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Junkie

Summary:

Toda guerra começa com uma faísca e termina em uma revolução.

Gojo Satoru foi a faísca, mas seu segundo em comando é a revolução.

O que é preciso para ser corajoso diante da oposição?

Determinação de aço...
Vontade obstinada...
E um coração que se recusa a desistir.

Não são apenas os motoristas nessa guerra.

A revolução é mais do que apenas corrida.

Trata-se de destruir rótulos e assumir riscos.

Por isso perguntamos a Geto Suguru: Verdade ou desafio?

E a resposta dele?

Ambos.

Notes:

Só um avisinho: aqui em Junkie o Suguru é o presidente de uma fraternidade na faculdade que se chama Alpha Omega (não, a fic não tem abo, é só o nome da fraternidade mesmo)

e o Satoru é piloto de racha (infelizmente não tem tag pra isso no ao3 e eu não sei marcar 😭😭)

Chapter Text

[ SUGURU GETO ]

Eu estava de saída.

Eles gostavam de me lembrar disso quase que diariamente. Como se eu precisasse de um lembrete. O tique-taque constante do relógio na parte de trás da minha cabeça era todo o lembrete de que eu precisava.

Tique-taque. Tique-taque.

Eu estava bêbado.

Precisava de algo para entorpecer o som da minha vida passando por mim. Precisava de algo para calar a voz sussurrante no fundo da minha cabeça. O problema era que a cerveja não estava funcionando. Não essa noite.

Então, continuei bebendo. Troquei a cerveja pela vodka. E a vodka foi um pouco melhor em calar os meus pensamentos mais profundos.

Ou pelo menos eu me enganei achando que era.

— Regras Omega! — eu gritei, e todos ao alcance da minha voz seguiram o exemplo.

Afinal eu era o presidente. Quando eu fazia alguma coisa, eles faziam também.

Bati o copo vazio na mesa e enxuguei a boca com a parte de trás da minha mão. A sala girou um pouco, e pisquei para manter o foco.

— Sabe do que você precisa? — Haibara falou, colocando o braço em volta do meu pescoço e tentando me puxar para baixo para que pudesse gritar em meu ouvido.

Eu ri e me inclinei, tornando mais fácil para ele. Ele era dois anos mais novo que eu, um novato, e bem menos cansado do que eu jamais seria novamente.

Ele também tinha quase a metade do meu tamanho, por isso, se eu não me curvasse, ele não seria capaz de gritar no meu ouvido, como ele claramente planejava fazer.

— O quê? — perguntei.

— Pegar alguém — ele anunciou.

Joguei a cabeça para trás e ri. A ação o fez soltar o braço do meu pescoço.

— O que te faz dizer isso?

Haibara continuou firme com a sua garrafa de cerveja longneck de cor escura e fez um som de escárnio. 

— Porque, irmão… — ele falou, bem-humorado.

Isso fez meus dentes rangerem, porque eu odiava quando ele me chamava de irmão.

Eu tinha uma família, e ele não fazia parte dela. Olhei ao redor da casa da fraternidade que estava cheia. Minha casa.

Mas, nenhuma dessas pessoas era a minha família. Minha casa estava cheia de pessoas que eu não conhecia.

A casa de um homem não deveria estar cheia com a sua família?

— O jeito como você está bebendo um copo atrás do outro me diz que não é de álcool que você precisa. E sim, de uma garota. — Haibara terminou.

Eu resmunguei. Ele estava certo sobre o álcool. Claramente, não era o que eu precisava. Não estava me ajudando.

— E pelo que eu vejo — disse Haibara, deslocando seu corpo, com isso ficamos lado a lado, olhando para a multidão. — Como presidente da fraternidade, você tem que escolher a melhor.

Ele estendeu o braço e fez um gesto em direção a todos, como se o mundo fosse a minha ostra.

— Escolha um par de coxas para ficar entre elas — ele convidou.

Sim. Sim. E, talvez, uma foda sem compromisso fosse exatamente o que eu precisava essa noite. Talvez fosse afugentar o que quer que esteja errado comigo.

Ou, talvez fosse piorar.

Eu não gostei desse pensamento, então ignorei.

Examinei as mulheres assim como examinava as peças de um carro na AutoZone. Nem todos os modelos e estilos eram para mim. Eu tinha um tipo bem específico.

Imagino o porquê…

Ignorei o pensamento e dei um tapinha nas costas de Haibara. 

— Gosto do jeito que você pensa.

— Só estou fazendo o que posso pelo nosso presidente — ele respondeu.

Eu murmurei e me afastei dele. Ele só estava me bajulando porque estava de olho na presidência e queria que eu lhe desse apoio.

A fraternidade inteira esteve atrás de descobrir durante semanas a quem eu daria meu apoio como o novo presidente Omega. Meu tempo aqui estava quase acabando. Quanto mais cedo tivéssemos um substituto, melhor.

Era de se esperar que eu estivesse ansioso para apoiar um deles. Eu estava ansioso para sair dessa fraternidade.

Mas algo me segurava.

Eu não tinha certeza do que era, mas era algo.

Um grupo de meninas em um canto do outro lado da sala me chamou a atenção. Havia uma garota usando jeans tão apertado que parecia uma segunda pele, moldando sua bunda redonda com perfeição.

Ela tinha o suficiente para caber em minhas mãos.

Apesar do tempo lá fora estar frio, ela usava um top. Era simples, preto, e deixava pouco à imaginação.

Havia um copo vermelho em sua mão, e seu cabelo escuro estava amarrado no topo de sua cabeça.

Normalmente, eu escolho loiras, mas esta noite, eu não queria o tipo que costumava pegar.

Ela me viu olhando e deu um sorriso. Você sabe, aquele tipo de meio sorriso e um olhar de soslaio que dura só tempo suficiente para expressar um "eu estou interessada".

Comecei a atravessar a multidão de pessoas dançando na pista, e passei por um grupo jogando algum tipo de jogo que envolvia bebidas. Ela olhou para mim quando me viu avançando, e quando percebeu que eu estava chegando perto, deslocou o seu corpo de forma que estivesse virado para o meu.

Eu me movia como um predador perseguindo uma presa. Foi então que alguém familiar apareceu ao lado dela.

O instinto de caça foi deixado de lado com o reconhecimento.

Uma cabeça com cabelo platinado inclinou-se de forma ágil e graciosa, e deslizou entre o meu alvo e sua amiga. Eu não conseguia ver o rosto dele, apenas o topo de sua cabeça quando se inclinou e falou com as mulheres, que ele tão casualmente envolveu em seus braços.

O que quer que ele estivesse dizendo era algo que pingava charme, porque as duas meninas se inclinaram para ele, e sua risada familiar flutuou pelo espaço restante entre nós.

Ele tinha uma risada profunda, como se viesse do lugar mais profundo de dentro dele. Talvez por essa razão, sempre que ele ria assim, as mulheres desmaiavam, porque sentiam como se estivessem recebendo uma parte dele que ele não dava com muita frequência.

A garota que eu escolhi olhou para cima e me deu outro sorriso.

Fiquei parcialmente surpreso. Com Satoru em pé ao lado dela, eu deveria ter sido esquecido.

Claro, ele era um frequentador assíduo desta casa. Ela provavelmente sabia quem ele era. E provavelmente sabia que ela estaria competindo por sua atenção contra outras vinte garotas nesta sala. Talvez ela quisesse a mesma coisa que eu esta noite.

Algo certo.

Enquanto caminhava, alguém colocou uma dose de bebida em minha mão, provavelmente algum "irmão" e virei goela abaixo. Ele me apontou o dedo indicador, e lhe devolvi o copo vazio.

Não sei quantas doses bebi esta noite. Parei de contar há muito tempo.

— E aí, cara — Satoru olhou para cima, levantou o braço e me ofereceu seu punho. Esbarrei o meu contra o dele.

— Achei que você não viria hoje à noite — eu disse por meio de saudação. Ele deveria estar na pista.

— Não há muita coisa acontecendo na pista esta noite. — ele deu de ombros.

Mesmo bêbado, eu ainda me senti bastante aliviado. Normalmente, eu ficava com Satoru quando ele dirigia no circuito de corridas por aqui. Mas, em algumas noites, as coisas da fraternidade vinham primeiro. Essa noite era uma delas.

Não posso dizer que gostei da ideia dele dirigindo sozinho. Aprendi bastante sobre os pilotos nesses últimos meses e muito do que aprendi não era nada bom.

Se eu pensava que a rivalidade de fraternidade ou até mesmo a rivalidade do futebol era ruim...

Não era nada comparada com a competição de corridas por aqui.

As corridas não eram como futebol. Não tinha regras e regulamentos. Claro, talvez houvessem esses regulamentos no mais alto nível. No nível da NASCAR.

Mas até chegar lá? Não haviam regras.

Era um mundo onde cão come cão, e não estou falando de Chihuahuas.

— Ouvi dizer que você é muito rápido — a loira debaixo do braço dele disse, olhando-o.

Ele sorriu preguiçosamente. Ele tinha uma covinha na bochecha. Era de se imaginar que a baixa iluminação sobre seu rosto a esconderia. Não. Só serviu para deixá-lo ainda mais atraente. 

— Só quando preciso ser. Às vezes sou gentil e lento.

Você teria que estar morto para não perceber a sugestão em seu tom, e esta menina não estava morta, bêbada talvez? Sim. 

Ela riu como se fosse tímida. Ok, certo. Suprimi um revirar de olhos.

— A cerveja está ali — eu disse a ele apontando atrás de mim, na direção da cozinha.

— Onde está a sua? — ele perguntou, tirando os olhos da menina.

— Estou bebendo vodka hoje à noite.

— Eu também! — a menina de cabelos escuros à minha direita disse, mostrando-me o seu copo vermelho. Dei-lhe um sorriso lento e inclinei o copo para mim para que pudesse ver.

— Bom gosto — eu disse, peguei o copo e passei meus lábios ao redor da borda. A vodka estava misturada com suco de cranberry, adulterando o gosto, mas ainda estava boa e forte. Eu ia tomar apenas um gole, mas acabei bebendo o resto e joguei o copo vazio por cima do meu ombro.

Antes que ela pudesse dizer alguma coisa sobre sua bebida perdida, envolvi minha mão na dela e a puxei para longe de suas amigas. 

— Vamos dançar.

Quase nunca danço, a menos que estivéssemos no Screamerz.

Mas como eu disse, esta noite eu não queria fazer o que normalmente fazia.

A morena veio de bom grado, e logo estávamos nos esfregando bem no centro de vários corpos. A música estava alta, tão alta que eu não podia ouvir meus pensamentos, por isso não teríamos como conversar.

Mesmo se ela dissesse o seu nome, eu não a ouviria. E eu não me importava.

A sala se inclinou um pouco, mas ignorei e a puxei para mais perto, deslizando minha coxa entre as dela e trazendo-a contra o meu peito. Seus dedos passaram por minhas costas e me acariciavam enquanto dançávamos.

A música alta fazia as paredes vibrarem com a batida pesada e irregular. Mesmo assim, não dançamos seguindo o ritmo. Em vez disso, a segurei bem contra mim, nos movendo um contra o outro de modo sugestivo. Seu queixo se inclinou e ela olhou para mim, seus olhos estavam pesados e seus dentes afundaram no lábio inferior.

Rocei meu polegar ao longo de seu lábio inferior, depois inclinei o meu rosto. Seus dedos apertaram em volta das minhas costas quando os meus lábios colidiram com os dela. Ela tinha um ligeiro gosto da bebida de cranberry. Eu gostei. Combinava com a mistura em minha língua, então lambi a sua boca para que os dois sabores pudessem se misturar.

Enquanto nos beijávamos, continuamos a moer um contra o outro, e pequenos sons vibravam do fundo da sua garganta. Deslizei minha mão para baixo até a bunda dela e apertei.

Alguém bateu em nós por trás, fazendo-me tropeçar para frente. Meus braços se apertaram ao redor dela para que não caísse, e acabei batendo em alguém quando tentei nos ajeitar.

— Foi mal — falei para quem quer que acabei empurrando e saí puxando-a até a porta de trás da casa.

— Preciso de um pouco de ar — eu falei, e ela concordou.

Lá fora, o ar estava frio. Eu provavelmente deveria ter notado, considerando que eu estava usando só uma camiseta e uma calça jeans. Mas me sentia quente e estava totalmente perdido, então os elementos da natureza era a última coisa na minha cabeça.

Não havia muitas pessoas lá fora. Na verdade, não havia ninguém, exceto um cara na lateral da casa vomitando nos arbustos. Empurrei a menina contra a parede de pedra ao lado da casa e me inclinei para beijá-la novamente.

Ela riu, e meu estômago revirou.

Ignorei a sensação e fundi nossas bocas, apertando meus lábios contra os dela. Quando não consegui a reação que queria, afastei a minha boca e mudei de direção, beijando-a mais uma vez.

Ela me beijava e chupava os meus lábios ao mesmo tempo em que passava os dedos na frente do meu peito, mas ainda assim...

Nenhuma reação.

Eu não senti nada. Não havia desejo. Não havia emoção. Meu pau nem sequer se animou no meu jeans.

Afastei-a abruptamente e ela piscou.

— Vamos pro seu quarto — ela ronronou e passou as costas da mão ao longo da minha braguilha.

De repente, o mundo inteiro girou, e me afastei ainda mais, fui até a grama, onde imediatamente caí de joelhos e comecei a vomitar.

E isso explicava a falta de entusiasmo de alguns minutos atrás. Cerveja misturada com licor acabou me deixando enjoado.

Vomitei mais algumas vezes, colocando pra fora mais álcool do que me lembrava de ter bebido, depois me ergui, limpando o meu rosto com a bainha da camiseta.

Minha cabeça estava confusa, meu interior abalado. Só então me lembrei da garota.

Virei para lhe dizer que eu ficaria bem em alguns minutos, mas ela se foi.

Acho que o meu vômito não tinha sido muito excitante.

Não que ela tivesse sido também. Inferno. Pela primeira vez eu havia ido de beijar para vomitar em dois segundos.

Claramente, ela não era o meu tipo. 

Eu ri alto. Isso era muito hilário.

Eu ainda estava rindo quando duas pernas vestidas com jeans apareceram diante de mim. 

— Que porra você está fazendo? — Satoru perguntou, olhando para mim como se eu tivesse perdido a cabeça.

— Eu estava tentando ficar com alguém. Ela não era o meu tipo. — comecei a rir novamente.

— Qual foi a sua primeira pista? O vômito? Ou talvez o fato de que ela te deixou aqui fora vomitando até desmaiar?

— Eu não vou desmaiar — eu protestei.

Ele fez um som. 

— Ainda não — as mãos de Satoru deslizaram sob os meus braços e ele me puxou até que fiquei de pé. Eu balançava como uma rede ao vento em uma praia, então ele me agarrou com mais firmeza. — Quanto você bebeu, porra?

— Não sei — falei arrastado.

— Vamos lá. Chega de festa. Vamos pra casa.

— Esta é a minha casa — eu disse desapontado.

Ele não disse nada. Em vez disso, ele deslizou um braço em volta da minha cintura e começou a dar a volta pela lateral da casa. Eu fui junto, sem dizer uma palavra, porque, honestamente, eu não me importava com aonde ele estava me levando.

Ele tinha um cheiro bom.

— Espera — eu gemi e praticamente caí e comecei a vomitar novamente.

Satoru murmurou alguns palavrões, mas permaneceu em cima de mim, como se estivesse me vigiando.

Quando acabei e as minhas costelas doíam de tanto vomitar, ele me ajudou a levantar e me levou até a rua onde o seu Mustang Vintage '69 estava estacionado.

— Este não é o meu quarto — eu disse.

— Eu não vou deixar você aqui, bêbado, seu idiota — Satoru disse e abriu a porta do passageiro. — Quem diabos sabe o que os idiotas dessa festa fariam com você assim desse jeito?

Eu afundei no assento e inclinei a cabeça para trás com um gemido.

A próxima coisa que notei foi que estávamos estacionados do lado de fora da casa de Satoru e ele estava pegando as chaves. Atrapalhei-me com as mãos, tentando abrir a porta.

— Espere — Satoru disse, mas não lhe dei ouvidos.

Consegui abrir a porta e caí na calçada.

— Ai — eu gemi.

— Idiota — Satoru disse acima de mim, e pela terceira vez naquela noite, ele me ajudou a levantar do chão.

— Faça-me um favor e não acorde a casa inteira — ele reclamou.

— Pare de reclamar como uma velha — eu zombei.

Meus pés não funcionavam muito bem ao subir as escadas, mas de alguma forma, consegui. Nós tropeçamos até o quarto de Satoru, e ele fechou a porta atrás de nós. Eu caí em cima da cama, jogando os braços para cima, olhando para o teto escurecido.

Satoru estava se movendo ao redor, e virei minha cabeça ao vê-lo se sentando e tirando seus sapatos.

Em seguida, ele tirou a jaqueta de couro preta que estava usando e jogou-a sobre sua cômoda.

Fiquei hipnotizado pelos seus movimentos. Tudo estava meio embaçado e desfocado, menos ele. Eu podia vê-lo claramente.

Ele tinha um torso definido, magro e firme. E a maneira que a camiseta que estava usando se agarrava ao seu corpo parecia à coisa mais interessante que eu já tinha visto há muito tempo. Observei-o se endireitar e girar, enfiando a mão no bolso de trás da calça jeans.

Seus dedos longos puxaram para fora a sua carteira, e ele a jogou sobre a cômoda também.

Seus quadris eram estreitos e suas pernas eram longas e magras. Ele ficava bem de jeans. Eles não ficavam muito apertados, mas também não ficavam largos.

Seus pés estavam descalços. Eu não sabia onde sua meia estava, mas não me importava. Aquele trecho de pele nua, ainda que fossem os seus pés, fizeram a minha boca secar.

Ou talvez eu só estivesse desidratado.

— Preciso de água — eu disse abruptamente e me levantei do colchão. Meu movimento súbito causou uma nova onda de náusea, e caí para frente.

Satoru estava pronto, e assim que comecei a vomitar, uma lata de lixo apareceu debaixo de mim.

Como diabos ainda restava alguma coisa dentro de mim a ser expelida? Eu sentia como se tivesse vomitado durante horas, e estava tão cansado que não conseguia nem segurar a lata de lixo.

Satoru a segurava para mim.

Ele ficou em silêncio, segurando a lata na minha frente, enquanto eu fazia sons que esperava nunca ouvi-los novamente.

Mesmo depois que parei, ele ficou ali, segurando a lixeira, certificando-se de que eu estava completamente bem antes de se afastar.

— Eu estou bem — eu disse fracamente depois de um momento e virei o rosto.

Sua grande palma tocou as minhas costas e deu duas batidinhas antes de pousar em minha camisa. Esse único toque me deixou um pouco mais ligado, um pouco menos instável e menos a beira de literalmente desmaiar ali.

Ainda com a palma da mão onde estava, ele afastou a lixeira. Abaixei minha cabeça em minhas mãos e estremeci.

Deus, eu me sentia doente. 

— Sinto muito.

— Por que você está tão bêbado? — Satoru perguntou. 

— Vodka — murmurei sombriamente.

Ele fez um som, como se isso não fosse uma resposta. 

— O que diabos deu em você para beber tanto hoje à noite?

— Só queria uma pausa — eu murmurei. 

— Uma pausa de quê?

— Hã?

Satoru se acomodou ao meu lado na cama. 

— Suguru, que porra é essa?

— Não fique bravo — eu falei e deitei de costas na cama.

— Eu não estou bravo.

— Você parece meio bravo.

— Ainda bem que apareci naquela porra hoje à noite. — ele meio que grunhiu e se afastou da cama.

Ouvi o farfalhar das roupas, mas não olhei para ele. Minha cabeça doía.

— Eu não gosto quando você dirige sem mim.

Satoru apareceu em cima de mim, olhando para baixo, ao lado do colchão. Algo sobre a sua presença me fez abrir os olhos.

Os nossos olhares se cruzaram.

Senti algumas coisas que eu não sabia como ignorar. O álcool tornava difícil mentir.

— É disso que se trata? Você está chateado porque fui correr sem você? — ele perguntou.

Ele não estava usando mais uma camisa, e no lugar do jeans, usava um calção solto. Seu cabelo branco estava bagunçado, e sua boca estava apertada em uma linha sombria.

A forma como seus olhos pareciam naquele momento… era como se ele pudesse ver algo.

Rolei para o lado.

— Às vezes um cara só quer ficar bêbado.

E às vezes um cara quer esquecer.

Meu estômago revirou e minhas costas arquearam com a força do meu impulso. Satoru xingou e se afastou da cama, e logo colocou a lixeira na minha frente quando comecei a vomitar de novo.

Ele estava parcialmente deitado sobre mim, e mesmo com a minha cabeça meio fora do ar, e doente pra caralho, eu ainda pude notar e sentir como era o seu peso contra mim. A maneira que eu estava pressionado completamente no colchão pelo seu tamanho. Ajudou a me sentir menos instável no momento.

Quando finalmente parei de vomitar, tempo suficiente para respirar, Satoru afundou no chão perto da minha cabeça.

— Porra, cara — eu disse entre dentes. — Sinto muito. Você deveria ter me deixado em casa.

— Você está em casa.

Ele falou tão baixo que pensei que talvez tivesse sido um pensamento em minha própria cabeça e não uma sentença saída de seus lábios.

Olhei para cima, meus olhos vermelhos e lacrimejantes tentando tanto focar nos dele.

Ele me encarou e não disse uma palavra. Apenas me olhou. Será que ele quis mesmo dizer isso, ou ele só pensou alto?

Finalmente, ele limpou a garganta.

— Você acha que acabou?

— Espero que sim — eu disse asperamente. Minha garganta estava seca e ardia. O interior da minha boca tinha gosto de carne morta e meu corpo doía.

Ele balançou a cabeça e rapidamente amarrou o saco da lixeira e rapidamente substituiu-o por um novo.

— Aqui — ele disse e empurrou a lixeira em meus braços antes de sumir por alguns minutos.

Quando reapareceu, segurava uma garrafa de água e um pote de aspirinas. Eu gemi, e ele colocou as coisas de lado. 

— É para mais tarde.

Eu não tinha certeza se eu seria capaz de manter alguma coisa no meu estômago, mas mantive esse pensamento para mim.

— Você não pode dormir assim, fique de lado. — ele fez um sinal com a mão para que eu me movesse.

Eu comecei a rolar, mas ele pegou a barra da minha camisa, me parando.

— Sente-se.

Comecei a sentar, mas depois cai para trás. Ele fez um som e deslizou um braço debaixo de mim e me levantou.

— Você é muito pesado para essa merda. — ele resmungou.

O ar frio roçou sobre a minha pele aquecida quando ele puxou a camisa sobre a minha cabeça.

— Você está se aproveitando de mim? — eu comentei.

— Você está fedendo a vômito — ele rebateu. Então, em um tom mais sarcástico, disse: — Além disso, você não conseguiria fazer nada agora, mesmo se quisesse.

— Por você, eu conseguiria.

Sobriedade instantânea.

Foi exatamente o que essas quatro palavras representaram. Ficaram soltas no ar, por longos minutos.

Durante esse tempo, tudo no quarto parou. Tudo. Eu tenho certeza que o meu coração não batia. Satoru não respirava... Não havia nada.

Nada além das palavras.

E o significado delas.

A implicação.

A verdade por trás delas.

Porra.

Eu estava prestes a piorar tudo, usando meu cérebro bêbado para tentar voltar atrás e inventar alguma desculpa.

Ele me salvou.

Assim como abruptamente tudo parou, começou de novo. Ele recomeçou.

Seus dedos estavam frios, em comparação com a minha pele corada, quando ele agarrou meu queixo. Meu rosto estava inclinado para cima, e fechei os meus olhos para que ele não tivesse que ver a verdade por trás da minha confissão.

— Tem vômito até na sua cara — ele falou, e senti a suavidade da camisa que usava sobre meu queixo quando ele começou a limpar a bagunça que eu havia feito.

Lamentei intensamente ficar bêbado esta noite. Por esse, e muitos outros motivos.

— Você não tem que fazer isso — eu disse constrangido.

— Eu sei.

Abri os olhos.

Por apenas um milésimo de segundo, nós nos conectamos.

Por apenas um milésimo de segundo, pensei ter sentido algo que não tinha anteriormente.

Só que aí ele se afastou.

Minha camisa foi jogada de lado, e a minha embriaguez total voltou para mim novamente. Eu gemi.

Ele riu. 

— Se você está se sentindo uma merda agora, amanhã vai estar igual um zumbi.

— Se é que eu vou sobreviver até amanhã. — caí de costas na cama.

— Você vai. — ele me bateu na perna. — Fique de lado.

— Quem liga? — eu resmunguei, mas obedeci, e voltei a ficar de lado. O movimento me deixou enjoado.

Mais uma vez.

Vomitei violentamente por um longo tempo, entre promessas de nunca mais beber de novo.

Satoru não disse nada. Apenas segurou a lixeira, porque eu estava muito cansado para fazer isso.

Quando terminei, desabei sobre o colchão, com o meu corpo tremendo erraticamente.

Ele colocou a lixeira sobre a mesa ao lado da cama e sumiu. Senti o colchão afundar quando ele se sentou no outro lado.

— Eu posso ficar no sofá — gaguejei entre o bater de meus dentes.

— Você vai ficar aqui, e eu também. Alguém tem que ficar de olho no seu rabo bêbado.

Eu não disse nada. Apenas fiquei deitado enquanto tremia. Ele colocou o cobertor em cima de mim, e me enrolei nele, em mais uma tentativa de parar de tremer.

O quarto estava escuro e silencioso. Não sei quanto tempo fiquei lá deitado, tremendo. Eu estava me sentindo completamente miserável.

Eventualmente, eu desmaiei.

Mas a felicidade temporária foi interrompida quando comecei a vomitar minhas tripas novamente. Eu me estiquei para pegar a lixeira, me encolhendo contra os sons que rasgavam a minha garganta.

Satoru estava lá. Ele deslizou sobre o colchão pelas minhas costas e jogou um braço por cima de mim para estabilizar a lixeira enquanto eu tentava segurá-la.

Eu gemi e caí de volta no travesseiro.

— Não sobrou nada — eu gemi.

Eu literalmente coloquei tudo para fora.

Satoru não parecia muito certo, então segurou a lixeira por mais alguns minutos. Seu braço estava caído sobre mim, e seu peito estava pressionado contra as minhas costas. Fechei os olhos e relaxei contra o cobertor. O tremor em meus membros diminuiu, e deixei escapar um suspiro de alívio.

Seu corpo pressionou ainda mais contra o meu quando ele se inclinou para colocar a lixeira de lado. Sua pele nua roçou contra a minha, e eu tremi.

Ele se afastou.

— Está com frio?

— Não.

Satoru se acomodou em seu lado da cama. O meu tremor começou de novo.

— Eu só quero parar de tremer — murmurei e ele chegou um pouco mais perto, perto o suficiente para seu corpo ficar pressionado ao lado do meu. Nossas costas estavam se tocando, nossos ombros também, assim como nossas bundas.

Em segundos, todo o meu corpo se acalmou e a agitação diminuiu, e fiquei sonolento. Enquanto eu estava à deriva, coloquei um dos meus pés entre suas panturrilhas, emaranhando a minha perna com a dele.

Talvez, se eu não estivesse tão bêbado, tão desnorteado, eu teria notado que ele ainda continuava ao meu lado. Talvez eu tivesse pensado no que eu estava fazendo.

Mas eu estava bêbado. Não notei. E não pensei. Mas eu falei.

Minha língua bêbada e burra não tinha se cansado de dizer merda que depois eu prefiriria esquecer. 

— Não vou falar. — sussurrei para a escuridão.

Ele não disse nada. Ele não se afastou.

Eu adormeci com a sensação do corpo dele contra o meu. Caí em um sono pesado.

Quando acordei na manhã seguinte, ele não estava lá. O quarto estava vazio, mas o travesseiro ao meu lado ainda estava quenteda cabeça dele.

E eu lembrei.

Mesmo bêbado e doente o suficiente para vomitar tudo dentro de mim, não consegui apagar isso da minha memória.

Acontece que não vomitei tudo.

Ainda haviam coisas dentro de mim.

Sentimentos.

Momentos que ainda eram tão frescos e novos, que ainda não podiam ser considerados memórias.

Em vez disso, se tornaram segredos. Uma noite que eu fiquei "bêbado demais" para lembrar.

Nós voltamos a ser super amigos.

Melhores amigos.

Era melhor assim.