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She Showed Me Things I Didn't Know

Summary:

Um ano após deixar Londres e assumir para si mesma quem é, Francesca Bridgerton tenta construir uma nova vida na Escócia, entre partituras e a saudade da família numerosa. Até que, em um dia comum, no pátio da universidade, Michaela Stirling atravessa seu caminho com convites para uma festa beneficente de Dia dos Namorados e um sorriso impossível de ignorar.

O que parecia apenas um encontro despretensioso logo deixa de ser tão simples.

(One-Shot)

Notes:

Oie! :)

Escrevi essa (não tão pequena) one-shot para o franchaelatine, mas infelizmente não consegui terminar a tempo de postar no dia 14. Então, antes tarde do que nunca, né?

Não tive beta (ela morreu junto com o mword), por isso podem existir alguns errinhos ao longo do percurso. Espero que nada tão significativo que atrapalhe a leitura de vocês.

No mais, isso aqui é apenas um conjunto de 12 mil palavras (algumas extremamente fofas) dentro da mente de uma francesca bridgerton obcecada pela michaela stirling. Espero que gostem.

O lesbianismo me consumiu.
Viva Franchaela!

Work Text:

Capítulo Único 

 

 

Francesca Bridgerton sempre apreciou o silêncio.

 

Não porque viesse de uma casa silenciosa — pelo contrário.

 

Sua casa nunca era silenciosa. Havia sempre vozes sobrepostas, risadas ecoando pelos corredores, discussões enérgicas que terminavam em abraços apertados, alguém entrando em um cômodo sem bater. Às vezes, ela descia as escadas pronta para falar algo importante e encontrava vários assuntos diferentes acontecendo ao mesmo tempo. Anthony resolvendo um problema do escritório. Daphne em uma ligação com Simon. Colin contando uma história de viagem longa demais. Benedict fazendo piada, enquanto Eloise debatia política. Hyacinth interrompendo todo mundo. Gregory pedindo ajuda para fazer uma tarefa escolar. Violet, tentando organizar o caos, com uma paciência que beirava o heroísmo.

 

E Francesca esperava.

 

Ela amava aquela casa. Amava cada um deles com uma devoção absoluta. Mataria e morreria por qualquer um de seus irmãos e por sua mãe, a qualquer momento, sem hesitação.

 

Mas, em uma família grande, quem falava mais alto costumava ser ouvido primeiro. Quem precisava de mais atenção recebia. E ela nunca foi a mais urgente da sala.

 

Muitas vezes, quando começava uma frase, alguém completava por ela. Ou mudava de assunto. Ou pedia que tocasse alguma coisa no piano, enquanto os outros continuavam conversando por cima da música.

 

Não era maldade.

 

Era apenas o ritmo da casa.

 

E, dentro daquele ritmo, sua própria voz acabava ficando pequena demais.

 

Talvez esse tenha sido um dos motivos que a levou a escolher Música e Composição,  em uma universidade localizada à sete horas de distância de Londres, em Edimburgo. Talvez tenha sido por isso que, no segundo ano de faculdade, caminhar sozinha pelo campus ainda lhe dava uma sensação quase íntima de descoberta.

 

Era a semana que antecedia o feriado de Dia dos Namorados. Pequenas bancas haviam surgido perto da entrada principal, vendendo flores embrulhadas em papel celofane, cartões com frases exageradamente apaixonadas e caixas de chocolate em embalagens rosa que destoavam dos prédios antigos de tijolos cinza-acastanhados ao redor. O inverno começava a se desfazer devagar, mas o vento ainda carregava um tipo de frio que acordava a pele.

 

Francesca atravessava o pátio central com passos calmos, observando sem realmente se envolver. Usava jeans desbotado, camisa listrada azul e branca, um sobretudo creme e um par de tênis que já conhecia cada irregularidade do calçamento do campus. 

 

Em um gesto automático, ajustou a alça da mochila no ombro e o movimento fez com que uma mecha do cabelo castanho escapasse do penteado meio-preso e caísse sobre os óculos de armação oval. Uma rajada de vento tocou seu rosto, corando levemente as bochechas já rosadas pelo blush que aplicou pela manhã, junto com um toque de corretivo e protetor labial. Nada elaborado. Apenas o suficiente. Ela era uma Bridgerton, afinal. A beleza era inevitável, herdada, algo que simplesmente era. Mas naquele pátio cheio de gente indo e vindo, mochilas nos ombros, fones de ouvido e conversas fragmentadas, ninguém a olhava como "uma Bridgerton".

 

Naquele lugar, ela era só Francesca.

 

E estava bem assim.

 

O pátio era seu ponto preferido no campus. Um quadrado amplo, cercado por prédios de arquitetura medieval, heras começando a se espalhar pelas paredes e janelas altas refletindo um céu ainda cinzento. No centro, uma fonte de pedra murmurava continuamente, a água caindo em camadas suaves. O som criava uma espécie de barreira invisível — abafava conversas, suavizava passos, organizava o ruído do mundo.

 

Ela aproximou-se da borda da fonte e passou os dedos pela pedra fria antes de se sentar. O gesto já era habitual. Colocou a mochila ao lado e inspirou fundo.

 

Seu primeiro ano longe de casa não foi um distanciamento completo de sua família. 

 

Dividir um apartamento com Eloise tornou tudo menos assustador. No flat de pé-direito altíssimo, coroado por molduras de gesso vitorianas que sobreviveram a séculos de camadas de tinta, de cozinha estreita e janelas enormes que embaçavam no inverno, elas criaram uma rotina que era só delas. Eloise falava muito,  especialmente sobre políticas públicas e desigualdades estruturais, mas havia algo diferente nela quando estavam sozinhas. À noite, às vezes, depois que a energia dela finalmente desacelerava, as duas ficavam sentadas no chão da sala, encostadas no sofá, dividindo confidências que jamais teriam espaço para serem externalizadas na mesa barulhenta de casa.

 

Eloise sabia quando Francesca precisava de silêncio. Sabia quando deixar uma pergunta no ar e esperar a resposta vir no tempo certo.

 

Elas dividiam o mesmo dia e mês de aniversário, com apenas um ano de diferença. “Minhas gêmeas acidentais”, o pai costumava dizer com carinho. E, talvez pela proximidade de idade, talvez por algo mais difícil de nomear, Eloise era a única que percebia quando Francesca estava sendo engolida pela própria quietude.

 

No flat, Francesca descobriu coisas simples: podia terminar uma frase sem interrupção. Podia escolher o que ouvir. Podia tocar no piano elétrico da sala, enquanto Eloise lia no sofá, e o som não competia com nada, apenas preenchia o ambiente com naturalidade.

 

Ali, ela começou a entender que nunca houve nada de errado com sua voz.

 

Ela só precisava de um tipo diferente de espaço onde pudesse ressoar. Onde ela pudesse se escutar melhor.

 

Sentada à beira da fonte, pensou no trecho da peça que ensaiaria naquela manhã. Na transição delicada entre dois acordes. No cuidado necessário para que a pausa não soasse como hesitação, mas como intenção.

 

Ela estava aprendendo a fazer o mesmo consigo.

 

A água continuava seu fluxo constante.

 

O campus respirava ao redor.

 

Foi então que ela percebeu um som que não se encaixava na paisagem habitual.

 

Risos mais altos. Vozes chamando estudantes pelo nome. Uma energia diferente, mais expansiva do que o comum das manhãs.

 

Francesca raramente prestava atenção nesse tipo de coisa. Mas algo — talvez a curiosidade, talvez uma leve quebra no ritmo interno que vinha cultivando há meses — fez com que seus olhos se voltassem para a origem da movimentação.

 

No centro do pátio, próximo à entrada principal, havia um stand montado com tecidos coloridos pendurados nas laterais, balões em formato de coração cor-de-rosa e roxo, e uma mesa coberta com papéis brilhantes espalhados por todos os lados.

 

Mas não foi a decoração que prendeu o olhar de Francesca.

 

Foi ela.

 

Pequena — visivelmente pequena, mesmo à distância — mas impossível de ignorar.

 

Usava um casaco pesado, vermelho vivo, que descia até a metade das coxas, contrastando de forma quase teatral contra a pele retinta que refletia a luz fria do dia como uma pedra preciosa. As tranças longas, em um tom castanho-escuro quase preto, caíam soltas sobre os ombros, balançando levemente sempre que ela se movia — e ela se movia muito. Gesticulava enquanto falava, inclinava-se ligeiramente para frente quando ouvia, sorria com uma generosidade que parecia transformar o espaço ao redor.

 

Como alguém tão pequeno ocupava tanto espaço?

 

Francesca não conseguia desviar os olhos.

 

A mulher falava com dois estudantes ao mesmo tempo, alternando entre eles com uma facilidade desconcertante, como se cada pessoa fosse a única que importava naquele momento. Quando um deles riu de algo que ela disse, ela riu também. Não um riso performático, mas genuíno, contagiante, do tipo que fazia quem estava perto querer participar da piada mesmo sem saber qual era.

 

Havia algo magnético nela.

 

Não era apenas beleza — embora fosse, inegavelmente, bela. Era a forma como ela iluminava o ambiente. Como fazia as pessoas ao redor se sentirem maiores, mais interessantes, mais vistas.

 

E então ela falou novamente.

 

Aquela voz.

 

Francesca sentiu algo estranho se deslocar dentro do peito.

 

Grave. Aveludada. Com um sotaque leve que moldava as vogais de um jeito diferente, suave — sul-africano, talvez? Francesca não tinha certeza. Só sabia que era o tipo de voz que prendia a atenção não por volume, mas por textura. Rica. Quente. O tipo de som que ela, como estudante de música, reconhecia instintivamente como raro.

 

A mulher agradeceu aos dois estudantes, entregou-lhes algo colorido, e virou-se para organizar a mesa.

 

O som da fonte ficou distante.

 

Só havia a voz. O casaco vermelho. O riso.

 

E então a mulher ergueu o rosto e a encarou diretamente.

 

— Posso te ajudar?

 

A voz era ainda mais bonita de perto.

 

Francesca piscou.

 

Olhou ao redor instintivamente, confusa, e percebeu que estava na frente do stand. A poucos passos da mesa. Próxima o suficiente para ver os detalhes do rosto daquela mulher.

 

Como...?

 

Virou a cabeça e viu a fonte agora pequena à distância. A borda de pedra onde estivera sentada.

 

Quando eu levantei?

 

Não lembrava de ter decidido se mover. Não lembrava de ter cruzado o pátio.

 

Mas estava ali.

 

Voltou os olhos para a mulher, que a observava com uma expressão amigável, curiosa, levemente divertida.

 

Francesca sentiu o rosto esquentar.

 

— Eu... — começou, e a própria voz saiu mais baixa do que pretendia.

 

Respirou fundo. Mordeu o lábio inferior. Procurou desesperadamente por algo — qualquer coisa — que justificasse estar ali, parada feito uma estátua de mármore.

 

Seus olhos varreram a mesa. Panfletos. Convites coloridos. Um cartaz explicativo com palavras que ela tentou processar rapidamente.

 

Pense, Francesca. Seja prática.

 

— Gostaria de saber mais sobre o evento — disse, finalmente, e a frase saiu funcional demais, quase robótica.

 

Mas a mulher não pareceu notar. Ou, se notou, não se importou.

 

Pelo contrário.

 

Ela floresceu.

 

O sorriso que já era largo ficou radiante. Os olhos — castanhos profundos, quentes — brilharam como se Francesca tivesse dito exatamente a coisa certa.

 

— Claro! — exclamou, e Francesca sentiu seu entusiasmo como algo quase físico. — É uma festa a fantasia beneficente de Dia dos Namorados. A gente vai arrecadar fundos para ONGs que dão suporte a pessoas LGBTQIAPN+. Elas fornecem suporte jurídico, psicológico, moradia… basicamente tudo. Algumas dessas organizações incríveis trabalham com refugiados também, pessoas que precisam de asilo, outras que foram expulsas de casa. A gente quer garantir que elas tenham acesso a recursos, a espaços seguros, a...

 

Ela continuou, gesticulando com as mãos, os olhos acesos, a voz subindo e descendo em ondas de paixão genuína. Falava rápido, mas não atropelado — cada palavra era clara, intencional, importante.

 

Francesca ouvia.

 

Não fingia ouvir. Ouvia de verdade.

 

Observava a forma como a boca da garota se movia. A pequena divisão que aparecia entre os dentes da frente quando ela sorria. A intensidade no olhar. O jeito como ela se inclinava para frente, como se compartilhar aquilo fosse urgente, necessário.

 

— … e a festa vai ser incrível, prometo. Música boa, decoração toda temática, e obviamente fantasias obrigatórias. — Ela riu, e o som foi leve, contagiante. — A gente já vendeu mais da metade dos ingressos, o que é ótimo porque…

 

Ela parou. Respirou. Riu de novo, dessa vez com um toque de autoconsciência.

 

— Desculpa. Eu me empolgo. — Passou a mão pelas tranças, em um gesto casual. — É só que... são três anos estudando isso. Relações Internacionais com foco em Direitos Humanos. Às vezes eu simplesmente…

 

— Gosto da sua voz.

 

As palavras saíram antes que Francesca pudesse filtrá-las. 

 

Não.

 

Não, não, não.

 

O silêncio que se seguiu durou meio segundo, mas pareceu infinito.

 

Francesca sentiu o calor subir do pescoço até as orelhas.

 

— Eu quis dizer… não que… quer dizer, eu gosto, mas… — Ela se atrapalhou, as palavras tropeçando umas nas outras. Mordeu o lábio com força. Rodou o dedo anelar contra o polegar, nervosa. — Eu só… gosto de ouvir pessoas apaixonadas pelo que fazem. É isso. É o que eu queria dizer.

 

Idiota. Idiota. Idiota.

 

Mas a mulher não pareceu constrangida.

 

Pelo contrário.

 

O sorriso que se abriu no rosto dela foi devastador.

 

Lento. 

 

Intencional. 

 

Daqueles sorrisos que fazem qualquer pessoa perder o equilíbrio. 

 

— Obrigada — agradeceu, e havia algo diferente na forma como falou agora. Mais suave. Mais próxima. Como se a temperatura entre elas tivesse mudado sem aviso prévio.

 

Dessa distância, o perfume dela atingiu Francesca como uma onda. 

 

Madeira de sândalo, definitivamente. Algo floral — jasmim, talvez? — e por baixo, uma doçura quente que lembrava baunilha queimada. Um aroma exótico, inebriante de uma forma que fazia o cérebro de Francesca curto-circuitar levemente. Era o tipo de cheiro que grudava na pele feito tatuagem e perfumava todo o ambiente.

 

Era completamente viciante.

 

Francesca mordeu o lábio e prendeu a respiração por alguns segundos, lutando contra o impulso completamente inapropriado de se aproximar ainda mais e inalar contra a curva do pescoço daquela bela estranha, como se seu cheiro fosse oxigênio.

 

— Então... — A mulher inclinou a cabeça levemente, ainda com aquele sorriso. E aquela voz. E aquele cheiro. Meu deus. — Você vai? À festa?

 

— Eu... acho que sim.

 

— Ótimo. — Ela pegou dois convites da mesa, estendendo-os para Francesca. — Aqui. Leva dois. Traz alguém. Ou não. Tanto faz. Vai ser legal de qualquer jeito.

 

Francesca aceitou os papéis, e seus dedos roçaram brevemente nos dela.

 

— Qual o seu nome?

 

A pergunta veio casual, mas Francesca estava ocupada demais observando os detalhes do rosto à sua frente — a curva do nariz, a textura da pele, os cílios alongados — que demorou um segundo a mais para processar.

 

— Francesca — respondeu, rápido demais, quase engasgando na própria pronúncia. — Bridgerton. Francesca Bridgerton. Mas... Francesca. Só Francesca está bom.

 

Para.

 

— Prazer, Francesca. — Ela estendeu a mão. — Michaela Stirling.

 

Michaela.

 

Francesca repetiu mentalmente, saboreando cada sílaba. O nome combinava perfeitamente com aquela mulher: forte, bonito, marcante.

 

Ela apertou a mão oferecida.

 

E sentiu, de novo, aquele deslocamento estranho dentro do peito.

 

— Prazer — sussurrou.

 

Michaela soltou a mão dela devagar, mas o sorriso permaneceu.

 

— Te vejo na festa, então?

 

— Sim. Acho que sim. Provavelmente.

 

Michaela assentiu, divertida, e então virou-se para atender outro estudante que se aproximava do stand, a energia voltando instantaneamente, o sorriso radiante de novo no rosto.

 

Francesca ficou parada por mais um segundo. Dois, três.

 

Depois, virou-se.

 

Caminhou.

 

Afastou-se devagar, os convites dobrados entre os dedos, o som da voz de Michaela ainda ecoando nos ouvidos como uma melodia que ela não sabia que precisava escutar.

 

O que foi isso?

 

Ela olhou para os convites. Para as letras coloridas. Para a data impressa.

 

Olhou para trás uma vez — só uma — e viu Michaela rindo com outro estudante, tão presente, tão viva.

 

Francesca virou-se de novo e continuou andando.

 

Mas algo dentro dela — algo que sempre estivera quieto, organizado, sob controle — havia sido completamente desarranjado.

 

E ela não fazia ideia do que fazer com isso.

 

 ***

 

Em um campus com dezessete mil estudantes, quais eram as chances de esbarrar com alguém que, há menos de vinte e quatro horas, era uma completa desconhecida?

 

Francesca não sabia a resposta.

 

Mas passou os cinco dias seguintes descobrindo que as chances eram, aparentemente, zero.

 

Na terça-feira, durante a aula de Harmonia Avançada, ela estava inclinada sobre a partitura, anotando as progressões de acordes que o professor demonstrava no piano, quando uma risada ecoou no corredor. Grave. Calorosa.

 

Seu pulso acelerou.

 

Ergueu os olhos instintivamente, procurando pela janela da porta, mas viu apenas um grupo de estudantes de Teatro passando, conversando alto. Nenhum casaco vermelho. Nenhuma trança castanho-escura.

 

Voltou à partitura.

 

A progressão não fazia mais sentido.

 

*

 

Na quarta-feira, estava na fila do refeitório com a bandeja nas mãos quando viu, três pessoas à frente, uma mulher de tranças longas virando-se para pegar um guardanapo.

 

O coração de Francesca saltou.

 

Sem perceber, ficou na ponta dos pés, esticando o pescoço para ver melhor.

 

A mulher virou-se completamente.

 

Não era ela.

 

Francesca baixou os calcanhares devagar, sentindo o estômago afundar.

 

Isso é ridículo.

 

Pegou uma maçã que não queria e saiu da fila.

 

*

 

Na quinta-feira, foi ao mercado com Eloise.

 

Tinham uma lista — leite, pão, frutas, carnes, algo que servisse de jantar para a próxima semana. Eloise empurrava o carrinho,  enquanto falava sobre uma palestra que assistira sobre políticas de imigração, gesticulando com uma caixa de cereal na mão esquerda.

 

Francesca ouvia.

 

Ou tentava.

 

Porém, quando passaram pelo corredor de produtos de higiene, algo chamou sua atenção. Um frasco de sabonete líquido. Âmbar e sândalo, dizia o rótulo.

 

Pegou o frasco. Destampou. Cheirou.

 

Amadeirado. Floral. Marcante.

 

Não era exatamente aquele.

 

Mas era próximo.

 

— Frannie?

 

Ela piscou. Eloise a observava com uma sobrancelha erguida.

 

— Desde quando você usa sabonete líquido?

 

— Não uso.

 

— Então por que está cheirando esse aí há uns dois minutos?

 

Francesca colocou o frasco de volta na prateleira.

 

— Só... curiosidade.

 

Eloise estreitou os olhos, mas não disse nada.



*

 

Na sexta-feira de manhã, durante a sessão de yoga que fazia toda semana antes da aula de História da Música, Francesca perdeu o equilíbrio na postura da árvore.

 

Duas vezes.

 

A instrutora se aproximou, tocando-lhe levemente o ombro.

 

— Tudo bem?

 

— Sim. Desculpa.

 

Mas não estava tudo bem.

 

Estava pensando em te vejo na festa, então? E no jeito como Michaela sorriu quando ela disse que gostava de sua voz.

 

Respirou fundo.

 

Tentou novamente a postura.

 

Caiu de novo.

 

*

 

Francesca não entendia.

 

Ou melhor, entendia racionalmente.

 

Atração. 

 

Interesse.

 

Curiosidade.

 

Só que havia algo além disso. Algo que a mantinha em uma espécie de fissura constante, ansiosa pela próxima vez que encontraria Michaela Stirling, mesmo sem saber exatamente o por quê.

 

Ela pensava nela enquanto caminhava para a aula. Pensava enquanto estudava. Pensava à noite, deitada na cama, olhando para o teto do quarto.

 

Sair do armário tinha sido... libertador.

 

Mas também um pouco aterrorizante.

 

Sua família foi amorosa, é claro que foi. Porém, olhando em retrospecto — e com o benefício de não estar mais sob efeito entorpecente da própria adrenalina — levantar no meio de um dos almoços caóticos tradicionais da família Bridgerton, bater a taça na mesa e anunciar “eu sou lésbica” como se estivesse proclamando a independência nacional, talvez não tenha sido o movimento mais estratégico da sua existência. 

 

Ironicamente, Francesca escolheu o caos.

 

E o caos, como sempre, respondeu à altura.

 

Violet chorou, emocionada, dizendo que só queria que Francesca fosse feliz. Anthony tropeçou nas palavras para, no fim, apenas envolvê-la em um abraço de urso tão apertado que quase deslocou seu ombro. Kate simplesmente a puxou para mais um abraço firme e sussurrou um “nós te amamos muito” choroso contra seu cabelo. Colin começou a fazer piadas nervosas, até Benedict e Sophie lhe aplicarem dois tapas perfeitamente sincronizados, um de cada lado da nuca.

 

Penelope mandou uma mensagem de texto quilométrica cheia de emojis de coração e a oferta de ajudá-la com “qualquer coisa, literalmente qualquer coisa”, o que, vindo de Penelope, podia significar desde conselhos amorosos até montar um dossiê perfeito de qualquer crush em menos de vinte e quatro horas, com nome completo, signo, ex-namoradas e possíveis traumas de infância.

 

Eloise soltou um “eu sabia” com tanta convicção que Francesca quase riu. Quase.

 

Daphne, sempre a irmã mais velha maternal, sentou-se ao lado de Francesca no sofá, quando a sala já estava mais dispersa. Pegou sua mão com solenidade, como se fosse conduzir uma intervenção cuidadosamente planejada, respirou fundo e disse:

 

— Saiba que eu te amo incondicionalmente e vou apoiar você em tudo. Inclusive se você quiser conversar sobre… técnicas. Ou… posições. Ou… bem, você sabe.

 

Francesca piscou.

 

Daphne claramente não sabia.

 

— Eu li coisas — a primogênita acrescentou rapidamente, num tom defensivo. — E… bem… anatomia é anatomia, não é mesmo?

 

Não era.

 

O rosto de Daphne foi lentamente adquirindo um tom carmim tão intenso que Francesca temeu que em breve precisassem chamar um médico para a irmã. Simon, observando a cena com uma serenidade estratégica, aproximou-se apenas o suficiente para pousar a mão no ombro de Francesca.

 

— Desculpa por isso — murmurou, divertido.

 

E quando ela teve certeza de que estava a um comentário constrangedor da combustão espontânea, afundada nas almofadas do sofá, tentando se recompor enquanto a casa continuava a esvaziar aos poucos, sentiu o espaço ao seu lado afundar abruptamente.

 

Hyacinth surgiu como uma força da natureza.

 

— Ok, vamos resolver essa emergência sáfica.

 

Antes que Francesca pudesse reagir, o celular foi arrancado de suas mãos.

 

— Hyacinth! — Violet repreendeu de longe, já no corredor.

 

— O quê? Eu estou baixando o Bumble, o Tinder e o HER pra ela. 

 

Gregory apareceu atrás do sofá, apoiando os braços no encosto e inclinando-se sobre as duas.

 

— Deixa eu ver as fotos.

 

— Não encosta — Hyacinth avisou, empurrando o rosto dele sem nem olhar.

 

Ele ignorou.

 

— Essa não. A Frannie tá com aquela cara.

 

Francesca estreitou os olhos.

 

— Que cara?

 

— Aquela de “estou julgando todo mundo em silêncio”.

 

— Essa é a cara normal dela — a caçula concordou imediatamente.

 

— Eu não tenho essa cara.

 

Os dois olharam para ela, respondendo em uníssono:

 

— Tem.

 

Gregory deslizou para outra foto.

 

— Essa aqui. Essa é boa.

 

— Por quê? — Hyacinth desafiou.

 

— Porque ela parece interessante. Tipo… inacessível. As mulheres gostam.

 

— E desde quando você entende o que as mulheres gostam?

 

Gregory cruzou os braços, confiante demais.

 

— Eu tenho instinto.

 

Hyacinth piscou.

 

— Gregory, você acha que toda mulher que mantém contato visual por mais de três segundos está apaixonada por você.

 

Silêncio.

 

Do outro lado da sala, Colin soltou uma gargalhada alta demais.

 

Gregory ficou vermelho.

 

Abriu a boca.

 

Fechou.

 

Hyacinth não precisou dizer mais nada, apenas voltou para o celular.

 

E, então, Francesca percebeu que havia perdido completamente o controle da própria narrativa. Por um breve segundo, considerou até forjar a própria morte e comprar uma passagem só de ida para a Escócia.

 

Mas, no meio de todo aquele caos — das interrupções, das piadas, dos aplicativos baixados sem consentimento e das conversas constrangedoras no sofá — algo era inegável: ela nunca se sentiu tão amada.

 

Amada de um jeito barulhento. Invasivo. Desajeitado. Mas absoluto.

 

E ainda assim…

 

Havia algo dentro dela que permanecia apertado, sufocado. Algo que ainda a fazia se sentir presa aos padrões que ela mesma havia internalizado. Às expectativas invisíveis que imaginava que os outros depositavam sobre ela. À ideia silenciosa de que mulheres como ela, quietas, certinhas, delicadas, seguiam um caminho específico. Um roteiro previsível. Um destino “confortável”.

 

E sair dele exigia mais do que um anúncio dramático no almoço de domingo.

 

Exigia coragem diária.

 

Benedict e Sophie ajudaram.

 

Passaram noites inteiras conversando no apartamento apertado dos dois, Benedict gesticulando com uma caneca de chá, Sophie sentada de pernas cruzadas no sofá, ambos compartilhando suas próprias jornadas. Pan e bissexual, respectivamente. Eles entendiam de uma forma que os outros, por mais amorosos que fossem, não conseguiam.

 

Foi Benedict quem a levou ao primeiro bar gay. Foi ele quem ficou ao lado dela a noite inteira, apresentando-a a pessoas, rindo quando ela ficava vermelha, traduzindo códigos sociais que ela ainda não conhecia.

 

E foi Sophie quem, depois que Francesca beijou uma garota pela primeira vez — uma estudante de Artes Cênicas de cabelo curto e sorriso confiante — e trancou-se no banheiro para chorar, bateu na porta devagar e entrou sem esperar resposta. Sentou-se no chão frio de azulejo ao lado dela, pegou sua mão e não disse nada. Apenas ficou ali. Segurando. Esperando. Até que Francesca conseguisse respirar de novo e entender que chorar não significava arrependimento. Significava só que ela estava sentindo demais, tudo de uma vez, e que estava tudo bem.

 

Ela estava aprendendo.

 

Aos poucos.

 

Como um bebê dando os primeiros passos em um caminho que nunca imaginara trilhar.

 

E achava que estava começando a ter controle sobre isso. Que entendia como funcionava aceitar ser nada mais do que se é. Que sabia navegar aqueles sentimentos novos com a mesma praticidade que aplicava ao resto da vida.

 

Até Michaela Stirling aparecer.

 

*

 

Naquela noite — sexta-feira, véspera da festa — Francesca estava sentada ao piano elétrico na sala do apartamento.

 

Eloise estava deitada no tapete, lendo Mulheres, Raça e Classe, de Angela Davis, com os pés descalços apoiados no braço do sofá.

 

Francesca tocava uma peça que vinha compondo há semanas. Algo delicado. Melancólico.

 

As notas fluíam com naturalidade, os dedos encontrando as teclas por memória muscular.

 

Até que um pensamento cruzou sua mente — e se ela não conseguisse encontrar Michaela no meio de tanta gente? E se Michaela não estivesse interessada? E se ela namorasse? — e seu dedo escorregou.

 

A nota saiu dissonante. 

 

Errada.

 

Francesca parou.

 

Olhou para as próprias mãos como se elas a tivessem traído.

 

Do tapete, Eloise baixou o livro devagar e se sentou.

 

— Tá legal — disse, virando-se para encará-la. — O que está acontecendo?

 

Francesca não respondeu de imediato.

 

Ajustou os óculos. Rodou o dedo anelar contra o polegar.

 

— Nada.

 

— Francesca.

 

— Sério. Estou bem.

 

Eloise subiu para o sofá, sentando-se sobre as pernas cruzadas.

 

— Você errou a mesma transição três vezes hoje. Você nunca erra. Além disso, você cheirou sabonete líquido no mercado por tempo suficiente para eu escolher três tipos de cereal. E tem dormido mal. Eu ouço você revirando na cama.

 

Francesca suspirou.

 

— Estou só... pensando.

 

— Pensando — Eloise repetiu, como se testasse a palavra. — Acho que sempre tem uma primeira vez.

 

Francesca revirou os olhos, mas não conseguiu segurar um pequeno sorriso.

 

Ambas se encararam em silêncio por um momento. 

 

Depois, Francesca levantou e foi até a mochila pendurada na cadeira. Tirou de dentro os dois convites coloridos que carregava desde segunda-feira e caminhou até Eloise.

 

— Comprei ingressos para uma festa. No sábado. Pra gente.

 

Eloise piscou uma vez.

 

E de novo.

 

— Você — apontou para Francesca. — comprou ingressos para uma festa. Para mim — apontou para si mesma. — E para você.

 

— Sim.

 

— Você. Francesca Bridgerton. Que passa todo sábado à noite reorganizando partituras.

 

— Eloise.

 

— E eu. Eloise Bridgerton. Que quando Virginia Woolf escreveu "sinto tão intensamente os prazeres de me fechar em um pequeno mundo próprio" estava literalmente descrevendo meus planos para um fim de semana ideal. Não tem a menor possibilidade de você me tirar de casa neste sábado à noite.

 

Francesca mordeu o lábio, segurando o riso.

 

— É uma festa beneficente — disse, estendendo um dos convites. — Arrecadação para ONGs que apoiam pessoas LGBTQIAPN+. Suporte jurídico, psicológico, moradia. Refugiados também. Pessoas que precisam de um lar.

 

Eloise pegou o convite.

 

Leu.

 

Olhou para Francesca e suspirou dramaticamente.

 

Levantou-se do sofá e caminhou até a cozinha, pegando um copo de água.

 

Bebeu devagar, como se estivesse ponderando a decisão mais importante de sua vida.

 

Depois, virou-se para Francesca, apoiando-se no balcão.

 

— Tá bom — disse, estreitando os olhos com um pequeno sorriso despontando nos lábios. — Acho que há sim uma possibilidade de eu sair de casa em um sábado à noite no Dia dos Namorados.

 

Francesca sorriu.

 

Eloise pegou o convite da mão dela e examinou os detalhes — as cores vibrantes, o horário, o endereço.

 

— Fantasia obrigatória, hein? — comentou, erguendo uma sobrancelha. — Você já pensou no que vai usar?

 

Francesca não tinha, mas acenou que sim.

 

Eloise deu uma risadinha, balançando a cabeça.

 

— Mentirosa.

 

E voltou para o sofá, levando o convite consigo.

 

Francesca ficou parada na sala, observando a irmã se acomodar de novo com o livro.

 

E, pela primeira vez em cinco dias, sentiu algo diferente de ansiedade.

 

Era expectativa.

 

***

 

A casa era impossível de ignorar.

 

Mesmo de longe, antes de cruzarem o portão de ferro entreaberto, Francesca já conseguia ouvir a música pulsando pelas paredes — algo pop, animado, com graves que faziam o chão vibrar levemente sob os pés. Luzes coloridas piscavam através das janelas altas, projetando sombras dançantes nos arbustos do jardim frontal.

 

Era uma daquelas student houses antigas que pareciam ter saído de um romance vitoriano — três andares de pedras cinzas, janelas com molduras brancas descascadas pelo tempo, uma varanda ampla na frente com colunas de madeira que sustentavam um telhado inclinado. Heras subiam pelas laterais da construção, entrelaçando-se nos parapeitos como se a natureza estivesse tentando reconquistar seu espaço.

 

Mas, essa noite, a casa tinha sido transformada.

 

Balões em formato de coração — rosa, vermelho, roxo, dourado — flutuavam amarrados ao corrimão da varanda e aos galhos das árvores do jardim. Faixas de tecido brilhante pendiam das janelas, tremulando ao vento frio de fevereiro. Cupidos de papel, alguns ridiculamente grandes, outros delicados e detalhados, estavam colados na porta de entrada e nas janelas. Bandeiras se misturavam às decorações de Dia dos Namorados em uma explosão de cores — o arco-íris clássico, a trans com suas listras azuis, rosas e brancas, a bissexual em tons de rosa, roxo e azul, a lésbica com seu degradê de laranjas e rosas, a do orgulho gay. Havia outras também, tremulando ao vento, criando uma paleta vibrante e desordenada, mas que de alguma forma funcionava. Como se houvesse espaço para todos ali. Como se todas aquelas cores, juntas, fizessem sentido.

 

Na varanda, alguém tinha pendurado cortinas de luzes que piscavam em sequência, criando um efeito quase hipnótico. Duas mesas compridas ladeavam a entrada — uma coberta com caixas de doações transparentes, já meio cheias de dinheiro e bilhetes dobrados, a outra com uma pilha de pulseiras coloridas e uma menina de cabelo rosa segurando uma prancheta.

 

Francesca parou no meio do caminho de pedras que levava à porta.

 

Eloise, ao seu lado, soltou uma risada baixa.

 

— Eles capricharam mesmo, né? — disse, ajeitando uma das placas prateadas que compunham sua fantasia de Joana d'Arc. 

 

A armadura de Eloise era uma releitura moderna — não metal de verdade, mas tecido estruturado em tons de prata que imitavam placas, com detalhes brilhantes nos ombros e no peito. Botas de combate pretas. Luvas sem dedos. O cabelo preso em um rabo de cavalo alto. Ela parecia pronta para liderar uma revolução.

 

Francesca, por outro lado, sentia-se estranhamente exposta.

 

O vestido era curto — muito curto para seus padrões — e fluía com leveza a cada passo, o tecido azul claro quase translúcido capturando a luz das decorações ao redor. Detalhes dourados marcavam seus acessórios: o cinto delicado na cintura, braceletes finos nos pulsos e um colar simples, mas elegante, no pescoço. A tiara, também dourada, repousava sobre o coque despojado, cachos largos escapavam formando uma moldura ao redor do rosto. Os óculos usuais foram substituídos por lentes de contato. A maquiagem natural evoluiu para tons suaves de um azul cintilante nos olhos, um blush pêssego e um gloss nude nos lábios.

 

Ela era uma musa. Euterpe, especificamente. A musa da música.

 

Parecia apropriado.

 

Mas também parecia... demais.

 

— Você está linda — Eloise disse, como se lesse seus pensamentos. — Sério. Tipo, você parece um anjo. Não, espera. Você parece uma deusa grega que desceu do Olimpo para abençoar essa festa beneficente com sua presença divina.

 

Francesca revirou os olhos, mas sorriu.

 

— Cala a boca.

 

— Estou falando sério! Olha pra você. Se alguém não te pedir em casamento hoje, eu vou questionar o bom senso das mulheres dessa universidade.

 

— Eloise.

 

— Apenas aceite o elogio, Frannie.

 

Elas subiram os degraus da varanda juntas.

 

A menina de cabelo rosa ergueu os olhos da prancheta e sorriu.

 

— Oi! Ingressos?

 

Francesca entregou os dois papéis coloridos que carregava há quase uma semana. A menina conferiu, carimbou algo, e estendeu duas pulseiras — uma rosa, outra roxa.

 

— Obrigada por apoiar a causa! — disse, animada. — Bebidas e comida lá dentro, banheiros no segundo andar e se precisarem de alguma coisa, é só gritar. Ah, e — ela piscou. — adorei as fantasias.

 

Antes que pudesse responder, uma voz feminina gritou da porta entreaberta:

 

— CASA COMIGO, DEUSA GREGA!

 

Francesca sentiu o rosto pegar fogo instantaneamente.

 

Eloise virou a cabeça tão rápido que a Bridgerton mais nova teve certeza de que a irmã quebraria o pescoço. Mas não. Ela apenas a encarou com um brilho triunfante nos olhos e um sorriso convencido — aquele sorriso de quem diz eu te avisei sem precisar abrir a boca.

 

— Você pode apenas agir como uma pessoa normal esta noite? É tudo o que eu te peço.

 

— Então você está pedindo muito.

 

— Eu te odeio — Francesca murmurou, mas estava sorrindo.

 

***

 

A música alta — algo que Francesca reconheceu vagamente como Bad Bunny — preenchia cada centímetro do interior da casa. O corredor de entrada, que provavelmente já fora elegante, agora estava coberto com mais balões, mais cupidos de papel e mais faixas brilhantes penduradas no teto. Luzes coloridas giravam lentamente, projetando padrões de rosa e roxo nas paredes.

 

À esquerda, a sala de estar tinha sido convertida em uma pista de dança. Móveis empurrados para as bordas, formando um espaço amplo onde dezenas de pessoas se moviam ao ritmo da música — fantasias variadas, algumas elaboradas, outras improvisadas. Francesca viu uma Cleópatra dançando com um pirata. Uma vampira rindo ao lado de uma fada. Dois rapazes vestidos de ketchup e mostarda se beijando perto da janela.

 

À direita, a sala de jantar abrigava um bar improvisado. Garrafas de bebida alinhadas sobre uma mesa comprida, copos plásticos empilhados, baldes de gelo, e — como prometido — drinks em tons de vermelho e rosa sendo servidos por alguém vestido de Baco. Ao lado, outra mesa estava coberta de petiscos: salgadinhos, frutas, doces em formato de coração.

 

No final do corredor, escadas de madeira levavam ao segundo andar, onde Francesca podia ver pessoas subindo e descendo, rindo e conversando.

 

E em todos os lugares — todos mesmo — havia gente.

 

Dançando. Beijando. Gritando por cima da música. Tirando fotos.

 

Eloise inclinou-se mais para perto.

 

— Isso é muito mais gente do que eu esperava!

 

Francesca assentiu, sentindo algo estranho se mexer no estômago.

 

Não era desconforto.

 

Era antecipação.

 

Seus olhos varreram a sala automaticamente, procurando.

 

Procurando ela.

 

Michaela.

 

Mas havia gente demais. Movimento demais. Fantasias demais.

 

E se não conseguir encontrá-la no meio de tanta gente?

 

E se encontrar, mas não souber o que dizer?

 

— Vamos pegar uma bebida? — Eloise sugeriu.

 

Francesca concordou, e elas se espremeram pela multidão em direção ao bar.

 

O caminho até lá foi uma sequência de "com licença", "desculpa", e pelo menos três pessoas parando Francesca para elogiar sua fantasia. Ela agradecia com sorrisos curtos e educados, mas não parava de procurar.

 

Onde ela está?

 

Quando chegaram ao bar, Eloise pediu um drink que parecia conter vodka e suco de cranberry. Francesca aceitou um copo de alguma coisa rosa e efervescente sem perguntar o que era.

 

— Okay — Eloise disse, apoiando-se na mesa e observando a festa ao redor. — Admito. Estou feliz de ter vindo hoje.

 

Francesca tomou um gole da bebida. Doce. Levemente ácida. Não era horrível.

 

— Você parece surpresa.

 

— Eu estou surpresa. Festas não costumam ser minha praia, você sabe. Mas essa... sei lá. Só gostei da energia daqui.

 

Francesca concordou.

 

Mas não estava prestando atenção.

 

Seus olhos continuavam vasculhando a sala. A pista de dança. O corredor. As pessoas perto da escada.

 

Ela está aqui. 

 

Em algum lugar.

 

Mas e se...

 

— Frannie?

 

Ela piscou. Olhou para Eloise.

 

— Hm?

 

— Você está bem? Parece... distraída.

 

— Estou bem.

 

Eloise a estudou por um segundo, mas antes que pudesse dizer algo, uma voz animada cortou o espaço entre elas:

 

— ELOISE?

 

As duas viraram-se.

 

Um homem se aproximava — alto, ombros largos, sorriso aberto. Usava uma fantasia de Robin Hood que parecia ter sido montada com carinho: túnica verde-musgo, colete marrom de couro sintético, botas, e um arco de brinquedo pendurado nas costas. O cabelo castanho, quase cor de mel, estava levemente bagunçado, e havia algo genuinamente acolhedor em seus olhos azuis.

 

— Phillip! — Eloise iluminou-se.

 

Ele chegou até elas e puxou Eloise para um abraço rápido, afetuoso.

 

— Não acredito que você veio! — Phillip disse, sorrindo. — Achei que você ia usar aquela desculpa de "tenho que ler Foucault" de novo.

 

Eloise riu.

 

— Eu ia. Mas minha irmã me convenceu.

 

Phillip virou para Francesca, estendendo a mão.

 

— Oi! Phillip Crane. Prazer.

 

Ela apertou a mão dele, sorrindo cordialmente.

 

— Francesca Bridgerton. 

 

— Sua fantasia ficou incrível — Phillip elogiou, gesticulando para o vestido dela. — Musa da música, certo?

 

— Sim! — Francesca se animou com o reconhecimento. — A sua escolha também foi ótima. 

 

— Ah, valeu! — Ele deu uma risadinha. — Eu ia de algo mais botânico, tipo coberto de folhas e flores, já que eu estudo isso e tal. Mas me imaginei tentando dançar com galhos presos nas costas e desisti da ideia. Robin Hood pareceu mais prático. E, tipo, tem todo aquele simbolismo de redistribuição de riqueza, luta contra injustiça social... achei que combinava com a causa da festa, sabe?

 

Francesca sorriu.

 

— Faz todo sentido. E é admirável.

 

Phillip deu de ombros, mas também estava sorrindo.

 

Eloise olhou para ele com os olhos brilhando com um sentimento que Francesca reconheceu como admiração. E Phillip retribuía atento, interessado, gentil.

 

Havia algo no ar entre os dois.

 

Não era óbvio. Não era gritante.

 

Mas estava lá.

 

— Você estuda o que, Phillip? — Francesca começou, genuinamente curiosa.

 

— Biologia. Com foco em botânica e conservação ambiental. Basicamente, eu quero salvar o planeta e também garantir que pessoas trans e queer tenham seus direitos básicos. As prioridades normais.

 

Claro. Nada como uma meta modesta de vida.

 

— Parece que você está fazendo um trabalho importante.

 

— Alguém tem que fazer.

 

Eloise olhou para ele com aquela expressão de novo. 

 

Ok. Agora está ficando bem óbvio. 

 

— Fico mais tranquila — Francesca tomou outro gole da bebida, observando-os por cima do copo. — Sempre me preocupo quando a Eloise se aproxima de homens sem um plano concreto de transformação do mundo.

 

— Francesca! — Eloise protestou, mas havia riso na voz.

 

— O quê? — ela deu de ombros. — Você já dispensou alguém por não ter opinião formada sobre reforma agrária.

 

— Ele disse que “não sabia o suficiente sobre o assunto”.

 

— Realmente, imperdoável. 

 

Phillip riu, acompanhando a troca como quem assiste a uma partida de tênis.

 

— E como você conheceu a minha irmã? — Francesca perguntou depois de um segundo.

 

— Em um protesto — foi Eloise quem respondeu. — Sobre direitos trans. Aquele em novembro do ano passado, lembra? 

 

— Eloise estava lá com um cartaz gigante citando Judith Butler — Phillip completou. — E eu estava lá porque, bem, essas políticas me afetam diretamente. Sou um homem trans, então essas merdas de "definição legal de gênero" basicamente tentam apagar a minha existência. E a gente acabou conversando depois, descobrimos que estudamos na mesma universidade e... aqui estamos nós.

 

Eloise sorriu radiante para ele.

 

— Você fez um discurso incrível naquele dia.

 

— Você também. Butler ficaria orgulhosa.

 

Eles trocaram mais um olhar.

 

Ah.

 

Francesca entendeu o que existia ali. 

 

Conexão intelectual. Admiração mútua. Aquela inclinação sutil de corpos que começa sem que nenhum dos envolvidos perceba.

 

Ela era oficialmente uma vela. 

 

Hora de sair.

 

— Sabe onde fica o banheiro?

 

Phillip apontou para as escadas.

 

— Segundo andar. Primeira porta à esquerda.

 

— Obrigada.

 

Ela olhou para Eloise, já completamente absorta em outra conversa com o rapaz.

 

— Volto já — disse.

 

Mas nenhum dos dois realmente ouviu.

 

Francesca atravessou a sala, espremendo-se entre corpos e subiu as escadas.

 

O segundo andar era mais silencioso, mas ainda cheio. Pessoas conversando nos corredores, encostadas nas paredes, sentadas nos degraus. Francesca encontrou o banheiro — ocupado, é claro — e esperou.

 

Três minutos depois, a porta se abriu. Uma garota vestida de sereia saiu, rindo de algo no celular.

 

Francesca entrou.

 

Trancou a porta.

 

Respirou. 

 

O banheiro era pequeno, limpo o suficiente considerando a festa. Espelho acima da bancada. Luz amarelada. Silêncio relativo.

 

Ela se aproximou da pia e abriu a torneira.

 

Deixou a água fria correr sobre os pulsos — um truque antigo, algo que sempre a acalmava.

 

Olhou para o próprio reflexo no espelho.

 

O coque estava segurando bem. A maquiagem intacta. A tiara brilhava sob a luz. Tudo na mais perfeita ordem. Exceto seus olhos, que denunciavam sua ansiedade.

 

E se ela não sentir o mesmo?

 

E se isso tudo estiver só na minha cabeça?

 

Francesca fechou os olhos com força. 

 

Respirou fundo.

 

Uma vez.

 

Duas vezes.

 

Três.

 

Para com isso.

 

Desligou a torneira. Secou as mãos. Ajeitou a tiara.

 

Destrancou a porta.

 

Abriu.

 

Saiu.

 

E trombou com tudo em alguém.

 

— Me desculpa, eu…

 

Ela baixou os olhos.

 

E todo ar foi expulso de seus pulmões.

 

Michaela Stirling estava bem ali, a menos de meio metro de distância.

 

A fantasia dela era... devastadora.

 

Um corset vermelho — vermelho vivo, quase agressivo na intensidade da cor — apertava o tronco de Michaela de uma forma que fez o estômago de Francesca dar cambalhotas na barriga. A saia era curta, rodada, com aplicações de corações dourados espalhadas como confetes. As asas presas às costas também eram douradas, delicadas, mas surpreendentemente grandes, tremulando levemente sempre que ela se movia. E nas mãos um arco dourado de brinquedo e uma flecha com ponta em formato de coração.

 

Cupido.

 

Ela era um cupido. 

 

O cabelo estava solto — tranças longas caindo sobre os ombros nus, brilhando sob a luz do corredor. A maquiagem era ousada: batom vermelho combinando com o corset, delineado preto acentuando os olhos castanhos que agora estavam fixos em Francesca, medindo cada centímetro dela com intensidade. 

 

Michaela sorriu.

 

Devagar.

 

Daquele jeito que fazia tudo ao redor perder a urgência.

 

Você — disse, e a voz grave, aveludada, com aquele sotaque leve, preencheu todo o espaço entre elas. — Eu estava procurando por você.

 

Francesca abriu a boca.

 

Fechou.

 

Abriu de novo.

 

— Você estava?

 

Michaela deu um passo à frente. Pequena, sempre tão pequena — pelo menos dez centímetros mais baixa que Francesca mesmo com os saltos que usava —, mas de alguma forma com uma presença que ocupava todo o lugar.

 

— Estava. — Ela balançou a cabeça, o sorriso ficando maior. — Você é difícil de achar, sabia?

 

— Eu... não sabia.

 

— Você é. — Michaela gesticulou para a escada atrás delas. — Procurei por você na pista de dança. No bar. Até na varanda dos fundos. Nada. E aí pensei: "talvez ela esteja no segundo andar" e — ela fez um gesto teatral com as mãos. — voilà.

 

Francesca não conseguia parar de olhar.

 

Não conseguia processar.

 

Michaela estava aqui.

 

Michaela estava procurando por ela.

 

Michaela estava sorrindo como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

 

— Eu também… — Francesca tentou, com a voz quase falhando. — Estava procurando. Por você.

 

O sorriso de Michaela ficou, de alguma forma, ainda mais radiante.

 

— É mesmo?

 

— É.

 

— Bem — Michaela deu outro passo, agora perto o suficiente para que Francesca sentisse o perfume dela: amadeirado, floral, aquele cheiro fascinante que dominou sua memória a semana inteira. — Me achou.

 

Francesca engoliu em seco.

 

— Achei.

 

Michaela inclinou a cabeça, os olhos percorrendo a fantasia de Francesca lentamente — o vestido azul quase branco, os detalhes dourados, a tiara.

 

— Musa da música — disse, quase para si mesma. — Perfeito.

 

— Você também é perfeita — Francesca respondeu apressada, sentindo o rosto esquentar. — Quer dizer, o cupido... a sua fantasia está perfeita... em você.

 

As últimas palavras saíram quase sussurradas. Francesca pressionou os dedos até os nós ficarem esbranquiçados — nervosa, sem saber onde colocar as mãos.

 

Michaela riu.

 

Suave. 

 

Acolhedora.

 

Ela mordeu o lábio inferior — um gesto rápido, quase inconsciente — e Francesca sentiu algo apertar no peito.

 

— Você já viu a cadeira de balanço na varanda dos fundos? — a Stirling perguntou, olhando ao redor do corredor barulhento. — Eles decoraram ela inteirinha. 

 

Francesca balançou a cabeça, franzindo o cenho confusa.

 

— Ainda não.

 

— Então você precisa ver. — Michaela estendeu a mão. — Vem. Eu te mostro.

 

Francesca olhou para a mão oferecida.

 

Para os dedos finos. Para as unhas curtas pintadas de vermelho, combinando com o tom do corset.

 

E, sem pensar muito, aceitou.

 

A mão de Michaela era menor que a sua — delicada, mas firme. E quente. Francesca sentiu um formigamento subir pelo braço, algo que se instalou baixo no estômago, meio ansiedade, meio alívio. Como se finalmente aquilo que esteve fora de lugar nos últimos dias tivesse se encaixado.

 

Elas começaram a andar, descendo as escadas lado a lado, Michaela guiando-a pela multidão com uma desenvoltura que Francesca invejava. Abrindo caminho entre corpos e risadas, desviando de copos erguidos, sorrindo para pessoas que passavam.

 

Francesca olhou para as mãos delas — ainda unidas, os dedos entrelaçados de forma quase natural.

 

Eu poderia me acostumar com isso, pensou.

 

E só então notou que estava sorrindo.

 

***

 

 

A varanda dos fundos parecia outro mundo.

 

O som da festa foi abafado pelas portas e janelas fechadas — apenas um murmúrio distante de música e risadas. O ar era frio e limpo, carregando o perfume de rosas que teimavam em florescer mesmo no inverno. Luzinhas amareladas penduradas em fios atravessavam o teto da varanda, criando uma iluminação baixa, quente, quase onírica.

 

O jardim se estendia à frente — pequeno, mas cuidado. Rosas brancas e vermelhas cresciam nos canteiros ao longo da cerca baixa de madeira. Algumas margaridas resistentes pontilhavam os espaços entre as pedras do caminho. No canto mais distante, uma árvore antiga estendia galhos nus em direção ao céu escuro.

 

No centro da varanda, a cadeira de balanço dupla chamava atenção: madeira escura polida pelo tempo, decorada com rosas vermelhas entrelaçadas nas braçadeiras e no encosto, almofadas fofas em formato de coração espalhadas sobre o assento, um coelho de pelúcia caramelo, com laço vermelho no pescoço, apoiado no canto como um guardião silencioso.

 

Francesca estava sentada ali, o vestido fluindo ao redor dela como névoa, os detalhes dourados capturando a luz quente. Segurava uma garrafa de cerveja gelada entre os dedos.

 

Michaela estava no corrimão — não encostada, mas sentada nele, uma perna dobrada apoiada na madeira, a outra balançando levemente no ar. O corset vermelho contrastava com o vestido azul de Francesca. As aplicações douradas da saia e as asas brilhavam sob as luzes, criando pequenos reflexos nas paredes de pedras.

 

Vermelho e azul. Quente e frio. Fogo e gelo.

 

Michaela ergueu a garrafa, inclinando-se em direção a Francesca com um sorriso nos lábios.

 

— Um brinde — disse, a voz grave ecoando suavemente no espaço íntimo. — À festas beneficentes, causas importantes... e às cadeiras de balanço absurdamente bem decoradas.

 

Francesca soltou uma risada baixa e ergueu a própria garrafa.

 

— Às cadeiras de balanço absurdamente bem decoradas.

 

Um vidro bateu contra o outro, emitindo um som delicado, quase musical.

 

Elas beberam.

 

O líquido gelado desceu pela garganta de Francesca, aliviando o calor que persistia em seu rosto desde o corredor do segundo andar. Ela baixou a garrafa e olhou para Michaela.

 

Que já a observava.

 

Não de forma invasiva, mas com atenção. Como se Francesca fosse a única coisa que importava.

 

— Então — Michaela começou, balançando a perna levemente. — Francesca Bridgerton. Musa da música. Isso tem algo a ver com o que você estuda ou foi só coincidência?

 

Francesca passou o polegar pela lateral úmida da garrafa.

 

— Música e Composição. Segundo ano.

 

Os olhos de Michaela brilharam.

 

— Sério? Que incrível. Você toca?

 

— Piano. Principalmente.

 

— Piano — Michaela repetiu, saboreando a palavra. — Faz sentido. Você tem aquela postura. Tipo... ereta. Disciplinada. Como uma pianista clássica.

 

Francesca sentiu o rosto esquentar novamente.

 

— Não sei se isso é um elogio ou se você tá me chamando de robô.

 

Michaela riu alto.

 

— Definitivamente é um elogio. Eu gosto de pessoas disciplinadas. É meio hipnotizante.

 

Francesca mordeu o lábio, desviando o olhar para o jardim por um segundo antes de voltar a encará-la.

 

— Obrigada.

 

— E o que você quer fazer depois? Virar pianista famosa? Compor trilhas para filmes? Dar aula?

 

— Ainda não sei exatamente — Admitiu. — Só quero criar música que signifique alguma coisa. Que faça as pessoas sentirem. Talvez dar aula pra crianças durante o dia. Eu tenho três sobrinhos, August, de cinco meses, e os gêmeos Edmund e Charlotte, de três anos. Amo eles. Crianças são... puras. Honestas. — Ela fez uma pausa, um sorriso pequeno aparecendo nos lábios. — E à noite... talvez ser DJ em alguma boate. Tipo, viver duas vidas completamente diferentes.

 

Michaela parou de balançar a perna.

 

Olhou para Francesca com as sobrancelhas erguidas e um sorriso crescendo devagar.

 

— Espera. Você? Professora comportada de criancinhas durante o dia e DJ de boate à noite?

 

— Por que não?

 

Michaela se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, os olhos brilhando de diversão.

 

— Eu só acredito vendo. 

 

— Talvez você devesse vir a uma das minhas apresentações então.

 

— Talvez eu devesse — ela respondeu, e havia algo no tom que fez aquela agonia flamejante no peito de Francesca crepitar.

 

A Bridgerton tomou um gole da cerveja, tentando controlar o sorriso que insistia em aparecer.

 

— E você? — perguntou, mudando de assunto antes que derretesse ali mesmo. — Último ano de Relações Internacionais, certo? O que vem depois?

 

— Pós-graduação. Trabalho de campo. ONGs. — Michaela gesticulou com a mão livre. — Quero ajudar refugiados, pessoas LGBTQIAPN+ vulneráveis... fazer diferença na prática, não só na teoria. E viajar. Muito. Sempre viajei desde pequena por causa do trabalho da minha família, então... ficar parada num lugar só me deixa inquieta. Preciso me mover. Conhecer lugares. Pessoas. Causas diferentes.

 

— Parece libertador.

 

Michaela sorriu.

 

— Na maior parte do tempo é.

 

Michaela levou a garrafa aos lábios. Francesca fez o mesmo.

 

— Engraçado, Bridgerton não é um sobrenome comum. Mas sinto que já ouvi em algum outro lugar.

 

Francesca soltou uma risada baixa.

 

— Provavelmente. Já que somos oito irmãos e irmãs.

 

Michaela quase cuspiu a cerveja.

 

Oito?

 

— Oito. Quatro meninos e quatro meninas. Nomeados em ordem alfabética. Anthony, Benedict, Colin, Daphne, Eloise, Francesca, Gregory e Hyacinth.

 

A outra mulher ficou em silêncio por um único segundo.

 

E então começou a rir.

 

— Seus pais ou tinham muita criatividade ou nenhuma.

 

— Até hoje não sei a resposta.

 

Michaela assentiu devagar.

 

— Oito filhos. Isso deve ser... caótico.

 

— É — Francesca confirmou, a suavidade tomando conta de sua voz. — Mas também é incrível. Sempre tem alguém. Sempre tem riso. Sempre tem... vida. Eles são barulhentos e intrusivos e às vezes esquecem que eu existo no meio da confusão. Mas eu os amo mais do que qualquer coisa.

 

Michaela inclinou a cabeça, estudando-a.

 

— Você não me parece uma pessoa que gosta de bagunça.

 

Francesca hesitou.

 

— Não gosto. Às vezes... preciso do silêncio. Pra existir sem me sentir engolida por tudo.

 

— Entendo — disse suavemente.

 

E Francesca acreditou nela.

 

— E você? — perguntou. — Tem irmãos?

 

— Filha única. Mas tenho um primo, John.

 

— Vocês são próximos?

 

— Muito. A gente cresceu junto. — Michaela sorriu, a ternura genuína transparecendo em suas palavras. — Ele é... gentil. Leal. Sensível. O tipo de pessoa que antecipa suas necessidades antes de você perceber que as têm. Sempre disponível pra ajudar qualquer um. Faz todo mundo se sentir visto. Lembrado. Amado. Ele ficou com todas as boas qualidades da família.

 

— Ele parece ser incrível.

 

— Ele é a melhor pessoa que existe. — Michaela tomou um gole da bebida. — E você? Tem esse tipo de relação com algum dos seus irmãos?

 

Francesca assentiu. 

 

— Sou próxima de todos. Mas... Eloise e eu somos unha e carne. Irmãs e melhores amigas. Por isso dividimos um apartamento.

 

— A Joana d'Arc de armadura prateada?

 

— A própria.

 

— Eu cruzei com ela na sala antes de te encontrar no segundo andar. Acho que a gente já fez uma ou duas matérias juntas. Talvez seja por isso que o sobrenome Bridgerton parecia familiar.

 

— Ela tem esse dom de ser inesquecível.

 

— Alguém que entra em qualquer ambiente como um furacão, com aquela energia de "vou mudar o mundo ou morrer tentando" é realmente difícil de esquecer.

 

Francesca riu, encarando os pés que balançavam no ritmo do movimento da cadeira.

 

— Exatamente.

 

— Já você… — Michaela ponderou, capturando o olhar de Francesca para ela outra vez. — Parece ser o oposto. Quieta. Observadora. Cuidadosa. Como se estivesse descobrindo aos poucos onde se encaixa no mundo. Mas não menos intensa. Só… com um ritmo diferente.

 

Francesca suspirou, descrente.

 

— Isso foi... assustadoramente preciso.

 

— Eu presto atenção.

 

O ar ficou mais denso.

 

A Bridgerton precisou tomar outro gole de cerveja, em uma tentativa — frustrada — de ignorar o formigamento que subia por seus  braços.

 

— Qual sua cor favorita? — Michaela perguntou de repente.

 

— Azul celeste.

 

— Por quê?

 

— Me acalma. É uma cor leve. Tranquila. E me lembra o céu de verão.

 

Os olhos de Michaela percorreram o rosto de Francesca, como se estivesse tentando encaixar aquela nova informação a ela.

 

— Combina com você.

 

— E a sua?

 

— Vermelho. — os dedos dela desceram sobre o corset, apertando o tecido na altura da cintura. 

 

— Claro que sim.  

 

 — Meio óbvio?

 

— Um pouquinho. 

 

— Eu gosto porque é intenso. Me transmite energia, confiança, paixão. É impossível ignorar.

 

— Como você.

 

Michaela parou a garrafa de cerveja a meio caminho da boca e olhou para Francesca.

 

Firme.

 

Sem pressa. 

 

Realmente olhou.

 

— Cuidado, Francesca. Continue assim e vou achar que você está flertando comigo.

 

O pulso de Francesca disparou tão rápido que ela sentiu o coração bater na garganta. Engoliu em seco, consciente do próprio corpo de um jeito quase desconcertante.

 

Mesmo assim, não desviou o olhar.

 

Seus ombros permaneceram alinhados, o queixo levemente erguido.

 

— E se eu estiver?

 

Michaela aceitou seu desafio. 

 

Seus olhos escureceram um pouco e o sorriso que ocupou seu rosto era sugestivo, perigoso. Ainda sentada no corrimão da varanda, ela inclinou o corpo só o suficiente para diminuir a distância entre elas — não tocando, mas quase lá.

Perto o bastante para Francesca beirar uma experiência extracorpórea inalando seu perfume como oxigênio. 

— Então eu diria que você é muito boa nisso.

 

Francesca mordeu o lábio, roçando o polegar contra o indicador.

 

O silêncio vibrou.

 

— Você tem namorada? — Michaela perguntou de uma vez.

 

— Você acha que eu sou o tipo de pessoa que estaria flertando com você se tivesse uma namorada? — Francesca rebateu.

 

Michaela inclinou a cabeça, claramente se divertindo com a reação da Bridgerton.

 

— Você já ouviu falar em não-monogamia?

 

Francesca sentiu o estômago despencar.

 

— Você é não-monogâmica? Você tem uma namorada?

 

A gargalhada de Michaela ecoou de uma ponta a outra da varanda. 

 

— Não. Nenhuma namorada. E não, não sou não-monogâmica. — Ela finalmente tomou outro gole de cerveja. — Esse cupido nunca teve o coração flechado, mas quando acontecer, meu relacionamento será definitivamente monogâmico. Exclusivo. Fechado a sete chaves.

 

Francesca soltou o ar que não sabia que estava prendendo.

 

Riu baixinho, mais para si mesma.

 

— Então você não tem namorada.

 

— Não. — Michaela sorriu. — Nunca tive uma.

 

— Eu também nunca tive. — Francesca fez uma pausa. — Eu saí do armário só ano passado. Então ainda estou… aprendendo algumas coisas.

 

— Ano passado. — Michaela repetiu as palavras devagar, seu rosto assumindo automaticamente  um ar mais descontraído. — E como o lado de fora do armário tem sido pra você?

 

Francesca desviou o olhar por um instante, passando o polegar pela borda da garrafa.

 

— Estranho. Bom. Aterrorizante. Libertador. Às vezes tudo ao mesmo tempo. — Ela deu uma risada meio sem graça. — Minha família foi incrível quando eu saí, mas eu mesma… demorei um pouco pra aceitar quem eu sou. Fiquei presa em expectativas que eu achava que existiam sobre mim. 

 

— E agora?

 

— Agora eu estou tentando ser eu mesma. Fui em alguns encontros. Tive um relacionamento casual por dois meses. Nada sério. Ainda.

 

Michaela ficou quieta por um segundo.

 

Depois disse, ternamente:

 

— Tem gente que passa a vida inteira sem ter coragem de fazer o que você fez em um ano. — Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios. — E quer saber? Existe algo muito excitante e divertido nessa fase de autodescoberta. Tudo é novo. Tudo tem gosto de primeira vez.

 

Elas se encararam.

 

O olhar se estendeu — um segundo, dois, três — tempo demais.

 

Francesca sentiu o peito apertar.

 

Desviou os olhos para a garrafa que segurava. Tomou um gole longo, sentindo o líquido gelado descer.

 

— Você me deixa nervosa — admitiu num impulso, surpreendendo a si mesma.

 

Michaela ergueu as sobrancelhas.

 

— Eu?

 

— Você.

 

— Por quê?

 

Francesca soltou uma risada baixa, incrédula.

 

— Porque você é... você. Você domina qualquer espaço que entra. É impossível não olhar pra você.

 

Michaela ficou quieta por um segundo.

 

Depois desceu do corrimão.

 

Caminhou até a cadeira de balanço.

 

Parou na frente de Francesca.

 

— Posso?

 

Francesca assentiu, sem confiar na própria voz. A Stirling sentou ao lado dela. Perto, mas ainda mantendo uma certa distância.

 

A cadeira balançou suavemente com a mudança súbita de peso.

 

Elas ficaram ali por um momento, lado a lado, olhando para o jardim escuro à frente.

 

— Quer saber um segredo? — Michaela sussurrou.

 

Francesca virou a cabeça.

 

— Qual?

 

— Você também me deixa nervosa.

 

Ela piscou uma vez. Duas. Como se a frase precisasse ser reapresentada.

 

— Eu?

 

— Você. — Michaela sorriu de leve, imitando sua reação anterior. — Desde segunda-feira. Desde que você apareceu no meu stand e ficou me olhando como se eu fosse... algo especial.

 

— Você é especial.

 

Michaela virou o corpo levemente na direção de Francesca.

 

— E você é a pessoa mais interessante que eu conheci em muito tempo.

 

O coração de Francesca fez aquele movimento traiçoeiro. 

 

— Eu não costumo fazer isso — confessou antes que pudesse se conter. — Falar tanto. Me abrir assim. Mas com você... parece fácil.

 

— Comigo também. E olha que eu falo com todo mundo. Mas isso — ela gesticulou entre elas. — É diferente.

 

— É — Francesca concordou.

 

E era.

 

Elas ficaram em silêncio de novo, o balanço movendo-se com delicadeza sob o peso delas.

 

Michaela olhou para cima, para o céu escuro pontilhado por algumas estrelas que conseguiam furar a poluição luminosa da cidade.

 

Francesca virou a cabeça devagar e observou o perfil dela. A curva suave do nariz, a linha da mandíbula definida, o contorno dos lábios volumosos, o jeito como o brilho das luzinhas penduradas na varanda pintava a pele dela em tons dourados. Era injusto alguém ser assim.

 

Ela era… 

 

Tão linda.

 

— Posso te perguntar uma coisa? — Michaela quebrou o silêncio.

 

Francesca assentiu.

 

— Claro.

 

Ela hesitou por um segundo, girando a garrafa de vidro entre os dedos, pensativa.

 

— Você mencionou que ama sua família. Que vocês são oito. — a voz saiu mais baixa do que antes. — Fiquei pensando nos seus pais. Criar oito filhos não é pouca coisa.

Francesca soltou um riso leve.

— Não é mesmo.

— Como eles davam conta?

— Minha mãe dava conta. — Ela ajeitou um cacho rebelde atrás da orelha. — E o Anthony ajudava, do jeito dele.

— Seu irmão mais velho?

— Treze anos mais velho. Depois que meu pai morreu, ele meio que… ocupou esse espaço.

— Você tinha quantos anos?

— Cinco.

A próxima pergunta não veio.

Quando Michaela falou, a voz estava diferente, mais cuidadosa.

— Sinto muito.

— Obrigada. — Francesca sustentou o olhar dela por um instante, deslizando o indicador pela lateral da garrafa. — Foi... difícil. Mas eu era muito pequena. As memórias que eu tenho dele são apenas fragmentos. A voz dele. O jeito como ele ria. Ou como costumava me colocar no colo, enquanto tocava piano todas as noites. — Um sorriso carinhoso ocupou seus lábios. — No fundo, acho que foi por isso que eu escolhi cursar música. Como se fosse… uma forma de manter ele perto.

Michaela ficou quieta por um segundo.

Depois, sem avisar, estendeu a mão e colocou-a sobre a de Francesca.

 

Quente. Firme. Reconfortante.

 

Francesca virou a mão, entrelaçando os dedos nos dela.

 

— E você? — perguntou suavemente. — Seus pais...?

 

Michaela respirou fundo.

 

— Meu pai morreu quando eu tinha quinze. Acidente de carro. Durante uma viagem.

 

Francesca apertou a mão dela instintivamente.

 

— Michaela...

 

— Foi rápido — Ela continuou, com a voz mais pesada, mais real. — Num segundo ele estava aqui, rindo, fazendo planos de qual seria seu próximo destino. No outro... não estava mais. — Michaela fez uma pausa. — E o estranho é que... no dia seguinte, o mundo continuou. Carros nas ruas. Pessoas atrasadas pro trabalho. Casamentos acontecendo. Bebês nascendo. Separações. A vida inteira continuando, como se nada tivesse mudado. Mas tudo tinha mudado. Pra mim. Pra minha mãe. Pro John. — Ela olhou para suas mãos entrelaçadas. — A vida sempre continua após uma tragédia. Menos pra pessoa que se foi. Menos pra quem a amava e ficou com esse buraco gigante no peito.

 

Francesca sentiu algo quebrar dentro dela.

 

Porque ela sabia.

 

Sabia exatamente como era sentir aquilo.

 

Michaela olhou pra ela, e parecia que estava vendo algo que não esperava encontrar.

 

— Acho que você entende como eu me sinto — disse baixinho.

 

Francesca assentiu devagar.

 

— Entendo.

 

Silêncio.

 

Denso.

 

Cheio de reconhecimento mútuo.

 

Depois, Michaela soltou uma risada baixa — meio triste, meio aliviada.

 

— Meu pai costumava dizer que eu herdei a teimosia dele. — Ela sorriu de leve. — Acho que ele tava certo. Continuo teimosa até com a saudade. — Os dedos percorreram a palma de Francesca num toque lento, distraído demais para ser um gesto pensado. — Eu fiquei um tempo sem conseguir entrar em carros depois do acidente. Tipo... eu travava totalmente. Minha mãe e minha tia Janet, mãe do John, ficaram meio desesperadas e me levaram para a terapia. Sou muito grata à elas por isso, porque, depois de alguns meses de sessões, eu comecei a perceber que uma das coisas que meu pai mais amava era viajar. Era como ele se conectava com o mundo. Comigo. Com tudo. E eu pensei... se eu parar de viajar, eu perco isso também. Perco essa parte dele. Então... eu voltei. Comecei a viajar de novo. De carro. Trem. Avião. Isso virou quase uma... atividade de suporte emocional. Tentar me reconectar com partes de mim que eu sentia que tinha perdido com ele. — Ela deu de ombros. — Às vezes uso isso pra fugir também. Da realidade. De ficar parada tempo demais. Mas... é o que funciona pra mim.

 

Francesca apertou a mão dela de novo.

 

— Minha mãe me contou uma vez que meu pai ficava preocupado comigo — confidenciou, sem pressa. — Achava que tinha algo errado. Que eu era calma demais. Quieta demais. Que eu não parecia uma Bridgerton. Como se eu… tivesse nascido na família errada.

 

Michaela virou o corpo levemente em direção a ela, franzindo as sobrancelhas.

 

— Ele disse isso?

 

— Não pra mim. Mas minha mãe disse que ele se preocupava. De forma afetuosa. Ele só... não entendia.

 

Michaela pareceu considerar.

 

Depois disse, firme:

 

— Eu não conheço sua família. Mas eu acho que você é perfeita como você é. Ser diferente não deveria ser um problema, Francesca. E tenho certeza de que sua família pensa o mesmo. Você está exatamente onde deveria estar.

 

Francesca sentiu as palavras se acomodando em algum lugar fundo demais. 

 

— Como você faz isso?

 

— Faço o quê?

 

— Fala exatamente a coisa certa. Na hora certa.

 

— Eu sou uma boa ouvinte. Principalmente quando algo me interessa. — Ela inclinou o corpo pra frente, bem mais perto do que antes. — E você, Francesca Bridgerton, me interessa muito. 

 

O sorriso dela era quase contido, mas seguro o bastante para não deixar dúvida.

 

Francesca sentiu o calor subir devagar pelo pescoço antes de alcançar o rosto.

 

Ela mordeu o lábio sem perceber, a mão, que não estava entrelaçada com a de Michaela, inquieta sobre o colo, numa tentativa inútil de se recompor.

 

— Você deveria me ensinar a flertar.

 

Michaela olhou para ela como quem acaba de ganhar um presente inesperado.

 

Depois riu baixo, quase encantada.

 

— Você quer que eu te ensine a flertar?

 

— Sim.

 

— Francesca — Ela se aproximou ainda mais, os olhos brilhando de diversão. — Você não precisa de lições. O que quer que você esteja fazendo funcionou muito bem comigo.

 

Uma onda quente atravessou o estômago de Francesca.

 

— Bom saber.

 

Elas riram de novo e, dessa vez, foi mais leve. Como se a vulnerabilidade tivesse aberto espaço para algo vivo.

 

Francesca percebeu que seus ombros estavam se tocando agora. Não sabia quando isso tinha começado. Mas estava acontecendo.

 

E ela não queria se afastar.

 

O balanço continuou seu movimento suave.

 

Para frente. Para trás.

 

Como uma respiração compartilhada.

 

— Posso te perguntar mais uma coisa? — Michaela disse depois de um tempo.

 

— Até duas.

 

— O que você quer de verdade?

 

Francesca franziu as sobrancelhas.

 

— Como assim?

 

— Não "ser DJ noturna" ou "dar aula pra criancinhas". Não o que você acha que deveria querer ou que as pessoas querem pra você. Mas o que você, Francesca, quer. O que te faria feliz?

 

Francesca ficou quieta.

 

Ninguém nunca tinha feito essa pergunta dessa forma. Não como algo casual, mas como se a resposta realmente importasse. Como se Michaela estivesse pedindo permissão para entrar em algum lugar profundo e quisesse realmente ouvir o que quer que encontrasse lá.

 

— Eu quero... — começou devagar, escolhendo as palavras. — Quero criar algo que importe. Não precisa ser grande. Não precisa mudar o mundo. Só... precisa significar alguma coisa. Pra mim. Pra alguém. Quero que quando eu tocar, alguém sinta. Quero que minha música seja... real. — Ela olhou para Michaela. — E você? O que você quer?

 

Michaela pensou por um momento.

 

— Quero viajar, é claro. Conhecer pessoas. Fazer a diferença onde puder. — Ela hesitou. — E... isso vai soar estranho, mas... acho que nunca quis ter alguém pra voltar. Sempre quis ser livre. Ir onde eu quisesse. Fazer o que eu quisesse. Sem peso. Sem compromisso. Não sei se era por causa da morte do meu pai. Se era imaturidade. Medo de perder de novo. Mas eu nunca quis ter um lugar que parecesse lar. Alguém me esperando. — Ela deu uma risada baixa. — Mas ultimamente... não sei. Me sinto diferente. Talvez eu esteja ficando velha.

 

Francesca riu.

 

— Você tem vinte e dois anos.

 

— E já me sinto uma alma antiga.

 

Francesca inclinou a cabeça, estudando-a.

 

— Você não é antiga. Você é... intensa. Como se cada momento importasse mais pra você do que pra qualquer outra pessoa. 

 

Michaela ficou em silêncio.

 

Olhando pra Francesca com uma expressão que ela não conseguiu decifrar.

 

O balanço continuou se movendo. Suave. Constante.

 

E aos poucos, sem que nenhuma das duas percebesse conscientemente, o espaço entre elas diminuiu ainda mais.

 

Até que não havia mais espaço.

 

Ombro contra ombro. Coxa contra coxa. Mão ainda segurando mão. Aquele perfume enlouquecedor, amadeirado e floral, se fundindo na pele de Francesca. 

 

O silêncio vibrou.

 

Carregado.

 

Elétrico.

 

Francesca admirou Michaela por um instante, aproveitando que ela virou o rosto enquanto depositava suas duas garrafas de cerveja vazias no chão.

 

O perfil iluminado pelas luzes quentes parecia ainda mais bonito com o passar das horas. O jeito como ela respirava devagar, as lufadas de ar quente escapando pelos lábios volumosos pintados de vermelho. Sua pele escura e uniforme. O contorno de seus seios evidenciados pela pressão do corset. As tranças caindo ao redor do rosto dela como uma moldura perfeita.

 

Francesca demorou um segundo a mais do que deveria.

 

E foi nesse exato segundo que Michaela virou o rosto de volta.

 

— No que você está pensando?

 

A pergunta veio tão inocente.

 

Como se não tivesse acabado de flagrá-la encarando.

 

Francesca hesitou.

 

Acho que deveria te pendurar na parede. Afinal, é isso que se faz com arte.

 

Mas, em vez disso, disse:

 

— Que você é a criatura mais linda que eu já vi na minha vida.

 

Michaela apenas sorriu. 

 

Confiante e avassaladora, como sempre.

 

— E você é a garota que estava me pedindo aulas de flerte há minutos atrás?

 

Francesca deu uma risadinha, sentindo o rosto pegar fogo.

 

— O álcool me deixa assim.

 

— Assim como?

 

— Honesta demais.

 

Michaela piscou levemente, os olhos escurecendo com interesse. 

 

— Eu gosto da sua versão honesta demais.

 

Francesca sentiu o coração disparar.

 

— Eu também.

 

Michaela soltou uma risada baixa, balançando a cabeça. E apontou pro céu, logo em seguida.

 

— Você viu isso?

 

Como se eu pudesse olhar pra qualquer outro lugar que não fosse você.

 

— O quê?

 

— A estrela cadente.

 

Ela olhou para o céu.

 

Não viu nada.

 

— Você fez um pedido? — Francesca perguntou, a voz saindo mais baixa do que pretendia.

 

Michaela virou a cabeça, encarando-a.

 

— Não.

 

— Não?

 

— Não. — repetiu, curvando a boca em um quase sorriso. — Tudo o que eu preciso essa noite está bem na minha frente.

 

O silêncio que se seguiu foi denso.

 

Impossível de sustentar.

 

Francesca sentiu os olhos de Michaela descerem lentamente até seus lábios. 

 

A respiração dela mudou. 

 

Mais superficial, mais rápida, como se o ar tivesse ficado rarefeito de repente.

 

Michaela soltou a mão dela, lenta e cautelosa, apenas para erguer a própria mão e tocar o rosto de Francesca com a ponta dos dedos. Um toque suave, quase hesitante, mas que a fez sentir como se cada terminação nervosa de seu corpo tivesse sido ativada de uma única vez.

 

Um arrepio percorreu todo o seu braço, subiu pela nuca e desceu pela espinha em ondas.

 

Ela estava presa na órbita de Michaela.

 

Incapaz de se mover. 

 

Incapaz de desviar o olhar.

 

Michaela se inclinou, milímetro por milímetro, e Francesca prendeu a respiração pela milésima vez naquela noite.

 

O som abafado da festa começou a desaparecer completamente, como se alguém estivesse baixando o volume de tudo ao redor. Até que só restou o som de sua própria respiração e de Michaela.

 

Os lábios da outra mulher pararam a centímetros dos dela.

 

Tão perto.

 

Ela podia sentir as baforadas de ar quente contra sua boca, contra seu queixo, contra os pelos finos que cobriam sua bochecha. Podia sentir o perfume enlouquecedor dela, agora misturado com o cheiro de álcool e algo indefinível que era só Michaela.

 

Os olhos de Michaela estavam arregalados, inquisitivos. 

 

Como se estivessem pedindo permissão sem palavras.

 

Como se estivessem dando a Francesca a chance de recuar.

 

Michaela sussurrou, tão perto que Francesca sentiu o fantasma do gosto dela nos lábios:

 

— Me diz se quiser que eu pare.

 

Eu preferia parar o mundo do que te pedir pra parar.

 

Mas era muito bobo dizer. 

 

Muito grande. 

 

Então, ela simplesmente fechou a distância e puxou Michaela para o resto do caminho.

 

O primeiro toque foi delicado. 

 

Apenas lábios contra lábios.

 

Francesca sentiu uma corrente elétrica percorrer o corpo inteiro, da ponta dos dedos das mãos até os dedos dos pés.

 

Mas toda aquela gentileza e suavidade duraram apenas um segundo.

 

Porque Michaela mordeu seu lábio inferior, devagar e provocante, puxando-o antes de passar a língua, pedindo entrada. E quando Francesca abriu a boca, quando a língua de Michaela encontrou a sua, ela perdeu o controle.

 

Nunca tinha sido assim.

 

Ela nunca tinha sentido essa fome. Essa necessidade assoladora, onde um único gosto fazia você desejar desesperadamente mais. 

 

Uma fonte d'água depois de anos no deserto.

 

O gosto de Michaela era de cerveja e algo mais doce, algo que Francesca não conseguia nomear, mas que queria provar para sempre.

 

As mãos da Stirling subiram por seu corpo. 

 

Dedos deslizando pela lateral do pescoço, correndo por seu cabelo, se enroscando nos cachos soltos. Quando as unhas arranharam levemente a nuca dela, Francesca gemeu baixo contra a boca de Michaela. Um som involuntário, quase desesperado.

 

Suas próprias mãos flutuaram inúteis no ar por um segundo, tremendo, sem saber onde pousar.

 

Michaela se inclinou mais para frente, e Francesca sentiu o peso dela, quente e sólido, pressionando-a gentilmente para trás. Suas costas encontraram algo macio. O coelho de pelúcia e as almofadas fofas em formato de coração.

 

A cadeira de balanço rangeu com o movimento.

 

Michaela estava devorando-a.

 

Não havia outra palavra para descrever. Era pura urgência, como se ela quisesse consumir cada parte sua.

 

Ela se afastou apenas o suficiente para sussurrar contra os lábios de Francesca, a voz baixa, rouca:

 

— Você também pode me tocar.

 

E foi como se algo quebrasse dentro da Bridgerton.

 

Suas mãos se moveram antes que pudesse pensar: agarrando a cintura de Michaela, cravando seus dedos nos quadris largos, sentindo o tecido aveludado do corset vermelho sob as palmas, absorvendo o calor da pele daquela mulher, que se infiltrava por baixo de suas palmas.

 

Francesca se afogou no perfume dela, na forma como as curvas femininas preenchiam suas mãos. 

 

— Você cheira tão bem — murmurou contra os lábios de Michaela, entre beijos. — Passei a semana inteira tentando adivinhar qual era o seu perfume.

 

Michaela gemeu, alto e sem pudor, e o som fez algo violento acontecer no interior de Francesca.

 

— E eu passei a semana inteira tentando adivinhar qual era o gosto dos seus lábios. — Ela mordeu o lábio inferior de Francesca de novo, puxando-o lentamente. — Nenhum dos meus pensamentos fez jus à realidade.

 

Francesca não conseguiu responder. Seu coração batia no lugar onde suas cordas vocais deveriam trabalhar. 

 

Em vez disso, ela puxou Michaela mais para perto, as mãos subindo pelas costas dela, sentindo as asas douradas da fantasia de cupido roçarem nos dedos. Como resposta, Michaela inclinou a cabeça, aprofundando o beijo. A língua dela explorava a boca de Francesca com uma confiança que deveria ser intimidadora, mas que só a fazia desejá-la loucamente.

 

Michaela, Michaela, Michaela, sua mente ecoava o clamor de seu corpo. 

 

Francesca se sentia em chamas. Cada ponto de contato entre elas queimava como brasa: lábios, língua, mãos, coxas. 

 

Qualquer resquício remanescente de sua racionalidade evaporou no segundo em que Michaela ajustou a posição e, de repente, pressionou o joelho entre suas pernas. Foi involuntário arquear e cravar as unhas nas costas dela que, não satisfeita, começou a mordiscar seu maxilar, descendo pela linha da mandíbula, e distribuiu beijos de boca aberta por seu pescoço — o toque quente da língua dela desenhando uma umidade deliciosa em sua pele sensível.

 

Quando a Stirling abocanhou o topo de seu seio esquerdo exposto pelo decote, sugando levemente antes de soltar, Francesca sentiu os joelhos fraquejarem mesmo estando sentada.

 

— Está tudo bem? — Michaela sussurrou no ouvido dela, a voz baixa, íntima, enlouquecedora.

 

Francesca estava usando toda a sua capacidade mental apenas para continuar respirando.

 

Mais uma vez, ela não conseguiu formar uma única palavra. Só acenou freneticamente com a cabeça, segurando o rosto de Michaela com as duas mãos e voltou a beijá-la.

 

Uma risada baixa e rouca ecoou do peito de Michaela, vibrou contra o corpo de Francesca, e ela poderia jurar que sentiu até nos ossos.

 

Em toda sua vida nunca tinha visto seu corpo reagir tão instintivamente a outra pessoa. 

 

Era tão bom. Gostoso. Diferente. Certo.

 

Ela estava entregue, completamente entregue. Entregue aquele sorriso. Ao gosto dos beijos. À Michaela Stirling.

 

Como viveu tanto tempo sem sentir isso? 

 

— Você fica tão linda quando perde o controle — Michaela murmurou, e havia algo predatório no sorriso dela agora. Algo que mandou uma fisgada direta entre as pernas de Francesca.

 

Ela foi tomada por mais emoções do que conseguia processar — tesão, medo, fascínio. Uma vertigem quase perigosa. E aquela sensação de vulnerabilidade absurda por ser vista daquele jeito.

 

Ainda assim, queria mais. 

 

Então, voltou aos lábios dela.

 

Mas dessa vez, foi Francesca quem tomou o controle. 

 

Suas mãos subiram para o rosto de Michaela, segurando-a com firmeza, enquanto aprofundava o beijo. Virou o corpo, mudando o ângulo, e, subitamente, agora era ela quem pressionava Michaela para trás.

 

A cadeira rangeu alto com o movimento brusco.

 

Francesca se debruçou sobre Michaela, quase desesperada. Ergueu uma perna, depois a outra, até estar com as duas de cada lado do quadril da outra mulher. Quase montada nela.

 

Michaela fez um som baixo de surpresa que rapidamente se transformou em um gemido quando Francesca sugou o lábio inferior dela.

 

— Francesca — ofegou, reverente na forma como disse seu nome.

 

Mas Francesca não parou.

 

Não conseguia parar.

 

Era como se cada célula do corpo estivesse viva pela primeira vez. Como se tivesse passado anos com fome e finalmente estivesse provando comida de verdade.

 

Suas mãos desceram para a cintura de Michaela, segurando com vontade. O polegar roçou no contorno de um dos seios dela, por cima do corset, e Michaela arqueou contra ela.

 

— Francesca — repetiu, mais urgente agora.

 

Francesca beijou a linha da mandíbula dela. Desceu pelo pescoço, mordiscando, chupando, deixando marcas que ela sabia que apareceriam depois.

 

Michaela estava completamente rendida embaixo dela, as mãos agarradas em seus ombros, a cabeça jogada para trás, expondo o pescoço.

 

E Francesca queria devorar cada centímetro dela.

 

Queria memorizar cada som. 

 

Cada tremor. 

 

Cada respiração entrecortada.

 

Sua atenção voltou aos lábios de Michaela, tomando-os com um beijo profundo, possessivo. Mas lento, intenso. A temperatura do corpo de Francesca subiu vários graus, enquanto suas línguas se entrelaçavam devagar, explorando, memorizando cada textura, cada movimento.

 

Francesca sentia muitas coisas ao mesmo tempo. Calor onde seus corpos se tocavam. Frio quando o ar noturno castigava sua pele exposta. Formigamento subindo e descendo os braços. Peso no peito. Leveza na cabeça.

 

Pela primeira vez, ela entendia o que as pessoas queriam dizer quando falavam sobre se sentirem completas.

 

Porque era isso.

 

Era essa sensação — estranha, assustadora, maravilhosa — de que o mundo inteiro parava enquanto ela beijava essa mulher que acabara de conhecer.

 

Quando finalmente seus pulmões imploraram por oxigênio, elas se separaram. 

 

Michaela encostou a testa na dela, ambas ofegantes, com lábios entreabertos e respirações misturadas. Ainda de olhos fechados, roçou o nariz no de Francesca, uma vez, duas vezes, num gesto surpreendentemente terno.

 

Relutante, Francesca começou a sair de cima dela, mas Michaela não a deixou ir longe. Suas mãos firmes deslizaram da cintura de Francesca para seus quadris, puxando-a gentilmente até que estivessem lado a lado de novo, mas completamente entrelaçadas agora. Pernas encaixadas, braços ao redor uma da outra, dedos ainda agarrados em tecido e pele.

 

A cadeira rangeu baixo com o movimento, balançando suavemente sob o peso compartilhado.

 

— Eu nunca... — Francesca começou, a voz rouca de tanto beijar. — Nunca senti isso antes.

 

Michaela sorriu. 

 

— Eu também não. — respondeu, deslizando o polegar direito sobre o lábio inferior de Francesca. — Sei que eu já disse isso, mas… você é... diferente.

 

— Diferente como?

 

— Diferente do tipo…  que eu quero conhecer. Além dessa festa. Além dessa noite.

 

O coração de Francesca deu um salto desajeitado.

 

— Você quer?

 

— Quero. — Michaela se inclinou, depositando um beijo doce nos lábios dela. — Quero te levar pra jantar. Quero ouvir você tocar piano. Quero saber qual sua comida favorita e que tipo de filme você gosta. Quero... — ela hesitou, os olhos castanhos completamente vulneráveis. — Quero conhecer cada pedacinho de você, Francesca.

 

— Eu também quero isso. — As palavras pareciam estar sendo empurradas da boca de Francesca a cada batida de seu coração.

 

— Quer?

 

— Sim. Muito.

 

Michaela sorriu, genuinamente feliz, e puxou Francesca para outro beijo.

 

Mais devagar dessa vez. 

 

Como se tivessem todo o tempo do mundo.

 

Como se aquele momento fosse durar para sempre.

 

As mãos de Francesca desceram para a cintura de Michaela novamente, puxando-a impossivelmente mais perto, sentindo cada curva se encaixar contra ela como se tivessem sido feitas para isso — uma para a outra.

 

E talvez tivessem.

 

Talvez, fosse por isso que parecia tão certo.

 

O balanço da cadeira tinha parado completamente.

 

A festa continuava acontecendo dentro da casa, mas naquela varanda mal iluminada, com o jardim escuro ao redor e o céu estrelado acima, só existiam elas duas.

 

E era mais do que suficiente.

 

Era tudo.