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The Day’s Children (PT-BR)

Summary:

Armand percebe que a realidade das crianças do século XX é muito diferente da do seu tempo.

Work Text:

Mesmo com a invejável resistência ao sol e a pouca necessidade de descanso, Armand raramente saia ao dia. Depois de mais de 400 anos se escondendo da luz, era difícil se desprender dos velhos hábitos. Não que ele esteja ativamente tentando.

Das atípicas vezes que se aventurava na claridade, era coberto da cabeça aos pés e sempre nas manhãs ou nos finais de tarde, momentos em que as ruas estavam cheias de pessoas saindo ou voltando para casa, impossibilitando a caça ou qualquer atividade interessante. Tudo de aliciente para Armand e qualquer vampiro, acontecia a noite. Porém, aquela figura dos anos 70 que Louis achava fascinante, que assim como eles, compartilhava de hábitos nocturnos, estava ocupado com uma atividade essencialmente diurna, levar sua filhinha para passear.

Daniel Molloy, o querido de seu companheiro, havia se casado a cerca de 4 anos e não vivia exatamente feliz. Estava com olheiras visíveis e claramente se recuperando de uma noite agitada. O não tão recente papai havia se esquecido do seu compromisso com a prole naquela tarde e agora precisa conciliar os efeitos finais da droga no seu organismo com uma criança agitada e pronta para brincar. A garotinha estava usando um vestido amarelo até os joelhos, junto de uma bota que parecia grande em proporção ao seu tamanho. Tinha 8 ou 9 anos, Armand não conseguiria afirmar com certeza, pois nem Daniel sabia dessa informação. Quando ambos chegaram ao destino, o homem se acomodou em um banco na sombra enquanto a menina corria para o meio do parque e interagia com crianças até então desconhecidas para ela. Não demorou muito para que o jornalista olhasse constantemente para o relógio, esperando que logo desse 17h, quando deixaria novamente a menina com a mãe para que pudesse dormir em uma cama longe de ambas.

Armand resolveu sentar no café próximo e se entregar a aquele velho hábito. O humano constantemente olhava para os lados e balançava os braços e pernas, tentando lidar com a persistente sensação de estar sendo observado ao mesmo tempo que lutava para permanecer acordado.

No grande parque gramado, haviam outras crianças de todas as idades brincando. Como um grupo de meninas pequenas empurrando umas às outras no balanço, se revezando para que todas pudessem usar. Suas mães poderiam ser vistas não muito longe, conversando entre si e impedindo que outros pequenos, que corriam pelo parque, chegassem perto demais e pudessem ser atingidos.

Não tão distante dali, havia um grupo de garotos, pré-adolescentes, jogando uma espécie de vôlei em roda, uma brincadeira até então desconhecida para Armand.

Era curioso, ele se lembra bem nitidamente da miséria que se seguiu após a primeira e segunda guerra, que ocorreu nesse mesmo século. Era comum encontrar grupos de pequenos pedintes nas ruas, afirmando que após perderem os pais, ficaram sem sustento. Onde eles estavam agora? Poderia algum deles ter se mudado para a América e ser avôs ou pais dessas meninas e meninos? Vendo a calmaria da tarde, fez Armand questionar em que momento as crianças começaram a brincar assim, talvez elas o fizessem desde sempre, mas ele só observou as que não poderiam ter o prazer de aproveitar a infância, aquelas que estavam nas ruas à noite.

E a infância do seu tempo, como ela era? E o que a diferenciava do que ele vê agora?

A mente de Armand vai para lugares obscuros primeiro, se lembrando das raras notícias que via na tevê sobre sua terra natal, Deli continuava sendo um centro de desigualdade e miséria, as crianças desde cedo precisavam se preocupar em prover e buscar seu próprio sustento. No mundo ocidental, as crianças trabalhavam até pouco tempo, mesmo para os padrões humanos. Na verdade, muitas ainda trabalham, mas como a maioria das ações humanas mal vistas, ocorria também à noite.

Já essas crianças do dia, ainda não foram endurecidas pela necessidade de lutar pela sobrevivência. Seus pais, com as mentes mais desenvolvidas, fazem isso por elas.

Não era incomum, enquanto caçava pelas ruas de Paris no início do século XIX, encontrar corpos subdesenvolvidos e desnutridos jogados nas saídas das fábricas, lembrava de forma muito nítida das mortes que presenciou antes de conhecer seu criador, também no seu local de trabalho. É estranho chamar dessa forma, mesmo que fosse assim que Amadeo viu por muito tempo, um meio para garantir comida e um lugar para ficar.

Quando seu mestre começou a oferecê-lo para seus amigos, tentou ver isso também como um trabalho, um sacrifício pelo seu salvador como agradecimento por tudo de bom que o havia proporcionado.

Essas crianças não precisam fazer nada disso, elas podem passar a tarde brincando e tomando sorvete com seus pais. Na maioria dos casos, apenas um deles.

O garoto bocejava e coçava os olhos com frequência, os fechando lentamente, acreditando que a menina não perceberia seu claro desinteresse naquele passeio. Ao encontrar o pai novamente, a garotinha abre os braços de excitação com as recentes brincadeiras, mas logo perde aquela animação, murchando como um passarinho rouco. Talvez essa seja a primeira decepção marcante da sua curta vida.

Armand sente um pouco de inveja, a primeira rejeição dessa criaturinha veio da figura do seu pai lhe negando um abraço ao se entregar ao sono. Enquanto de Arun, foi do seu o vendendo para traficantes de escravos. Quantos anos ele tinha? Até onde sabe, não era tão mais velho que essa menininha, na verdade, talvez tivesse a mesma idade que ela.

A menina com olhos cobertos de lágrimas sacode os braços do homem desacordado, que se levanta em um susto impossível de disfarçar.

Novamente a filha pede um abraço e agora é recebida com beijos no rosto e pedidos de perdão. Daniel a carrega, com a intenção de voltar para casa.

Mesmo desacreditado nessa possibilidade, Armand deseja que o garoto seja um bom pai para essa pequena e para a outra que está a caminho. E também que ver cenas tão inocentes quanto crianças brincando no parque, invés de trazer dor e ressentimento, um dia traga paz no coração imortal de Arun.