Chapter Text
A cela escura, fria e malcheirosa do Purgatório foi a única companhia do Cupido 13 durante os cinco dias em que esperou por seu julgamento e sentença pela infração cometida. Uma semana antes, ele havia arruinado o destino amoroso de três pessoas, afetando indiretamente outras vidas também. A sua única tarefa era flechar dois homens, mas ele se distraiu e errou.
Enquanto caminhava pelos corredores do Purgatório, o cupido ouvia o som das correntes arrastando no chão, lembrando-o de que em breve estaria diante do anjo Gabriel para ser julgado. Gabriel tinha fama de ser impiedoso com aqueles que cometiam erros graves por desatenção, mas o Cupido 13 esperava que ele não fosse muito severo daquela vez.
Ao entrar na sala, ele encontrou o olhar de Seokjin, mais conhecido como arcanjo 12, seu superior e supervisor. Seokjin havia criado Cupido 13 lhe ensinando tudo até que pudesse, um dia, ser nomeado como arcanjo.
Seokjin sempre colocou bastante fé no cupido, já que tinha um carinho especial por ele. No entanto, agora, ele estava visivelmente triste e decepcionado com o erro amador que Jimin havia cometido.
Embora pudesse parecer um erro bobo, ele não afetava apenas uma ou duas pessoas, mas todos que tivessem um destino traçado. Era uma falha complicada de corrigir e, muitas vezes, os cupidos deixavam esses problemas de lado, fazendo com que alguém sofresse no amor por toda a vida.
Quando chegou no lugar indicado, Gabriel indicou onde Cupido 13 deveria se sentar e, quando ele estava acomodado, disse:
— Explique-se, Jimin!
Ser chamado pelo nome e não pela função deu um sentimento ruim ao cupido, pois perder o cargo no Paraíso significava não ser considerado ninguém.
— Hoseok deveria ficar com Jungkook, e Taehyung com Bogum! — Gabriel aproximou-se ainda mais de Jimin. — Qual a sua sugestão para consertarmos isso?
— Pôr Bogum com Jungkook? — sugeriu, com um sorriso sem graça. — Eu posso fazer isso.
— Você? — os olhos azuis de Gabriel fixaram-se nos olhos castanhos de Jimin. — Não é a primeira vez que você trabalha como cupido, então por que errou agora?
— Pessoas erram.
— Não somos pessoas! — Gabriel exclamou, começando a se irritar com as respostas do cupido, pois ele parecia não estar levando a situação a sério.
Seokjin sentiu um frio na barriga, pois, como supervisor de Jimin, seria ele quem responderia por aquilo mais tarde. O arcanjo sabia que Jimin era capaz de fazer aquele trabalho perfeitamente e não entendia como um anjo que ele cuidou desde pequeno poderia ter errado uma coisa tão besta. O cupido tinha sido treinado várias e várias vezes para a função, então o erro decepcionava muito.
— Eu me distraí, senhor. — desviou os olhos, respondendo sério pela primeira vez. — Me distraí com o coiso…
— Que coiso? — Gabriel perguntou, respirando fundo.
— Com o... confeiteiro…
— Que confeiteiro, Jimin? — perguntou Seokjin daquela vez.
— O confeiteiro… — respondeu com grande pesar.
Naquele momento, Jimin sabia que seria punido de alguma forma. Como ele teve coragem de admitir que se distraiu por conta de um humano?
★
CINCO DIAS ATRÁS
Jungkook decorava o sexto bolo do dia para entregar. Naquele dia, ele se sentia um pouco mais estressado do que realmente ficava durante seu expediente, principalmente porque Hoseok — seu quase namorado — não tinha aparecido no restaurante, mas a mãe dele, sim. Apesar de seu relacionamento com Jungkook estar estável há cinco meses, a Sra. Jung, que também era dona do restaurante onde ambos trabalhavam, não aprovava a relação.
— Por que o seu namorado não te chamou para ir a Paris com ele? — Taehyung perguntou, irritado, após receber uma mensagem de Hoseok dizendo que ele o acompanharia na viagem.
Taehyung era o melhor amigo de Jungkook naquele restaurante, porém exerciam cargos diferentes. Jungkook cuidava dos doces, enquanto Taehyung, recentemente promovido a sous-chef , trabalhava na cozinha principal. Taehyung e Hoseok não se davam muito bem, porém quando tinham que cozinhar juntos, os dois tinham uma química extraordinária, fazendo que o Jung engolisse toda sua desamizade com o cozinheiro, e o convidando para ser seu sous-chef .
— O Hoseok tem que parar de sempre ouvir papai e mamãe! — respondeu Jungkook, irritado, virando o bolo para o outro lado. — Ele não sabe se impor quando se trata da mãe, que claramente me odeia!
— Para mim, ele sempre foi um bunda mole! — riu Taehyung, pegando um macaron da mesa. — Claro que ele não vai se opor aos papais, já que está na posição que está por causa do restaurante dos pais.
— Eu fui menos ácido nos meus pensamentos sobre isso — lamentou Jungkook, focando novamente na decoração do bolo. — Na minha cabeça, penso que é difícil ter que ficar entre seus pais e seu parceiro, e que ele não encontrou um equilíbrio perfeito.
— Ele é idiota! — Taehyung revirou os olhos. — Agora, terei que ir no seu lugar. Não reclamo da viagem, mas de ficar tanto tempo com ele.
— Se não queria ficar com ele o tempo todo, por que aceitou ser o sous-chef quando ele te escolheu?
— O salário era maior — respondeu como se fosse óbvio. — Como vocês estão na real?
— Péssimos! — exclamou Jungkook, quase errando a flor que fazia com a pasta americana. — Poderia me ajudar com isso, não é? Tente dar alguns conselhos para ele durante a viagem.
— Ah, eu queria ajudar batendo nele — Taehyung parecia ter dado a melhor ideia do mundo.
Na mesma hora, o Cupido 13 se aproximou dos amigos, ouvindo a conversa. Ele odiava ser enviado para a Terra sem estar preparado, pegando a conversa pelo meio.
— Eu nunca serei feliz no amor — desabafou Jungkook para Taehyung, e Jimin olhou para o confeiteiro.
O rapaz era tão bonitinho, mesmo com uma carinha triste. Então, o cupido falou:
— Não vai, eu estou aqui para te ajudar — Jimin olhou para o relógio.
Hoseok deveria estar ali, mas estava atrasado.
— O meu cupido deve gostar de me ver sofrer ou é um imprestável, idiota, sem noção, que deveria perder o cargo! — Jungkook xingou, fazendo Jimin olhar para ele ofendido.
Como se confeiteiro pudesse vê-lo e ouvi-lo, o Cupido 13 aproximou-se do humano com raiva e disse:
— Sou um dos melhores cupidos do Paraíso, fique sabendo! Agora mesmo, eu deveria te deixar solteiro por me xingar sem saber que ainda não chegou a hora de ser flechado! — Jimin esbravejou. — Humanos são umas piadas! Vocês não conseguem viver sozinhos? Vão morrer se esperar a hora certa para ter alguém? Ah, sim, vão morrer! É por isso que quebram a cara não esperando o momento certo.
— Se cupidos existem, o seu nunca mais te ajuda nesses assuntos — Taehyung brincou, pegando mais dois macarons para comer. — Agora estou indo, porque se o Sr. Chato chegar e me ver aqui, ele me come vivo.
Quando o Kim saiu, Jimin ficou ao lado de Jungkook o tempo todo, ouvindo-o reclamar sobre a vida e seu quase namorado. O cupido já estava estressado pela demora do Jung, sabendo que Seokjin voltaria para buscá-lo em pouco tempo, e nem tinha feito o que era para fazer.
— Eu deveria esquecer o Hoseok e dar em cima do meu vizinho gostoso! — Jungkook falou de repente, assustando o cupido.
— Não vai, não! — Jimin balançou a cabeça de um lado para o outro — Eu não vou deixar.
— O Hoseok acha que vou sofrer por ele para sempre? — perguntou — Pois eu não vou.
— Fica calmo, meu querido — Jimin virou-se para o confeiteiro, passando a mão pelo seu cabelo. — Se ele chegar logo, daqui a pouco, seu sofrimento passa, tudo bem? Não fique assim, você é bonitinho demais para sofrer, e…
Quando ia terminar de falar, Hoseok entrou na cozinha, cumprimentando todos seus funcionários. O Jeon tentava não olhar em direção ao seu namorado, porém era difícil, pois o homem estava estonteante como sempre. Na mesma hora que Hoseok chegou, Taehyung deu um sorriso irônico, saindo em direção à despensa, apenas para se livrar de seu chefe.
Jimin levantou-se na hora, vendo que Hoseok estava indo falar com Jungkook, e seria naquele exato momento que teriam que ser flechados. Ele já saiu pegando o seu arco e sua flecha, pois quando os dois estivesse olhando para o outro, os flecharia.
— Oi, Jungkook — Hoseok cumprimentou o confeiteiro. — Tudo bem?
— Estou ótimo, Hoseok. Ótimo! — Jungkook respondeu, raivoso, sem o olhar.
— Por favor, Jungkook, olhe para ele. — O Cupido 13 pediu. — Só um minuto.
— Entendo que ficou triste por ontem eu ter saído da sua casa para ver minha mãe, mas ela estava mal — o Jung tentou se justificar.
— A sua mãe está sempre mal quando você está comigo, né? — Ele riu de lado — É melhor você não ficar mais comigo, ou ela infarta em alguma dessas vezes. — Jungkook jogou a cabeça para o lado, sentindo uma tensão em seu pescoço.
— Eu, mais do que ninguém, quero que vocês se deem bem. Eu amo vocês dois, consegue entender?
Pela primeira vez, Jungkook olhou para Hoseok, fazendo Jimin agradecer por aquilo. O Jeon se levantou, e Hoseok pegou os braços do confeiteiro, então Jimin pegou seu arco e sua flecha, já mirando nos dois para a flechada. Só que quando atirou, Taehyung passou na mesma hora, esbarrando em Hoseok — de propósito —, e o cozinheiro olhou para o sous-chef , e Jungkook se afastou.
E o que Jimin mais temia aconteceu: ele flechou Hoseok com Taehyung.
— Me desculpe, Hoseok — Taehyung pediu, ainda debochado, e sorriu. — Da próxima vez, sente-se, pois a cozinha tem uma passagem limitada.
— Eu só não te demito porque você é a única pessoa que cozinha do jeito que gosto — o Jung respondeu, ficando irritado com o Kim.
★
— Foi isso o que aconteceu — Jimin concluiu.
— Meu Deus… — Seokjin fechou os olhos. — Eu não esperava um erro desses vindo de você.
— Sei que deveria ter visto todas as coisas, preparado o cenário… Só que o Jungkook estava tão triste, e meu coração é muito mole quando se trata de pessoas apaixonadas — o cupido tentou se justificar.
— Como será que estão Hoseok e Taehyung? — Gabriel pensou alto, e Jimin achou que aquilo era uma pergunta para ele.
— Provavelmente em Paris, bem estranhos um com o outro. Em algum momento eles vão se beijar, e então o Taehyung ficará muito mal por beijar o namorado do amigo. O Hoseok ficará muito mal por isso também — respondeu, prevendo cada passo trágico daquela história. — Depois disso, eles vão fingir que nada aconteceu, mas um dos dois vai acabar contando para o Jungkook. Será uma choradeira para todos os lados, e os três nunca mais vão se falar na vida. — Olhou para os dois homens na sala. — Eu destruí uma amizade também… — Pela primeira vez, Jimin sentiu-se realmente mal por tudo aquilo. — Me desculpem, eu não queria. — Abaixou o olhar, começando a chorar. — Entenderei qualquer castigo que quiserem me dar.
— Eu vou ter que arrumar um monte de coisa. — Gabriel passou a mão na cabeça. — Encontrar novos parceiros, reparar a amizade, consertar sentimentos… Seokjin, vou passar isso para você.
— A ideia de colocar Bogum e Jungkook juntos não é péssima, mas escrever a história deles será difícil — Seokjin ponderou. — O complicado é fazer os amigos se entenderem após uma possível traição. Até porque o Taehyung estava começando a se apaixonar pelo Bogum… Não sabemos como será essa troca para eles.
— Por isso que o Jimin terá sua punição. — Gabriel olhou para o Cupido 13. — Achou que se livraria?
— Para ser sincero, sim. — Confirmou com a cabeça, ficando levemente arrependido em seguida.
Jimin não sabia como se comportar quando estava realmente triste e desesperado. A última coisa que ele queria como cupido era ter feito aquilo e ainda mais estragar amizades, já que cupidos também juntavam amigos, e ele havia feito isso quando se tratou de Taehyung e Jungkook.
— Você vai para a Terra — Gabriel falou.
— Oi? — Jimin arregalou os olhos.
— Você terá três missões na Terra. — Gabriel olhou para Jimin, pensando nas coisas que ele deveria fazer. — E elas são: fazer Jungkook te perdoar pelo que você fez, não se afastar do amigo, e, por último, fazê-lo gostar de você de verdade.
— Ah, parece fácil. — O anjo deu de ombros. — Ele é muito coração mole e vai…
— Porém — Gabriel falou firme, calando Jimin. — Você fará isso sem poder usar a sua voz e com uma aparência horrenda. Você já viu a aparência de um anjo punido?
— S-sim.
— É como você ficará. — Gabriel se levantou de onde estava sentado. — No entanto, veja isso como uma oportunidade de voltar com a sua posição, sem passar por outro treinamento. Não se desespere, até eu já fui punido assim. Embora pareça uma cruel, é a melhor forma de ter o perdão.
— V-você? — Jimin se surpreendeu, incapaz de imaginar que um anjo tão perfeito e correto como Gabriel já tivesse passado por isso.
Assim que Gabriel saiu da sala, dois anjos militares entraram e levaram Jimin de volta para sua cela, com Seokjin seguindo-os. Trancafiado novamente, Jimin ficou sozinho, mas podia ouvir Seokjin brigando com os guardas. O, temporariamente, ex-cupido começou a sentir uma dor intensa e se deitou no chão, encolhendo-se até apagar.
— Jimin, Jimin!
Ele acordou com a voz de Seokjin.
O arcanjo estava bem na sua frente, com uma expressão preocupada. Jimin se sentia estranho, com o corpo pesado e dolorido. Quando colocou sua mão no ombro de Seokjin, tomou um susto ao vê-la em uma cor escura, como se estivesse queimada, com unhas grandes e podres. Ele se levantou, olhando para si, percebendo o quão horrendo estava.
Ele estava horrível! Onde não estava em um tom de cinza-escuro, parecendo queimado, a pele estava vermelha, e seus lábios e globos oculares estavam pretos. A sua aparência se assemelhava à de um demônio, o que o deixou ainda mais desesperado.
— Você tem tempo para conseguir o perdão de Jungkook — Seokjin falou, jogando-lhe uma ampulheta. — Quando a areia desta ampulheta acabar, você precisa ter conseguido o perdão, ou será rebaixado em sua posição.
— Superior, não…
— Eu te ajudarei como sempre fiz, mas não perca tempo.
— Eu não vou conseguir — respondeu triste, já se colocando para baixo. — Jungkook nunca confiaria em um demônio.
— Você não é um demônio!
— Mas pareço um!
— Lembre-se das regras: você não pode usar a sua voz para falar com ele — o arcanjo foi se aproximando do Cupido 13. — Seja rápido!
Quando Seokjin terminou de falar, Jimin caiu em queda-livre, indo em direção à Terra para, talvez, a sua pior missão em décadas.
