Chapter Text
Nervosa, ela entrou na clínica com o pé direito, necessitando que, além de toda a preparação que fez nos últimos meses, tivesse também um pouco de sorte. Foi um tanto constrangedor, mas já estava, enfim, na última fase de todo o procedimento. Agora era aguardar que, dentro de duas semanas teria o resultado. Com isso, cruzou os dedos e pediu ao universo que atendesse daquela vez. Só daquela vez.
Lorena Ferette, sendo gestora de projetos sociais na fundação de sua família, não deixava ser apenas um nome. Era competente e uma das mais brilhantes. Tudo nela era completamente organizado: cada setor, horário e planilha financeira era analisado pelos olhos verdes atentos e gentis.
Apesar de toda a polêmica que envolveu seu pai — corrupto, que doava remédio de farinha para as periferias de São Paulo — sua mãe e seu tio deram nova direção àquele projeto e, com investimentos de todos, conseguiram tirar a mancha Santiago Ferette e colocar a agora Fundação Três Graças para funcionar de verdade e para o povo. Lorena descobriu que suas ideias podiam servir ali e foi conquistando seu lugar, não por sobrenome, mas por competência.
Os anos foram passando, e uma ideia que sempre foi a mosca na sopa dela parecia agora um elefante na sala, especialmente com os trinta chegando. Não que ela acreditasse na história patriarcal de que uma mulher deve casar jovem, ter filhos jovem e tudo mais. Não. Ela tinha um plano — um que traçou quando a vida ainda era ficar enfiada no quarto e se atrasar para a escola.
Queria ter filho aos vinte e oito anos. Sempre foi seu sonho ser mãe e achava a idade ideal — foi a idade que sua mãe a teve. Ela esperou encontrar alguém para compartilhar esse sonho que fosse uma boa pessoa e de bom coração como parecia que as pessoas ao seu redor encontram, tirando a sua mãe, mas a história serve como um aviso para identificar o possível opressor. As pessoas dizem que ser bissexual te dá mais opções, mas Lorena encontrou cada absurdo nesses anos que seu tempo de planejamento estava acabando.
O que ela faria? Graças a Deus, o mundo tinha evoluído para que aquilo acontecesse.
Decidiu, então, pesquisar clinicas e maneiras de fazer dar certo sem uma segunda opinião, não quis ajuda da mãe ou das amigas. O irmão ainda era tópico sensível depois de participar ativamente nos crimes do pai, mas isso era conversa para outra hora.
Tinha dinheiro? Sim.
Tempo? Não muito, mas poderia trabalhar de home office e, mesmo sendo uma fundação, tinha direito às férias — e nunca as tirava. Então, sim, com planejamento poderia dar certo.
Era alguém psicologicamente saudável? Fazia acompanhamento mensal com um terapeuta muito gente boa apenas por rotina, não tinha crises ou oscilação de humor fora do comum a um ser humano da cidade de São Paulo.
Então era um check, check, check e check.
É assim que as pessoas decidem ter filhos? Lorena esperava que não. Mas era isso que ela tinha. E era isso que ela iria fazer.
Uma semana depois do procedimento, sentindo-se ansiosa para fazer xixi no palitinho e ver o resultado, todo mundo na empresa percebeu sua aflição.
— Minha filha, pare de comer a tampa da caneta e vá fazer alguma coisa — Zenilda entrou na sala de Lorena com uma feição preocupada.
— Ai, mãe, eu acho que deveria estar sentindo algo a essa altura e não consigo parar de pensar que não deu certo e vou ter que esperar mais um tempo até conseguir fazer de novo.
— Ah, minha filha, eu entendo por que você fez isso e entendo a preocupação, mas pensar demais só vai te deixar mais nervosa. Por que não liga para a Maggye e marca algo para espairecer? Faz tempo que não as vejo juntas.
Zenilda não sabia se Maggye sabia da decisão da filha, mas sabia que ela era uma boa companhia.
— Tá aí, mãe. Vou ligar para ela agora!
Lorena dá um sorriso e pega o telefone que é atendido no primeiro toque.
— Lorena!!!! Oi!
— Oie, Maggye. Que felicidade em ouvir sua voz animada. Tudo bem?
— Era saudade mesmo, boba. Tá sumida nos seus projetos e nem me liga mais!
— Ai, tem tanta coisa acontecendo que eu nem sei por onde começar.
— Então bora jantar amanhã e você conta tudo.
— Tá marcado, então!
— Ok. Vai ser aqui em casa. Posso chamar uma amiga minha? Minha prima tá aqui também, aí a gente faz uma conversa só de mulheres.
— A Lucélia? Ela enchia nosso saco na época da faculdade, né? E que amiga? Conheço? Mas pode chamar, sim.
— Ela melhorou bastante depois que conheceu um grafiteiro, tem que ver. E não, você não conhece. Ela se chama Eduarda, é investigadora da Polícia Civil, com apelido de “Juquinha” e tudo. Vocês vão se adorar.
— Polícia? Nossa, que legal…- ouviu a comemoração da outra - Então fica combinado… Me manda o horário certinho, sim?
— Pode deixar, Lore. Manda um beijo para sua mãe e até!
Lorena acha engraçado quando a amiga desliga e volta aos seus afazeres, pensando no jantar de amanhã.
O jantar chegou sem que ninguém percebesse, e quando viu, Lorena estava na porta vermelha da Galeria Damatta, sendo recebida por Lucélia — que parecia até simpática. A cumprimentou e entrou, já pedindo desculpas pelo atraso.
Seus olhos encontram Maggye e, ao lado dela, vê uma mulher um pouco mais baixa que ela com olhos brilhantes e postura reta. Parecia brilhar sob a luz suave da casa.
— Olha quem chegou! O trânsito de São Paulo não te perdoa, né, amiga?
Lorena apenas sorri e a cumprimenta com um beijinho no rosto.
— Essa é a Juquinha e essa é a Lorena.
— Eduarda … — Eduarda corrige Maggye de maneira brincalhona e se inclina para cumprimentá-la — prazer em te conhecer, Lorena .
— Eduarda, então. O prazer é meu.
Lorena fala pela primeira vez em voz alta.
Ela pergunta do drink que Eduarda está bebendo, fica surpresa por ser sem álcool e elas sentam à mesa esperando o jantar ser servido. A conversa flui de um jeito que Lorena não esperava. Lucélia não era mais tão chata, e Eduarda se fazia tão interessante — e interessada — que era impossível não achar que elas se conheciam há muito tempo. Não era boba; notou os olhares que Eduarda lhe dava e se sentia bem. Queria conhecê-la mais e, quando ela ofereceu carona, aceitou, fazendo parecer que era por falta de escolha.
Eduarda abriu a porta para ela e deu a volta para o lado do motorista.
— Então você é gestora de projetos na fundação? Bonita, inteligente e filantropa… você é o Homem de Ferro?
Lorena achou graça, mas nada disse. Apenas observou a mulher dar partida.
— Que foi? Não gostou da piadinha? Perdão!
— Não foi nada. Eu adorei. Pode ficar tranquila… e pode me elogiar mais, se quiser.
Eduarda a olha com os olhos brilhantes e sorri de orelha a orelha.
— Ah, é? Então eu posso pegar seu número e descobrir em que mais eu posso te elogiar?
— Claro que pode.
Eduarda fica eufórica, estaciona o carro no acostamento e estende o celular para Lorena que acha engraçado mas não pega no celular.
— Quer saber? Você não é policial? Descobre rapidinho, investigadora!
Eduarda ri e entende o jogo.
— Posso fazer isso.
— Pode nos tirar daqui também? Talvez não seja uma boa ideia ficarmos paradas no meio do nada!
Eduarda a olha com a sobrancelha arqueada e abre um pouco as pernas; entre elas está descansando sua arma.
— Eu posso te proteger, Vingadora.
Lorena a olha surpresa e, estranhamente, atraída por aquele gesto. Como se não bastasse ser bonita, ainda tinha que ser charmosa. Lorena estava encantada.
O resto da viagem foi curta. Conversaram sobre a arma, Eduarda fazendo questão de falar que tinha treinamento e era disciplinada com seu trabalho. Quando chegou ao prédio de Lorena, ainda ficaram conversando um pouco dentro do carro, até Lorena notar Eduarda segurando um bocejo, se lembrou que ela disse que tinha vindo de um plantão longo na delegacia e era compreensível estar cansada.
Mesmo não querendo — e torcendo para que a outra fosse atrás do seu número — ela se despediu com um beijo no ar e entrou no hall de entrada, ouvindo o carro sair.
No apartamento, Lorena toma um banho rápido para tirar a sujeira da rua e dorme pensando em olhos brilhantes e bebês fofinhos.
Acorda com o interfone tocando. Veste um robe para esconder a camisola e abre a porta, deparando-se com o porteiro segurando uma sacola.
— Dona Lorena, chegou para a senhora.
— Obrigada, seu Carlos. Não precisava ter trazido até aqui, eu buscaria. Quer uma água, um café?
— Que isso. Ganhei até uma gorjeta para ter certeza de que era a senhora mesmo. Obrigado, mas eu preciso voltar. Tenha um bom dia, dona Lorena!
Lorena se despede do senhor e vai investigar a caixa.
Era linda, bem embalada, com pequenos bombons veganos decorados de planetas. Dentro também havia um cartão.
“Amei te conhecer, Vingadora. Espero que tenha dormido bem. Adorei o desafio, mas da próxima vez, o torne um pouco mais difícil para ser o começo de uma boa amizade.
Ass: Eduarda.”
Lorena ficou embasbacada.
Lê e relê o cartão.
Eduarda fazia isso sempre? Como pode alguém ser assim com menos de vinte e quatro horas depois de conhecer alguém?
Os pensamentos vieram em looping, misturando sorriso e incredulidade, quando Lorena sentiu uma náusea repentina. Um bolo na garganta. O estômago virou.
Correu para o banheiro.
O jantar estava todo ali agora, ameaçando voltar.
Ela se ajoelhou diante do vaso, respirando fundo, tentando entender se era ansiedade… ou se era outra coisa.
O azulejo frio sob as mãos.
O silêncio do apartamento.
O coração acelerado.
Lorena levantou devagar, encarando o próprio reflexo no espelho. O rosto ainda bonito. Os olhos, porém, diferentes.
Ela sabia.
Ou pelo menos achava que sabia.
O olhar foi automático para a gaveta.
Ainda estava cedo demais.
Mas e se não estivesse?
O telefone toca antes que ela tome uma decisão impulsiva.
Lorena atende sem ver quem é. Não podia ser trabalho — era sábado — mas nunca se sabe.
— Alô?
— Bom dia. Já recebeu a encomenda?
Lorena abre um sorriso instantâneo.
— Eduarda? Não acredito que tenha enviado bombons veganos. Bom dia!
— Enviei. Descobri seu telefone e número do apartamento. Nenhuma lei foi infringida, não brinco em missão, senhorita.
— Ah, é? Tô vendo mesmo. E qual vai ser a sua próxima?
— Te levar para tomar um café daqui a trinta minutos, se não for incômodo para você.
Lorena ri.
— Mas essa sua missão é muito fácil. Estou morrendo de fome e com preguiça. Claro que eu topo!
— Soldado ferido! Pensei que fosse por estar com saudade de mim já… mas tudo bem. Te busco.
Lorena sorri ao desligar.
Corre para o quarto, procurando uma roupa decente para um café — sem parecer que se produziu demais. Como se fosse algo casual, porém arrumada para qualquer ocasião que policiais bonzinhos — Pelo menos a sua intuição dizia que sim — Levam seus primeiros dates se esse café for um date, parecia que sim, não?
Eduarda avisa: “Estou esperando.” Exatos trinta minutos depois da ligação.
Lorena desce.
A policial estava encostada no carro, como se tivesse saído de um filme. Calça jeans, camiseta branca e óculos escuros. Não parecia a mulher sofisticada da noite anterior — mas aquele estilo simples, seguro, combinava com ela também.
Lorena a analisou enquanto se aproximava.
Cumprimentou com um beijo estalado na bochecha, disfarçando o leve rubor no rosto.
Entrou no carro, já com a porta aberta pela outra.
E, por um segundo, esqueceu completamente da náusea.
O café era pequeno, aconchegante, com cheiro de pão quente e grãos recém-moídos. Eduarda puxou a cadeira para Lorena sentar antes de ocupar o lugar à frente dela.
— Então… — Eduarda apoiou o queixo na mão. — Quero saber tudo. Sempre quis entrar nos negócios da família?
Lorena riu, mexendo o açúcar no chá.
— Acho que começou na infância. Eu era aquela criança que defendia todo mundo na escola, armava protestos quando algo estava injusto. Fiz parte do grêmio. Já levei advertência por brigar com menino maior.
— Já gostei da versão mini você.
— E você? Sempre quis ser policial?
Eduarda deu um meio sorriso, diferente dos outros — mais honesto.
— Não. Eu queria ser astronauta. Mas descobri que tinha mais jeito para resolver problemas aqui na Terra mesmo.
Conversaram sobre escola, professores marcantes, inseguranças da adolescência. Eduarda contou que toda a sua família trabalhava com segurança pública, mas nunca se sentiu pressionada a seguir o mesmo caminho. Era o que ela gostava, o que admirava. Sabia que a instituição tinha muito a melhorar — e queria fazer parte dessa mudança.
Lorena falou sobre noites viradas estudando, sobre o medo de não ser suficiente, sobre o peso do sobrenome.
Não havia pressa.
Havia interesse.
Quando saíram, o sol estava suave, o tipo de manhã que pede caminhada. Eduarda sugeriu um parque ali perto.
Andaram lado a lado, sem tocar… até que tocaram. Primeiro os braços. Depois os dedos. E quando perceberam, estavam de mãos dadas como se aquilo tivesse sido combinado desde sempre.
Sentaram na grama.
Lorena tirou os sapatos.
Eduarda permaneceu perto com uma perna esticada e a outra dobrada como um convite para Lorena encostar ali..
— Se eu te disser que ontem eu não consegui parar de pensar em você, você vai achar que é exagero? — Eduarda perguntou.
Lorena a observou por um instante antes de responder.
— Eu ia dizer que senti o mesmo.
O vento leve bagunçou os cabelos das duas, apenas para fazer parte da bolha construída envolta.
Só aquela sensação rara de estar exatamente onde deveria.
Riram de coisas pequenas. Dividiram uma garrafa d’água. Tiraram uma foto juntas, meio improvisada.
A manhã passou rápido demais.
E, por algumas horas, Lorena esqueceu completamente qualquer preocupação.
O almoço foi perto do parque, em um bistrô encontrado numa pesquisa rápida no Instagram — ótimos comentários sobre os pratos veganos e o visual. De mãos dadas, foram até lá.
Lorena se sentia em paz.
E isso a assustava um pouco.
Perdida em pensamentos, Lorena não notou os olhares que Eduarda lhe lançava durante a pequena caminhada até o carro. A policial a observava como quem acha graça de alguém distraído — às vezes apertando de leve a mão dela, como se dissesse “estou aqui”.
Lorena sempre achou que andar de mãos dadas era tão íntimo quanto um beijo. Exigia sintonia. Tinha o lance do encaixe, do ritmo dos passos.
E, surpreendentemente, as mãos de Eduarda se encaixavam.
Os passos eram leves.
A sensação era boa demais para ignorar.
— Você quer ir para casa ou posso te levar a outro lugar? — Eduarda perguntou, destravando o carro.
— Oi? — Lorena piscou, voltando para o presente.
— Desculpa… — Eduarda respondeu, já num tom de quem se arrependia do convite. — Não queria tomar mais do seu tempo, mas também não queria não te ver pelo resto do dia.
Lorena sorriu.
— Ah, não. Eu que não tinha entendido. Se for para irmos a outro lugar, eu adoraria. Preciso espairecer… e a companhia ajuda.
Eduarda a observou por um segundo.
— Está acontecendo algo? Posso ajudar?
A pergunta saiu simples, sincera, enquanto ela abria a porta para Lorena.
— Você é adorável. Mas não. Preciso resolver algo… ainda não é hora para alarde. Está tudo bem.
Eduarda assentiu e mudou de assunto, respeitando o limite.
Lorena percebeu — e agradeceu em silêncio.
O lugar escolhido foi o Pateo do Collegio, no centro histórico de São Paulo.
Por fora, parecia simples. Discreto. Mas por dentro carregava o peso do início de tudo.
Ali ficava o Museu Anchieta, com objetos e registros da fundação da cidade. Nos corredores silenciosos, era possível visitar a cripta onde estão os restos mortais de Tibiriça, figura indígena essencial na história da fundação paulistana.
Era como caminhar pelo começo.
Pelas paredes brancas e pelo chão de pedra, a cidade parecia respirar passado.
Diante de uma das exposições, Eduarda comentou:
— Eu não sou muito religiosa. Acredito em destino… em energia. Mas não gosto da ideia de me prender a dogmas ou rituais.
Lorena sorriu.
— Curioso. Eu penso quase igual. Só adiciono um pouco mais de misticismo. Gosto da ideia de sinais.
— Sinais? — Eduarda arqueou a sobrancelha.
— Tipo… duas pessoas que se encontram por acaso e passam o dia inteiro juntas como se os outros separados não existissem.
Eduarda riu baixo.
— Isso é um sinal?
— Talvez.
O silêncio que se seguiu era confortável demais e Lorena, aventureira demais para não aproveitar.
— Vamos ver o jardim e o cafezal lá fora? — Eduarda sugeriu.
Do lado externo, o contraste era bonito: o verde do pequeno cafezal lembrando que o café ajudou a transformar São Paulo na potência que se tornaria. O jardim era calmo, quase escondido do barulho do centro.
Ali, longe do trânsito e da pressa, parecia que o mundo tinha diminuído.
E as duas estavam exatamente no centro dele.
Ali, em frente ao cafezal, havia algumas pessoas espalhadas, mas estavam distantes demais para ouvir ou prestar atenção nelas. Aparentemente, não era um dia de muitas visitas.
Sentaram-se diante de uma parte especialmente bonita do jardim. As mãos ainda entrelaçadas.
— Sabe que eu não lembro da última vez que andei de mãos dadas com alguém que não fosse uma criança? — Eduarda confessou, levemente envergonhada por tocar no assunto.
Lorena a olhou, curiosa.
— Eu achava que não gostava disso. Tem muita logística… e sempre parecia que a outra pessoa queria me dominar. Acho que já era uma red flag para não continuar. — Ela riu baixo. — Mas eu gostei da experiência de ter suas mãos nas minhas. A gente simplesmente vai junto, sem grosseria… e eu também não me importaria se fosse puxada por você.
Entrelaçou agora os braços ao redor do dela e apoiou a cabeça em seu ombro, tímida pela própria sinceridade.
— E eu te conheci ontem.
Eduarda respirou fundo.
— Eu nunca namorei. Então não via necessidade de estar assim, entrelaçada a alguém em público. Mas… eu te conheci ontem e não consegui resistir a ficar perto de você. Você tem um ímã. Desde ontem eu não consigo me afastar.
Lorena ergueu a cabeça devagar. O nariz gelado encostou na bochecha morna da outra.
— Está se declarando, Eduarda Fragoso?
— Ainda não. Não quero ser o estereótipo da sapatão emocionada. — Ela sorriu de canto. — Mas eu senti atração por você ontem. E gostaria de explorar isso… se não for um problema para você.
Lorena sustentou o olhar.
— Não é. Você ganhou passe livre quando me deu bombons e segurou minha mão, certo? Gostaria de explorar? Então me diga… qual é a próxima missão, detetive?
Eduarda não respondeu com palavras.
Apenas se aproximou.
Devagar.
Dando espaço para que Lorena recuasse, se quisesse.
Não recuou.
Olhos verdes nos olhos castanhos.
Depois na boca.
Foi questão de física. Química. Anatomia.
Os lábios se tocaram num beijo de teste — desnecessário, mas delicioso. Lorena sentiu as mãos de Eduarda segurarem seu rosto com firmeza gentil. Ajustou o ângulo, aprofundando o encaixe, permitindo que a língua experiente da outra conduzisse o ritmo.
O beijo era calmo, quase degustativo.
Os corpos se aproximavam sem pressa. As mãos, mesmo discretas, eram termômetro nos pequenos apertos.
O mundo parecia suspenso.
O sino do Mosteiro de Sao Bento ecoou ao longe, grave e marcante.
Separaram-se devagar, trocando selinhos e sorrisos cúmplices.
Não havia mais timidez. Só vontade de ficar.
