda de conversar com ela. Sua mãe, porém, não se incomodou com o silêncio emburrado da filha, contentando-se em ignorá-la também. 

            Durante a semana anterior ao início do programa, elas dividiram um quarto de hotel, discutindo cada vez mais enquanto Lorena jurava que não iria, que não se importava com o que Zenilda fizesse, mas que não sairia do quarto. Ela rasgou buracos em suas meias-calças e cortou mechas irregulares do cabelo com uma tesoura de unha, enquanto a recepção ligava reclamando do barulho de outros hóspedes que gritavam. Só ameaças funcionaram para fazê-la ir para a Upper School em Covent Garden, onde os alunos ficavam hospedados durante o programa intensivo de verão e durante o período letivo. Lorena sabia que sua mãe também não faria ameaças à toa, e acreditou de verdade quando Zenilda disse que a mandaria embora para sempre se ela não fosse às aulas. A ideia de não ver Eduarda por mais de seis semanas foi a única coisa que a fez cooperar no final. 

            Mesmo assim, ela precisava de um responsável morando no Reino Unido para poder frequentar as aulas, e sua mãe tinha uma velha amiga da SPCD chamada Xênica, que dava aulas de balé no Scottish Ballet, e pediu a ela que fosse a responsável por Lorena pelas próximas cinco semanas. Isso significava que sua mãe tinha que enviar o passaporte de Lorena para Xênica por precaução, caso ela fosse esperta o suficiente para tentar voltar para Ilha Comprida assim que Zenilda a deixasse lá. Lorena nem se despediu da mãe quando Zenilda a deixou com uma mala cheia de roupas novas de balé e um cartão de transporte com um pequeno saldo para despesas. Não foi uma despedida calorosa e a única coisa boa de estar em Londres era estar a meio mundo de distância da mãe.

            Havia dezenas de outros alunos participando do programa de verão, todos com pais desembolsando milhares de libras para lhes dar uma vantagem em um campo tão competitivo. Muitos deles eram alunos permanentes da Royal Ballet School, já se conheciam, com rivalidades e alianças já formadas, e Lorena era a mais jovem, com apenas quinze anos, presa em uma turma de jovens de dezesseis a dezoito anos por conta de algo que sua mãe tivesse feito para colocá-la lá. 

            Ela também não se sentia especial ali, sabendo que em certo nível — um nível profissional, como o de algumas das alunas mais velhas — a técnica de todas era boa, todas tinham ótimos pés, pernas altas e giros perfeitos. Claro, ela era mais nova que todas elas, mas todas conseguiam fazer promenades na ponta dos pés, piruetas múltiplas em qualquer posição, levantar as pernas ou saltar alto. Não se tratava de talento, mas de encontrar algo cativante nelas, não apenas impressionante. Talvez fosse o desprezo de Lorena pelo balé, aliado à sua aptidão para a dança, que a tornava um pouco melhor que as outras. 

            Mas ela odiava aquele lugar. Odiava os quartos compartilhados, as refeições comunitárias no refeitório, as tarefas escolares obrigatórias e as aulas. Sua mãe não tinha ligado e a diferença de fuso horário dificultava a comunicação com Eduarda, mas aqueles telefonemas antes de dormir, quando se trancava em uma cabine do banheiro e ligava para a amiga, eram a única coisa que afastava a solidão. A primeira semana foi horrível e nunca melhorou.

            Com quinze anos, ela não tinha permissão para sair sem supervisão nos fins de semana e recusou o convite para participar dos passeios com os alunos da sua faixa etária. Com saudades de casa e infeliz, passou o dia inteiro na cama, pulando refeições e esperando Eduarda acordar e responder às suas mensagens. Elas conversaram ao telefone a tarde toda, por Lorena, até que chegou a hora de dormir e seus olhos se encheram de lágrimas, sem querer se despedir. 

            Uma figura peculiar, distante, mas extraordinária, Lorena manteve-se isolada durante as cinco semanas, exceto quando procurava um aluno com idade suficiente para lhe comprar cigarros. Ansiosa e solitária, foi nesse período que começou a desenvolver um hábito: não se alimentava o suficiente e precisava de algo para se distrair. Encontrou um lugar no pátio da escola onde podia sentar-se sozinha e fumar, soltando a fumaça enquanto o vento a levava embora. Lorena alimentava seus sentimentos feridos sozinha, enquanto contava os dias para poder voltar para casa. Seis semanas nunca lhe pareceram tão longas.

            Xênica devolveu o passaporte para ela pelo correio e Zenilda enviou o itinerário do voo, providenciando um táxi para levar Lorena ao Aeroporto de Heathrow. Ela não conseguiu dormir nada durante o voo, tomada pelo nervosismo ao pensar em rever Eduarda, inquieta na poltrona enquanto esperava para ver a imensidão de São Paulo. Depois disso, foi outro voo curto, a espera foi maior do que o tempo que levou para chegar à pista de pouso em Iguape, e um carro a esperava para levá-la para casa. Lorena imaginava que seria seu irmão, talvez até sua mãe, mas presumiu que ambos estivessem ocupados.

            Cansada, mas ansiosa para ver a amiga, Lorena agradeceu ao motorista enquanto ele tirava sua mala do porta-malas e começava a levá-la para casa. O carro da mãe estava na garagem, o que a fez se perguntar por que ela mesma não tinha ido buscá-la, e Lorena pensou por um instante que talvez tivesse esquecido que ela estava em casa. Mas não, o carro já estava providenciado, então ela devia ter se lembrado de fazer isso.

            Ao entrar, Lorena arrastou a mala pela soleira e fechou a porta da frente. Sua mãe só acordou cinco minutos depois, enquanto Lorena subia as escadas com a mala, carregando-a com dificuldade a cada degrau, abandonando-a em seu quarto antes de descer novamente, com os sapatos rangendo no chão. Ela estava apertando o cadarço de um de seus tênis de corrida quando sua mãe saiu do escritório, com uma aparência exausta e uma expressão estranhamente inexpressiva.

            “Que bom, você está em casa.”

            “Estou prestes a sair.”

            “Antes de fazer isso, você precisa saber que seu irmão sofreu um acidente”, disse Zenilda suavemente, franzindo levemente a testa como se não acreditasse muito naquilo.

            Endireitou-se, mas o rosto de Lorena se contorceu. "Um acidente? Ele está bem?"

            “Ele morreu.”

            Sua mãe disse isso com tanta naturalidade que Lorena levou um instante para processar a informação. Com a boca abrindo e fechando enquanto seu rosto empalidecia, ela não conseguia falar.

            Ela sentia o peito subir e descer mais rápido enquanto respirava superficialmente, o calor subindo pelo nariz e a pressão aumentando atrás dos olhos. As lágrimas começaram a arder e ela baixou a cabeça, tentando entender o que estava acontecendo. Sua mãe não tentou abraçá-la, nem sequer se moveu um centímetro para confortá-la.

            "Quando?", Lorena conseguiu perguntar.

            "Mês passado."

            O choque estampou-se no rosto de Lorena quando ela ergueu a cabeça bruscamente, a descrença cortando seu rosto enquanto olhava para a mãe através de uma névoa de lágrimas. " Mês passado? Por que... você..."

            "Eu não queria que você se distraísse", Zenilda a interrompeu bruscamente. 

            Com a boca entreaberta e a mente atordoada, Lorena nem sabia o que dizer. Desorientada, uma dor que nem sabia que existia a invadia, junto com a raiva que fervilhava durante as cinco semanas que passou sem a mãe, Lorena sentia como se fosse explodir.

            "Vá", Zenilda acenou com a mão, dispensando-o. "Vá fazer... seja lá o que você tenha planejado. Você pode descansar hoje."

            Sem dizer uma palavra, Lorena se virou para a porta da frente e a abriu com um estrondo, fechando-a atrás de si. Ela só percebeu que estava chorando quando sentiu o gosto das próprias lágrimas, que se acumularam nos cantos da sua boca. Enxugando as bochechas, novas lágrimas surgiram em seu lugar e ela sentiu a respiração ficar cada vez mais ofegante, uma dor no peito enquanto seus pés a impulsionavam para frente. Ela conhecia o caminho para a casa de Eduarda como a palma da sua mão, poderia tê-lo percorrido no escuro, então não importava que seus ombros estivessem curvados, as palmas das mãos pressionando suas órbitas oculares enquanto caminhava até chegar à varanda da frente.

            Ela nem precisou bater, Eduarda estava sentada na varanda da frente esperando por ela. Elas tinham combinado que Lorena iria direto para a casa de Eduarda, e ela nem queria ir para casa primeiro, queria que Eduarda a buscasse na pista de pouso, mas Eduarda insistiu que ela fosse para casa primeiro ver a mãe. Agora, Lorena sabia o porquê, e sabia que era obra da mãe fazer Eduarda guardar aquele segredo para ela.

            Ao ver a amiga sentada nos degraus da varanda, o primeiro soluço entrecortado escapou da garganta de Lorena, e ela se jogou nos braços de Eduarda quando a amiga a encontrou no meio do caminho. Abraçando-a com força, uma mão acariciando a nuca dela, a outra envolvendo sua cintura, Eduarda murmurou suavemente em seus cabelos.

            “Está tudo bem, está tudo bem.”

            Lorena não sabia como começar a explicar o quão errado aquilo estava, que mesmo sem o choque repentino da morte do irmão, nada estava bem. Ela se sentiu pega de surpresa e, além disso, sentiu uma dor lancinante de saudade ao perceber o quanto sentia falta de Eduarda. Claro que sentia, mas estar soluçando em seu ombro, inalando o cheiro de seu xampu e perfume, o sabão em pó de sua camiseta, a atingiu com mais força, a feriu mais profundamente.

            Assim que Lorena chorou o suficiente para se acalmar um pouco, Eduarda a conduziu para dentro e a levou para o seu quarto. Guiando Lorena até a cama, desapareceu para buscar um copo d'água e uma toalha umedecida em água fria, ajoelhando-se à sua frente e limpando cuidadosamente seu rosto. Com os olhos vermelhos e o rosto manchado, Lorena olhou para ela com olhos verdes marejados de lágrimas e uma expressão de profunda saudade no rosto.

            "Senti sua falta", murmurou ela.

            Eduarda lançou-lhe um olhar angustiado, passando o pano pela bochecha de Lorena. "Eu também senti sua falta. Sinto muito."

            Ao se inclinar para beijá-la, Lorena começou a chorar novamente, seus ombros tremendo com os soluços enquanto ela desabava em lágrimas. Já era meio da tarde e Eduarda a ajudou a vestir o pijama antes de colocá-la na cama, abraçando-a e acalmando-a suavemente até que ela se cansasse e adormecesse. Quando sua mãe chegou em casa, desceu as escadas e contou que Lorena estava lá, enxugando os olhos marejados enquanto pedia que ela conversasse com Zenilda. Dormindo profundamente enquanto era abraçada a noite toda por sua amiga, que também era profundamente apaixonada por ela, mesmo que nenhuma das duas pudesse admitir.

 

~•~•~•~•~•~

 

            Lorena sentiu-se tensa durante todo o jantar, e de alguma forma acabou sentada ao lado de Eduarda desta vez. Ela ficava rígida sempre que seus joelhos se roçavam debaixo da mesa, seu estômago revirando enquanto seu coração disparava. Enquanto serviam a mesa repleta de pratos, Eduarda tentava constantemente oferecer a Lorena o peru de Natal cortado em fatias finas, purê de batatas e molho, mas Lorena recusava silenciosamente todas as vezes, colocando pequenas porções dos pratos de legumes em seu prato enquanto evitava tudo o que não estivesse em sua lista de alimentos seguros. 

            Prolongando a refeição o máximo que podia, uma especialista em fazer parecer que estava comendo mais do que realmente comia, Lorena sentiu alívio quando todos os outros terminaram, pousando a faca e o garfo e agradecendo a Violeta. A médica sorriu para ela, mas o sorriso não chegou aos seus olhos, e Lorena percebeu que não tinha se saído tão bem quanto esperava. Violeta não foi a única a notar; os cantos da boca de Zenilda se contraíram, Eduarda se remexeu inquieta ao seu lado, mas ninguém disse nada, criando um momento constrangedor, apenas Keyla e Iris alheias à situação, absortas em seu pequeno mundo a dois. 

            Ajudando a arrumar a mesa, guardando as sobras em potes de plástico, raspando os pratos, Lorena lavou as mãos e foi para a sala de estar. Passando da cozinha para a sala de jantar e saindo para o corredor, ela parou ao ver Eduarda sentada na escada. Levantando-se rapidamente, Eduarda apontou com a cabeça para o andar de cima e Lorena mudou de direção para segui-la. Ela nem pensou duas vezes, já estava em movimento, desaparecendo escada acima, encontrando tudo relativamente igual desde a última vez que estivera lá. Pelo que pôde perceber, a única diferença era a cor da pintura e a adição de um pequeno banco junto à janela com vista para o quintal. 

            A porta do quarto de Eduarda estava aberta e Lorena entrou, fechando-a suavemente atrás de si. Encostando-se à porta, observou o quarto, relativamente inalterado em sua estrutura, mas sem a decoração da adolescente que o ocupava quando Lorena o frequentava. Até os lençóis eram os mesmos, e Lorena sentiu um calor reconfortante ao se lembrar do que estava acontecendo. Encostada na cadeira de madeira da escrivaninha, encostada na parede à direita, Eduarda a observou absorver tudo. Quando seus olhares se encontraram, Lorena percebeu que talvez não tivesse sido uma boa ideia subir sozinha com ela.

            "Eu... eu trouxe uma coisa para você", disse Eduarda, pegando algo em sua mesa e mostrando o objeto que estava pendurado em seu dedo.

            Curiosa, Lorena aproximou-se dela e pegou o chaveiro. Segurou-o na palma da mão, admirando a constelação de Scorpius, com uma pontada de prazer no peito enquanto ria baixinho. "Onde você o comprou?"

            “Na loja do Museu Aeroespacial Paulista:.”

            Lorena se lembrou de ter ido lá com Eduarda uma vez. Era um museu dedicado principalmente à aviação, com muitos aviões e objetos da Força Aérea, mas também havia uma seção sobre o espaço. Eduarda as levou de carro, segurando a mão de Lorena enquanto passavam a maior parte do dia lá. Lorena deveria estar treinando na garagem, mas sua mãe estava no trabalho e alheia ao fato de a filha estar tendo um dos melhores dias de sua vida. Na saída, compraram sorvete e Eduarda comprou um boné com o logotipo da Força Aérea, puxando-o para baixo sobre o rosto enquanto se encostavam no capô amarelo desbotado do carro e comiam o sorvete.

            "Obrigada", murmurou Lorena.

            Eduarda deu de ombros indiferente, esfregando a nuca. Lorena levou a mão ao bolso, tirou o mosquetão e prendeu o chaveiro nele, passando o polegar sobre o logotipo circular. Guardou-os novamente no bolso e olhou para cima, ficando perto demais de Eduarda para seu conforto. As interações entre elas até então tinham sido marcadas por um certo constrangimento, e Lorena recuou um passo ao perceber a tensão crescente, conseguindo ser amigável com Eduarda, mas sem querer alimentar a nostalgia da infância de ambas. No fim das contas, doía demais continuar remoendo tudo aquilo.

            Por um instante, ambas ficaram em silêncio, e Eduarda parecia estar se esforçando para dizer algo. O ar estava pesado, o silêncio carregado de tensão. Lorena tinha a mão fechada no bolso da calça enquanto a olhava, o estômago se revirando em nós enquanto sua expressão se suavizava. Ela não conseguia nem começar a descrever o quanto Eduarda ainda significava para ela, o quão incapaz era de esquecê-la. Limpando a garganta, Eduarda encontrou seu olhar.

            “Eu... é, na outra noite... desculpe por isso.”

            Lorena soltou uma risada abafada, o rosto se contorcendo em uma mistura de perplexidade e diversão. "Está tudo bem."

            “Não, não está tudo bem”, sussurrou Eduarda, olhando para baixo, com os cabelos loiros caindo sobre o rosto enquanto esfregava a testa. “Eu te pedi para não fazer isso... e então eu...”

            Ela ficou em silêncio, a boca formando uma linha reta. Observando-a por um instante, Lorena caminhou até a cama e se deixou cair sobre o colchão. Passou a mão pelos lençóis macios e lavados, tentando não pensar nas vezes em que estivera ali com Eduarda, jovem e ingênua. Pegou a pequena almofada decorativa, deslizando os dedos sobre as ondas bordadas antes de aconchegá-la no colo, cobrindo a barriga. Olhando para cima, seus ombros se curvaram levemente.

            Lorena abriu a boca para falar, mas fechou-a novamente quando Eduarda a interrompeu de repente. Sua expressão era de dor, os olhos cheios de confusão e saudade. "Desculpe, não quero atrapalhar sua vida."

            Lorena soltou uma risada surpresa. "Minha vida já é uma bagunça. Um beijo não mudou nada."

            Eduarda fez uma leve careta, virando a cabeça enquanto olhava pela janela. "Engraçado, houve uma época em que te beijar mudava tudo."

            "Eu gostaria que não tivesse acontecido", sussurrou Lorena, fechando os olhos. "Talvez as coisas não fossem assim."

            Ela frequentemente se perguntava se, caso nunca tivesse beijado Eduarda, o resto teria acontecido. Claro, ela teria sofrido com o tormento de amar sua melhor amiga, que nem sequer saberia disso, em segredo, mas Zenilda não as teria flagrado juntas, e talvez Lorena não tivesse sido mandada embora naquela época, e talvez Eduarda nunca tivesse partido seu coração porque ela nem sequer saberia como quebrá-lo, e Lorena não teria para onde fugir, não teria passado doze anos em Londres por causa da vergonha e da mágoa. Talvez então ela nunca tivesse ficado sozinha se preocupando com seu corpo, que não era perfeito, ou sozinha com sua mente, que era uma bagunça total. Ela poderia ter tido sua melhor amiga para ajudá-la.

            "Não tenho certeza se teria feito muita diferença no resultado final", confessou Eduarda, com a voz embargada.

            “Talvez não para você.”

            “Você acha que foi tão bom para mim não ter você na minha vida?”

            Dando de ombros com indiferença, os cantos da boca de Lorena se contraíram ao encontrar o olhar de Eduarda. "Você parece estar muito bem."

            "É mesmo?", Eduarda zombou. "Você saberia, não é? Quer dizer, já que somos tão próximas, você sabe tudo o que aconteceu desde que você foi embora."

            “E sabe como tem sido para mim?”

            "Não", exclamou Eduarda, com a voz embargada pela frustração. Ela baixou a voz, atenta às suas famílias lá embaixo. "Não, eu não faço a mínima ideia de como tem sido, porque você não quer falar comigo. Acabei de descobrir que você foi aceita na faculdade há doze anos, e que foi tudo em vão."

            “E você foi tão honesta? Levou doze anos para você me dizer que mentiu, que você-“

            A voz de Lorena tremia enquanto ela parava de falar, abraçando o travesseiro como fazia quando era mais jovem, bem na altura da cintura. Seu pulso batia forte nos ouvidos enquanto sentia o estômago revirar e soltava um suspiro entrecortado.

            "Como se você não soubesse", respondeu Eduarda com a voz rouca e um pouco desdenhosa, lançando um olhar acusador para Lorena.

            “Eu não sabia.”

            “Não acredito em você. Como você pôde não acreditar? As coisas que fizemos… Deus, você acha que isso não foi nada para mim?”

            "O que eu deveria pensar?", disparou Lorena. "Você me disse explicitamente que não sentia o mesmo. Nós nunca nem ficamos juntas." Ela soltou uma risada sem graça e fez um gesto displicente na direção de Eduarda. "Então, é, eu meio que pensei que não fosse nada. Ou pelo menos, que não significasse o mesmo para você que significou para mim.”

            “Bem, você estava errada”, insistiu Eduarda, com a voz embargada. “Significava tudo para mim. Você não sabe o quanto doeu…”

            "Eu não sei?" Lorena a interrompeu, a raiva tornando suas palavras afiadas enquanto se levantava num pulo, com o dedo pressionado contra o peito, horrorizada com a audácia de Eduarda. "Você acha que eu não sei o quanto doeu? O quê, porque você teve que mentir para mim? Como você acha que foi ser enganada? Ter sua vida inteira mudar num instante e depois descobrir, mais tarde, que você teve que conviver com essa vergonha, com essa... essa sensação de inutilidade e solidão, por causa de uma mentira. Sabe, quando eu fui embora, quando eu te perdi, e eu não fui para a faculdade, e eu não voltei, quando as únicas coisas que me restava era tudo o que eu odiava, foi porque doía tanto que eu queria morrer. Então não me diga que eu não entendo."

            Eduarda permaneceu em silêncio, o rosto tão pálido de choque e devastação que Lorena sentiu uma pontada de culpa, seu rosto se contorcendo em uma careta mal disfarçada. Ela sabia que estava sendo injusta, que havia lutado contra grande parte do que a levara a esses sentimentos muito antes de Eduarda partir seu coração, mas precisava culpar alguém e Eduarda estava ali, bem na sua frente. Lorena nunca havia admitido algumas dessas coisas para ninguém antes, às vezes até se esquecia daquela época de sua vida, mas estar perto de Eduarda tornava as lembranças vívidas e sua raiva a tornava cruel.

            Elas se encararam por um instante e então Lorena caminhou em direção à porta. Ao cruzar seu caminho, Eduarda a olhou com os olhos arregalados, a única parte do rosto que demonstrava alguma emoção, e a boca de Lorena se contraiu em irritação. Ela sentia calor por todo o corpo, a frustração reprimida fazendo suas bochechas corarem, e precisava escapar daquele cômodo, a vergonha e as lembranças dolorosas dando a sensação de que as paredes estavam se fechando sobre ela. Tentando contorná-la, Lorena encontrou seu caminho bloqueado novamente, a mão de Eduarda se erguendo para impedi-la, sem chegar a tocar seu peito. Ela umedeceu os lábios e inspirou suavemente enquanto sua expressão se desfazia.

            "Por favor, não. Por favor", sussurrou Lorena, fechando os olhos.

            Ela sentia um tremor oco no peito, a pressão aumentando atrás dos olhos. Seu coração disparou ao sentir a mão de Eduarda pressionando seu ombro, a voz suave e suplicante.

            "Lorena-"

            O som do seu nome nos lábios de Eduarda, a forma como saiu, como se ela estivesse implorando, foi o suficiente para Lorena ceder. Sua raiva ainda estava lá, mas só serviu para torná-la impulsiva, sem pensar em nada enquanto abria os olhos, se virava para Eduarda e a beijava com força. 

            Não foi o beijo rápido da outra noite, mas lento e intenso, as mãos de Lorena nos cabelos de Eduarda, as mãos de Eduarda na cintura de Lorena enquanto retribuía o beijo. Qualquer coisa que ela pretendesse dizer para convencer Lorena a ficar foi esquecida quando Eduarda a empurrou para trás, em direção à cama de solteiro, pressionando-a contra a beirada do colchão enquanto sua mão deslizava pelas costas dela, os dedos se enroscando em seus cabelos enquanto a prendia ao colchão.

            O beijo se aprofundou e a língua de Lorena estava na boca de Eduarda, seus dentes em seu lábio, o gemido de Eduarda em sua boca, fazendo seu estômago revirar de desejo. Ela não conseguia ignorar o quanto a desejava, o quanto pouco se importava que toda a família de Eduarda estivesse lá embaixo, e sua mãe também, que ela queria as mãos e a boca de Eduarda por todo o seu corpo. Parecia tão injusto que tivesse passado tanto tempo desde que a tocara daquela forma, duplamente injusto que ainda sentisse o mesmo tantos anos depois, que teria feito qualquer coisa por ela. Ela sentiu a mão quente de Eduarda em suas costelas, por baixo da blusa, deslizando para cima enquanto Lorena apertava sua bunda, pressionando-a contra si. 

            Houve uma batida na porta e elas se separaram como se ainda tivessem quinze anos, sendo novamente pegas juntas no chão da garagem pela mãe de Lorena. Eduarda estava de pé, limpando a boca com as costas da mão enquanto seu peito subia e descia rapidamente, o rosto corado. "Sim?”

            “Você vai voltar? Mamãe já serviu a torta.”

            Com a compostura necessária para abrir a porta de repente, Eduarda pigarreou. "Sim, eu... sim, já vamos descer. Só estamos... conversando..."

            “Bem, parece… um pouco tenso.”

            Eduarda bufou e Lorena, discretamente, alisou os lençóis e ajeitou os travesseiros. "Tá tudo bem."

            "Muito bem, seja lá o que você estiver fazendo, talvez seja melhor dar um tempo por hoje?", sugeriu Keyla.

            “Sim, só… nos dê um minuto.”

            De pé, Lorena passou a mão pelos cabelos e baixou a cabeça, apertando a ponte do nariz enquanto tentava reprimir seus sentimentos. Seu coração estava acelerado e ela sentia o rosto corar enquanto ouvia a porta se fechar suavemente. Então, a tensão se tornou insuportável por um instante, enquanto o silêncio se prolongava.

            “Hum…”

            "Não se preocupe com isso", Lorena conseguiu dizer, meio sem jeito.

            Com um suspiro cansado, os ombros de Eduarda caíram. "Não seja assim."

            "Assim como?"

            “Não aja como se não fosse nada.”

            Com uma risada lamentável, Lorena passou a mão no rosto e se virou para Eduarda. "Nunca fui eu a agir assim."

            Eduarda parecia ter levado um tapa de Lorena, sua expressão se fechando enquanto ela rapidamente abaixava a cabeça, tentando esconder seus sentimentos feridos. Suspirando, Lorena fechou os olhos e lutou com suas emoções conflitantes por um momento, seu corpo ainda pulsando com adrenalina, ainda desejando Eduarda, o desejo persistente fazendo seu coração palpitar quando ela abriu os olhos novamente e olhou para a figura dócil de sua antiga amiga.

            “Keyla tem razão”, ela disse com a voz rouca. “É Natal, o último Natal da minha mãe; vamos dar um tempo nisso.”

            Eduarda assentiu silenciosamente com a cabeça, dirigiu-se à porta, abrindo-a bruscamente e gesticulando com firmeza. Uma pontada de irritação percorreu Lorena com a rejeição abrupta, e Eduarda fechou a porta na sua cara. Com a boca entreaberta e fechada, eriçada de indignação, Lorena levou um segundo para se recompor, respirou fundo e desceu as escadas. 

            Na porta da sala de estar, ela cruzou os braços sobre a barriga e evitou o olhar de qualquer pessoa. Elas haviam falado o mais baixo possível no calor da discussão, mas ela se perguntou o quão óbvia a briga havia sido para quem estava lá embaixo. Violeta ofereceu-lhe outra xícara de café com uma fatia de torta; Lorena aceitou o café, mas recusou a torta. Eduarda reapareceu alguns minutos depois, com uma expressão estranhamente vazia, enquanto pegava uma fatia de torta e evitava olhar para Lorena completamente. Elas não trocaram mais nenhuma palavra pelo resto da noite.

            Estava frio e úmido quando elas saíram. Zenilda agradecia a Violeta e Eduarda pelo dia. Lorena abriu a porta do carro e guardou os potes de Tupperware com as sobras. A mãe foi ajudada a entrar no banco da frente e Lorena a colocou no cinto de segurança, transbordando de frustração e ansiosa para ir para casa. Agradecendo silenciosamente a Violeta, Lorena sentou-se ao volante, grata por a escuridão da noite esconder o calor em suas bochechas.

            Ligando o carro, ela saiu da calçada e deu a volta no quarteirão, levando-as para casa sob o aguaceiro, com as luzes de Natal cintilando nos beirais das casas de madeira. A casa delas era escura e deprimente, sem Papai Noel inflável e renas no jardim da frente ou árvores ricamente decoradas enchendo a casa. Em vez disso, a casa era fria e inóspita, grande demais para ela e sua mãe preencherem.

            Ajudando a mãe a entrar, Lorena foi direto para as escadas, guiando-a cuidadosamente até o quarto sem parar para tirar os sapatos. Desceu para pegar as sobras, colocando-as na geladeira, antes de voltar para o andar de cima e bater na porta da mãe. Ela havia trocado de roupa e estava sentada na beirada da cama, vestindo o roupão. Aproximando-se para ajudá-la, Lorena observou a expressão tensa enquanto fechava o cinto do roupão. Zenilda a estudou por um instante antes de falar.

            “Está tudo bem?”

            "Tudo bem", respondeu Lorena secamente.

            “O que aconteceu mais cedo?”

            Gesticulando vagamente enquanto ajudava a mãe a deitar-se na cama, Lorena pegou o cobertor e puxou-o para cima dela. "Não foi nada."

            “Não parecia nada.”

            “É, bem, você não estava lá.”

            Estalando a língua, Zenilda soltou um suspiro pesado. Ela ficou em silêncio por alguns minutos, mas seus olhos acompanharam os movimentos da filha enquanto Lorena pegava o controle remoto e ligava a TV, acendia os abajures, enchia o copo vazio com água da torneira do banheiro e despejava duas cápsulas de morfina para a mãe. Pegando o copo, Zenilda lançou-lhe um olhar inquisitivo, os olhos semicerrados enquanto segurava os comprimidos na palma da mão.

            “Você nunca me contou o que aconteceu entre vocês duas.”

            Com o estômago embrulhado, Lorena engoliu em seco, os olhos desviando-se rapidamente para os da mãe enquanto esta se ocupava em fechar a tampa branca do frasco de remédio e colocá-lo na mesa de cabeceira. Com um encolher de ombros desanimado, Lorena falou, apesar do nó na garganta: "Por que eu te contaria? Você nunca gostou dela mesmo."

            “Não gostava de como ela te distraía.”

            “Ela nunca me distraiu. Você simplesmente não gostava que eu tivesse nada na minha vida que não fosse o balé.”

            Zenilda não respondeu, permanecendo em silêncio enquanto se recostava nos travesseiros, engolindo lentamente seus comprimidos com um gole d'água, um a um. Lorena estava ocupada desdobrando um cobertor aos pés da cama, cobrindo também a mãe, sabendo que ela sentia o frio com mais intensidade ultimamente, com a perda de peso repentina. Houve um momento de tensão enquanto Lorena se ajeitava e, em seguida, dirigiu-se à porta sem dizer uma palavra. Ela diminuiu o passo ao ouvir a voz da mãe, agarrando a maçaneta enquanto seu estômago dava um nó e seus ombros enrijeciam levemente. Saiu e fechou a porta com as palavras da mãe ecoando em seus ouvidos.

            “Você vai machucar aquela garota.”

Notes:

a Lorena nesse capítulo totalmente a Lorena da novelinha chorando manhosa pq não queria ir pra Londres e se separar da Eduarda e a Duda consolando ela falando que passa rápido.

 

muito fácil odiar a Zenilda, pq como que ela não conta pra menina que o irmão dela morreu sabe

Notes:

Está obra é uma adaptação, a história original pertence a Lostariels, todos os créditos são dela.