Chapter Text

Havia muito que Seki Tetsurou vinha engolindo desde que deixaram o palácio de Sazanka. Muito que ele não seria capaz nem mesmo de compartilhar com Yusuke.
Em parte, porque Yusuke era o motivo de ele estar engolindo tudo aquilo.
Mas também porque Sakuiya no Zen orbitava ao seu redor, como uma cobra visando um sapo.
Tetsurou imaginava que fosse por causa de todo o drama dos últimos dias – sua recente tentativa de virar incenso no altar. Por que Zen havia ficado tão desesperado? O medo de perder o raro poder de um amachi como Tetsurou era tão grande?
A única serventia que eu tinha nessa história toda.
Ao menos, Tetsurou deveria dar a ele esse crédito: esta raposa ardilosa era incrivelmente determinada. Quanto tempo fazia que ele estava interpretando todo aquele teatro de “eu fui proibido por Inari de te devorar, eu juro” e “olhar como eu sou bonzinho com vocês humanos”?
Seu coração era tomado por uma fúria descompassada toda vez que se lembrava de tudo que ele e Yusuke tiveram que fazer para cuidar de Zen quando ele perdeu os poderes. Suas palmas chegavam a ficar marcadas com a linha das unhas.
Quando os olhos de Tetsurou encontravam momentaneamente o olhar de Zen, ele se perguntava o que a kitsune estava pensando. Se aquelas pupilas predatórias brilhantes tinham pressa para devorá-lo, se por acaso havia alguma verdade em tudo aquilo que saía daquela boca…
Se o seu desespero em mantê-lo vivo poderia significar outra coisa.
Foi o que estava pensando quando os três adentraram o Ryuusui Onsen – Termais das Águas Correntes. Com exceção da kitsune, ambos estavam encharcados após uma tempestade repentina tomar conta do céu de Sangokai.
Yusuke até havia tentado evitar a catástrofe, quando a tempestade era apenas uma nuvem esquisita no horizonte, mas não teve sucesso em discutir com a raposa.
— Parece que está vindo pra cá — ele observou, alternando o olhar entre o céu e Zen, esperando uma explicação que não veio.
— E está — Zen respondeu simplesmente, e continuou andando.
— Certo — Yusuke disse, acelerando o passo para acompanhá-lo. — E onde exatamente vamos nos proteger nesse lugar maldito?
— Não será necessário. É só uma chuvinha boba, uma provocação inofensiva.
Yusuke soltou uma risada curta, sem humor.
— Preciso te lembrar o que acontece com um corpo humano quando se mistura frio e exaustão, Zen? — Yusuke rosnou, lançando um olhar breve para Tetsurou, que observou a discussão entre os dois se formando pela quadragésima vez naquele dia. — Ou sua recente experiência já evaporou desse seu cérebrozinho de raposa?
Zen continuou andando como se não tivesse escutado a provocação de Yusuke. O que era impressionante, para Tetsurou. Com toda certeza, algo naquela tempestade havia feito seu humor mudar bruscamente, do contrário, Yusuke teria recebido uma resposta direta e cruel.
— Ótimo — Yusuke murmurou, revirando os olhos. — Vamos fazer a vontade da raposa. De novo.
Eles não fizeram.
Depois de dois minutos debaixo dos raios e trovões, tentando caminhar contra a ventania, Tetsurou estava batendo o queixo e Yusuke estava a ponto de transformar a raposa de oito caudas de volta em sete ou seis com sua katana.
E foi assim que eles chegaram no onsen, arrastando água para dentro do saguão enquanto youkai kappas seguiam atrás de seus passos com panos e rodos.
Diferente da estalagem em Sazanka, essa estalagem parecia muito mais movimentada – e Tetsurou não antecipou que isso fosse um problema em si.
O ar era quente e pesado de vapor, carregado com o cheiro mineral das fontes termais, e outra coisa mais sutil, algo orgânico e antigo, como terra após a chuva misturada com incenso queimado há dias. Tetsurou não sabia se tremia ainda por causa do vento ou por causa do alívio súbito dele.
Só então ele percebeu o silêncio se formando. Conversas cessaram uma a uma. Olhos surgiram nas sombras, refletindo a luz âmbar das lanternas.
Criaturas de várias formas e tamanhos ocupavam o saguão, contendo suas respirações ao se deparar com Sakuiya no Zen.
Ou, pelo menos, isso foi o que Tetsurou supôs antes de sentir os olhares que recaíram sobre si. Era perceptível como mãos invisíveis percorrendo sua pele. Narinas se expandiram, línguas umedeceram lábios. Um youkai próximo demais inspirou fundo, os olhos se fechando por um segundo.
— Ao que devemos o prazer de recebê-lo, Zen-denka? — disse a figura atrás do balcão, um youkai tartaruga, reverenciando Zen de forma exagerada. Seu olhar deslizou por Yusuke e Tetsurou. — Já faz eras que não aparece por essas áreas. Vejo que Vossa Alteza trouxe companhia.
Zen não respondeu imediatamente. Em vez disso, sua mão surgiu nas costas de Tetsurou, deslizando até a pele de seu pescoço, descoberta pelo haori. Os dedos repousaram contra ele como algo que já havia decidido sua permanência ali.
Um arrepio percorreu a espinha de Tetsurou, alterando o ritmo de sua respiração contra sua vontade. O gesto era simples. Não deveria significar nada. Ainda assim, seu corpo reagiu antes que ele pudesse decidir como se sentir a respeito.
Ele percebeu que Zen havia feito o mesmo gesto possessivo com Yusuke, que agora usava todas as suas forças para conter uma reação agressiva.
Os olhares dos youkai mudaram, mas não desapareceram.
— Prepare um aposento — Zen disse.
— Apenas um?
— Não posso correr o risco — Zen continuou com um tom um pouco mais ameaçador ao youkai, — de perder minhas coisas de vista.
O recepcionista inclinou a cabeça em obediência imediata.
— Mas é claro. Será um prazer acomodar Vossa Alteza e… seus pertences. — Seus olhos tocaram Tetsurou novamente ao dizer a última palavra.
— E diga a Vossa Alteza — Zen prosseguiu, o pronome de tratamento deslizando por seus dentes com um tipo de incômodo — que pare com essa tempestade. Essa encenação toda é patética. Eu já entendi o recado.
O youkai se inclinou de novo, prontamente, com um sorriso curto pintando seu rosto.
— Certamente, estimado Zen-denka. Sua mensagem será entregue.
