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cryin'

Summary:

Se pudesse colocar isso em seu perfil, o sniperlera666, teria o maior hit de todos os tempos, um viral pronto para nascer. O dinheiro realmente não é fácil. Lidar com as fãs, as parassociais e até ameaças é a parte tranquila, desde seu passado na polícia, nada que surpreenda muito. Já trombou com gente bem mais barra pesada que a Valentina, dependente do dinheiro da mamãe e do papai, gritando que Eloy é um gostoso.

—— Rockstar!Eloy e Bodyguard!Kemi. A música que embala essa é Cryin' - Aerosmith.

Notes:

Para todos que comentam em cada fic, um agradinho.
Essa fic vai ser mais leve, embora tenha lá seu... Calor em alguns capítulos, porém foi escrita pra gente rir um pouco.

Twitter/X: ritosilenciado

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: the tables have turned, yeah

Chapter Text

Não é um dinheiro tão fácil assim quanto a induziram na agência.

 

Os jovens suados empurram uns aos outros num minúsculo espaço — pelo menos na concepção de Kemi, que desvia habilmente de ombros e cotovelos dançantes — com uma batida eletrizante vibrando os ossos da guarda-costas ao mirar Eloy. Odeia esse cheiro de fumaça de espetáculo, perfumes vencidos e bebida, pior fica na batida do relógio onde vômito constantemente se mistura no ar. 

 

O baterista da banda famosinha do momento, Psikolera, está na segunda poltrona da área VIP da balada conversando com fãs e outros integrantes. Uma parceria rápida, na agenda compartilhada estava uma hora de duração de evento. 

 

Estão, no mínimo, há cento e oitenta minutos ali. 

 

A platinada está um metro atrás, de pé, as duas mãos sobrepostas na frente do tronco como condiz o protocolo — se precisasse usar uma das armas contra uma groupie maluca nem saberiam o que a atingiu. 

 

O homem alto de cabelos castanhos sorri para o grupo, as mãos montando um coque frouxo sem refletir muito, mechas onduladas emoldurando sua face de trejeito quase angelical. O movimento supostamente agrada e bastante os olhares, um deles próximo demais. 

 

Cento e noventa minutos

 

— Pra trás. 

 

Seu tom é cortante e frio, o tipo de voz que qualquer um escuta e sabe que está com um grande problema. Foi um dos destaques nos cursos de segurança, ter sido criada precisando advogar e lutar por si — desamparada e sozinha — endureceu sua casca na marra. Seu chefe mencionava aos clientes que era uma guarda perfeita, intimidando antes de maiores ocorridos ou até prevendo devido ao seu cuidado excessivo — paranóia — sem medo de atacar, sem ligar para gentilezas. Com alguns isso dava certo, outros reclamavam da truculência da pequena mulher  — porém não está ali para agradar adolescentes e jovens adultos sem um boleto para se preocupar. 

 

É um trabalho como qualquer outro: um serviço de guarda-costas particular de Eloy, o baterista que por onde toca atrai corações e dinheiro. Na manhã o acompanhou num ensaio fotográfico e na sequência em uma entrevista, as sobrancelhas arqueadas quando ele incorpora uma persona confiante, atrevida, ladina. A focinheira é a cereja do bolo em qualquer foto e, para o horror de Kemi, um acessório constantemente arremessado contra ele — aquela porra tem spikes e as fãs sequer pensam que podem ferir o ídolo? Quando adentram o veículo, entretanto, ele larga a máscara — francamente, qualquer outro presente junto — e vira um homem bastante doce e até… Calmo. Sem mais risadas com outra conotação, sem flexionar os bíceps “distraidamente”. 

 

Se pudesse colocar isso em seu perfil, o sniperlera666, teria o maior hit de todos os tempos, um viral pronto para nascer. O dinheiro realmente não é fácil. Lidar com as fãs, as parassociais e até ameaças é a parte tranquila, desde seu passado na polícia, nada que surpreenda muito. Já trombou com gente bem mais barra pesada que a Valentina, dependente do dinheiro da mamãe e do papai, gritando que Eloy é um gostoso. 

 

Seu músico favorito dando atenção e sorrindo pra você? Nem tanto. Ouvir todos os singles antecipadamente e não poder morder os dedos de alegria? Definitivamente complicado. Tinha criado o perfil para se infiltrar nesse universo e, quando se tocou, o cartão já estava cadastrado com o carrinho recheado de merch

 

Quando Kemi desmonta minimamente sua posição para mostrar que agiria, a fã que sorria docemente para Eloy se afasta, os olhos arregalados. O sobretudo marrom volta a esconder a pistola. 

 

Franco está na sua lateral, os cabelos ruivos avermelhados ou um laranja neon conforme as luzes seguem o ritmo da música. Ele é um dos clientes mais tranquilos da agência, tão recluso que é Jae que acabou recebendo uma certa fama no fandom o protegendo nas raras viagens de carro. 

 

— Já estamos indo, Kemi. — ele inclina o pescoço, a marca de queimadura evidente por baixo das tatuagens. — Sabe como é, precisamos aparecer. Infelizmente é nosso mundo. 

 

— Pagando bem… 

 

A segurança sorri amistosa para Franco, que retribui. No tempo que passa com a banda, ele é um dos mais simpáticos e cuidadosos. Quem é ela para se enganar, o membro mais novo havia conquistado sua amizade quando jogou no meio do show uma garrafinha de água para ela com um joinha. O lugar em que a vigília estava posicionada era perto dos canhões de fogo, quente e abafado. No dia seguinte, recebeu um pedido de desculpas e que não voltaria a ocorrer aquilo por parte do staff. 

 

Um querido. RuivetePatinete surtaria se soubesse que Franco também é um dos homens que mais ronca na face da Terra, uma junção de asma com cigarro e fogo de show não muito favorável. Kemi não costuma interagir com outros fãs, sempre precavida pela sua carreira e respeito por eles, entretanto alguns nomes são clássicos — e ela nunca vai admitir que já vistoriados por garantia. 

 

Cindy manda beijinho aos fãs e se levanta. Ótimo. Se ela está saindo, os outros vão seguir. Caio, seu namorado, como sempre a acompanha imediatamente. Alê… Não foi, simplesmente, Franco bocejando e Eloy circulando os ombros para trás, os músculos destacados num nítido fanservice. Os flashes. Kemi odeia os flashes. 

 

— Garantindo o pão de cada dia. 

 

O vocalista murmura ao passar por ela, dando um toque no antebraço da guarda-costas. Todos os outros fazem o mesmo, o último Eloy. “Não notamos nada de estranho nem estamos desconfortáveis.” Uma das primeiras reuniões com o grupo havia sido quase desastrosa, Cindy debochando, Eloy revirando os olhos e dizendo que sabia se defender. Saíram sem contratar o serviço. Quando um fã esperou Alê dentro do próprio apartamento dela e os vizinhos chamaram a polícia, o Psikolera mandou imediatamente o valor da primeira mensalidade e o contrato assinado. O próximo encontro foi silencioso, os cinco membros atentos nas orientações, cuidados online, sinais para ocorrências distintas. 

 

Dalmo é a ponta da lança, abrindo a porta lateral da van para passarem. Kemi aguarda na traseira até o último músico pisar no degrau, Jae do outro lado e Aguiar nitidamente matutando como amassar a cabeça de Caio no latão. O amigo é uma presença constante desde a academia de polícia, um dos poucos confiáveis naquele pesadelo de poder e assédio. Assim que o motor ronca, Jonas abre a boca.

 

É, vai ser um daqueles dias.

 

— Caio, o que falei sobre o copo? Caral- Caramba, cê deixa essa merd- coisa em todo canto e não pega um novo. É arriscado. 

 

— Ah, meu. Eu tava do lado, o Caiozinho é distraído.

 

— Seis. — vários pares de olhos encaram Kemi, que não largou a visão da janela por um segundo por garantia. — Você seis vezes levantou e o copo dele estava ali. O seu também.

 

— Ah, Kemi. Ah, meu, eu te acho tão legal e você faz isso? Affe, meu.

 

— Foi mal, mano. — uma mão nervosa bagunça os cabelos pretos de mecha avermelhada. — Muita coisa na cabeça com a turnê. Vou prestar mais atenção. 

 

Uma veia na testa de Jonas está prestes a romper. A agência havia modificado o trato com o Psikolera por conta da tour, precisavam de mais gente e principalmente de pessoal disponível para viagens e pernoitar pelo país. Um serviço diferente e com escala, fora dos padrões de contratação se não fosse pelo alto investimento. Kemi, Jae, Aguiar, Dalmo e Labirinto foram os “voluntários” — três porque não tem ninguém, Dalmo porque fez merda e a esposa quer o couro, Kemi pois precisa do dinheiro rápido para acabar com o processo que o ex a meteu. Ela liga para a filha todas as noites, sem falta, um bolo na garganta surgindo com a voz infantil recheada de saudade e dengo. 

 

— Oiê. Terra pra Kemi. 

 

Jae estala os dedos, chamando sua atenção de volta para o momento. Geralmente é excelente separando o pessoal do profissional. Pode ser por conta da data. Talvez. Se pune tanto que um dia, menos dia… Mesma coisa. 

 

— Desculpe. 

 

— Que é isso, amorzinho. O rodízio é como? Eu adoro o Franquinho, mas preciso dormir. Com todo o respeito. 

 

Num combinado inexistente, Franco ronca com a cabeça pendendo na direção do vidro. Cindy cuidadosamente dobra seu casaco, prendendo entre o rapaz e a janela numa espécie de travesseiro. A escala da noite servia para trocarem de par de dias em dias, algumas fãs mais… Perigosas mirando nos seguranças para mapear quem estava em tal andar — ou para perseguir Jae por um autógrafo de batom. 

 

— Labirinto nos enviou. 

 

— Ah, verdade. 

 

Aguiar desbloqueia o celular, usando somente o indicador para navegar e apertar com força demais o ecrã. Velhaco. Estavam em quatro com a banda pois o outro agente da equipe, Labirinto, era encarregado de toda a parte digital… E também porque um cara que é idêntico a um pirulito todo cicatrizado não seria a maior simplicidade para se misturar. 

 

— Essa porr- Porcaria nunca atualiza rápido. Deixa eu ver… BK. TJ… Ah, não. Me ferrei. 

 

Gelo. 

 

Alguém arremessou gelo diretamente na medula de Kemi. 

 

BK… Não é Burger King. Não é um drive thru.

 

É um código para saber quem focaria em quem naquela noite. 

 

B e K. 

 

Baterista e Kemi. 

 

— Filho de uma puta.