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Summary:

E é assim que estão parados na saleta de espera do consultório do médico, o joelho ansioso do policial mexendo a cadeira adjunta de Labirinto ao ponto do escarificado relembrar de um touro mecânico com a tremedeira. Uma das auxiliares entrega um pacote de lenços de papel para Aguiar, que encara a mulher de seus um e cinquenta de altura como um inimigo mortal.

—— Delegado!Aguiar com Desenvolvedor!Labirinto, maridinhos num domestic fluff que termina na cama, obviamente.

Notes:

Presentinho para saturny27, cuja líbido por Labiar me inspirou nessa fic.

Caso queiram trocar ideia, meu twitter/X é ritosilenciado :)

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Labirinto reparou aos poucos. 

 

Aguiar sempre teve uma precisão absurda. Seja com a mira de um revólver, um machado arrebentando um tronco ou arremessando as chaves da caminhonete dentro do vasilhame — ignorando o chaveiro pendurado ao lado da porta —, Aguiar nunca errou. Labirinto acredita que, se medisse as duas partes da tora quebrada em lenha, a régua indicaria poucos milímetros de diferença. 

 

Deste modo nasceu o estranhamento quando, dia após dia, as chaves pendiam para fora do pequeno prato decorativo, quase caindo. O que alimentava a lareira do chalé de ambos estava irregular. Alguns pedaços de madeira enormes, outros finos. A cidade de Inquisidor é pequena demais para que Jonas utilize a arma todos os dias, um tremor percorrendo Labirinto com a ideia de um tiro errado custar a vida do marido tão perto das bodas de ferro. 

 

A resposta final veio quando estavam assistindo um filme, habitualmente legendado pela preferência de Labirinto para treinar a escuta de novos idiomas. As cenas corriam na tela da sala e, embora o enredo não fosse dos melhores, Jonas mostrava estar profundamente incomodado. As mãos pressionavam as pálpebras com um intervalo de minutos, um beicinho quase birrento mudando a expressão de Aguiar do tédio para chateado. Não eram nem três da manhã para o sono estar vencendo o policial. Labirinto baixa as agulhas de tricô. 

 

— Algo lhe incomoda. 

 

— Esse caralho de filme tá chato. Não tô entendendo nada sem a legenda. Você pegou um filme tão do quinto dos infernos pra não ter legendado nem dublado? 

 

— Aguiar. — quatro anos de relacionamento e ainda derrapa no sobrenome quando percebe a prepotência do amado. — As legendas estão passando o tempo todo. 

 

— Estão?

 

Uma peça encaixa, vários pequenos fragmentos da rotina de ambos moldando um cenário maior. Com um suspiro, Labirinto brinca com uma linha do rolo de lã que viraria um cachecol quente para o marido no inverno tenebroso do sul. 

 

— Por que não me contou que está tendo problemas para enxergar? 

 

— Eu não estou com problemas para enxergar. 

 

Aguiar

 

— É sério. Eu tô ótimo. Deve ser cansaço do dia cheio, Inquisidor do Vale não é mais a cidadezinha de antigamente. Agora ainda tá tendo um surto de tráfico pela região, os jovens estão perdidos e… 

 

— Jonas. 

 

— Labirinto, é sério. Eu estou ótimo. Meus olhos estão perfeitamente funcionais. 

 

Amor

 

E é assim que estão parados na saleta de espera do consultório do médico, o joelho ansioso do policial mexendo a cadeira adjunta de Labirinto ao ponto do escarificado relembrar de um touro mecânico com a tremedeira. Uma das auxiliares entrega um pacote de lenços de papel para Aguiar, que encara a mulher de seus um e cinquenta de altura como um inimigo mortal. 

 

— O doutor já explicou, Delegado Aguiar, mas vou repetir. Vou aplicar uma gotinha em cada olho, vamos esperar quinze minutinhos e depois mais uma gotinha em cada. Faremos de novo um dos exames com a sua pupila dilatadinha. Tudo bem? 

 

O excesso de palavras no diminutivo com o título de Aguiar quase quebra a expressão estóica de Labirinto, a funcionária está conversando como se explicasse algo a uma criança de cinco anos. Agora as duas pernas do policial são guiadas por movimentos involuntários. 

 

— Tudo bem não está, mas…

 

— Jonas. 

 

Labirinto sibila, erguendo os cantos da boca num curto sorriso para a moça que finge que não o vê. Derrotado, Jonas deita a cabeça contra a poltrona, deixando ela ajustar a pálpebra e aplicar a primeira dose de colírio. Os dedos dele estão entrelaçados com os do amado numa busca por apoio, o gesto esquentando o coração ao ver um medo tão tolo em seu parceiro. 

 

— Prontinho, a primeira dose já foi. Em quinze eu volto, Delegado. 

 

Com uma distância suficiente para que ela não mais os escutasse, Jonas sussurra nitidamente desgostoso. 

 

— Porra, por que a gente veio na clínica da cidade? Tô parecendo um idiota segurando esse lencinho na cara. Um idiota que é delegado deles. 

 

— Meu amado, você nunca seria um idiota nem se tentasse. — o mais velho bufa, embora o vinco de desgosto ao redor dos lábios diminua com a franqueza de Labirinto. — É importante pra sabermos o que está acontecendo. 

 

— Já falei. Deve ser só vista cansada. Caralho, essa merda arde. 

 

Labirinto brinca com as linhas da palma do outro que permanece escorado na parede, os olhos cerrados reagindo ao medicamento. Os dois encontram conforto no silêncio e na proximidade, os minutos sequer notados quando os saltos da auxiliar voltam a bater contra o piso. 

 

— Prontinho. Segunda dose. Essa é pra doer um pouquinho menos, porém sua visão vai piorar. Você é o… Acompanhante? 

 

— Ele é meu marido.

 

Aguiar morde o lábio numa quase risada com o tom ofendido de Labirinto, que tomba a cabeça e reflete a expressão da mulher. 

 

— Ah. — a afirmação não a satisfaz muito, que escrutiniza Labirinto de cima a baixo. Como ele vive majoritariamente no chalé e trabalha de lá, é raro a cidade o ver. — Entendi. O Delegado vai precisar de apoio nas próximas horas, o ideal é que não dirija. Você sabe dirigir? 

 

— Sim. — embora sempre controlado, Labirinto compreende rápido quando alguém testa seus limites. — Pode ficar tranquila, cuidarei bem do Delegado como faço há mais de quatro anos. 

 

— Entendi. Bom, logo ele é chamado para o novo exame e a consulta. Qualquer coisa, só falar, Delegado Aguiar. 

 

— Obrigado. Ficarei bem.

 

De olhos fechados, Aguiar inclina a cabeça na direção de Labirinto. A carranca agora dá lugar a uma feição jocosa. 

 

— Delimitando território, meu amor? 

 

— Entendo que minha imagem pode não ser a… Padrão e que você é um membro querido desta cidade, entretanto ela não precisa ser grosseira.

 

— Ei. — tateando o punho de Labirinto, Jonas desenha algumas das cicatrizes num compasso que abranda os nervos do outro. — Isso não tem nada a ver com você. Tem a ver com eles. 

 

— Eu sei. Ela provavelmente acredite “ter a ver” com seu peitoral. Estou vendo o rosto erguido atrás do computador pra encarar vez ou outra. 

 

Aguiar não retruca, a força bruta em seus músculos é um fator que ele entende atrair olhares. Nas manhãs sem plantão quando corre é nítido que esbanja atenção, inclusive das senhoras do parque que fazem questão de assoviar e o deixar vermelho. Céus, Dona Marli na última semana ainda exclamou “ai, no meu tempo de fazer bobagem, um policial desses”. Tropeçou no cadarço e quase caiu, rindo sem jeito para a senhorinha que deveria estar beirando seus oitenta anos. 

 

— Jonas Aguiar. 

 

O policial suspira, aliviado que até consegue caminhar sem tanto suporte. O problema está ao ver os detalhes próximos, a visão completamente embaçada e dolorosa ao focar. Labirinto mantém uma mão na sua lombar, o guiando. 

 

— Aqui. Pode sentar e vamos olhar novamente seus olhos. Se sentir um sopro, é normal. Cuidado pra não bater o queixo. 

 

O escarificado segura delicadamente as mechas mais próximas da face de Jonas, prendendo atrás da cabeça com uma presilha que retiraria na saída da sala. Seu marido pensando em absolutamente qualquer detalhe, como de praxe. 

 

— Bom… Pode olhar pra casinha que fica ao fundo da imagem. Isso. 

 

Poucos segundos e o primeiro jato de ar ocorre. Aguiar repete mentalmente ser um delegado para não ofender ninguém. No segundo, Labirinto nota as coxas grossas retesadas.

 

— Pronto. Delegado, só entrar na sala de espera da direita e aguardar. 

 

— Obrigado.

 

O que sustenta seus fios é removido, um carinho rápido de Labirinto ajeitando o cabelo do companheiro. Embora não pareça na perspectiva de quem percebe sua personalidade turrona, no primeiro encontro notou que Aguiar tem sua vaidade bastante polida embora com a simplicidade de alguém que aprendeu a se cuidar em pouco tempo. As ondas castanhas são cortadas com frequência e penteadas, o perfume aquoso — encomendados da revendedora próxima da rua deles fielmente — sempre exala de sua pele hidratada e as camisetas brancas que usa nos expedientes parecem novas e sem manchas. Nunca vai admitir em voz alta, entretanto é adorável ver quando os fios rebeldes resvalam nos olhos esverdeados e Aguiar murmura que vai marcar um horário pra ontem no salão da Dona Rosimeri — já que barbeiro nenhum acertou no corte. Imaginar o grande delegado lendo revistas de fofocas antigas numa cadeirinha rosa do estúdio pequeno do bairro brota um sorriso em Labirinto. 

 

— Que foi? Cê tá sorrindo do nada… Eu acho. 

 

— Desculpa. Estou pensando em você. 

 

— Delegado Aguiar. Vamos? 

 

O casal levanta, Aguiar resmungando baixinho pelo tamanho da poltrona e o desconforto da recepção que cisma em chamá-lo pelo cargo. O óbvio, para desespero do policial e deleite de Labirinto por ter razão, é constatado; Jonas precisará usar óculos ou lentes de contato, a visão de curto alcance prejudicada. O oftalmologista explica que não é o momento para se pensar em cirurgias ou intervenções similares, visto que provavelmente também tem o fator idade atrelado. Labirinto acena em compreensão, questionando o que fazer nas dores de cabeça. Aguiar bufa, é claro que o marido notaria os episódios de incômodo mais agressivo. O médico passa alguns remédios básicos e informa que os óculos já devem ajudar nisso se utilizados corretamente. Ele também dá o atestado de dois dias para horror de Jonas.

 

— Eu tenho plantão amanhã.

 

— Normalmente eu dou apenas para um dia, porém você mexe com armas de fogo e direção. Precisa de alta precisão, dois dias é o que recomendo, Delegado. 

 

— Eu aviso Cleo, pode deixar. — Labirinto intervém quando o oftalmologista levanta, apertando a mão educadamente. — Obrigado, doutor. Vamos logo comprar os óculos. 

 

O retorno ao estacionamento é curto, Labirinto murmurando baixo ao telefone ao explicar para Cleo a situação com um braço ao redor da cintura do marido. Aguiar imagina o clima ótimo da chamada, já que a loira havia flertado descaradamente com ele na última festinha improvisada de aniversário da delegacia ao ponto que Labirinto começou a chamá-lo de marido em todas as sentenças. O policial treme também recordando da possessividade que o companheiro demonstrou num sexo bastante violento aquela noite, seu pescoço ficou com marcas que mal conseguiu ocultar no uniforme — propositalmente, é claro. 

 

— Amor. 

 

— Oi. 

 

— Você tá entrando do lado do motorista. Me dá as chaves. 

 

— Caralho, é hábito. Espera, deixa eu arrumar o banco pra você. 

 

Borboletas invadem o estômago de Labirinto. Elu aperta a carne firme da cintura do amado com delicadeza e beija sua testa. 

 

— Deixa eu cuidar de você hoje, Delegado Aguiar. Vai, entra no carona. Eu me ajeito. Precisa de ajuda? 

 

— Não, não. Quer dizer, se baixar um pouco essa mão a ajuda é outra. 

 

Sem vergonha, o policial deixa um tapa fraco contra uma das nádegas de Labirinto ao passar pela traseira do carro em rumo a outra porta. Sem jeito, o sujeito alto corre o olhar pelo estacionamento torcendo que ninguém tenha visto. Ainda é tímido com certas demonstrações, bem diferente de Aguiar que se não for contido o agarra em público e quase lhe arranca as roupas — foram inclusive expulsos de um bar em um dos primeiros encontros na metrópole pois o delegado decidiu que beijar Labirinto e prendê-lo contra a parede do corredor do banheiro era o destino perfeito daquela noite. Não que Labirinto estivesse reclamando, especialmente quando Jonas bloqueou seu corpo da visão do dono irritado do estabelecimento para proteger sua honra. 

 

— O tapa te animou? 

 

— Huh?

 

— Estamos parados dentro do carro e você não girou a chave na ignição. Você só fica assim se está confabulando alguma coisa nessa sua caixola ou se tá pensando na gente fodendo. 

 

— Você é incorrigível. 

 

— E você não negou. 

 

Com muito menos experiência no volante, o caminho é atribulado. O escarificado quase raspa o carro numa estrada mais alta, esquece de trocar as marchas e vira na rua errada. Aguiar está com a cabeça recostada e olhos fechados, sorrindo. As ondas chocolate brincam ao vento, enaltecendo a beleza que fez Labirinto completamente desnorteado quando se conheceram num evento de segurança digital. A prova de que algum deus existe é Jonas, o espécime perfeito desenhado a partir de sonhos que o desenvolvedor depositava em seus diários. Nos dias ruins, não consegue crer que casou com um homem que jurou de pés juntos que nunca lhe daria atenção; nestes momentos Aguiar sorria, lembrando que foi ele que mandou a primeira mensagem usando o número profissional do cartão que Labirinto havia entregue no coffee break mentindo sobre um problema no computador. A conversa fluiu tão bem que a cidade grande foi abandonada por uma província, o barulho de ônibus e carros trocados por insetos e árvores farfalhando e a falta de acessórios quebrada por uma aliança dourada no anelar esquerdo. 

 

Foi a decisão mais acertada de sua existência.

 

— Tá. Agora teremos o momento de reflexão parados na garagem? Porra, Labirinto. O que foi? Cê tá bem? 

 

É verdade. Chegaram. Murmurando um sim, Labirinto destrava as portas e vê três cachorros pulando em algazarra — duas rottweilers e um vira-lata caramelo, adotado num dia de chuva quando Aguiar o avistou, ferido, numa via expressa. Surpreendentemente, o cãozinho se afeiçoou no mais alto, saltitando atrás dele quando detecta que está se movendo. “Ele deve ser como eu”, Aguiar havia sussurrado no leito antes de adormecerem abraçados, “e ver você como nosso porto seguro”. 

 

Labirinto

 

— Perdão. 

 

Acionando o alarme do carro, dá largos passos até os degraus de acesso da garagem ao resto da casa, destrancando a porta. 

 

— Aqui. Eu ajudo com os sapatos. 

 

— Não precisa, Labirinto. Eu me viro. 

 

Antes que Aguiar prossiga o outro já está apoiado num dos joelhos ao chão, desamarrando os tênis do parceiro e removendo o cadarço dos primeiros buracos para que ele consiga remover os pés.

 

— Obrigado. 

 

— Não precisa ter vergonha, amor. Somos casados. Não é como se você não tivesse me visto numa situação pior. 

 

Como na troca de um dos remédios neurológicos, a náusea tão forte com o tratamento para os tiques que Labirinto passou a noite na sala com um balde para não acordar Jonas — este surgiu do corredor com uma expressão de poucos amigos e um edredom quente, cobrindo ambos no sofá e permanecendo ao lado do marido até o sol raiar e brigar por um encaixe com o médico responsável ou “eles teriam que se resolver de outra maneira”. 

 

— É diferente. Sabe que não sou acostumado. Prefiro cuidar de você que ser cuidado. 

 

— Eu sei. E afirmo que seguirei cuidando e amando você. Como estão os olhos?

 

Jonas percorre o carpete da sala arrastando os pés, indo reto para o quarto que dividem. Labirinto se mantém próximo, sabendo que se permanecer guiando com toques terá um marido ranzinza o resto do dia por achar que está sendo um estorvo. Assim que atravessam a soleira da porta, o policial arranca a parte de cima de suas vestes num resmungo cansado.

 

— Ardendo. Se eu fecho, fica suportável. Foda é tentar enxergar algo perto, impossível. 

 

— A ideia é não forçar. Você ouviu o médico. Amanhã vamos atrás dos seus óculos, a ótica vai amar receber o Delegado Aguiar como cliente também. 

 

— Ah, é? — repentinamente Labirinto se vê prensado contra os músculos firmes de Aguiar num abraço. A temperatura dele sempre o lembra do sol do final da tarde numa praia. — Você cismou mesmo com isso, né? Acha que elas teriam alguma chance de me roubar de você? 

 

— Não. Nenhuma. — convicto o mais alto esconde a face no pescoço do amado. Não tem orgulho do gemido desgostoso que vibra da sua garganta. — Mas também não gosto de ninguém olhando o que é meu, muito menos daquele jeito. Elas estavam trabalhando, deveriam cuidar de algo além do corpo do meu marido. 

 

— Como aquela vez com a Cleo? 

 

— Você está querendo me irritar de verdade? 

 

Numa ameaça, os dentes de Labirinto fecham na pele salgada de Jonas num ponto que a camiseta esconderia sem problemas. Aguiar o apalpa sem pudor, sorrindo sacana com a sensação da mordida. 

 

— Talvez eu esteja. Gosto de lembrar daquele dia. Gosto bastante. 

 

— Você está com as pupilas dilatadas, com dor. É melhor… Pararmos aqui. 

 

— Não, parar agora não. 

 

Num baque, os joelhos de Jonas estão contra o tapete, as pernas levemente abertas. Suas pálpebras estão fechadas, porém Labirinto não precisa vislumbrar as íris que é apaixonado para atinar na expressão pedinte e extasiada do marido. A boca entreaberta e respiração entrecortada dão conta do aviso, os dedos agarrados na calça de linho do mais novo. Só isso já é mais que suficiente para mexer nas correntes de seu desejo, quebrantado sua precaução.

 

— Jonas…

 

— Hm? 

 

Céus. O delegado tão conhecido por sua fama de ser impetuoso esfrega o rosto contra o volume na frente das roupas de Labirinto, mordiscando o tecido. Um cachorro. É um cachorro suplicando carinho. 

 

— Não podemos. Você…

 

— Eu estou bem. Uma ardência leve nos olhos, porra, já te fodi na viatura cicatrizando de uma facada no ombro. 

 

E como havia. Ao invés de sentir pavor da sirene como um cidadão comum, Labirinto sorria maliciosamente com o estímulo auditivo depois daquela noite. 

 

— Labirinto, me deixa cuidar de você. Eu prometo que vou te agradar. 

 

Aguiar quer entrar numa cena mesmo. Ar gelado corre por sua virilha, os dedos atrevidos já retirando qualquer empecilho. O sorriso que o marido entrega só pode ser considerado como depravado, a ponta da língua correndo por uma veia que o desgraçado sabe que vai destruir qualquer argumento. Foi desse jeito inclusive que Labirinto permitiu que ficassem com o terceiro cão, que trocassem de televisão e de carro. Quando Jonas queria algo, era de joelhos que arranjava. 

 

— Vai mesmo? 

 

— Você sabe que vou. Nós dois sabemos o quanto eu gosto de cuidar de você. 

 

Hm. Tudo bem. Sem degradação, ou o próprio Aguiar estaria choramingando e questionando se ele não era bom aos olhos de Labirinto. Ótimo, isso torna as coisas minimamente mais leves — ao menos é isso que o tesão tenta sussurrar para a racionalidade de Labirinto. 

 

— Eu sei. E você sempre faz muito bem. Qual a nossa palavra, amor?

 

— Antena. 

 

— Muito bem. — o elogio empina os ombros de Aguiar, que ameaça encaixar a boca contra o membro de Labirinto. — Mas hoje é conforme o que eu quero. Você vai ser bom e me obedecer, não vai? 

 

— Sim. Sempre

 

— Ótimo. Sem roupas, joelhos no chão e peito na cama. Sem se tocar.

 

Não precisa falar duas vezes com Aguiar subindo lentamente e desafivelando as calças. É um fã do momento de despir do marido, mas agora tem outro intento. Na gaveta ao lado da cama do casal, escolhe alguns objetos e faz questão que Jonas escute cada mínimo barulho de sua ação. As falanges roçam em veludo.

 

— Vendado?

 

— Por favor. 

 

— Ótimo. 

 

Ao olhar para a ponta do leito, Aguiar está exatamente como ordenou. Os dois braços estão esticados para frente, o quadril empinado para fora e o rosto oculto por um dos bíceps. Com carinho, Labirinto apoia uma das pernas na cama e se aproxima do marido. 

 

— Cabeça erguida. Eu vou vendar você. 

 

Antes de circular a cabeça com o pedaço de tecido, é irresistível roubar um beijo quente, este respondido num fervor quase devocional. 

 

— Eu amo tanto cuidar de você. — num carinho, afasta algumas mechas do cabelo castanho e passa a tira grossa de veludo vermelho por cima dos olhos de Jonas. — O nó está confortável?

 

— Uhum.

 

— Ótimo. — sem pressa, Labirinto se apruma e retira suas vestes. É adorável escutar a respiração pesada de Aguiar ficando mais e mais rasa com o farfalhar. — Calma, amor. Já estou indo. 

 

O óleo de massagem é esquentado entre as palmas de Labirinto, que se aproxima das costas tensionadas de Jonas. O delegado suspira com o primeiro toque, gemendo com manha com a habilidade nos dígitos dele — com destreza, o esposo de Aguiar pressiona os nós e desfaz cada tensão, observando a forma que ele derrete contra o lençol e empertiga o quadril. As coxas grossas de Jonas se afastam num convite explícito, a rouquidão na risada de Labirinto um indício da tentação que o percorre. 

 

— Hoje eu vou cuidar de você, meu amor. Tudo na hora certa. 

 

Um músculo próximo das costelas do policial pede por maior atenção, um vinco aprofundado brotando entre os olhos do outro. Com a palma pressionando a região num vai e vem calmo, Aguiar choraminga. 

 

— Eu sei, amor. Eu sei. — num carinho terno beija por cima da pele lambuzada. — Melhor? 

 

A boca de Jonas abre e fecha como se não capaz de produzir palavras para, ao final, apenas acenar um sim e esconder o rosto contra o colchão. 

 

— Você é tão bonito. 

 

O óleo nessa altura provavelmente está cumprindo com o seu papel, esquentando o corpo de Jonas ao ponto da sensibilidade aflorada. Os poros dele arrepiam com cada pequeno estímulo, fato que Labirinto aproveita ao soprar por cima de uma cicatriz próxima ao ombro. 

 

— Amor, porra. 

 

— Linguajar, amor. Já estou sendo bastante benevolente em fingir que você não está se esfregando contra as cobertas. — o veludo rubro fica mais escuro com as lágrimas de Aguiar, algumas escapando pelas bochechas coradas. — Mas como eu disse, hoje vou cuidar de você. 

 

O botão do objeto que Labirinto recupera do colchão faz um barulho que retorce o âmago de Jonas, o pequeno vibrador ligado a um fio e controle. Uma viscosidade gélida escorre por suas nádegas, os joelhos contra o chão trêmulos sem ser pelo esforço físico. 

 

— Por- Amor. Labirinto. 

 

— Hm? 

 

O escarificado não penetra Aguiar com o estimulador, o tom da questão numa indiferença pensada. Quando Jonas tenta trapacear e erguer o quadril, o tapa contra a nádega direita ecoa. 

 

— O que eu falei? Ou quer que eu sente e só observe você fazendo uma bagunça contra o colchão? 

 

Não. Por favor, não. Desculpa, amor. 

 

Num lapso de sadismo, Labirinto recorda das mulheres da recepção e até de Cleo. Com o punho fechado nos cabelos escuros que tanto adora, puxa a cabeça de Jonas até que esta penda para trás, um fio de saliva escapando da boca inchada. Com a mão livre, enfia lentamente o vibrador — ele é minúsculo, o propósito para atiçar e fazer a sinfonia dos gemidos de Aguiar aumentar. Com o aparelho posicionado, Labirinto gira o botão e ajusta a potência dos tremores. 

 

— A quem você pertence? 

 

— Eu… 

 

O segundo impacto é menos delicado que o anterior, os dedos dos pés do policial contraindo com o choramingo que dá. É demais. Com a massagem do marido, não há um ponto seu que não esteja estimulado; as pernas estão rendidas pelo peso, o tronco e virilha esfregando contra as cobertas, as costas e nádegas quentes pelo óleo, os tapas, o vibrador. Sôfrego respira fundo, agarrando os lençóis como se clamasse pela sanidade. 

 

— Seu. 

 

— E como se fala? Vamos, você é tão inteligente, meu amor. 

 

— Seu… Seu, Labirinto, todo seu. De corpo e alma. 

 

O nó atrás de sua cabeça intensifica e Jonas sibila com a dor de uma nova repuxada. Um clique e a vibração em seu interior aumenta. Lágrimas grossas caem em seu peitoral, o veludo úmido demais para resguardar toda a umidade. Os pêlos abaixo de seu umbigo estão completamente melados. 

 

— Ajoelha. 

 

Afoito e quase caindo para trás, Aguiar arrasta os joelhos alguns centímetros e cumpre o ordenado, a posição fazendo a estimulação o penetrar um pouco mais. Toda a sua extensão está formigando, cada nervo vidrado nas ações de Labirinto. Sem saber o que fazer com as mãos, as repousa nas coxas. O aroma delicado de sabonete e suor invade suas narinas, calor próximo de sua face. 

 

— Você disse que também ia cuidar de mim como sempre, não disse? E você é tão bom nisso. — um deleite salgado esbarra em seu lábio inferior, permanecendo ali. Uma mistura de saliva e risada escapa de Jonas ao abocanhar. — Excelente, como sempre. 

 

Aguiar move a cabeça de cima para baixo levemente para não perder aquilo que conquistou, o peso contra sua língua a recompensa pela doce tortura. Sem negativa de Labirinto que o impeça de prosseguir, o delegado se regozija naquilo que lhe é ofertado. Os grunhidos e gemidos apreciativos do marido são seu norte, deleite o preenchendo de tantas maneiras diferentes que é difícil manter uma linha de raciocínio coesa. Está ali para dar e receber prazer, mais nada. O resto não importa. 

 

Com um movimento arriscado da língua ao chupar a glande, Labirinto o recompensa com o aumento da vibração em seu interior — ou o pune, é impossível confirmar. Ao mesmo tempo em que se sente cada vez mais próximo de um precipício que só promete dádivas, a tortura é doce. 

 

O barulho de algo plástico abrindo e fechando faz com que empine o quadril ainda que ajoelhado, uma lamúria escapando em meio a saliva. Suor respinga de seu torso e coxas, as pernas úmidas pelo esforço e autocontrole. O membro de Labirinto solavanca e quase o engasga, o quadril do amado indo e vindo num ritmo lento… Num que prepara. Aguiar sabe naquele momento exatamente o que o outro está aprontando, o nariz roçando nos poucos pêlos pubianos com a apreciação de estar passando por aquilo. 

 

Labirinto está certo. Cuidarão um do outro. 

 

— Uma pena que você não pode se enxergar agora. Tão belo assim, vendado e sedento. — o elogio acarinha a medula de Jonas, que se respalda e ameaça acentuar a intensidade de sua boca. — Não. 

 

A vibração em seu interior é interrompida. Aguiar soluça. 

 

— Não, não, não. — os braços circulam as coxas de Labirinto após o som molhado e promíscuo ao soltá-lo de sua boca, a testa apoiada no osso saltado de seu quadril. — Por favor, eu vou… Eu vou… 

 

— Você vai me jogar nesta cama e me foder. Agora

 

Como? Aguiar sequer sente as pernas corretamente, os músculos formigando de uma maneira deliciosa, sem forças e o pior: sem visão. As chances de tropeçar ou usar força desavisadamente contra Labirinto são grandes. Dedos finos emaranham pelos seus cabelos castanhos, repuxando com um vigor que não permite discussões. Provavelmente deve estar com uma aparência no mínimo patética diante de Labirinto, o pano em seus olhos pesado com as lágrimas, as bochechas e queixo igualmente molhados. 

 

O escarificado olha tudo maravilhado, o mordiscar do lábio inferior em receio ilustrando as mil e uma coisas que estão passando pela cabeça do marido, o peitoral avermelhado por toda a ação, os cabelos grudados na nuca e rosto pelo suor e saliva. Se não quisesse acabar logo com tudo para Aguiar enfim descansar, jogaria seu grande corpo no colchão e não o deixaria sair até que cada centímetro tivesse uma mordida sua. Nada é mais picante que ver Aguiar quase chegar ao ápice e voltar em desespero várias e várias vezes numa noite, segurá-lo contra os lençois ao montar em seu colo e não permitir escapatória ou orgasmo. Se bem recorda, Jonas havia inclusive clamado misericórdia a deus e quase estourado as correntes das algemas em desespero em um destes momentos. Uma blasfêmia deliciosa. 

 

Outro dia voltaria a isso. 

 

Beijos são salpicados por suas cicatrizes arrepiadas pela audácia de Jonas, que finalmente aparenta ter se entregue ao que tanto Labirinto almeja. Um pecado íntimo seu é adorar ver Aguiar perdido, sem ciência de como agir diante de uma situação. A confusão em seu cenho assim como a surpresa e dúvida é uma combinação tão adorável que Labirinto se culpa, entretanto o leva lá de novo e de novo até ver que o desespero quase queima o marido. O momento mais belo, se ousasse comentar isso com alguém. 

 

O ar é roubado de seus pulmões com o impacto do peitoral forte de Aguiar contra seu tronco, o agarre dele tão forte que é difícil respirar ao ser esmagado contra os lençois. Jonas erra ao buscar pelos seus lábios num beijo, choramingando e logo mordiscando a boca de Labirinto como se o punisse. A troca que o casal tem é lasciva, promíscua, a destra do policial tão forte em sua coxa que provavelmente terá marcas no próximo dia. Não que seja uma reclamação, longe disso. 

 

Perdido em sensações e almejando apenas prover o mesmo para Labirinto, Aguiar dobra a perna do marido contra seu quadril. Caralho, esse é seu momento favorito, o momento em que o interior de Labirinto o recepciona — provando que o castanho estava certo em imaginar que o marido estivesse se preparando para recebê-lo. Quando ele testa seu controle, é como se toda a experiência de Aguiar desaparecesse; ele esquece como meter, onde puxar, como seguir. É descoordenado, é desesperador, é agonizante. 

 

É perfeito. 

 

Labirinto consegue arrancar sua necessidade por controlar tudo de um jeito primitivo, nem o instinto é capaz de guiá-lo corretamente. Somente Labirinto é capaz disso. 

 

As estocadas são desajeitadas contudo fortes, impulsionadas pelo desejo de servir aquele que ama ao ponto da completude. As pernas do mais alto circulam seu quadril, o prendendo exatamente onde e como quer, a garganta emitindo gemidos e sons profanos. Aguiar é apenas um homem sedento buscando por água e Labirinto, seu oásis. As unhas curtas dele fincam nos ombros de Jonas num ponto estratégico para que as marcas possam escapulir pelo colarinho. O calor de Labirinto sufoca o membro de Jonas e o comprime, como se fosse proibido que se retirasse. 

 

— Cacete, amor, assim é sacanagem comigo, porra.

 

— Amor, meu amor… — luxurioso, Labirinto sussurra ao pé do ouvido de Jonas ao mordiscar o lóbulo de sua orelha. — Não, isso é sacanagem.

 

Na intensidade máxima, o barulho do vibrador é nítido e ensurdece o policial de prazer, é demais. Está dentro, está sentindo que toma e é tomado, está por todo lugar, é demais. O fato de não poder enxergar só torna tudo mais abrasivo, as terminações nervosas de todo o seu corpo em polvorosa. 

 

— Aqui, estou aqui. 

 

Labirinto o guia, sempre tão misericordioso de sua perdição. Está sem rumo, inebriado, o gozo apenas uma extensão de si pois desconhece naquele minuto qualquer coisa que não seja prazer. O marido arranca sua venda no compasso em que se entrega, agraciando Aguiar com uma visão turva que não cansará jamais de assistir. Treme sobre ele, as vibrações forçando seu quadril a meter por mais algumas vezes ainda que sensível. Labirinto é seu vício, os sussurros do amado o acalentando e as mãos calejadas brincando pela pele cheia de cicatrizes pelos anos de vida policial de suas costas. 

 

— Eu tô pesado. 

 

A voz grogue de Aguiar é cortada por um gemido baixo quando Labirinto desliga o vibrador, o retirando delicadamente. 

 

— Não sou tão sensível, amor. Pode ficar. Você está bem? 

 

— Uhum. Só com… — um bocejo intermedia a sentença. — Sono. 

 

Para não machucar Labirinto, Aguiar se vira para que a maior parte de seu peso fique na cama. Um dos braços e cabeça permanecem repousados sobre o marido, a melodia dos batimentos cardíacos do outro uma canção para que adormeça. 

 

Talvez ser cuidado, afinal, não seja tão ruim assim. 

Notes:

Espero que tenham gostado!

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