Work Text:
Apesar das diferentes luzes que iluminavam o duplex, o escritório no segundo andar ainda conseguia ser aconchegante. O lugar em si já não era novidade — você o havia visitado um milhão de vezes, principalmente durante o período de mudança do Gou. Mudar do Rio para SP parecia loucura suficiente para uma pessoa só, e como calhou de você morar perto do novo endereço do Gabriel, resolveu ajudá-lo com o que dava (e às vezes com o que não dava também) durante essa fase.
Ser próximo do loiro era uma caixinha de surpresas. Apesar de ele não parecer tão imprevisível quanto alguns outros amigos, era difícil adivinhar o que queria quando, por exemplo, te chamava ou pedia ajuda com algo. Não que isso fosse algum ruim, mas quando você foi chamada para o visitar hoje, não estava esperando participar de um vídeo e muito menos dublar algo. Afinal, Goularte sempre gostava de produzir conteúdo bem-feito, o que incluía chamar alguém já com experiência de dublagem para fazer a voz de algum personagem importante.
Mas bem, ele não quis. Ele preferiu especificamente você para fazer isso e, ainda por cima, prometeu que não te chamaria mais para comer dois metros de pizza com ele (considerando que, depois daquele dia, ninguém conseguiu chegar perto de pizza por quase um mês). Então você aceitou.
Só porque eram bons amigos, claro.
Quando Gabriel terminou de preparar tudo no computador, os olhos azuis acharam os seus e, sem falar muito, ele te chamou pra perto. Depois de tanto tempo de convivência, palavras já não eram mais tão necessárias assim.
Você já tinha notado a falta de uma segunda cadeira ao chegar, mas só contestou mentalmente esse fato ao ficar de pé ao lado dele, fingindo não prever o desenrolar da situação. A cena podia até ser considerada um *déjà-vu* — afinal, já havia acontecido várias vezes dele te chamar para ver algo no computador ou, em raras ocasiões, dar um "oi" em alguma live, sempre sem outro lugar para se sentar além das pernas dele. Não era desconfortável para você e, honestamente, parecia que pra ele também não. Então, para o trabalho de hoje, aquela parecia ser a única opção.
Depois de se ajeitar no colo do carioca, vocês repassaram brevemente a história do jogo que iriam dublar. Ele te mostrou um pouco mais da sua personagem, elogiando os traços do desenho e tudo mais que ele conseguisse achar na tela, tentando soar despretensioso.
Sabendo do histórico de vídeos do Goularte, dava pra imaginar que levariam horas para acabar. Claro que trabalho pesado mesmo seria a edição, mas, como isso não era problema seu, decidiu adiar a preocupação. Apesar de não precisar falar por minutos a fio, era cansativo ler tanto e se esforçar nas entonações. Óbvio que não era obrigação sua fazer algo excelente ou até mesmo fazer o vídeo todo de uma vez, mas você queria entregar um bom resultado e, talvez, impressionar um pouquinho o garoto abaixo de você.
Com o passar do tempo, o colo foi ficando mais confortável, falar tão perto do microfone junto do Gou não causava mais risinhos de vergonha, e os carinhos que ele fazia discretamente em você pararam de ser tão ocasionais. Dublar poderia não ser tão imersivo quanto atuar e coisas desse tipo, mas era meio difícil se impedir de pensar que todas aquelas cantadas que seus personagens davam um para o outro nao tinham um pingo de realidade. Essas ideias que pareciam ser sussurradas por um diabinho no seu ouvido só cresciam quando você se dava conta que Gabriel já sabia o jogo de trás pra frente e que, mesmo assim, quis que você estivesse ali, grudada nele enquanto dava cantadas pré roteirizadas para um personagem 2D estranho.
Tudo isso porque vocês são bons amigos. Claro.
A história se desenrolou, e, apesar de ter que falar certas coisas que fizeram seu rosto esquentar, você sobreviveu a todas as indiretas sutis, aos carinhos que começavam no seu braço mas — *de alguma forma* — sempre terminavam na cintura, e às encaradas que os olhos claros te davam enquanto Gou narrava suas próprias falas.
Mesmo depois de acabarem, toda vez que você dava o primeiro movimento para se levantar (seja dizendo que precisava ir embora ou não), ele arranjava algum outro assunto para te falar, um meme no Reddit que ele salvou porque tinha certeza que você ia rir, algum vídeo estranho que ele achou nas profundezas do Youtube e mais um monte de pequenas coisas que pareciam mais um arsenal cuidadosamente preparado de como te convencer a ficar. Sua última cartada foi abrir os comentários de uma foto de vocês juntos, novamente tentando parecer despretensioso enquanto lia as inúmeras mensagens perguntando sobre você ou insinuando algum relacionamento. Dessa segunda vez ele foi ainda pior em tentar parecer casual.
Ainda que tivesse muito esforço, Gabriel sabia que não iria dar para te enrolar pra sempre (apesar de querer muito). Então quando a janela em frente a vocês mostrou que a noite já estava chegando e o calor que vocês passavam um para o outro parecia ter virado parte permanente do seu corpo, você se impediu de continuar caindo na lábia do loirinho e ficou decidida em ir pra casa.
Quando você finalmente conseguiu se levantar, suas mãos demoraram um segundo a mais para se soltarem das dele. Um segundo que ele usou para brincar com seus dedos como se fosse uma tarefa super importante para agora, mas sem tirar os olhos do seu rosto.
— Que dia você volta?
— Eu literalmente nem fui ainda, Gou.
Ele revirou os olhos e arrumou a touca, se levantando da própria cadeira.
A caminho da porta, sentiu o olhar azul grudado nas suas costas. Era estranho o silêncio dele depois de tanto tempo conversando sem parar, entretanto, se fosse questionada sobre isso, sua resposta seria apenas rir e mentir dizendo que o silêncio dele era paz para os seus ouvidos.
Depois que ele abriu a porta e você passou para o lado de fora do apartamento, não conseguiu sair com apenas um “tchau” comum, a vontade mesmo era ser tão indiscreta quanto a sua personagem de minutos atrás, porém tudo que saiu foi algo bobinho mas que, ao menos, fez ele soltar um arzinho de riso.
— Me avisa quando o vídeo sair. Ah, e se me chamar pra trabalhar de novo, eu vou cobrar.
Você já tinha acenado em despedida e dado alguns passos em direção ao elevador do prédio quando a voz dele soou no corredor, ao se virar novamente pra ele, viu que segurava uma jaqueta sua enquanto caminhava em sua direção. — Tá esquecendo até a roupa agora?
— … Às vezes é melhor eu ficar quieta.
Antes de qualquer resposta, o celular dele vibrou e assim que ele leu a notificação, acelerou a conversa.
— Corre que seu Uber ta chegando.
— Você pediu Uber pra mim?!
Empurrada carinhosamente para dentro do elevador, ele apertou o botão do térreo e falou um breve “já tá pago” antes de deixar as portas de ferro fecharem, te deixando mais confusa do que deveria enquanto aguardava descer os andares.
Para finalizar o dia, no caminho para casa, você resolveu fazer o que os jovens faziam para passar o tempo: desperdiçar minutos no Instagram. Por coincidência (ou algoritmo), assim que abriu o aplicativo, a foto de Goularte foi a primeira a aparecer na filas de storys, o clique foi automático e quando a imagem carregou era apenas uma selfie, um textinho com a fonte clássica do Instagram e um emoji de olhinhos *“Dia produtivo. Obrigado pra ajudante especial”.*
Mesmo que dar like normalmente fosse associado a indiretas e coisas parecidas, você não resistiu em clicar no coraçãozinho que pairava na tela. Mas apenas como amigos, é claro.
