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As três sementes de romã

Summary:

Se Yixing, filho de Deméter e Zeus, deus da primavera, flores, frutos e ervas, não amava Sehun, o deus do mundo inferior e dos mortos, então porquê ele comeu as três sementes da romã e deu seu amor como presente para o deus do submundo?

[SEXING | MITOLOGIA GREGA]

Work Text:


 

Pouco se sabia sobre Oh Sehun, Hades, deus do mundo inferior e dos mortos. Sabiam que era um deus sarcástico, que gostava de jogos, uma boa conversa e de ficar em seu castelo apenas com seu esposo e seu gigante cachorro de três cabeças, Cérbero, também conhecido como Spot.

Menos ainda se sabia sobre Zhang Yixing, também conhecido como Perséfone. Sabiam que o deus da primavera, flores, frutos e ervas fora roubado por Hades e condenado a passar três meses ao seu lado, governando o submundo com seu marido. 

Poucos sabiam a verdade, mas muitos achavam que, por Yixing odiar Sehun, a Terra enfrentava um rigoroso inverno sempre que o deus precisava passar os três meses preso no mundo dos mortos. Era sua forma de expor sua indignação. Quando enfim voltava à Terra para ficar com sua mãe, Deméter, trazia o sol, as flores, o outono, a primavera e o verão. 

O que não sabiam é que, sim, Yixing amava a primavera, o verão e o outono, mas também amava o inverno. Estando no submundo ou não, o deus amava aquela época mais fria, de recolhimento e reflexão. 

Sempre que precisavam sair do mundo dos mortos para comparecer a alguma reunião, seja no olimpo ou não, todos olhavam duas vezes para Sehun e Yixing, só para terem certeza do que estavam vendo. 

Era de se esperar que se odiassem, que conversassem apenas o necessário e que os toques fossem sempre superficiais, gélidos, como deveria ser o inferno onde moravam. Yixing sempre se divertia com as expressões de choque no rosto dos outros deuses que não estavam acostumados com seu relacionamento com Sehun. Ninguém ali conseguia entender completamente o que sentiam um pelo outro e achavam algo de outro mundo quando se abraçavam ou trocavam beijinhos singelos e carinhosos. 

Menos Byun Baekhyun, também conhecido como Eros, ou o maior fofoqueiro do Olimpo. Aquele ali sabia de tudo sobre todo mundo e não tinha ninguém que conseguisse esconder algo do deus do amor. 

— Eu quero ir embora, Sehun. — Yixing sempre dizia em determinado momento da reunião com os deuses, se apoiando no marido e esperando que sua vontade fosse feita, e sempre era.

— Só mais uns minutinhos, tudo bem? — Sehun beijava sua testa e abraçava o deus da primavera — Só precisamos resolver mais uma coisa e já vamos para casa, meu amor.

Casa

Sendo bem sincero, Yixing não conseguia pensar em algum lugar que fosse mais sua casa do que o submundo. Não existia um lugar onde se sentisse mais confortável, seguro ou amado do que naquele lugar.  

E era até engraçado pensar que, se não fosse pelo dia em que se perdeu na floresta, provavelmente nunca iria ter conhecido Hades, se apaixonado ou se casado.

A verdade é que, certo dia, Yixing se perdeu enquanto caminhava e achou uma das entradas para o submundo. Encontrar com Spot na entrada do caminho não foi o suficiente para o parar. Aliás, assim que viu aquele cachorro gigante de três cabeças balançando o rabo e querendo alguém para brincar, Yixing se encantou. 

— Você é a coisinha mais fofa que eu já vi na minha existência — Yixing acariciou as três cabeças, uma de cada vez, e quando encontrou a coleira que informava o nome do animal, não se segurou ao dizer: —, Spot!

Passar por Spot, ou Cérbero, foi fácil — depois de gastar uns bons minutos brincando com o animal. Difícil mesmo foi passar por Hades, que regava suas árvores frutíferas com tanto cuidado e amor, que quase não percebeu a presença de Perséfone. 

— Com licença — Sehun começou, visivelmente confuso com a presença do outro deus em seu reino dos mortos —, o que você está fazendo aqui? Aliás, como você achou esse lugar e passou por Cérbero?

— Desculpa, mas, se você espera que seu cachorro de três cabeças impeça alguém de entrar aqui, você precisa treinar ele, sabe? — Yixing respondeu rindo e observando o lugar cheio de árvores de romã, que coloriam o lugar parcialmente cinza. 

Sehun até poderia debater com o deus da primavera e o expulsar dali, mas, francamente, o deus do submundo tinha mais o que fazer. Por isso, deixou que Yixing explorasse o local, às vezes respondendo algumas perguntas, às vezes o advertindo quando chegava perto de algo perigoso. 

 

Quando chegou a hora de partir, Yixing sabia que ali era o seu lugar de ficar.

— Você precisa de ajuda para voltar? — Sehun perguntou, quebrando o silêncio do palácio.

— Eu não quero voltar.

E foi só naquele momento que Sehun enxergou Yixing de verdade. Foi ali que o deus dos mortos conseguiu entender que tinha algo de muito estranho, e encantador, no outro deus. E o que ele poderia fazer, além de tentar conversar, para expulsar o deus da primavera dali? Exatamente: nada!

— Você sabe que não pode ficar aqui, certo? — Sehun tentou colocar algum juízo na cabeça de Yixing, mesmo duvidando da eficácia do ato.

— Você não vai me impedir de ficar aqui, Sehun.

Sehun arqueou a sobrancelha ao ouvir as palavras de Yixing. Sinceramente? Estava mais do que impressionado com a audácia do deus diante de si. Mas, de novo, o que poderia fazer além de aceitar um estranho em seu reino? Não é como se Sehun fosse expulsar uma das poucas almas que queriam ficar por ali. Sehun deixou que Yixing ficasse e ele ficou, mas não por muito tempo.

— Eu não vou embora — Yixing disse calmamente para sua mãe, Deméter, quando a deusa apareceu sem ser convidada, vale ressaltar. — Pode desistir, mãe. Eu vou ficar aqui. 

Depois de um mês vivendo com Yixing, Sehun já estava mais do que acostumado com as excentricidades do deus. Yixing tinha uma mania ridícula, e absurdamente meiga, de encher os cabelos com flores coloridas e sair por aí, conversando com todo mundo e sendo a pessoa mais incrível do universo. Sehun não sabia lidar com isso, de verdade.

— Você bem que podia ter avisado que o menino estava aqui, Sehun — Zeus o repreendeu, mas Sehun não podia levar a sério uma pessoa que o repreendia com a boca cheia de bolo de chocolate.

— E eu ia falar o quê? — Sehun revirou os olhos para o irmão enquanto mãe e filho discutiam sem parar. — “Escuta, teu filho está aqui, enchendo a minha paciência e brincando com o meu cachorro como se ele fosse a coisa mais fofa que existe. Faça o favor e venha buscar a criatura”. Era isso o que você esperava ouvir?

— Só um: “Oi, irmão, sabia que Yixing está aqui em casa? Então, você pode ficar tranquilo que ele está bem e saudável", já ia resolver, Sehun.

— Pode deixar que na próxima eu aviso. — Sehun sorriu irônico e cortou mais um pedaço de bolo. Pelo visto aquela briga ia ser longa.

— Você não pode morar aqui, Yixing. — Deméter gritou em certo momento, as veias do pescoço aparentes e o cabelo bagunçado depois de tantos minutos de discussão. — Isto está fora de cogitação, você não tem poder de escolha. 

— Eu não ten... — Yixing suspirou, exasperado, se controlando para terminar a frase sem jogar uma cadeira em alguém. — Eu não tenho escolha? 

É, depois de 1 mês inteiro convivendo com Yixing, Sehun sabia, com toda certeza do mundo, que algo iria acontecer. Algo grandioso. Por isso, quando o deus saiu da cozinha pisando duro e resmungando em direção ao quintal, onde as árvores de romã ficavam, Sehun foi atrás, assim como Zeus e Deméter.

Sehun viu perfeitamente quando Yixing ficou na ponta dos pés e puxou uma romã da árvore. Deméter brigava com o filho e Zeus pedia para que todos se acalmassem, indo contra toda sua imagem de esquentado e estressado — talvez fosse efeito do bolo de chocolate. De qualquer forma, era para Sehun que Yixing olhava quando quebrou a casca da romã, pegou três sementes e enfiou na boca. Sehun sorriu com os olhos antes de sorrir com os lábios e Yixing soube que estava fazendo a escolha certa ao presenciar o deus dos mortos sorrir com o rosto inteiro em sua direção.

Depois de muita gritaria, de uma Deméter furiosa querendo bater em Sehun enquanto o deus gargalhava com a situação incomum, de Zeus propondo uma solução e Yixing reclamando o quão injusto aquilo era, o dia finalmente chegou ao fim. 

— Então você vai “morar” aqui agora? — Sehun perguntou de noite, depois de comerem o jantar delicioso. 

— “Morar”? — Yixing riu sarcástico. — Isso está mais para férias, não é? Passar três meses aqui e o resto do ano com a minha mãe? Sério, o que eu fiz para merecer um castigo desses?

Sehun riu baixo com o drama do deus e tomou outro gole da taça de vinho que segurava. 

— Se você quer tanto assim ficar aqui, sugiro que espere um pouco e converse com a sua mãe. Uma hora ela vai entender, Xing. 

Yixing olhou para Sehun daquele jeito meigo, com um sorriso escondido nos lábios e concordou com o deus dos mortos. Iria fazer sua mãe entender que era ali que queria ficar. 

Quando se lembrava disso, Sehun sorria, não importa em qual situação estivesse. Ainda conseguia se lembrar perfeitamente do olhar audacioso, petulante, que Yixing carregava no rosto ao comer as três sementinhas de romã. Um ato tão normal, mas que carregava um significado imenso em si. 

Poucos sabiam, mas aqueles que conheciam a história por completo sempre perguntavam para aqueles que julgavam saber: “Se Yixing, filho de Deméter e Zeus, deus da primavera, flores, frutos e ervas, não amava Sehun, o deus do mundo inferior e dos mortos, então porquê ele comeu as três sementes da romã e deu seu amor como presente para o deus do submundo?”

Sehun sabia que depois de toda confusão com a visita de Deméter e Zeus ao submundo, e Yixing morando consigo oficialmente, muitas coisas iam mudar. Na verdade, já tinham mudado durante aquele mês, quando Yixing decidiu invadir o mundo dos mortos e se esconder de todos lá, sem nem pedir permissão. Porém, nada, nem todo tempo do mundo morando com Yixing, iria o preparar da maneira correta para morar com o outro deus. 

Sehun simplesmente não sabia lidar com Yixing e seu jeitinho único de ser e de existir. E isso ficou mais do que comprovado quando, ao chegar de mais uma reunião, que Yixing não quis ir, Sehun se deparou com o marido chorando com uma das cabeças de Spot em seu colo, enquanto as outras estavam deitadas no chão olhando para Yixing como se ele fosse o deus mais importante já criado — e Sehun não duvidava disso nem por um segundo.

— Amor? — Sehun chamou cuidadoso e Yixing soluçou baixinho, visivelmente bêbado e completamente triste. — O que aconteceu, meu bem?

— Eu não consi… — e explodiu em mais lágrimas e soluços, como se o fim do mundo estivesse bem ali, na sua frente — Amor, eu não consigo fazer carinho nas três cabeças do Spot ao mesmo tempo. Tem sempre uma que fica sem carinho. Eu sou uma péssima pessoa, não sou?

É, viver com Yixing era sempre uma aventura diferente. O deus não tinha vergonha de nada, absolutamente nada, a palavra “medo” não existia em seu vocabulário e sua meta número um era fazer Sehun passar vergonha, o deus dos mortos tinha provas disso. 

— Sehun, para de ser idiota. — Minseok, ou Tânato, disse certa vez durante uma festa que Yixing havia preparado. — É mais do que óbvio que o Yixing gosta de você.

— Nada a ver, Seok. — Sehun discordou de cara. — Ele não gosta de mim.

— Gosta sim. — Junmyeon, ou Hypnos, concordou com o irmão gêmeo.

— Gosta mesmo. — Seulgi, ou Hécate, concordou com os amigos.

— É verdade, eu gosto mesmo. — Yixing concordou com todos. 

E Sehun, que ainda estava vivo, mesmo depois do coração ter acelerado como um doido, não precisava virar para trás para reconhecer a voz de Yixing. Na verdade, Sehun conseguiria reconhecer a voz de Yixing mesmo que estivessem longe um do outro com uma multidão de pessoas e deuses falando ao mesmo tempo. 

Depois dessa festa, os dois deuses começaram a namorar. Não porque Sehun pediu, mas porque Yixing, depois de se despedir de todos e arrumar o palácio com a ajuda de Sehun, disse da maneira mais tranquila possível:

— Sehun, você bem que podia me pedir em namoro logo, né? Já está ficando cansativo te ver reclamando que eu não gosto de você sendo que eu gosto.

E Sehun pediu. Começaram a namorar naquele mesmo instante, e não demorou muito para que estivessem casando, com direito a festa, bolo, docinhos, um cachorro de três cabeças levando as alianças e tudo.

Com o tempo, Yixing conseguiu fazer sua mãe entender o que sentia por Sehun. Demorou? Sim! Mas ela entendeu que era ali, naquele mundo estranho, longe de tudo e de todos, que Yixing era verdadeiramente feliz. Sua felicidade estava escondida entre as árvores de romã, os vários rios que traçavam o submundo, o cachorro gigante e Hades. 

E não existia nada nem ninguém que Yixing amasse mais do que Sehun.

Não foram feitos um para o outro, sabiam disso. Todos duvidavam do que sentiam e os olhares julgadores nunca desapareceriam por completo. Mas não ligavam. Se amavam tanto e tão intensamente que nada poderia alcançá-los. 

Sehun nunca forçou Yixing a ficar. Yixing ficou por livre e espontânea vontade. E se o deus da primavera não amava o deus do submundo, então porque ele comeu as três sementes da romã e decidiu ficar? 

A resposta sempre estaria lá para quem quisesse saber a verdade.