Chapter Text
A segunda gravidez era… diferente.
Não mais difícil – apenas distinta. O corpo de Noriaki parecia lembrar o caminho, mas ainda assim se surpreendia com cada novo detalhe.
Ele estava sentado no balanço da varanda, uma manta fina sobre as pernas, observando o sol desaparecer no horizonte do Pacífico. Com 24 semanas, embora a barriga estivesse começando a pesar, havia algo sereno naquela exaustão. O vento trazia o cheiro salgado do mar, misturado ao perfume das árvores que estavam vermelhas, trocando as folhas.
"Mamãe?”
Noriaki piscou, saindo do devaneio.
Jouta estava parado na porta de vidro, usando apenas meias e um macacão de capuz, o cabelo preto bagunçado do cochilo da tarde. Quatro anos, olhos atentos demais para uma criança daquela idade.
"Oi, meu amor," Noriaki sorriu, afastando um pouco a manta. "Vem cá."
Jouta caminhou até o balanço e subiu com cuidado, como se participasse de uma missão importante. Em vez de se sentar normalmente, virou de lado e encostou a orelha na barriga arredondada de Noriaki.
Ele fazia isso todos os dias.
A mão pequena pousou protetora sobre o volume.
"Ela mexeu," ele anunciou, em tom sério. "Deu um chute."
"Ela anda se mexendo bastante," Noriaki riu baixo, passando os dedos nos cabelos do filho. "Acho que vai ser agitada."
"Ela tá brigando aí dentro?" Jouta perguntou, franzindo a testa.
"Não," Noriaki sorriu. "Ela só está crescendo… e o espaço é pequeno.”
Jouta pensou por alguns segundos, depois se inclinou e sussurrou para a barriga:
"Oi, Jo. Para de chutar a mamãe. Senão eu conto pro papai."
Noriaki mordeu o lábio para não rir alto.
"Você acha que isso funciona?"
"Quando o papai fica bravo dá medo," Jouta respondeu com convicção.
"Isto é verdade."
Jouta se ajeitou melhor ao lado dele, o braço ainda atravessado sobre a barriga.
"Quando ela nascer, eu vou mostrar meus brinquedos. Mas não todos. Só os legais."
"Justo," Noriaki concordou. "Você é um irmão muito sábio."
"Eu vou proteger ela agora," Jouta declarou, estufando o peito. "Porque hoje o papai tá demorando pra voltar."
O cheiro de Noriaki – leite, baunilha e cereja madura – ficou ainda mais doce de ternura.
"Então você vai ficar de guarda?"
"Vou. Sou pequeno, mas sou forte."
"Eu sei," Noriaki murmurou, beijando o topo da cabeça dele. "Meu pequeno guarda-costas."
***
O céu já estava completamente escuro quando a porta da frente se abriu.
"Tadaima."
O cansaço vinha junto com a voz de Jotaro, misturado ao cheiro de sal, laboratório e sândalo. Ele colocou a bolsa no chão, afrouxou a gravata e parou.
A televisão estava ligada não muito alta, Noriaki dormia esticado no sofá.
E Jouta dormia enroscado ao lado dele, a cabeça apoiada sobre a barriga de Noriaki, uma mão ainda agarrada na camisa dele.
Jotaro ficou parado por alguns segundos, apenas olhando.
Aquilo apertou algo dentro do peito dele – de um jeito bom.
Ele se aproximou em silêncio e se agachou ao lado do filho.
"Jouta," ele chamou baixo, tocando de leve o ombro dele. "Vem pra cama."
Jouta resmungou, abriu um olho.
"Papai… você demorou."
"Hm. O mar não obedece horários," Jotaro disse, pegando-o no colo com facilidade.
O menino se aninhou automaticamente contra o pescoço forte do pai.
"Jolyne tava chutando demais," ele murmurou, sonolento. "Eu mandei parar."
"Bom trabalho."
Jotaro o levou até o quarto, colocou-o na cama, ajeitou o cobertor e depositou um beijo leve na testa dele.
Depois voltou para a sala.
Noriaki se mexeu assim que sentiu a almofada do sofá ceder com o peso dele.
"Jojo…?"
"Estou aqui."
Jotaro pousou a mão larga sobre a barriga de Noriaki. Quase como resposta imediata, um chute forte atingiu sua palma.
Noriaki fez uma careta.
"Ela acordou e parece que quer sair pra te comprimentar."
"Oi Jolyne," Jotaro murmurou, os dedos traçando o contorno da barriga com cuidado. "Será que podemos esperar uma jogadora de hóquei?”
Noriaki sorriu sonolento, cobrindo a mão dele com a sua.
"Seja o que ela for, não vai ser fraca. Nem nos piores dias o Jouta chutava assim.”
Jotaro se inclinou e encostou a testa na de Noriaki.
"Eu queria que a parte que você sente dor passasse logo."
Noriaki fechou os olhos, sentindo o calor de Jotaro, o movimento, agora suave, da filha.
“Só mais três meses," Noriaki sussurrou. "Vai ser uma loucura."
Jotaro soltou um quase-sorriso.
“Vai. Mas vou estar do seu lado de novo.”
Eles se beijaram de leve.
***
O inverno em Morioh naquele ano estava impiedoso. Do lado de fora da janela fosca, a neve caía em flocos grossos e silenciosos, cobrindo o jardim e o balanço de Jouta com um manto branco.
Mas dentro do quarto de Jolyne recém-decorado, estava quente e cheirava a talco e lavanda.
Estava tudo pronto. Eles optaram por tons de amarelo suave e lilás, fugindo do rosa-choque tradicional. Havia borboletas pintadas à mão nas paredes – obra de Noriaki – e uma estante cheia de livros de bebê que pertenceram a Jouta.
Jouta, estava compenetrado organizando os bichos de pelúcia dentro do berço branco. Ele colocou seu golfinho de pelúcia surrado – um sinal de que já amava muito a irmã, pois era seu bichinho preferido desde os nove meses de idade. Junto dele um unicórnio de pelúcia que ajudou a escolher.
“O golfinho vigia a esquerda,” Jouta murmurou para si mesmo. “O unicórnio vigia a direita. Segurança total.”
Noriaki, sentado na poltrona de amamentação com uma mão nas costas doloridas, sorriu.
“Ótima estratégia, Jouta. Ela vai estar muito segura.”
“Ela é pequena, mamãe,” Jouta disse, virando-se para Noriaki. “Quando eu estiver na escola ela vai precisar de proteção.”
Noriaki abriu a boca para responder, mas o ar travou em sua garganta.
Uma onda de pressão, muito diferente das cólicas de treinamento que ele vinha sentindo, apertou seu baixo ventre. Começou nas costas e irradiou para a frente como um cinto de aço sendo apertado.
Noriaki arfou, agarrando os braços da poltrona.
“Ah…”
Jouta percebeu instantaneamente. Seus olhos se arregalaram.
“Mamãe? A Jolyne vai sair?” A voz dele tinha uma pontinha de pânico ao ver a mãe com dor.
Noriaki esperou a onda passar, expirando lentamente. “Acho que sim, amor.”
Jotaro apareceu na porta um segundo depois, como se tivesse sentido a mudança no cheiro de Noriaki pelo corredor. Ele viu a mão de Noriaki na barriga e a expressão de dor controlada.
“Agora?” Jotaro perguntou, a voz calma, mas os olhos alertas.
Noriaki confirmou com a cabeça, sem conseguir falar. Se levantou com dificuldade. “As contrações estão fortes.”
Jotaro entrou em modo de combate. Eficiente. Rápido.
“Vou ligar para minha mãe vir. Filho, pega a mala da mamãe lá no quarto.”
Jouta correu, arrastando a mala de maternidade para a porta de saída que já estava pronta há duas semanas.
Vinte minutos depois, Holly Kujo chegava, sacudindo a neve do casaco, com as bochechas vermelhas do frio.
“O trânsito está horrível, mas vovó veio voando!” Ela anunciou, já tirando o casaco.
Jotaro estava na porta, segurando o braço de Noriaki, que estava no meio de outra contração, respirando fundo e apoiado no marido.
Jotaro olhou para baixo, para Jouta. O menino estava segurando o golfinho de pelúcia que tirou do berço, ainda precisando do conforto do bichinho. Naquele momento, ele estava parecendo pequeno e um pouco assustado com a movimentação.
Jotaro agachou-se rapidamente. Ele ignorou a neve que entrava pela porta aberta.
“Jouta. Lembra da missão?”Jotaro perguntou firmemente.
Jouta endireitou os ombros. “Eu sou o alfa da casa.”
“Exato. Vamos voltar logo com a Jolyne, você precisa cuidar da vovó, tá bem?”
“Traz ela logo, papai,” Jouta pediu, com a voz trêmula mas corajosa. ”Tá frio.”
“Hm,” Jotaro beijou a testa do filho, levantou-se e ajudou Noriaki a caminhar até o carro sob a neve que caía, indo trazer para o mundo a mais nova integrante da família Kakyoin-Kujo.
***
No dia seguinte, o quarto do hospital estava banhado pela luz branca e limpa da manhã de inverno, refletida pela neve lá fora.
Noriaki estava sentado na cama, parecendo cansado, mas com aquele brilho etéreo do pós-parto. Em seus braços, enrolada em uma manta amarela clara suave com estampas de estrelas, estava Jolyne.
Ela era diferente de Jouta. Ela tinha um tufo de cabelo ruivo, o formato dos olhos era delicado como os de Noriaki. O tom de pele também era igual ao dele.
A porta se abriu silenciosamente.
Jotaro entrou, segurando Jouta no colo. O menino estava vestido com sua melhor roupa de inverno e claramente tinha sido penteado por Holly. Os cabelos pretos e ondulados repartidos de lado, como ela fazia com Jotaro quando criança.
Jotaro e caminhou até a beira da cama e colocou Jouta sentado na beirada. Perto de Noriaki.
“Oi meu amor,” Noriaki sussurrou, sorrindo. “Vem conhecer sua irmãzinha.”
Jouta prendeu a respiração. Ele olhou para o pacotinho nos braços de Noriaki.
Jolyne estava acordada. Seus olhos, ainda naquela cor indefinida de recém-nascido que prometia ser o mesmo turquesa do pai, piscavam lentamente. Ela fez um som suave, um gorjeio agudo, e moveu a mãozinha para fora da manta.
“Ela é... muito pequena,” Jouta sussurrou, chocado.
“Ela vai crescer,” Jotaro disse, ficando de pé ao lado deles, sua mão grande repousando nas costas de Jouta.
Jouta estendeu o dedo indicador, hesitante. Ele tocou a mãozinha de Jolyne.
Imediatamente, os dedos minúsculos dela se fecharam ao redor do dedo dele. O aperto era surpreendentemente forte.
Os olhos de Jouta se arregalaram. Ele olhou para Noriaki, maravilhado.
“Ela me agarrou, mamãe.”
“Ela gostou de você,” Noriaki disse. “Já sabe quem você é.”
Jouta olhou de volta para a irmã. A seriedade de sua expressão – aquela carranca Kujo clássica – suavizou-se em algo que Noriaki nunca tinha visto antes. Era adoração pura.
Jouta se inclinou para frente, aproximando o rosto do rosto da bebê.
“Oi, Jo,” ele sussurrou. “Eu sou o Jouta. Eu sou seu Onii-chan.”
Jolyne soltou um suspiro, fazendo uma bolinha de saliva.
“Você é uma coisinha fofa,” Jouta continuou, falando com ela como se fosse um adulto. “Mas não se preocupe por ser pequena.”
Ele olhou para Jotaro, depois voltou a focar na irmã, apertando levemente o dedo dela.
“Eu cuido quando o papai não tá,” Jouta prometeu solenemente a ela. “Se tiver monstro embaixo da sua cama, eu chuto ele. Se você não alcançar o biscoito, eu pego. Eu vou proteger você de tudo.”
Jotaro e Noriaki trocaram um olhar por cima das cabeças dos filhos. Os olhos de Noriaki estavam cheios de lágrimas, e Jotaro tinha aquele sorriso orgulhoso e satisfeito nos lábios.
“Até quando ela pegar seus brinquedos?” Jotaro perguntou, não resistindo.
Jouta franziu a testa, olhando para o pai.
“Eu vou dividir com ela.”
Noriaki riu, sentindo a vibração alegre passar para a bebê, que se aninhou mais.
“Acho que ela está em ótimas mãos,” Noriaki disse, beijando a cabeça de Jolyne e depois a de Jouta.
Do lado de fora, a neve continuava a cair, branca e fria, mas dentro daquele quarto, o círculo estava completo, quente e inquebrável.
***
O final da tarde avançava devagar sobre a sala ampla. A claridade entrava pelas janelas em faixas inclinadas que riscavam o assoalho de madeira e subiam pelas paredes claras. Não era uma luz dourada perfeita – era mais suave, quase pálida, misturada ao reflexo do mar ao longe e ao brilho morno das luminárias já acesas. O ar estava vivo com vozes, risos baixos e o tilintar ocasional de porcelana.
No tapete da sala, entre blocos de montar e carrinhos espalhados, Jouta brincava sentado de pernas cruzadas. Ele empurrava um carrinho contra uma torre de blocos improvisada, concentrado. De vez em quando, erguia os olhos para a irmã, como se só precisasse confirmar que ela ainda estava ali.
A Sra. Kakyoin embalava Jolyne nos braços com cuidado quase reverente. A bebê tinha apenas seis meses, mas já parecia ocupar todo o espaço em torno de si. Os olhos da avó brilhavam de emoção contida, e o Sr. Kakyoin se inclinava ao lado, como se temesse perder um único detalhe daquela cena.
“É impressionante,” murmurou a mãe de Noriaki, passando o dedo com delicadeza pela bochecha macia da neta. “O Jouta nasceu igual ao Jotaro, desde o primeiro dia. Mas ela… ela é você inteiro, Nori-chan.”
Jouta ergueu a cabeça ao ouvir o próprio nome e opinou, sério, do tapete.
“A Jolyne é fofinha mesmo.”
A bebê, vestida em um macacão verde-claro com estampa de peixinhos, agarrou o dedo da avó com uma força surpreendente e respondeu com um gritinho agudo, vibrante, mostrando a gengiva ainda sem dentes.
“Olha esses olhos,” Holly comentou, aproximando-se com as mãos unidas diante do peito. “Pequenos, expressivos, exatamente como os do Noriaki. E o cabelo… É um castanho avermelhado. Parece que finalmente alguém quebrou a maldição dos genes Kujo.”
“Eu falei,” Jouta completou do tapete, com um tom um pouco revoltado por não ter sido ouvido antes. “Ela parece a mamãe, por isso é tão lindinha.”
Jotaro observava, sentado em uma poltrona um pouco afastada. Uma perna cruzada sobre a outra, o café preto descansando na mão grande. Ele escondia o sorriso atrás da xícara, mas os olhos nunca se afastavam da filha – nem do menino no chão, tão confortável naquele caos doméstico.
Ele amava Jouta incondicionalmente. Como nunca havia amado ninguém antes. Era um amor que só crescia, construído em cada noite mal dormida, em cada momento de descoberta, riso, dor, cada passo ensinado. Mas Jolyne… Jolyne era diferente. Desde a primeira vez que a viu, sentiu que era como segurar um fragmento vivo da alma de Noriaki nos braços. Algo nele se aquecia num lugar antigo, instintivo.
De repente, o rosto tranquilo de Jolyne se contraiu. A testa franziu, as perninhas se retesaram e, sem aviso, o choro irrompeu alto, exigente, ecoando pela sala.
“Oh!” o Sr. Kakyoin riu, surpreso. “Essa menina tem pulmões.”
“E temperamento,” Noriaki comentou ao surgir da cozinha com uma bandeja apoiada no antebraço. “O Jouta passava horas olhando o móbile em silêncio. Já essa aqui…” Ele sorriu de canto. “Se quer atenção, ela quer agora. Vai de zero a cem em um segundo.”
“Agitada como o mar, forte como o pai alfa,” Holly brincou, lançando um olhar divertido para Jotaro.
“Ela só tá com fome,” Jouta opinou com naturalidade, ainda brincando com o carrinho. “Eu fico assim também.”
Noriaki pousou a bandeja na mesa de centro. O cheiro doce e quente se espalhou imediatamente pelo ambiente, puxando todos os olhares na mesma direção.
“Carolinas de caramelo salgado,” anunciou. “Fiz a massa hoje, estão super fresquinhas.”
As carolinas brilhavam sob a luz da sala, o caramelo âmbar escorrendo devagar pelas laterais.
A Sra. Kakyoin então se inclinou com cuidado e colocou Jolyne nos braços de Noriaki antes de alcançar a própria sobremesa.
“Meu Deus, filho,” a mãe dele disse logo depois, já com uma carolina na mão. “Isso é criminoso.”
“E absolutamente delicioso,” Holly complementou, rindo. “Jotaro, você tem noção da sorte que tem?”
Jotaro apenas assentiu, os olhos turquesa brilhavam, sem desviar de Noriaki.
Então Jolyne, sentindo a atenção escapar e, mais importante, reconhecendo o cheiro de leite da mãe, tentou abrir a camisa de botão de Noriaki.
“Ba! Ma! Aaaah!”
“Tudo bem, tudo bem, minha pequena tirana,” Noriaki riu, limpando as mãos no guardanapo antes de sentar no sofá e ajeitá-la melhor no colo.
Jouta se levantou do tapete e se aproximou devagar, agora pegando finalmente uma carolina da mesa.
“Ela vai comer igual eu?” perguntou, curioso.
“Igual a ‘mim’, Jouta,” Jotaro corrigiu da poltrona dele.
Jouta absorvendo a correção, repetiu a pergunta.
Noriaki respondeu, ajeitando a bebê no colo. “Vai sim filho, mas por enquanto nada de carolinas para ela.”
“Ela vai ficar forte tomando seu leite, mamãe. Eu fiquei,” Jouta concluiu, satisfeito, antes de dar a primeira mordida.
Assim que foi acomodada contra o peito da mãe, Jolyne se acalmou quase no mesmo instante, as mãozinhas se fechando com posse no tecido da camisa aberta dele. Começou a mamar com avidez, os olhos turquesa atentos, presos no rosto de Noriaki, interrompendo apenas para soltar pequenos suspiros satisfeitos, leite escorrendo pelo canto da boca.
Enquanto os avós comentavam animados sobre a comida, Jouta voltou para o tapete, agora narrando baixinho uma história confusa para os brinquedos – sobre uma heroína pequenininha que gritava muito e vencia todos os monstros com o poder do leite.
Jotaro observava em silêncio: a sala cheia, os risos, o filho brincando, o marido amamentando, a filha exigente, a família espalhada pelo espaço como se sempre tivesse pertencido ali.
“Está boa a carolina, Jojo?” Noriaki perguntou, percebendo o olhar fixo do marido.
Jotaro encarou o doce por um instante, depois ergueu os olhos para ele.
“Perfeita,” respondeu.
***
Jotaro Kujo, com seus 1,95m, ombros largos e uma presença que naturalmente afastava as pessoas, caminhava pelo corredor de laticínios do supermercado. A cena só não era intimidadora por completo por causa do detalhe amarrado ao seu peito: Jolyne, com oito meses, presa em um sling cinza chumbo.
As perninhas gordinhas balançavam animadas, e um lacinho verde estava preso sobre seu cabelo ruivo escuro – uma escolha de Noriaki, claramente. Diferente de Jouta, que sempre se encolhia no colo do pai, Jolyne estava virada para frente, distribuindo sorrisos, babas e curiosidade para qualquer um que passasse.
“Ai, que bebê mais linda…” disse uma senhora, aproximando o carrinho devagar. “Esses olhos… parece uma bonequinha.” A mão dela se estendeu, lenta, confiante, rumo à bochecha de Jolyne.
Antes que chegasse perto, Jotaro ergueu o olhar e deixou escapar um som baixo, denso, nada exatamente agressivo, mas definitivamente um aviso.
“Só com os olhos,” ele disse, sem elevar a voz. “Sem tocar.”
A senhora congelou por meio segundo, recolheu a mão de imediato e forçou um sorriso constrangido. “Claro, claro… desculpe.” E fugiu para o corredor de limpeza como se estivesse sendo perseguida.
Jotaro ajeitou o sling, cobrindo a cabeça de Jolyne com a mão grande de forma instintiva.
“Muita gente,” murmurou. “Vamos comprar rápido e ir embora, Jo.”
Jolyne respondeu batendo as mãozinhas nas compras e soltando uma gargalhada alta, absolutamente satisfeita consigo mesma.
***
Meia hora depois, o carro estacionou em frente à escola primária. Jouta entrou no banco de trás com a mochila pendurada em um ombro.
“Oi, papai. Oi, Jo.”
Ela reconheceu a voz e abriu um sorriso enorme, sentada na cadeirinha de bebê, esticou os braços e soltou um som que parecia metade grito de guerra, metade ordem militar.
Jouta segurou a mãozinha dela como se tivesse a cumprimentando. Depois sentou no banco e fechou a porta.
“Tentou morder alguém hoje?” Jouta perguntou, afivelando o cinto com calma.
“Quase,” Jotaro respondeu pelo retrovisor. “Uma senhora avançou na bochecha da Jolyne no supermercado e eu intervi.”
Jouta suspirou. “A mamãe diz que você age como um animal territorial. Mas eu concordo que ninguém tem que botar a mão nela.”
“Hm.”
Jotaro pisou no acelerador um pouco contrariado.
***
O sino da porta da Yuki Pan tocou quando entraram. O cheiro doce misturado com café envolveu Jotaro de imediato. Noriaki estava atrás do balcão fechando o caixa, enquanto Mieko e Hinata limpavam a vitrine.
Assim que viram Jotaro com a bebê no sling, os panos foram abandonados no mesmo segundo.
“OOOOOH, A PRINCESA CHEGOU!” Mieko praticamente atravessou a confeitaria. “Olha esse laço! Hinata, olha essa bochecha!”
“Isso é um ataque de fofura!” Hinata veio atrás, já fazendo vozinha. “Vem cá com a titia, vem…”
As duas estenderam os braços ao mesmo tempo.
Jotaro reagiu com o reflexo de seus dias de hóquei. Ele girou o tronco bruscamente para a esquerda, usando o ombro largo para bloquear o acesso a Jolyne, escondendo-a contra a parede.
“Não.”
Mieko piscou. “Não?”
“Não,” ele repetiu, impassível. “Vocês estão agitadas. Vão assustá-la.”
Hinata riu. “Ela tá rindo da sua cara, Jotaro.”
E era verdade. Jolyne esticava a mãozinha na direção do brinco de Mieko, gargalhando.
“Mesmo assim,” ele retrucou. “Nós já vamos embora. Noriaki–”
Jouta surgiu do lado dele e, antes que Jotaro pudesse reagir, Mieko já estava ajoelhada na frente do menino.
“Vem cá, campeão!” Ela puxou Jouta para um abraço apertado. “Meu Deus, como você cresceu tanto em duas semanas?”
Hinata se juntou no mesmo instante, abraçando por trás. “Esse menino vai ficar mais alto e ainda mais bonito que o pai.”
Jouta ficou duro por meio segundo… depois relaxou, meio sem jeito.
“Ele já é quase do seu tamanho, Hina-chan,” Noriaki comentou rindo e saindo do balcão, parou bem na frente de Jotaro e falou baixo:
“Você está parecendo um guarda-costas de celebridade em colapso nervoso.”
“Elas são barulhentas,” Jotaro murmurou. “E insistentes.”
“E a sua filha está implorando para ir no colo de alguém que não seja você,” Noriaki apontou, olhando para a mãozinha de Jolyne puxando o ar em direção às duas.
Jotaro ficou em silêncio por um segundo. Mieko e Hinata também. Até Jouta parou de se mexer.
Ele olhou para Jolyne. Depois para Noriaki. Depois suspirou devagar, vencido.
“Dois minutos,” disse. “Sem correr. Sem girar. Sem sacudir.”
Mieko abafou um grito de vitória.
“EU PROMETO!”
Ela pegou Jolyne com todo o cuidado do mundo. Hinata ficou grudada ao lado, ajeitando o laço, falando baixinho. Jolyne abriu outro sorriso enorme, absolutamente encantada.
Jouta se aproximou e, timidamente, encostou na pontinha do pé da irmã.
“Ela é tão fofinha que é irresistível mesmo, dá vontade de apertar,” o menino disse, com a voz de adoração.
Jotaro cruzou os braços, observando tudo com tensão visível, mas os olhos já menos duros.
Noriaki se aproximou dele e entrelaçou os dedos dos dois.
“Viu? O mundo ainda não acabou.”
“Por enquanto,” Jotaro respondeu, em voz baixa. “Mas estou de olho.”
E Jolyne, no colo de Mieko, soltou outra gargalhada – completamente alheia ao pai que claramente planejava protegê-la do universo inteiro.
***
O cheiro familiar de gelo raspado, borracha fria e o zumbido distante do alisador de gelo trouxeram uma onda de nostalgia a Jotaro assim que ele passou pelas portas duplas.
Ele não era mais o capitão temido ou o jovem técnico assistente. Hoje, ele era apenas ‘pai’.
Jotaro estava parado perto do vidro da área neutra. No peito, presa em um canguru de tecido ergonômico, Jolyne, de oito meses, estava acordada, observando o mundo com olhos grandes e curiosos, uma touca lilás com orelhas de gatinho cobrindo a cabeça.
No gelo, uma dúzia de crianças de cinco e seis anos pareciam pinguins desajeitados tentando se equilibrar. Entre eles, um borrão de cabelos negros e revoltos se destacava.
Jouta Kujo, aos cinco anos, era uma cópia carbono do pai em miniatura. O mesmo cabelo escuro que desafiava a gravidade e a mesma expressão concentrada. Ele não tinha a graça natural de Noriaki ainda, mas tinha a teimosia de Jotaro. Ele caiu perto da linha azul, deslizando de barriga.
Jotaro se adiantou um passo instintivamente, mas parou.
No gelo, o treinador Katsuro patinou até o menino caído. Ele não ofereceu a mão. Ele apenas bateu o taco no gelo perto de Jouta e disse algo curto.
Jouta, sem derramar uma lágrima, apoiou as mãos enluvadas no gelo, empurrou-se para cima e voltou à posição básica, sacudindo os cabelos pretos para fora dos olhos.
Katsuro assentiu uma vez e soprou o apito.
"Fim do treino! Saiam do meu gelo antes que eu ligue a máquina e transforme vocês em raspadinha!"
As crianças correram para a saída. Jouta patinou direto para onde o pai estava, o rosto corado pelo frio e pelo esforço, um sorriso banguela no rosto.
"Papai! Você viu? Eu fiz a curva 'cruzada'!"
"Eu vi," Jotaro disse, passando a mão livre pelos cabelos do filho através da abertura do vidro, bagunçando-os ainda mais. "Muito bom. Sua base estava firme."
Katsuro patinou até a borda, apoiando os braços na amurada. O cheiro de pinho e almíscar dele ainda era o mesmo. Ele olhou para Jouta.
"Ele tem o centro de gravidade baixo," Katsuro avaliou, como se falasse de um profissional. "É difícil de derrubar. E o mais importante: quando cai, não fica choramingando. Ele tem a sua estrutura, Kujo. Isso é bom para um defensor."
Jotaro permitiu-se um meio sorriso. "Noriaki acha que ele vai ser um atacante rápido."
"Hmph. Veremos," Katsuro resmungou, mas havia carinho em seus olhos.
Então, o olhar do treinador desceu para o canguru no peito de Jotaro. Jolyne soltou um gritinho agudo, reconhecendo o rosto barbudo que não via há alguns meses.
"Por Deus, como eles crescem rápido," Katsuro disse, a voz rouca suavizando consideravelmente. Ele tirou a luva grossa de hóquei. "Da última vez que a vi, ela era apenas um joelho embrulhado em mantas. Agora olhe só... ela está a cara do Noriaki."
Era verdade. Enquanto Jouta era Jotaro escrito, Jolyne tinha a delicadeza nos traços, o formato dos olhos e aquele brilho travesso que pertenciam inteiramente a Noriaki.
Katsuro estendeu o dedo indicador calejado para fazer um carinho na bochecha dela. "Oi, bonequinha."
Imediatamente, Jotaro deu um passo quase imperceptível para trás, a mão subindo instintivamente para cobrir a cabecinha dela, protegendo-a como um escudo.
Katsuro parou o dedo no ar, recolheu a mão e soltou uma risada seca, balançando a cabeça.
"Ainda com isso, Kujo? Eu lavei as mãos antes de entrar no rinque, sabia?"
"Não é por você," Jotaro resmungou, ajeitando a touca dela para esconder mais o rosto, embora seus olhos varressem o ginásio vazio como se procurasse ameaças invisíveis. "É o ambiente. Muita gente. Muitos germes. E ela chama muita atenção."
"Ela é um bebê de colo, Jotaro! Você age como se estivesse escoltando a joia da coroa britânica," Katsuro provocou, divertindo-se com a postura defensiva exagerada do ex-capitão. "Vi você olhando feio para a mãe do goleiro mirim quando ela disse 'oi' para a menina. Desse jeito, você vai construir uma torre e trancar a garota lá dentro antes que ela complete um ano. Ninguém chega perto, hein?"
Jotaro trincou o maxilar, mas não negou.
"Ninguém precisa chegar perto. Ela está bem aqui."
Jouta, que estava desamarrando os patins no banco ali perto, levantou a cabeça, franzindo a testa numa expressão idêntica à do pai.
"O papai tá certo," Jouta concordou, cruzando os bracinhos. "Eu também não gosto quando estranhos tentam pegar na Jolyne. As pessoas são muito pegajosas."
Katsuro olhou de Jouta para Jotaro e riu alto, o som ecoando no teto alto do ginásio.
"Incrível. Você treinou o garoto para ser sua cópia. Noriaki deve ter um trabalho infernal com vocês três."
Eles começaram a caminhar em direção aos vestiários. O corredor de borracha preta estava silencioso agora.
Quando chegaram à porta, Katsuro parou. A brincadeira desapareceu de seu rosto, substituída por uma expressão mais solene. Ele olhou para Jouta, forte e resiliente; para Jolyne, segura e protegida contra o peito do pai; e finalmente para Jotaro – o homem que recusou a glória individual para construir aquilo.
O velho treinador respirou fundo, o cheiro de pinho ficando subitamente mais denso, impregnado de afeto paternal.
Sem aviso, Katsuro puxou Jotaro para um abraço.
Não foi um tapinha nas costas. Foi um abraço de urso, forte, rápido e um pouco desajeitado por causa da bebê no meio, mas cheio de uma emoção crua. Ele apertou o ombro de Jotaro com força antes de se afastar, os olhos marejados por apenas um segundo antes de pigarrear para disfarçar.
"Você fez bem, garoto," Katsuro disse, a voz grossa e sincera, olhando diretamente nos olhos de Jotaro. "Olhe para tudo isso que você construiu. Eu tenho muito orgulho do homem que você se tornou."
Jotaro sentiu um nó na garganta. Ele apenas assentiu, incapaz de falar por um momento, e apertou firmemente a mão que o treinador lhe ofereceu.
"Obrigado, Katsuro."
"Agora vão embora," o treinador resmungou, voltando ao seu modo habitual enquanto abria a porta do vestiário para Jouta. "E diga ao Noriaki que mandei lembranças, antes que vocês dois sufoquem a menina de tanto cuidado."
***
O tapete felpudo da sala havia sido transformado em uma espécie de território neutro entre brinquedos espalhados, almofadas derrubadas e um golfinho de pelúcia estrategicamente posicionado a certa distância. Para Jouta, aquilo era claramente um campo de treinamento.
Jolyne, com seus oito meses, permanecia de bruços, os bracinhos escorregando no tapete enquanto ela bufava de frustração. Cada tentativa de avançar terminava em um giro torto do próprio corpo, como um pequeno besouro indignado com as leis da gravidade.
Jouta observava tudo com as pernas cruzadas, sério demais para alguém da sua idade. Em determinado momento, suspirou e se abaixou ao lado da irmã, apoiando-se de quatro no tapete.
"Não é só força, Jolyne. Tem que pensar no movimento."
Ele engatinhou devagar, exagerando cada gesto.
"Mão direita. Joelho esquerdo. Depois troca."
Jolyne parou de se debater. Olhou para o irmão com atenção absoluta, uma bolha de saliva se formando em sua boca antes que ela soltasse um animado:
"Abuu!"
"Isso. Agora tenta."
Jouta pegou o golfinho e o empurrou um pouco mais para longe.
"Se quiser o Sr. Golfinho, tem que ir até ele."
Do sofá, Jotaro acompanhava a cena por cima de um relatório esquecido nas mãos. O jornal já havia sido dobrado há vários minutos. Ele não lia mais nada, só observava.
Jolyne firmou as mãos no tapete. Ergueu o quadril e desequilibrou por um segundo, mas ela corrigiu sozinha, soltando um som determinado, quase um rosnado minúsculo.
Um avanço.
Depois outro.
O arrastar desajeitado de um joelho.
"Isso!" Jouta incentivou, batendo palmas com cuidado. "De novo. Vem."
Jolyne avançou mais dois movimentos tortos, até finalmente alcançar o golfinho. Ela o agarrou pela barbatana e, vitoriosa, enfiou direto na boca.
"Buaa!"
"Missão cumprida," Jouta declarou, sério, fazendo um carinho cuidadoso no cabelinho ruivo da irmã.
Por um segundo, houve apenas silêncio.
Então Jotaro se levantou.
O som dos passos pesados abafados pela meia no piso de madeira foi calmo, mas decidido. Ele se aproximou dos dois e se agachou lentamente diante da filha ainda babando na pelúcia.
"Você engatinhou."
Não era uma pergunta. Era constatação pura.
O canto da boca dele se moveu quase imperceptivelmente.
Ele ergueu os olhos para Jouta.
"Foi você que ensinou."
"Sim," Jouta respondeu, simples, como se estivesse falando de algo óbvio.
Jotaro ficou em silêncio por um instante. Então levou a mão grande até a cabeça do menino e pousou ali um beijo firme e rápido, do tipo que não se repete, mas fica.
"Bom trabalho."
Jouta ficou visivelmente orgulhoso, mesmo tentando esconder.
***
Mais tarde, quando o relógio marcou oito e meia da noite, Jotaro voltou a falar, agora já de pé:
"Sua mãe mandou mensagem agora. Vai ter que ficar mais tarde para terminar uma encomenda. Vamos, hora de dormir."
Jouta se levantou sem protestar. Jolyne, percebendo a mudança de clima, largou o golfinho e ensaiou um choro indignado.
Antes que ele ganhasse força, Jotaro a ergueu do chão com facilidade, apoiando-a contra o antebraço.
"Sem drama, Jo. Não vamos cair nos seus truques."
“É, mesmo que você seja fofinha.” Jouta acrescentou.
Ela fungou, pensou por meio segundo… e aceitou a derrota encostando a testa no peito do pai.
***
A rotina da noite seguiu em silêncio organizado.
Jouta vestiu o próprio pijama, de dinossauros, com a concentração habitual, precisando de ajuda apenas no último botão. Jolyne, por outro lado, levou a troca de fraldas como um confronto pessoal, chutando o ar enquanto Jotaro mantinha seus tornozelos firmes com uma única mão.
"Você luta demais para alguém tão pequena," ele comentou.
Depois do rosto lavado, dentes escovados e luzes reduzidas, veio a mamadeira.
Jolyne empurrou o bico.
"Nnn."
"É o mesmo leite da sua mãe, filha. Só outra embalagem," Jotaro respondeu, sem ceder.
O impasse durou alguns segundos. Então, vencida pelo próprio estômago, ela aceitou, segurando o dedo mínimo do pai com força enquanto mamava.
Jotaro sentou-se na poltrona.
Jouta subiu no pai, se sentando na perna dele e dividindo o espaço com a irmã, bocejando.
"Papai… conta uma história?"
Jotaro não era bom com contos de fadas. Ele achava as premissas ilógicas. Então, ele fez o que sempre fazia. Pegou um livro da prateleira que, curiosamente, não era exatamente infantil.
“Hoje vamos falar sobre as zonas abissais e a bioluminescência,” Jotaro começou, sua voz profunda vibrando no peito, servindo como uma máquina de ruído branco natural para as crianças.
“O peixe-lanterna usa uma isca luminosa para atrair presas na escuridão total…”
Jouta ouvia fascinado, mas seus olhos pesavam, a cabeça encostada no peito de Jotaro, segurando o pezinho de Jolyne. A bebê, já de barriga cheia e embalada pela voz grave e o calor do corpo do pai, apagou em minutos. O ritmo cardíaco lento e forte do homem gigante era o melhor calmante que existia.
***
A porta da frente se abriu sem ruído. Noriaki entrou em casa ainda com o cheiro doce de glacê e canela grudado nas roupas, os ombros pesados de cansaço. A casa estava escura, quieta demais.
“Tadaima…” murmurou para ninguém em especial.
Deixou os sapatos no genkan e seguiu pelo corredor em passos cautelosos. Espiou primeiro o quarto de Jouta. A cama estava arrumada demais. Vazia. Franziu a testa.
Seguiu pelo corredor até o quarto de Jolyne. A luz estava apagada, mas a claridade fraca do abajur do corredor desenhava a cena com suavidade.
A poltrona grande ocupava metade do espaço. Nela, Jotaro dormia recostado, ainda de roupas escuras, a cabeça levemente tombada para o lado. Jouta estava enrolado sobre o peito do pai, os braços pequenos agarrados à camiseta dele, respirando com regularidade. E Jolyne… Jolyne dormia de bruços sobre o outro braço de Jotaro, o corpinho subindo e descendo ao ritmo lento da respiração dele, um fiapo de baba escorrendo pelo canto da boca.
O livro sobre criaturas marinhas jazia aberto no chão, esquecido.
A cena atingiu Noriaki como um golpe silencioso. O cansaço do trabalho se dissolveu em segundos, substituído por algo quente demais no peito. Ele levou a mão à boca, respirou fundo, e então tirou uma foto rápida, sem flash.
Aproximou-se devagar. Primeiro, encostou os lábios na testa de Jouta. Depois, fez um carinho leve nas costas de Jolyne. Por fim, tocou de leve o rosto de Jotaro.
“Jojo…”
Jotaro abriu um olho devagar, o olhar turvo de sono demorando alguns segundos para focar.
“Você chegou.”
“Cheguei,” Noriaki sussurrou. “Vai ficar todo dolorido se dormir assim.”
Jotaro resmungou baixo, mas não reclamou quando Noriaki tomou Jolyne com cuidado de seus braços. A bebê se mexeu um pouco, soltou um som suave, mas não acordou.
Noriaki a levou até o berço, ajeitou o corpo pequeno com delicadeza, cobriu-a até a cintura. Ficou alguns segundos olhando, como se quisesse gravar o momento.
Quando voltou, Jotaro ainda estava na poltrona, agora sustentando apenas o peso de Jouta.
“Eu levo ele,” Jotaro murmurou, despertando um pouco mais.
Ele se levantou com cuidado, o corpo grande se movendo com surpreendente suavidade, e levou Jouta no colo pelo corredor até o quarto do menino. Noriaki foi atrás, em silêncio.
Deitaram Jouta com calma. Ele se mexeu um pouco, murmurou algo incoerente, mas se acomodou de lado, tranquilo.
Noriaki puxou o cobertor até os ombros dele.
“Boa noite, meu amor.”
Só então os dois foram para o próprio quarto.
A luz baixa do abajur deixou tudo em tons quentes e calmos. Noriaki largou o casaco, sentou-se na beira da cama e suspirou fundo, o peso do dia finalmente descendo sobre os ombros.
“Está tudo bem?” Jotaro perguntou, fechando a porta atrás de si.
“Está… só estou cansado,” ele respondeu. Fez uma pausa, então ergueu os olhos. “Como eles ficaram hoje?”
Jotaro hesitou por um instante antes de falar, como se escolhesse as palavras.
“A Jolyne engatinhou.”
Noriaki piscou.
“Engatinhou mesmo?”
“Sim.” A voz de Jotaro saiu baixa, quase cuidadosa. “Ela tentou alcançar um brinquedo. Caiu duas vezes. Na terceira… foi.”
O silêncio entre eles se estendeu por alguns segundos.
“Eu perdi,” Noriaki disse por fim, num fio de voz.
“Perdeu por causa do trabalho,” Jotaro corrigiu. “Não por descuido.”
Noriaki respirou fundo, os olhos marejando sem que ele percebesse de imediato.
“Mesmo assim… eu queria ter visto.”
Jotaro se aproximou, ficou de pé diante dele.
“Foi o Jouta quem ensinou.”
Noriaki ergueu a cabeça, surpreso.
“Ele se abaixou no chão. Mostrou os movimentos. Falou sério, incentivou, às vezes parecia que estava treinando um soldado.” Uma sombra discreta de algo próximo a orgulho cruzou o rosto de Jotaro. “Quando ela conseguiu… ele bateu palmas.”
Uma lágrima escapou sem pedir licença.
“Ele ensinou a irmãzinha a engatinhar…” Noriaki murmurou. “Eu perdi o momento… mas ganhei isso.”
“Você teria gostado,” Jotaro disse, com simplicidade.
Noriaki estendeu a mão e apertou os dedos do marido.
“Que bom que você estava lá pra ver.”
Jotaro assentiu, desviando o olhar por um segundo.
“Eles estavam bem.”
Noriaki puxou Jotaro para perto e encostou a testa no peito dele.
“Eles estão sempre bem com você.”
Jotaro passou o braço ao redor dele, contido como sempre, mas presente.
“Vem, vamos tomar um banho e dormir.” Ele sussurrou no ouvido de Noriaki.
***
O quarto de Jolyne ainda tinha o cheiro suave do hidratante infantil que Noriaki usava nela todas as manhãs. Os brinquedos de pelúcia estavam espalhados perto da caminha baixa, e a penteadeira minúscula – um presente de Holly – exibia escovas coloridas, elásticos pastel e uma fileira de presilhas em formato de frutas.
Era um sábado em que as crianças fariam o hajimete otsukai – a primeira tarefa sozinhos. Noriaki havia saído cedo para abrir a confeitaria e receber um fornecedor, mas prometeu voltar em uma hora. Pela primeira vez, Jotaro ficara encarregado de preparar os dois filhos para o dia… e, claro, de lidar com o ritual de pentear a caçula.
Jolyne, recém-feito dois anos, sentava-se na ponta da caminha com as pernas balançando, apertando um ursinho de pelúcia contra o peito. Seu cabelo úmido caía em ondas desordenadas sobre os olhos.
“Papai…” Ela inclinou o rosto para cima, expressão de súplica absoluta. “Quelo o belelo de celejinha.”
Era assim que ela chamava o penteado com os dois coques altos que Noriaki sempre fazia.
Jotaro, que tinha acabado de terminar de vestir a filha com o vestidinho verde-menta, congelou por um segundo.
Normalmente, quem fazia aquele penteado era Noriaki. Mas hoje, com o marido fora e Jolyne pedindo daquele jeitinho… não havia saída.
Ele respirou fundo, pegou a escova minúscula – que parecia um brinquedo em suas mãos enormes – e sentou-se atrás dela na cadeira infantil.
“Tudo bem, Jo,” ele murmurou, bem baixinho. “O papai dá um jeito.”
Jolyne sorriu, confiante, como se não tivesse um pingo de dúvida de que seu pai era capaz de qualquer coisa.
Jotaro, talvez por causa daquela confiança, colocou toda a atenção no cabelo delicado dela. Ele começou devagar, separando as mechas com cuidado, tentando imitar mentalmente os movimentos precisos que já tinha visto Noriaki fazer centenas de vezes.
O cabelo dela era extremamente fino, escorregando por entre seus dedos calejados sempre que ele achava que finalmente tinha dominado uma mecha rebelde.
“Fica parada, meu amor,” ele pediu, quando ela tentou virar para pegar outro brinquedo. “Só mais um pouco.”
“Tá, papai,” ela respondeu, ficando firme como uma soldadinha – por cinco segundos, até apertar o ursinho e ele soltar um pequeno squeak. Ela deu uma risadinha.
Jotaro fechou os olhos um instante, respirando fundo como se estivesse prestes a operar um recife de corais com pinças a laser. Depois retomou.
Ele torceu a primeira mecha com um cuidado quase reverente, enrolou-a em um pequeno coque e amarrou o elástico cor-de-rosa. A franja dela caiu sobre a testa com graça, exatamente como fazia quando era Noriaki quem arrumava.
“Hm,” Jotaro soltou, em voz baixa.
Jolyne inclinou-se para a frente para ver seu reflexo na superfície espelhada da penteadeira, mas Jotaro colocou a mão gentilmente em seu ombro.
“Não mexe ainda, Jo. Falta o outro.”
Ela colocou o ursinho no colo e ficou parada, orgulhosa e obediente.
O segundo coque saiu mais rápido – talvez porque Jotaro finalmente tivesse acertado o ângulo, ou talvez porque agora já sabia quão pouco precisava puxar para não machucar a filha.
Assim que terminou, ele limpou a testa com o antebraço e soltou o ar.
“Pronto.”
Noriaki, que tinha voltado no silêncio característico dele e estava parado no corredor há alguns instantes, finalmente entrou no quarto.
Ele segurava o casaco dobrado no braço, um sorriso que iluminava o rosto.
“Voltei, amores.”
Jolyne correu até ele imediatamente, saltando em seus braços.
“Mamãe! Papai fez bebelo de celejinha!”
Noriaki a pegou no colo e seus olhos se arregalaram ao ver o resultado.
“Ah… está perfeito,” ele disse, tocando os coques com a ponta dos dedos. “Está linda, minha Jolyne.”
Jotaro cruzou os braços e desviou o olhar, como se aquilo não significasse tanto quanto realmente significava.
Noriaki colocou Jolyne no chão, aproximando-se do marido. Ele passou os braços ao redor da cintura dele, encostando o queixo no peito largo.
“Você se saiu muito bem,” murmurou. “Essas mãos grandes… tão cuidadosas com ela.”
Jotaro segurou os quadris de Noriaki e abaixou a cabeça para beijar o topo dos cabelos ruivos.
“Ela pediu de um jeito impossível de recusar,” ele disse simplesmente. “E… bem. Eu queria fazer direito.”
Noriaki sorriu contra ele, fechando os olhos por um instante.
“Você fez,” sussurrou. “Fez lindamente.”
Atrás deles, Jolyne já estava pulando na porta, chamando pelo irmão.
Mas por alguns segundos, o quarto ficou envolto naquele tipo de silêncio macio que só existe quando o amor preenche todos os espaços.
E ali, no meio dos brinquedos, presilhas de frutas e o cheiro inconfundível de shampoo infantil… Jotaro Kujo, o homem mais intimidador do departamento de biologia marinha, com cicatrizes de hóquei no corpo e uma reputação de granito, sentiu-se suavizar por inteiro.
Tudo por causa de dois pequenos coques e um cabelinho ruivo.
***
O portão da casa Kakyoin-Kujo se abriu, e Noriaki e Jotaro levaram as crianças até a calçada. Era só uma caminhada ao mercadinho do bairro. Uma missão curta. Simples. Comum.
Mas os corações dos dois pais parecia não aceitar o que o cérebro já tinha entendido.
Jouta, com cinco anos, tinha a postura séria demais para a idade, boné para trás e o cordão com a bolsinha em forma de sapinho com o dinheiro suficiente para a compra. Ao lado dele, Jolyne apertava sua mão com os dedos pequenos, tentando não pular de empolgação.
Noriaki se ajoelhou diante deles, ajeitando a gola do vestidinho de Jolyne como se fosse um ritual ancestral.
"Vocês lembram da lista?"
"Fermento para o bolo,” Jouta respondeu, como se recitasse as últimas instruções antes de uma missão de campo.
"E celeja!" Jolyne ergueu os braços como se convocasse o sol.
"Muito bem,” Noriaki sorriu. Suas mãos tremiam levemente. "E a regra mais importante?"
"Não pode soltar a mão", disse Jouta, apertando a mão de Jolyne com um brilho protetor. "E olhar pros dois lados."
Jotaro tentou cruzar os braços com naturalidade, mas a tensão denunciava seu peito rígido. Ele limpou a garganta.
"Fiquem juntos. E… façam o melhor."
A porta da casa se abriu atrás deles. Holly apareceu com a câmera de mão, lágrimas já escorrendo.
"Vocês vão arrasar, meus amores!"
As crianças começaram a andar.
E assim que dobraram a esquina, Holly e Katsuro, que foi convocado para servir de apoio, seguiram discretamente pela calçada oposta. Ficaram em lugares estratégicos onde as crianças jamais perceberiam. Noriaki e Jotaro permaneceram em casa, com os nervos à flor da pele.
A cada minuto as memórias vinham e iam.
Noriaki, ao lado do marido, falou rindo: "Quando fiz minha primeira tarefa, a minha mãe me seguiu até o supermercado. Eu percebi depois.”
Os olhos de Jotaro suavizaram de um jeito que raramente acontecia.
"Eu lembro da minha também", ele disse, num tom suave, quase frágil. "Meu pai me levou até o portão. Disse que só ia olhar de longe. Eu tinha quatro anos. Ele… me abraçou forte antes de eu ir."
O silêncio se estendeu, morno.
"Não lembrava disso fazia anos", Jotaro continuou. "Ele me disse: ‘Eu sei que você consegue sozinho, mas vou ficar aqui mesmo assim’. Foi a única vez que o vi preocupado."
Noriaki parou. A mão dele procurou a de Jotaro.
Você é como ele, o ômega queria dizer.
Mas não precisou. Jotaro apertou sua mão de volta, como se agradecesse por aquele pensamento sem palavras.
***
A rua parecia enorme. A calçada era um mundo.
Jolyne balançava os braços exageradamente, tentando acompanhar o ritmo do irmão.
"Niichan, olha! Passainho da baliga goda!"
"Agora não, Jo", disse Jouta, mas sua voz era terna. "Missão primeiro. Você quer que a mamãe faça o bolo, não quer?"
Ela assentiu com uma determinação profunda – a missão era sagrada.
Quando chegaram ao mercadinho, as portas automáticas se abriram com um sopro de ar gelado.
Jolyne arregalou os olhos.
"Calma, Jo. É só a porta automática." Ele fez um carinho na cabeça dela. "Primeiro o fermento."
Os dois foram andando entre as gôndolas, com olhos atentos Jouta procurou pela latinha que já conhecia, pois sempre estava com Noriaki na cozinha.
O desafio surgiu quando chegaram à prateleira. O fermento estava alto demais.
Jouta franziu o cenho.
A missão não podia falhar.
Ele se abaixou e sussurrou:
"Jo, vem cá.” Ele a pegou no colo, os braços se fechando ao redor da cintura dela. “Pega essa latinha vermelha.”
"Tá!" Jolyne esticou os bracinhos, compenetrada. Com a ponta dos dedinhos ela puxou a lata. "Peguei!"
Jouta colocou Jolyne no chão com cuidado. A menina então colocou o fermento dentro de uma cestinha que o irmão foi correndo buscar.
Depois vieram as cerejas. Jolyne queria a caixa ‘mais brilhante’, mas Jouta segurou seu braço.
"Não, Jo. Tem que olhar se estão boas. Igual a mamãe olha as frutas. Lembra?"
Ela olhou. Pensou. Concordou.
A caixa escolhida era perfeita.
Na hora de pagar, Jouta tirou as notas da bolsinha com a gravidade de um adulto. Jolyne reverenciou tão forte que quase caiu. O dono do mercado conteve um sorriso, aceitando o dinheiro com dignidade.
Eles saíram.
Fizeram tudo. Sozinhos.
E seus passos de volta para casa eram pequenos, mas orgulhosos – passos de guerreiros que cumpriram a missão.
Só desviaram um pouquinho da rota porque Jolyne quis fazer carinho em um gatinho que estava passando ali.
***
Holly largou a câmera e enxugou os olhos. "Eles conseguiram…"
Katsuro deu um assobio impressionado. "Trabalho em equipe impecável."
O olhar de Noriaki encontrou o de Jotaro.
"Seu pai ficaria orgulhoso."
Jotaro baixou os olhos. O perfume suave de flor de cerejeira de Noriaki o envolvia.
Talvez fosse por isso que conseguiu sorrir, pequeno, mas real.
"Eu também fico."
***
A cozinha virou um campo de batalha de farinha e risadas. O bolo assava. Jouta, em cima de um banquinho, misturava a cobertura de merengue com a concentração de um monge. Jolyne, sentada no balcão sob o olhar atento de Jotaro, estava com as bochechas sujas de farinha e comia cerejas contrabandeadas.
Katsuro bebia chá, observando pela porta.
Meia hora depois, o bolo estava pronto e depois ficou um tempo esfriando. Jouta, com a ajuda de Noriaki, passou a cobertura, decorando com as cerejas no topo.
"Este bolo é especial porque foi feito com o que vocês dois trouxeram. Vocês fizeram um trabalho incrível."
Jolyne abriu um sorriso orgulhoso.
"Niichan, Jo ajudou, né?"
Jouta assentiu. "Muito!”
Jotaro observou aquilo. O filho passando a mão no cabelo da irmã como Noriaki fazia com ele. A menina inclinando a cabeça com confiança plena nele.
E o mundo, por um instante, ficou perfeito.
Katsuro ergueu a xícara num brinde silencioso a Jotaro.
"Eles estão crescendo fortes, Kujo."
Jotaro desviou o olhar, respirando fundo. Havia calor demais no peito.
"Sim,” ele respondeu, a voz baixa, mas cheia de sentimento. “Rápido demais.”
Noriaki chegou ao lado dele, encostando o ombro no seu.
E juntos, vendo os filhos comerem o bolo que eles mesmos compraram os ingredientes, sentiram que todo o esforço e sacrifício que faziam como pais diariamente se refletia na atitude das crianças.
***
Os três anos seguintes não passaram; eles evaporaram como água do mar sob o sol do meio-dia, deixando para trás apenas o sal da experiência e a cristalização de uma nova vida.
Para Jotaro Kujo, o tempo passou em pilhas de livros, noites insones sobre a tese de mestrado e, mais recentemente, no som seco do giz riscando o quadro-negro. A transição de estudante para Professor Kujo, na mesma universidade onde ele e Noriaki haviam se formado, soava ao mesmo tempo natural e estranhamente irreal. Eram os mesmos corredores onde ouvira cochichos venenosos sobre a gravidez de Noriaki, onde caminhara com Jouta no sling, amarrado contra o peito e encarara, sem piscar, quem ousasse olhar para eles com desprezo. Agora, os alunos abriam caminho com respeito – e uma boa dose de receio – ao ver sua silhueta imponente de jaleco branco avançando pelo Departamento de Biologia Marinha.
No trânsito de fim de tarde, Jotaro aproveitou um semáforo fechado para ajustar o retrovisor. Foi então que seus olhos captaram, quase por instinto, uma rua lateral específica. Ele mudou a rota sem pensar muito.
Ali estava ela: a casa minúscula, quase um cubículo, com a pintura descascada pelo tempo.
Jotaro parou o carro com suavidade e observou o imóvel em silêncio. Foi ali que tudo havia começado ‘de verdade’. Lembrou-se da sensação claustrofóbica do berço espremido entre a cama de casal e a cômoda quando Jouta nasceu. Lembrou-se de Noriaki aos dezenove anos, obstinado, com olheiras profundas, estudando na mesa de centro bamba enquanto Jotaro digitava trabalhos na única escrivaninha da casa. Não havia dinheiro, só cansaço, planejamento e uma fé quase teimosa no futuro.
“Foi um longo caminho…” Ele murmurou para o interior silencioso do carro, apertando o volante com força. O couro rangeu sob sua mão.
O aperto no peito não era dor. Era orgulho. Eles eram fortes porque haviam confiado um no outro.
Jotaro engatou a marcha. O destino agora era diferente.
Quinze minutos depois, ele estacionou diante de uma fachada elegante de vidro e madeira escura. O letreiro dourado, minimalista e sofisticado, refletia a luz suave do fim de tarde: Hanami – Patisserie & Tea Lab.
Havia apenas dois anos que Noriaki transformara aquele espaço em um santuário. O fundo de reserva que começaram a juntar após a viagem à França, somado a cada centavo economizado e a incontáveis noites de planejamento, finalmente havia tomado forma ali.
Assim que Jotaro abriu a porta, o aroma o envolveu por completo. Não era o cheiro doce das confeitarias tradicionais como a Yuki Pan, onde Noriaki havia trabalhado por tantos anos. Era algo mais complexo: manteiga francesa de alta qualidade, o amargor elegante do matcha cerimonial, notas cítricas sutis de yuzu.
A confeitaria era um sucesso absoluto. Noriaki encontrara seu nicho ao unir a precisão da pâtisserie francesa, a delicadeza dos sabores asiáticos e a ousadia técnica da culinária molecular que tanto estudou durante a faculdade.
Encostado perto da entrada, Jotaro observou à distância. A vitrine parecia uma joalheria: esferas translúcidas de agar-agar que explodiam na boca, tortas geométricas de mousse de gergelim preto, wagashis da cerimônia do chá moldados como pequenas esculturas de arte moderna. Tudo pensado para ser ‘não muito doce’ – o refinamento absoluto que Noriaki tanto prezava.
Mas não foram os doces que prenderam o olhar de Jotaro.
Foi a mesa no canto, reservada à família.
Jouta, agora com oito anos, estava sentado com postura impecável, lendo um livro sobre dinossauros. Ao lado dele, Jolyne, com cinco anos, era uma concentração pulsante de energia contida dentro de um macacão jeans com uma camiseta listrada de amarelo e branco.
“Eu quero o de morango! Aquele que brilha!” Jolyne apontou para a vitrine, a voz subindo uma oitava, os cabelos ruivos presos com dois coques no alto da cabeça, balançando enquanto ela ameaçava escalar a cadeira. “Agora, niichan! Agora!”
O temperamento e teimosia dos Kakyoin nela era vulcânico. Jotaro já se preparava para intervir, a voz pronta para cortar a birra ainda na raiz, quando parou.
Jouta fechou o livro com calma, sem olhar diretamente para a irmã. Ajustou a gola da camisa – um gesto assustadoramente idêntico ao de Noriaki – e pousou a mão sobre o ombro da pequena.
“Jolyne-chan,” Jouta disse, a voz serena, mas firme. “A mamãe está finalizando uma escultura de açúcar. Se você gritar, a vibração pode quebrar o trabalho dele. Você quer que a mamãe fique triste?”
Jolyne travou com a boca ainda aberta, pronta para o próximo protesto. Os olhos turquesa piscaram. A lógica emocional a atingiu em cheio.
“Não…” Ela sussurrou, sentando-se direito.
“Ótimo. Além disso, o de morango tem coulis ácido. Você vai preferir o choux de creme. Confia em mim.”
“Tá bom, niichan,” ela concordou, um pouco contrariada – com a mesma expressão de Noriaki quando uma receita não saía exatamente como planejado, antes de voltar a colorir seu desenho.
Jotaro deixou escapar um sorriso raro, genuíno. Jouta tinha a paciência de um santo e a diplomacia nata de Noriaki.
Nesse momento, o ômega surgiu da cozinha. No final dos seus vinte anos, ele parecia estar no auge de sua beleza. Usava um dólmã branco impecável, o cabelo ruivo – agora comprido – preso para trás. Estava cansado, mas seus olhos se iluminaram assim que encontraram os de Jotaro do outro lado do salão.
Noriaki sorriu, aquele sorriso suave e cúmplice que só existia entre eles, e fez um gesto discreto para que Jotaro se aproximasse. A aliança de platina em seu dedo anelar, companheira de dez anos, capturou a luz da confeitaria por um breve instante.
Caminhando até sua família, envolto pelo aroma de chá verde e pelo jazz baixo no ambiente, Jotaro sentiu o peso dos anos se dissolver por completo. O cheiro de bergamota e sândalo tornou-se doce no ar ao se misturar com tudo ali. O amor aqueceu seu peito de forma quase física. Noriaki respondeu instintivamente, liberando suas notas de flor de cerejeira e licor.
Os dois se olharam novamente.
E naquele olhar havia tudo: os sonhos que não abandonaram, a família que construíram, e o relacionamento mais forte a cada ano, os dois juntos contra tudo o que poderia dar errado. Os dois juntos fazendo o impossível para dar certo.
