Chapter Text
Não é um dinheiro tão fácil assim quanto a induziram na agência.
Os jovens suados empurram uns aos outros num minúsculo espaço — pelo menos na concepção de Kemi, que desvia habilmente de ombros e cotovelos dançantes — com uma batida eletrizante vibrando os ossos da guarda-costas ao mirar Eloy. Odeia esse cheiro de fumaça de espetáculo, perfumes vencidos e bebida, pior fica na batida do relógio onde vômito constantemente se mistura no ar.
O baterista da banda famosinha do momento, Psikolera, está na segunda poltrona da área VIP da balada conversando com fãs e outros integrantes. Uma parceria rápida, na agenda compartilhada estava uma hora de duração de evento.
Estão, no mínimo, há cento e oitenta minutos ali.
A platinada está um metro atrás, de pé, as duas mãos sobrepostas na frente do tronco como condiz o protocolo — se precisasse usar uma das armas contra uma groupie maluca nem saberiam o que a atingiu.
O homem alto de cabelos castanhos sorri para o grupo, as mãos montando um coque frouxo sem refletir muito, mechas onduladas emoldurando sua face de trejeito quase angelical. O movimento supostamente agrada e bastante os olhares, um deles próximo demais.
Cento e noventa minutos.
— Pra trás.
Seu tom é cortante e frio, o tipo de voz que qualquer um escuta e sabe que está com um grande problema. Foi um dos destaques nos cursos de segurança, ter sido criada precisando advogar e lutar por si — desamparada e sozinha — endureceu sua casca na marra. Seu chefe mencionava aos clientes que era uma guarda perfeita, intimidando antes de maiores ocorridos ou até prevendo devido ao seu cuidado excessivo — paranóia — sem medo de atacar, sem ligar para gentilezas. Com alguns isso dava certo, outros reclamavam da truculência da pequena mulher — porém não está ali para agradar adolescentes e jovens adultos sem um boleto para se preocupar.
É um trabalho como qualquer outro: um serviço de guarda-costas particular de Eloy, o baterista que por onde toca atrai corações e dinheiro. Na manhã o acompanhou num ensaio fotográfico e na sequência em uma entrevista, as sobrancelhas arqueadas quando ele incorpora uma persona confiante, atrevida, ladina. A focinheira é a cereja do bolo em qualquer foto e, para o horror de Kemi, um acessório constantemente arremessado contra ele — aquela porra tem spikes e as fãs sequer pensam que podem ferir o ídolo? Quando adentram o veículo, entretanto, ele larga a máscara — francamente, qualquer outro presente junto — e vira um homem bastante doce e até… Calmo. Sem mais risadas com outra conotação, sem flexionar os bíceps “distraidamente”.
Se pudesse colocar isso em seu perfil, o sniperlera666, teria o maior hit de todos os tempos, um viral pronto para nascer. O dinheiro realmente não é fácil. Lidar com as fãs, as parassociais e até ameaças é a parte tranquila, desde seu passado na polícia, nada que surpreenda muito. Já trombou com gente bem mais barra pesada que a Valentina, dependente do dinheiro da mamãe e do papai, gritando que Eloy é um gostoso.
Seu músico favorito dando atenção e sorrindo pra você? Nem tanto. Ouvir todos os singles antecipadamente e não poder morder os dedos de alegria? Definitivamente complicado. Tinha criado o perfil para se infiltrar nesse universo e, quando se tocou, o cartão já estava cadastrado com o carrinho recheado de merch.
Quando Kemi desmonta minimamente sua posição para mostrar que agiria, a fã que sorria docemente para Eloy se afasta, os olhos arregalados. O sobretudo marrom volta a esconder a pistola.
Franco está na sua lateral, os cabelos ruivos avermelhados ou um laranja neon conforme as luzes seguem o ritmo da música. Ele é um dos clientes mais tranquilos da agência, tão recluso que é Jae que acabou recebendo uma certa fama no fandom o protegendo nas raras viagens de carro.
— Já estamos indo, Kemi. — ele inclina o pescoço, a marca de queimadura evidente por baixo das tatuagens. — Sabe como é, precisamos aparecer. Infelizmente é nosso mundo.
— Pagando bem…
A segurança sorri amistosa para Franco, que retribui. No tempo que passa com a banda, ele é um dos mais simpáticos e cuidadosos. Quem é ela para se enganar, o membro mais novo havia conquistado sua amizade quando jogou no meio do show uma garrafinha de água para ela com um joinha. O lugar em que a vigília estava posicionada era perto dos canhões de fogo, quente e abafado. No dia seguinte, recebeu um pedido de desculpas e que não voltaria a ocorrer aquilo por parte do staff.
Um querido. RuivetePatinete surtaria se soubesse que Franco também é um dos homens que mais ronca na face da Terra, uma junção de asma com cigarro e fogo de show não muito favorável. Kemi não costuma interagir com outros fãs, sempre precavida pela sua carreira e respeito por eles, entretanto alguns nomes são clássicos — e ela nunca vai admitir que já vistoriados por garantia.
Cindy manda beijinho aos fãs e se levanta. Ótimo. Se ela está saindo, os outros vão seguir. Caio, seu namorado, como sempre a acompanha imediatamente. Alê… Não foi, simplesmente, Franco bocejando e Eloy circulando os ombros para trás, os músculos destacados num nítido fanservice. Os flashes. Kemi odeia os flashes.
— Garantindo o pão de cada dia.
O vocalista murmura ao passar por ela, dando um toque no antebraço da guarda-costas. Todos os outros fazem o mesmo, o último Eloy. “Não notamos nada de estranho nem estamos desconfortáveis.” Uma das primeiras reuniões com o grupo havia sido quase desastrosa, Cindy debochando, Eloy revirando os olhos e dizendo que sabia se defender. Saíram sem contratar o serviço. Quando um fã esperou Alê dentro do próprio apartamento dela e os vizinhos chamaram a polícia, o Psikolera mandou imediatamente o valor da primeira mensalidade e o contrato assinado. O próximo encontro foi silencioso, os cinco membros atentos nas orientações, cuidados online, sinais para ocorrências distintas.
Dalmo é a ponta da lança, abrindo a porta lateral da van para passarem. Kemi aguarda na traseira até o último músico pisar no degrau, Jae do outro lado e Aguiar nitidamente matutando como amassar a cabeça de Caio no latão. O amigo é uma presença constante desde a academia de polícia, um dos poucos confiáveis naquele pesadelo de poder e assédio. Assim que o motor ronca, Jonas abre a boca.
É, vai ser um daqueles dias.
— Caio, o que falei sobre o copo? Caral- Caramba, cê deixa essa merd- coisa em todo canto e não pega um novo. É arriscado.
— Ah, meu. Eu tava do lado, o Caiozinho é distraído.
— Seis. — vários pares de olhos encaram Kemi, que não largou a visão da janela por um segundo por garantia. — Você seis vezes levantou e o copo dele estava ali. O seu também.
— Ah, Kemi. Ah, meu, eu te acho tão legal e você faz isso? Affe, meu.
— Foi mal, mano. — uma mão nervosa bagunça os cabelos pretos de mecha avermelhada. — Muita coisa na cabeça com a turnê. Vou prestar mais atenção.
Uma veia na testa de Jonas está prestes a romper. A agência havia modificado o trato com o Psikolera por conta da tour, precisavam de mais gente e principalmente de pessoal disponível para viagens e pernoitar pelo país. Um serviço diferente e com escala, fora dos padrões de contratação se não fosse pelo alto investimento. Kemi, Jae, Aguiar, Dalmo e Labirinto foram os “voluntários” — três porque não tem ninguém, Dalmo porque fez merda e a esposa quer o couro, Kemi pois precisa do dinheiro rápido para acabar com o processo que o ex a meteu. Ela liga para a filha todas as noites, sem falta, um bolo na garganta surgindo com a voz infantil recheada de saudade e dengo.
— Oiê. Terra pra Kemi.
Jae estala os dedos, chamando sua atenção de volta para o momento. Geralmente é excelente separando o pessoal do profissional. Pode ser por conta da data. Talvez. Se pune tanto que um dia, menos dia… Mesma coisa.
— Desculpe.
— Que é isso, amorzinho. O rodízio é como? Eu adoro o Franquinho, mas preciso dormir. Com todo o respeito.
Num combinado inexistente, Franco ronca com a cabeça pendendo na direção do vidro. Cindy cuidadosamente dobra seu casaco, prendendo entre o rapaz e a janela numa espécie de travesseiro. A escala da noite servia para trocarem de par de dias em dias, algumas fãs mais… Perigosas mirando nos seguranças para mapear quem estava em tal andar — ou para perseguir Jae por um autógrafo de batom.
— Labirinto nos enviou.
— Ah, verdade.
Aguiar desbloqueia o celular, usando somente o indicador para navegar e apertar com força demais o ecrã. Velhaco. Estavam em quatro com a banda pois o outro agente da equipe, Labirinto, era encarregado de toda a parte digital… E também porque um cara que é idêntico a um pirulito todo cicatrizado não seria a maior simplicidade para se misturar.
— Essa porr- Porcaria nunca atualiza rápido. Deixa eu ver… BK. TJ… Ah, não. Me ferrei.
Gelo.
Alguém arremessou gelo diretamente na medula de Kemi.
BK… Não é Burger King. Não é um drive thru.
É um código para saber quem focaria em quem naquela noite.
B e K.
Baterista e Kemi.
— Filho de uma puta.
